Dicta probantia

Dicta probantia ou método de leitura de provas é uma prática e técnica de interpretação bíblica que infere doutrinas a partir de versos isolados.

Enquanto a prática de citar isoladamente as Escrituras sempre existiu, como uma técnica ganhou corpo durante a Reforma a popularização das edições impressas com divisão de capítulos e versos da Bíblia.

Cada versículo é lido isoladamente como um artigo em uma legislação ou em um verbete de dicionário para provar um ponto de vista ou atender uma necessidade prévia.

A dicta probantia se tornou popular na escolástica protestante ou confessionalismo a partir do final do século XVI até os meados do século XVIII. O avanço da hermenêutica como disciplina em parte foi em crítica a essa técnica de leitura

BIBLIOGRAFIA

Allen, Michael; Swain, Scott R. “In defense of proof-texting”. Journal of the Evangelical Theological Society (JETS). Vol. 54, n.3 set. 2011.

Was Christum Treibet

Lucas Chranach, o velho. Pintura do altar de Wittenberg

A frase alemã was Christum treibet, “o que promove Cristo”, indica um princípio hermenêutico de Lutero.

A frase vem do prólogo de Lutero às Epístolas de Tiago e Judas, na sua edição alemã do Novo Testamento (1522):

E nisto todos os livros sagrados justos concordam, que todos pregam e praticam Cristo, e esse é o verdadeiro teste de censurar todos os livros, quer praticam Cristo ou não, pois toda a Escritura mostra Cristo, Romanos 3 e Paulo não quer saber nada mas Cristo 1 Cor. 2. O que Cristo não ensina não é apostólico, ainda que Pedro ou Paulo o ensinem. Novamente, o que Cristo prega é apostólico, mesmo que Judas, Anás, Pilatos e Herodes o tenham feito”.

As implicações desse princípio afetam no conceito de canonicidade, na interpretação bíblica e na homilética luteranas.

A tradição evangélica luterana nunca oficialmente fez um cânone das Escrituras. Nem seria necessário. Por esse princípio, tudo o que aponta para Cristo nas Escrituras hebraicas seriam canônicos e tudo que testificam o ministério de Cristo dentre os escritos apostólicos seria canônico. Em razão disso, Lutero questionou a canonicidade de Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse — os Antilegômenos de Lutero– ainda que os traduzisse e inserisse em seu Novo Testamento.

Quanto à interpretação, essa chave hermenêutica cristocêntrica poupou o luteranismo de muitas controvérsias teológicas. Isso porque passou ser uma hermenêutica centrada na totalidade da mensagem, não em detalhes. Consequentemente, o luteranismo mantém os mesmos documentos confessionais desde o século XVI: o livro de Concórdia.

Lutero entendia que a pregação deveria ser fundamentada nas Escrituras, apontando para Cristo e voltada para o povo. Pregar seria colocar as pessoas em contato com a mensagem de salvação em Jesus Cristo testemunhada pelas Escrituras.

BIBLIOGRAFIA

Jacobson, Diane. “What Lutherans Think About the Bible. Here We Stand — Between Fundamentalism and Secularism”. Book of Faith.

Lutero, Martinho. WA, DB VII 38.

Meurer, Siegfried. “Was Christum Treibet” : Martin Luther Und Seine Bibelübersetzung. Bibel Im Gespräch, 4. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1996.

Sensus Literalis 

Sensus Literalis é uma interpretação percebida diretamente do texto. Como conceito, mudou ao longo da história da hermenêutica, demandando compreendê-lo em oposição a outras abordagens de leitura.

O sensus literalis corresponde à peshat, “simples, direta” da exegese rabínica, em contraste com a interpretação darash, que seria a interpretação aplicada, moral ou homilética.

A distição paulina entre a “letra” e o “espírito” (2 Co 3:6; Rm 2:29; 7:6) influenciou os exegetas cristãos a distinguir entre a “letra” e o “espírito”, por vezes, em sentido antitético. Parte daí uma distinção entre os sentidos “literal” e “espiritual” das Escrituras, como fez Orígenes e a Escola de Alexandria valorizando mais a leitura espiritual e a Escola de Antioquia o sentido literal.

