João de Damasco

João de Damasco ou João Damasceno (c. 675-749) foi um teólogo, monge e polímata do Império Bizantino, considerado autor patrístico. Influenciou o pensamento cristão e na defesa da veneração dos ícones.

Nascido em uma família nobre, João de Damasco recebeu uma educação em disciplinas seculares e religiosas. Serviu como alto oficial na corte do califado omíada em Damasco. No entanto, atraído pela vida ascética, renunciou à sua posição e abraçou o monasticismo.

Como monge, João de Damasco dedicou-se a uma vida de oração, contemplação e erudição. Eloquente, discorreu sobre tópicos acerca da doutrina cristã, ética e apologética.

Durante a controvérsia iconoclasta, um período em que o uso de ícones religiosos foi debatido, João Damasceno emergiu como um defensor de sua legitimidade. Argumentou que os ícones não eram ídolos, mas serviam como recursos visuais para inspirar devoção e direcionar os fiéis para a contemplação espiritual. Seus tratados, particularmente sua obra “Sobre as Imagens Divinas”, desempenharam um papel fundamental na influência do Segundo Concílio de Niceia (787), que finalmente restaurou a veneração de ícones na Igreja Ortodoxa Oriental.

As obras teológicas de João Damasceno também abrangeram áreas como a cristologia, a natureza de Deus e a relação entre fé e razão. Procurou conciliar a teologia cristã com a filosofia grega, particularmente as obras de Aristóteles e do neoplatonismo, enfatizando a compatibilidade entre fé e investigação racional.

Além de suas contribuições teológicas, João de Damasco também compôs hinos litúrgicos que ainda hoje são cantados nos cultos da Igreja Ortodoxa Oriental. Sua hinografia, caracterizada por sua profundidade teológica e beleza poética, acrescentou uma profunda dimensão espiritual às tradições litúrgicas da Igreja.

Pericorese

A pericorese (do grego περιχώρησις, perichoresis; latim circumincessio) é o conceito teológico que descreve a interpenetração mútua das três pessoas da Trindade. Cada pessoa divina contém as outras e é contida por elas, de modo que a unidade da essência não dissolve a distinção das pessoas nem a distinção das pessoas fragmenta a unidade da essência. O termo pode ser traduzido ainda como “co-inerência” ou “habitação mútua” e denota que as três pessoas se distinguem apenas pelas relações de oposição entre si, sem que nenhuma exista separada ou independentemente das outras (OTTO, 2001).

A etimologia do termo afasta a leitura popular que o associa à “dança” ou “ciranda”. Περιχώρησις deriva de περιχωρέω (perichoreo), composto de περί (peri, “em torno de”) e χωρέω (choreo, “conter”, “dar lugar a”, “mover-se através de”). A confusão com χορός (choros, “dança”) é um erro de derivação que, apesar de difundido na teologia popular contemporânea, não tem respaldo etimológico (CRISP, 2005).

O conceito tem uma história de uso em dois registros distintos antes de se fixar no vocabulário trinitário. Gregório de Nazianzo empregou περιχώρησις no contexto cristológico, para descrever a relação entre as duas naturezas de Cristo; o uso expressava como a natureza divina e a natureza humana se interpenetram na única pessoa do Verbo encarnado sem se confundirem. João de Damasco (séc. VIII) é o responsável por sistematizar o uso trinitário do termo, descrevendo com ele a habitação recíproca das três pessoas no interior da única essência divina. Na tradição latina, o equivalente circumincessio foi incorporado pela escolástica, e Tomás de Aquino o emprega dentro de uma tradição já consolidada, articulando-o com a doutrina da simplicidade divina e das relações subsistentes.

A pericorese foi retomada na teologia do século XX por Jürgen Moltmann e John Zizioulas, que a situaram no centro de uma teologia trinitária renovada. Moltmann a utiliza para fundar uma concepção social da Trindade, na qual a comunhão entre as pessoas divinas serve de modelo crítico para relações humanas que buscam equilibrar individualidade e comunidade. Zizioulas a articula com a ontologia da pessoa, argumentando que o ser é constituído relacionalmente. Essa recepção moderna, porém, não é isenta de críticas. Crisp argumenta que as aplicações contemporâneas da pericorese frequentemente excedem o que o conceito pode sustentar, projetando sobre a terminologia patrística implicações sociais e políticas que os autores originais não pretendiam.


Referências

CRISP, Oliver D. Problems with perichoresis. Tyndale Bulletin, Cambridge, v. 56, n. 1, p. 119-140, 2005.

KASPER, Walter. The God of Jesus Christ. Nova edição. Londres: Bloomsbury Publishing, 2012.

OTTO, Randall E. The use and abuse of perichoresis in recent theology. Scottish Journal of Theology, Cambridge, v. 54, n. 3, p. 366-384, 2001.

ROHR, Richard; MORRELL, Mike. The divine dance: the Trinity and your transformation. New Kensington: Whitaker House, 2016.

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