Caspar Schwenckfeld

Caspar ou Kaspar Schwenckfeld ou Schwenkfeldvon Ossig (1490 – 1561) foi um teólogo, escritor, médico, naturalista e pregador alemão que se tornou um reformador protestante na Silésia, além de líder da vertente espiritual da Reforma Radical.

Schwenckfeld nasceu entre 1489 e 1490 em uma família nobre da Baixa Silésia, em Ossig. Estudou direito em Colônia, Frankfurt an der Oder e, possivelmente, em Erfurt. Serviu na corte de diversos duques silesianos até abandonar a vida cortesã por volta de 1522 ou 1523. Nesse período acompanhou as atividades Lutero, lia diariamente as Escrituras e auxiliou nas reformas eclesiásticas da Silésia. Encontrou-se com Melanchthon e outros reformadores em Wittenberg.

Em 1518 ou 1519, ele passou por um despertar, descrita como uma “visitação divina de Deus” (eine gnädige Heimsuchung), e publicou De cursu verbi Dei em 1527. Essa experiência serviu como um catalisador para o desenvolvimento de seus princípios distintos, levando a uma desavença com Martinho Lutero sobre a contenciosa controvérsia eucarística em 1524. Origialmente um reformador magistral, seria influenciado pelos ensinamentos de Thomas Müntzer e Andreas Karlstadt. Colaborou com o humanista Valentin Crautwald (1465–1545), desenvolvendo perspectivas espiritualizadas sobre a sacramentos.

Seus ensinamentos abrangeram vários aspectos, incluindo oposição à guerra, sociedades secretas e juramento, bem como a crença de que os governos não tinham autoridade para ditar questões de consciência. Schwenckfeld enfatizou que a regeneração ocorreu por meio da graça de Deus e da obra transformadora interior do Espírito.

Os crentes encontraram nutrição espiritual em Cristo e enfatizou a importância de demonstrar evidências de regeneração. Além disso, rejeitou o batismo infantil, formas externas de adoração e o conceito de divisões denominacionais dentro da Igreja.

Lutero respondeu às opiniões de Schwenckfeld sobre a Eucaristia publicando vários sermões sobre o assunto em sua obra de 1526, “O Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo — Contra os Fanáticos”. Em 1529 deixou a Silésia para proteger seu patrono ducal da pressão imperial. Em 1540, Lutero forçou a expulsão de Schwenckfeld da Silésia.

Durante o exílio encontrou abrigo em cidades livres, entre elas Estrasburgo, Augsburgo e Ulm. Sofreu oposição dos principais reformadores, como Martinho Butzer, Ambrósio Blaurer e Johannes Frecht. Foi condenado oficialmente em Schmalkalden, em 1530, e proscrito em Naumburg, em 1554. Envolveu-se em disputas cristológicas com Joachim Vadianus e Matias Flácio Ilírico. Morreu em Ulm, em 10 de dezembro de 1561, e sua morte foi mantida em segredo. Nunca se casou.

Embora Schwenckfeld não tenha estabelecido uma denominação separada durante sua vida, seus escritos e sermões atraíram seguidores que gravitavam em torno de seus ensinamentos. Eventualmente, esses adeptos formaram um movimento distinta, que enfrentou perseguição legal e proibição na Alemanha. No entanto, as ideias de Schwenckfeld exerceram uma profunda influência em movimentos religiosos como o anabatismo, o pietismo na Europa continental e o puritanismo na Inglaterra.

Muitos dos seguidores de Schwenckfeld sofreram perseguição na Europa, forçando-os a se converter ou buscar refúgio em outro lugar. Fugindo do domínio austríaco, seus seguidores encontraram refúgio nos territórios do conde Nicolaus Ludwig Zinzendorf e seu Herrnhuter Brüdergemeinde. Mais tarde ficaram conhecidos como Schwenkfelders.

Em 1731, um grupo de Schwenkfelders chegou à Filadélfia, marcando a primeira das cinco migrações que ocorreram até 1737. Como resultado, a Sociedade dos Schwenkfelders foi estabelecida em 1782. A Igreja Schwenkfelder foi organizada em 1909, mas permanece relativamente pequena, compreendendo cinco congregações com aproximadamente 3.000 membros localizadas no sudeste da Pensilvânia, Estados Unidos.

Teologia

Segundo Wach, Caspar Schwenckfeld aborda a cristologia, os meios de graça, a liberdade e a igreja, porém sua preocupação central era servir a Cristo. Sua teologia era cristocêntrica e experimental, de modo que não pode ser abstraída de sua vida religiosa pessoal. Trata-se de uma teologia vital, nascida da experiência ativa. Schwenckfeld mantinha uma distinção nítida entre o Antigo e o Novo Testamento e considerava este último o ideal para a restauração do cristianismo. Recorria amplamente à patrística e à escolástica para sustentar suas posições. Fazia exposições sobre a natureza e a operação do Espírito Santo, tema que julgava negligenciado pelos demais movimentos protestantes.