O uso abusivo de tipologia e alegorização para inferência doutrinária, por vezes disfarçado de um elitismo “espiritual”, levou a exegetas medievais contraporem o sensus literalis à “alegoria” (em um sentido amplo). Intérpretes judeus como Rashi ou cristãos como Nicolau de Lyra e os biblicistas de Paris arguiram a primazia do sensus literalis.

Na Reforma e no Renascimento o sensus literalis passou a significar o sentido extraído do texto por meios exegéticos. Isso não implicava na rejeição de sentidos figurados, a exemplo a tipologia, por autores como Lutero ou Calvino.

A escolástica protestante, o pietismo e o racionalismo levantou uma distinção entre sensus literae — o sentido da letra ou gramatical — e o sensus literalis, o qual seria o sentido exegético.

A consolidação dos métodos histórico-crítico e histórico-gramatical no século XIX sob um paradigma positivista. Isso implicava em reduzir o sentido literal a uma única leitura possível com a máxima Sensus literalis unus est, o “sentido literal é um”. Para tar conta das diferentes interpretações das mesmas passagens na exegese intra-bíblica, a distinção entre interpretação e aplicação veio a calhar. A busca pela reconstrução histórica e a atomização de passagens em enunciados ou palavras também foi característico desse sensus literalis. Nessas abordagens surgiu uma premissa de que o texto dado da Escritura oferece apenas um sentido genuíno, o sentido literal.

Desde essas abordagens historicizantes, o termo sensus literalis tem sido usado como sentido original, literalismo e sentido histórico. Crítica a essas acepções e abordagens foram feitas principalmente por Brevard Childs e Hans Frei, bem como pela crítica literária.

Sensus literalis e sensus originalis. Uma infeliz fusão do sensus literalis com a busca pelo significado original da situação da composição, da intenção do autor e da recepção das primeiras audiências. Desse modo, o texto bíblico não é interpretado pelo sentido que transmite, mas passa a ser “escavado” para alcançar um suposto estrato de originalidade. Em resposta a essa fusão, as hermenêuticas canônica e narrativa lidam com essa questão.

Não há relação necessário entre o sensus literalis e o literalismo. Ao contrário disso, o sensus literalis permite uma hermenêutica pós-crítica, pois reconhece a integridade do texto e sua mensagem comunicada em seus próprios termos. Ou seja, valoriza o contexto (o cotexto na terminologia de Ingedore Koch) interno. Desse modo, o sensus literalis consideraria o texto bíblico como uma representação legítima daquilo que é comunicado, com todas as nuances, variações de estilo, expressões dos gêneros e arranjos entre sentidos denotativos e conotativos.

Sensus literalis e sensus historicus. O sensus literalis não corresponde necessariamente à historicidade. Na Bíblia, eventos, experiências e conceitos são registrados de forma literária, sendo em grande parte em gêneros narrativos. Tanto passagens de ficcão (como parábolas) quanto relatos históricos (a queda de Jerusalém, por exemplo) são representados com textos de caráter literário. Há, portanto, uma independência entre os fatos históricos e a expressão textual bíblica, com o sensus literalis expressando esse entendimento da Bíblia lida como literatura.

Notando que o sensus literalis compreende uma amplitude de gêneros textuais, linguagens figuradas e denotativas, Childs argumenta que o sensus literalis deveria ser entendido como a interpretação de uma passagem em seu contexto canônico.

O renovado interesse de estudiosos da literatura como Erich Auerbach, Robert Alter e Northrop Frye pela Bíblia levou à apreciação do sensus literalis como sentido literário, compreendendo toda a diversidade e complexidade interna das Escrituras. Nessa acepção, o sensus literalis contrasta-se com o sentido produzido por investigações histórico-crítica, confessionais ou teológicas.

Reconhecendo os diversos gêneros textuais e a predominância de um arco narrativo, Hans Frei criticou a negligência de desconsiderar a narrativa na Bíblia na teologia e ciências bíblicas. Frei propunha um respeito pós-crítico pelo sensus literalis das Escrituras, o qual ofereceria uma direção humana e ortodoxa para a Igreja.

BIBLIOGRAFIA

Agostinho. De spiritu et littera.

Broadhurst, Jace R. What Is the Literal Sense? : Considering the Hermeneutic of John Lightfoot. Eugene, Or.: Pickwick Publications, 2012.

