Pericorese

A pericorese (do grego περιχώρησις, perichoresis; latim circumincessio) é o conceito teológico que descreve a interpenetração mútua das três pessoas da Trindade. Cada pessoa divina contém as outras e é contida por elas, de modo que a unidade da essência não dissolve a distinção das pessoas nem a distinção das pessoas fragmenta a unidade da essência. O termo pode ser traduzido ainda como “co-inerência” ou “habitação mútua” e denota que as três pessoas se distinguem apenas pelas relações de oposição entre si, sem que nenhuma exista separada ou independentemente das outras (OTTO, 2001).

A etimologia do termo afasta a leitura popular que o associa à “dança” ou “ciranda”. Περιχώρησις deriva de περιχωρέω (perichoreo), composto de περί (peri, “em torno de”) e χωρέω (choreo, “conter”, “dar lugar a”, “mover-se através de”). A confusão com χορός (choros, “dança”) é um erro de derivação que, apesar de difundido na teologia popular contemporânea, não tem respaldo etimológico (CRISP, 2005).

O conceito tem uma história de uso em dois registros distintos antes de se fixar no vocabulário trinitário. Gregório de Nazianzo empregou περιχώρησις no contexto cristológico, para descrever a relação entre as duas naturezas de Cristo; o uso expressava como a natureza divina e a natureza humana se interpenetram na única pessoa do Verbo encarnado sem se confundirem. João de Damasco (séc. VIII) é o responsável por sistematizar o uso trinitário do termo, descrevendo com ele a habitação recíproca das três pessoas no interior da única essência divina. Na tradição latina, o equivalente circumincessio foi incorporado pela escolástica, e Tomás de Aquino o emprega dentro de uma tradição já consolidada, articulando-o com a doutrina da simplicidade divina e das relações subsistentes.

A pericorese foi retomada na teologia do século XX por Jürgen Moltmann e John Zizioulas, que a situaram no centro de uma teologia trinitária renovada. Moltmann a utiliza para fundar uma concepção social da Trindade, na qual a comunhão entre as pessoas divinas serve de modelo crítico para relações humanas que buscam equilibrar individualidade e comunidade. Zizioulas a articula com a ontologia da pessoa, argumentando que o ser é constituído relacionalmente. Essa recepção moderna, porém, não é isenta de críticas. Crisp argumenta que as aplicações contemporâneas da pericorese frequentemente excedem o que o conceito pode sustentar, projetando sobre a terminologia patrística implicações sociais e políticas que os autores originais não pretendiam.


Referências

CRISP, Oliver D. Problems with perichoresis. Tyndale Bulletin, Cambridge, v. 56, n. 1, p. 119-140, 2005.

KASPER, Walter. The God of Jesus Christ. Nova edição. Londres: Bloomsbury Publishing, 2012.

OTTO, Randall E. The use and abuse of perichoresis in recent theology. Scottish Journal of Theology, Cambridge, v. 54, n. 3, p. 366-384, 2001.

ROHR, Richard; MORRELL, Mike. The divine dance: the Trinity and your transformation. New Kensington: Whitaker House, 2016.

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