Suas cartas, escritas na ausência de deveres oficiais, constituíram o centro de sua vida espiritual durante o exílio. Sua correspondência possui caráter irênico e se distingue pela ausência de ódio. Criticava ideias e preservava o respeito pelas pessoas. Mantinha um tom suaviter in modo, fortiter in re, isto é, gentil no modo e firme na questão. Um mestre da prosa latina e alemã, era superado apenas por Lutero na formação do estilo literário alemão. Adequava sua linguagem à condição e às necessidades de cada destinatário e dava prioridade à edificação prática e pastoral em lugar da especulação abstrata. Embora fosse leigo, estudou grego e hebraico para verificar traduções bíblicas e reivindicações teológicas.

Seu círculo epistolar era amplo e incluía mulheres, que constituíam uma parcela maior de suas cartas íntimas, além de teólogos, nobres e leigos comuns. Exortava seus leitores à meditação, à oração e ao estudo profundo. Definia a oração como uma elevação fervorosa e silenciosa do coração a Deus e advertia contra a repetição superficial. Em um tratado específico apresentou doze elementos da oração, entre eles a preparação adequada do coração, o reconhecimento da necessidade da mediação de Cristo, a humildade perseverante e a oração feita em fé.

Sua epistemologia revela um realismo de matriz platônica, segundo o qual uma ordem sobrenatural precede a realidade visível. Distinguia o homem interior do homem exterior e, de forma correspondente, distinguia a Palavra interior do Espírito e a Palavra exterior da letra. Em oposição a Lutero, sustentava que a fé verdadeira se origina diretamente da inspiração do Espírito Santo e não da audição da palavra pregada exteriormente. Sua doutrina sacramental ocupa uma posição intermediária entre a rejeição total dos sacramentos e o ritualismo acrítico. Os sacramentos são sinais e imagens que apontam para a verdade eterna, mas não possuem poder independente para salvar. Considerava que a Bíblia está espiritualmente selada e que somente o Espírito de Cristo pode abri-la. Os discípulos de Cristo não necessitam da retórica clássica pagã para interpretá-la.

Para Schwenckfeld, o cristão é uma pessoa renascida, que vive em confiança implícita em Deus por meio do conhecimento experimental de Cristo. Também contribuiu para a educação cristã e sustentava que os mestres devem adaptar suas lições à psicologia das crianças, utilizando a natureza e as imagens para despertar a reflexão espiritual. Entendia que a vida espiritual se desenvolve em estágios orgânicos, que compreendem iniciantes ou crianças, avançados ou jovens e perfeitos ou homens, e que esse desenvolvimento não ocorre de uma só vez. O sofrimento, a doença e a perseguição eram componentes necessários da fase do deserto no crescimento cristão, pois conduziam ao afastamento do mundo e ao fortalecimento interior.

Schwenckfeld considerava que o pecado é a enfermidade herdada, Cristo é o médico que cura gratuitamente, o Espírito Santo administra o remédio, que consiste na palavra e no sangue de Cristo, e a igreja é a assembleia dos curados. Também descreveu três estágios da vida. O primeiro é o estado carnal ou ímpio, caracterizado por uma existência animal e orientada pelos sentidos. O segundo é o estado racional ou honrado, marcado por uma justiça civil fundada na lei, mas desprovida do Espírito. O terceiro é o estado santo ou cristão, definido por uma nova devoção implantada diretamente por Cristo.

O amor constitui o critério supremo e a prova visível de que alguém é verdadeiro discípulo de Cristo. As boas obras se dividem em obras dirigidas a Deus, como a oração e a paciência, obras dirigidas ao próximo, como a caridade e a exortação, e obras dirigidas a si mesmo, como o arrependimento e a autodisciplina. Criticou o movimento luterano por sua falta de disciplina moral e por não produzir melhoria de vida. Recomendou o Stillstand, ou suspensão, que consistia em abster-se da eucaristia até que o amor, a ordem e a disciplina fraterna fossem restaurados na igreja.

Para Schwenckfeld, a fé justificadora seria uma participação direta e essencial na essência divina, descrita pela expressão ein wesen im grunde with deme der jhn schenckt. A justificação é um processo pelo qual Deus torna o ser humano efetivamente justo, unindo justificação e santificação. Também se opôs à limitação da justificação à natureza divina de Cristo, proposta por Osiander. Contestou ainda a concepção luterana de que Deus habita no crente apenas de modo efetivo, isto é, pelo poder, e não de modo substancial, como presença essencial.

BIBLIOGRAFIA
JWACH, Joachim. Caspar Schwenckfeld, a pupil and a teacher in the school of Christ: in memoriam, Richard Norman Hill (July, 1945). The Journal of Religion, Chicago, v. 26, n. 1, p. 1-29, jan. 1946. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/1198727

MCKEE, Elsie. The Defense of Schwenckfeld, Zwingli, and the Baptists, by Katharina Schütz Zell. Zwingliana, p. 245-264, 1992.

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