Childs, B. S. “The Sensus Literalis of Scripture: An Ancient and Modern Problem,” Beiträge zur alttestamentlichen Theologie: Festschrift für Walther Zimmerli zum 70. Geburtstag (ed. H. Donner, R. Hanhart and R. Smend) Göttingen: Vandenhoeck and Ruprecht, 1977, pp. 80-93.

Fabiny, Tibor. “The Literal Sense and the” Sensus Plenior” Revisited.” Hermathena 151 (1991): 9-23.

Loughlin, Gerard. “Following to the Letter: The Literal Use of Scripture.” Literature and Theology 9, no. 4 (1995): 370–82.

Noble, Paul R. “The ‘Sensus Literalis’: Jowett, Childs, and Barr.” The Journal of Theological Studies 44, no. 1 (1993): 1–23.

Scalise, Charles J. “The ‘Sensus Literalis’: A Hermeneutical Key to Biblical Exegesis.” Scottish Journal of Theology 42, no. 1 (1989): 45–65. https://doi.org/10.1017/S0036930600040527.

Revelação progressiva

Revelação progressiva é um princípio hermenêutico e uma doutrina de que as passagens das Escrituras posteriores contêm uma revelação mais completa de Deus do que as passagens anteriores. Alguns teólogos e religiões aplicam o conceito também para a história.

Relacionada com a doutrina da acomodação, a teoria da revelação progressiva argumenta que Deus não ensinou ou divulgou pleno conhecimento teológico, legal, moral ou científico à humanidade desde o início de sua revelação especial. Em vez disso, Deus gradualmente revelou verdades durante um longo período, de acordo com suas necessidades, e em um ritmo lento o suficiente dentro da medida humana para absorvê-las completamente.

A ideia de revelação progressiva é proposta por um espectro amplo de pensadores religiosos. Alguns representantes reivindicam um veículo de revelação final, quer na pessoa de um profeta, quer definitivamente em uma escritura sagrada em um estágio final.

Uma das mais antigas formulações de revelação progressiva aparece no zoroastrismo. O zoroastrismo postula a crença que de tempo em tempo haverá uma pessoa que comunicará as verdades divinas de forma mais ampla, mais profunda e mais plena que a comunicação anterior.

Nesse sentido, apareceu no maniqueísmo, no islã, na fé baha’i, na ahmadiyy, ano mormonismo, bem como suas variantes no cristianismo, principalmente liberal, reformado e dispensacionalista.

Na teologia liberal, aparece no ensaio “Sobre a interpretação das escrituras” de Benjamin Jowett. Como adepto da revelação progressiva, Jowett considerava que os livros da Bíblia escritos mais tarde estariam mais próximos da revelação final de Deus em Jesus Cristo, conforme revelado nos Evangelhos. As epístolas e outros escritos do Novo Testamento deveriam ser vistos em retrospectiva a figura do Jesus dos evangelhos. Assim, a revelação estaria em andamento e as Escrituras estariam sempre sujeitas a reinterpretação à cada geração.

Entre algumas vertentes reformadas, principalmente na Escola de Princeton e no Novo Calvinismo, a idea de revelação progressiva é vista como aplicação do conhecimento disponível em uma aliança não necessariamente seria a mesma na próxima aliança. Nesses termos, Geerhardus Vos dizia que revelação seria “a atividade divina, não um produto finalizado dessa atividade”. Em termos similares o dispensacionalismo apresenta um desabrochar progressivo da verdade. Contudo, ambas vertentes rejeitam a ideia de revelação continuada extracanônica.

Proponentes da revelação progressiva pode restringí-la às Escrituras ou à história da Igreja, utilizando essa doutrina para justificar doutrinas desenvolvidas teologicamente.

O cristianismo tradicional normalmente tende a rejeitar a teoria de revelação progressiva. Há nas diversas tradições cristãs históricas algumas doutrinas com traços semelhantes, porém distintas da revelação progressiva.

A doutrina da Heilsgeschichte (história de salvação) considera aspectos fenomenológicos ou de acomodação das pessoas que experimentaram os eventos da revelação especial de Deus registrada nas Escrituras.

O luteranismo e o pensamento de Barth enfocam na revelação plena em Jesus Cristo como um único evento, sobre o qual as Escrituras dão testemunhos.

No catolicismo romano há a noção de magistério eclesiástico e revelação privada. Na ortodoxia grega há o conceito de sobor, ou revelação situacional no corpo da Igreja em consenso. Em comum, consideram a revelação completa em Cristo, mas com estágios para se tornara explícitas para a fé cristã.

No pentecostalismo as revelações carismáticas (profecias, sonhos, visões, palavra do conhecimento, interpretação de línguas) são circunscritas às audiências específicas da comunidade ligada a Cristo, enquanto a revelação especial de Jesus Cristo nas Escrituras é recebida de forma sincrônica. Assim, no pentecostalismo clássico rejeita-se tanto a esquemas de revelação progressiva diacrônica, quanto de novidades de revelações particulares contradizentes ao que já é compreendido pelo Espírito Santo como revelado nas Escrituras canônicas. Alguns teólogos acadêmicos pentecostais (como Yong), tende a ver as Escrituras e a Criação como polifônicas. Assim, sendo a obra consumada de Cristo sua plena e final revelação até seu retorno, o que há na Igreja é um desenrolar de entendimento. Vale atentar, todavia, que em alguns meios pentecostais o termo “revelação” possui uma campo de significações amplas, por vezes igualado com “entendimento” ou “carismata”. Há também muitos pentecostais que aderem às ideias dispensacionalistas de revelação progressiva.

VEJA TAMBEM

Acomodação

Dispensacionalismo

Alicancismo

Heilsgeschichte

BIBLIOGRAFIA

Catecismo da Igreja Católica.

Boyce, Mary. A History of Zoroastrianism. Vol. I, Leiden: Brill, 1975.

Hodge, Charles. Systematic Theology, vol. 1, Peabody: Hendrickson, 2003, p. 446.

Jowett, Benjamin “On the Interpretation of Scripture” , Essays and Reviews. Londres: Longman, Green, Longman and Roberts, 1861, pp. 330-433

Kärkkäinen, Veli-Matti. Trinity and revelation: A constructive Christian theology for the pluralistic world; v. 2. Grand Rapids: Eerdmans, 2014.

Niebuhr, H. Richard; Ottati, Douglas F. The Meaning of Revelation. Library of Theological Ethics. Louisville, KY: John Knox Press, 2006.

Packer, J. I. “Evangelical view of progressive revelation”. Honouring the Written Word of God. The Collected Shorter Writings of J.i. Packer, V.3. Carlisle: Paternoster, 1999.

Sproul, R.C. “Progressive Revelation”, Ligonier, 2016. https://www.ligonier.org/learn/devotionals/progressive-revelation

Vos, Geerhardus. Biblical Theology: Old and New Testament. Grand Rapids: Eedmans, 1948, p.5.

Wright, George Ernest. “Progressive Revelation.” The Christian Scholar 39, no. 1 (1956): 61–65.

Falácia do dicionário

A falácia do dicionário é um erro exegético que pressupõe que um dicionário liste todos significados hoje conhecidos ou todos os sentidos possíveis de uma palavra utilizada em um texto.

Um dicionário ou outro instrumento lexical é o ponto de partida para inferir o sentido no contexto pragmático, não a tira-teima.

Uma palavra no contexto do dicionário terá um sentido diferente daquele do usado no texto. Uma das razões disso é que a definição em um dicionário também será sempre embutida no contexto do lexicógrafo e limitada por seu horizonte interpretativo.

O Mito do “point meaning” é uma variante da falácia do dicionário na qual se supõe que mesmo que haja uma variedade de significados de uma palavra, haveria sempre um único sentido “básico”. O hebraísta e professor de tradução bíblica Gerhard Tauberschmidt aponta que essa falácia afeta muitas traduções feitas por especialistas.

Muitos estudiosos (e, portanto, seus alunos) ainda adotam uma abordagem na qual as palavras hebraicas ou gregas são tratadas como tendo significados fixos, e, portanto, entender textos é essencialmente um processo de somar um significado de dicionário adequado de todas as palavras de suas frases.
Ainda é novidade para muitos que a unidade semântica fundamental não é a “palavra”, mas a sentença, e que as “palavras” (entradas lexicais) adquirem um significado específico quando desdobradas em sentenças.

Larry Hurtado

Um modo de contornar essa falácia é examinar os usos cognatos da palavra em outos contextos, línguas próximas, mesmo gênero textual, outras partes das Escrituras canônicas, documentos contemporâneos. Por vezes, a etimologia (mas não necessariamente) auxilia, bem como o contexto histórico e cultural da produção do texto. Aliada a essas informaçõe, as análises semântica e pragmática elucidam o termo em contexto.

BIBLIOGRAFIA

Tauberschmidt, Gerhard. “Polysemy and Homonymy in Biblical Hebrew Journal of Translation”, v 14, n 1 (2018) 29.

https://larryhurtado.wordpress.com/2011/10/18/50th-anniversary-barrs-semantics-of-biblical-language/

Acomodação

Acomodação é um princípio e doutrina hermenêutica e teológica de que Deus acomodou a expressão de suas revelações ao entendimento disponível às audiências.

A doutrina da acomodação foi empregada por Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes. Foi desenvolvida por Agostinho e reutilizada por Calvino, Descartes, Spinoza, Balthasar Bekker, Semler, Hamman

A acomodação dirime muitos problemas interpretativos, pois permite conciliar os textos das Escrituras com informações tanto internas quanto externas — linguísticas, históricas, científicas e teológicas. No entanto, a conclusão lógica de que Deus estaria comunicando algo explicitamente mas com o real significado implicitamente diverso gerou controvérsias.

Utilizando-se desse conceito da retórica clássica, Agostinho interpretava as analogias do Criador na natureza como eloquência divina.

A partir de Agostinho surgem duas linhagens acerca da acomodação. Uma seria Deus acomodando-se à limitação humana. Outra vertente enfatizava o incapacidade humana dos autores bíblicos de conterem a revelação inefável.

Nessa primeira linha, Hilário de Poitiers defendia que Deus acomodava-se à fraqueza do intelecto humano. Na Reforma, considerando as limitações da linguagem humana, Matthias Flacius chama o uso de Deus da linguagem humana como meio de revelação um exemplo de acomodação divina. Johannes Andreas Quenstedt explicava as diferenças gramaticais e estilísticas entre os livros da Bíblia como uma acomodação do Espírito Santo à linguagem e estilo de cada autor.

Na segunda postura, Descartes, Spinoza, J. Kepler, Galileu, os racionalistas e os neólogos (especialamente Semler) seriam os próprios autores bíblicos que empregaram a acomodação, como recursos estilísticos como o antropomorfismo ou conforme a ciência disponível em seu tempo. Uma formulação do conceito foi proposta por Christophorus Wittichius (1625-1690) “Em questões da natureza, as Escrituras muitas vezes falam de acordo com as opiniões das pessoas comuns e não de acordo com a verdade exata”. O teólogo holandês Balthasar Bekker empregou a teoria da acomodação para explicar passagens consideradas embaraçosas ou supersticiosas enquanto mantinha uma respeitabilidade racionalizada do cristianismo.

Nem todos os teólogos da escolástica protestante aceitavam a teoria da acomodação. O teólogo pietista e teórico da hermenêutica Johann Jakob Rambach (1693- 1735) em seu Hypothesis de Scriptura sacra ad erroneos vulgi conceptus adcomodata (1729) fez contudentes críticas à teoria da acomodação. A ideia de Deus intencionar dizer algo, mas comunicar outra coisa para simplificar parecia a Rambach uma condescendência e uma blasfêmia. Embora adepto da doutrina dos “dois livros” — natureza e Escrituras como revelações divinas que não se contradiziam — Rambach defendia uma abordagem fenomenológica. Os registros bíblicos seriam conforme os autores e audiências perceberam a revelação divina. Desse modo, o sentido das Escrituras seria simples, sem haver um significado mais elevado por trás das palavras do texto. A obra de Rambach antecedeu o conceito de perspicuidade bíblica conforme adotado posteriormente pelos fundadores do método histórico-gramatical.

A controvérsia sobre a acomodação atingiu o pico no final do século XVIII. Uma síntese entre as duas teorias de acomodação e a abordagem de Rambach aparece formulado por Johann Georg Hamann (1730 – 1788). Influenciado por Kant, Hamman partiu da teologia da encarnação para interpretar a da Bíblia como uma indulgência da parte de Deus, na “acomodação” como sinônimo de “condescendência”.

Com o advento das revoluções científicas a partir do século XIX, a acomodação ganhou adicional aceitação. Análogo à kenosis, a teologia luterana do século XIX empregou a acomodação para manter a fé diante de críticas. No século XX, o tópico da acomodação aparece no debate sobre a desmitologização de Bultmann. Contemporaneamente, é um princípio empregado em argumentos apologéticos.

BIBLIOGRAFIA

Benin, Stephen D . The Footprints of God: Divine Accommodation in Jewish and Christian Thought. Albany: State University of New York Press, 1993;

Buisman, Jan Wim.”Bekkers Wraak Balthasar Bekker (1634-1698), de accommodatietheorie en Nederlandse protestantse theologen, 1750-1800″ In: De Achttiende Eeuw. Jaargang, 1998.

Lee, Hoon J. The Biblical Accommodation Debate in Germany: Interpretation and the Enlightenment. Springer, 2017.

Tinker, Michael. “John Calvin’s Concept of Divine Accommodation: A Hermeneutical Corrective.” Churchman 118.4 (2004): 325-358.

Sitz im Leben

Termo em exegese bíblica que se refere às circunstâncias em que ocorreu uma frase, um história ou um gênero textual. O termo foi cunhado pelo biblista Hermann Gunkel (1862 – 1932) para seu estudo de crítica formal.

É um termo mais restrito que contexto, discorrendo sobre os meios e condições em que um texto foi criado, preservado e transmitido. Considera ainda o papel social e o momento dos interlocutores, tanto o emitente quanto a audiência.

Midrash

O midrash, também grafado “midraxe”, é uma interpretação expansiva das Escrituras para fins de pregação (homilética), atualização normativa (midrash halacá) ou explicação narrativa (midrash hagadá).

O midrash toma as Escrituras como ponto de partida e tenta tornar uma passagem compreensível, útil e relevante para a geração presente. Não há preocupação quanto a historicidade ou facticidade da interpretação, mas preencher lacunas interpretativas, harmonizar passagens e atualizar a aplicação de normas para situações não previstas em passagens normativas das Escrituras.

Oriundo da raiz D.R.Sh, que significa “buscar, investigar, estudar”. O termo midrash é encontrado duas vezes na Bíblia, ambas em 2 Crônicas. Em 2 Cr 13:22 menciona “no midrash do profeta Ido” e em 24:27 diz que“estão escritos no midrash do livro dos reis”, referindo-se à fonte do cronista para seu relato de Abias e a sobre os muitos atos e oráculos contra Joás e os seus filhos.

Na exegese intra-bíblica há vários exemplos putativos de midrash:

  • A epístola de Hebreus poderia ser um midrash do Salmo 110;
  • Mateus utiliza amplamente essa técnica aliada à tipologia para citar autores do Antigo Testamento;

A rocha movente de 1 Cor 4:10 era um midrash corrente na Antiguidade Tardia.

BIBLIOGRAFIA

Renée Boch, “Midrash” in Supplément au Dictionnaire de la Bible. Volume 5 ed. H. Cazelles. Paris-IV: Libraire Letouzey et Ané, 1957, p. 1265

Fishbane, Muchael. The midrashic imagination: Jewish exegesis, thought and history. Albany: SUNY Press, 1993..

Pardes

Abordagem de interpretação bíblica judia desenvolvida na Idade Média, mas com raízes no período do Segundo Templo. Pressupõe que a cada passagem bíblica seja possível que haja quatro níveis interpretativos.

Os princípios ou abordagens do pardes são:

  • Peshat (esparramado) a denotação mais simples, óbvia e literal. Apesar de literal, leva em consideração as figuras de linguagem e pensamento facilmente reconhecíveis pelo leitor. Há preocupações filológicas, como a etimologia e gramática.
  • Remez (sugestão ou alusão) interpretações tipológicas ou alegóricas enfocando desde uma só letra, palavra ou perícope (trecho).
  • Derash (investigação) inferências de acordo com os middot, ou regras hermenêuticas, tais como as Sete regras de Hillel, as Treze regras do rabino Ismael ben Elias e as 32 regras do rabino Eliezer ben José ha-Galili.
  • Sod (oculto) a interpretação mística.

Das letras iniciais desses princípios surgiu o acrônimo PaRDeS, que coincide com o termo persa e hebraico paraíso. 

BIBLIOGRAFIA

Alves, Leonardo M. “Pardes: os níveis da exegese judaica” Ensaios e Notas, 14 de maio de 2020.