Inscrições proto-alfabéticas

As inscrições proto-alfabética são registros epigráficos (em superfícies duras) de inscrições em rocha (rupestre), objetos de metais, cacos de cerâmicas ou em óstracas datados da Idade do Bronze ou do início da Idade do Ferro com sinais que possivelmente antecedem as escritas semíticas e o plenamente desenvolvido abjad (alfabeto) fenício ou paleo-hebraico.

As principais inscrições encontram-se na Península do Sinai e no sul do Egito. Inscrições dessa fase e semelhantes mas em território mais central ou ao norte na Palestina são chamadas de inscrições proto-caneneias ou proto-cananeu.

A falta de padronização dos caracteres, a ausência de textos longos, a ausência de abecedários indicam uma cultura parcialmente letrada e com usos epigráficos.

Seguem as apresentações das inscrições antigas proto-alfabéticas e outras transicionais.

Wadi el-Hol

O sítio arqueológico de Wadi el-Ḥol consiste de um conjunto de inscrições rupestres e vestígios dos caravançarás na rota da estrada Farshut, entre a antiga Tebas e Abidos, no sul do Egito.

As inscrições variam dos períodos pré-dinástico ao copta, sendo a maioria pertencente ao Império Médio (ca. 2050 – 1750 a. C.). A maioria das inscrições registra nomes e títulos, mas outras são mais longas com textos religiosos e literários.

Em 1999 foi anunciada a descoberta de duas inscrições relevantes para a história da escrita. As inscrições WHRI 08 e WHRI 01 podem ser datadas do reinado de Amenemés III (c.1839-c.1815 a.C) e teriam sido escritas por estrangeiros (mercenários ou mercadores) semíticos. As inscrições possuem caráter acrofonéticos, visivelmente derivados da escrita egípcia. Contudo, o caráter esparso dos caracteres impedem a leitura como um texto, embora haja algumas propostas interpretativas. Pelas semelhanças com as inscrições proto-sinaíticas e com as posterior escrita fenícia, possibilitam que sejam inscrições semíticas.

Proto-sinaítico

O proto-sinaítico são cerca quarenta inscrições e fragmentos, entre 27 e 29 caracteres de uma língua pouco atestada, mas definitivamente da família semítica, datadas de entre c.1600 e 1500 a.C.

A maioria das inscrições proto-sinaíticas foi encontrada em Serabit el-Khadim, uma montanha de difícil acesso na Península do Sinai. Lá, na fase final da Idade do Bronze, houve uma mina templo egípcio dedicado a Hathor.

As primeiras dez inscrições foram descobertas em 1905 por William Flinders Petrie. Em 1916 Alan Gardiner decifrou os primeiros caracteres, descobrindo valores fonéticos pelo princípio da acrofonia. Por esse princípio, o som inicial do objeto representado por cada signo dá seu valor fonético.

Inscrições proto-canaanita

Várias inscrições breves em caracteres proto-cananeus ou proto-fenício foram encontrados em Siquém, Gezer, Tel al-Ḥāsī, Tel al-ʿAjūl, Beth-Shemesh, Megiddo, Tel Rehov, Tell Beit Mirsim e Láquis. As datas propostas variam do século XV a.C. ao IX a.C.

Tel el-Hesi (al-Ḥāsī ou el-Hesy) é um dos primeiros e principais sítios arqueológicos escavado na Palestina. Foi explorado por William Flinders Petrie (1890) e Frederick Jones Bliss (1891-1892). Identificado, sem sucesso, com as localidades bíblicas de Laquis e Eglom, durante a Idade do Bronze teria chegado a 100 mil m2 de área urbana. Em um caco de cerâmica foram identificados três caracteres que aparentam ser contemporâneos de fragmentos de Tel el-Saren (fragmento de Rehov) com seis letras reconhecíveis, ambas datando de 1400 a.C.

A inscrição de Tel es-Safi foi encontrada em 2005 na possível cidade bíblica de Gate, em território filisteu e datado da Idade do Ferro IIA (1000–925 aC). Fragmentos cerâmicos contém sete caracteres proto-cananeus.

Um dos candidatos mais antigos a uma escrita alfabética é um escaravelho de Tel Abu Zureiq, no vale de Jezreel. Encontrado em uma tumba da Idade do Bronze e datado da 13a-15a dinastias. Em seu lado chato aparece um homem e quatro signos que não há consenso se são hieroglíficos ou alfabéticos.

O caco de Gezer foi descoberto em 1929 com três caracteres. Tanto por razões de estratigrafia quanto pelo estilo da cerâmica datar o artefato é difícil. Também em Tel Gezer um conjunto de jarros contém iniciais com um único caracter. Igualmente, são de datas incertas.

A placa de Siquém também possui um potencial para ser testemunho da escrita alfabética na idade do Bronze, pois há uma figura de homem com um manto pesado típico da época.

O jarro de Tel Nagila descoberto na década de 1960 é outro candidato a antiga inscrição alfabética, mas com datação incerta.

Em 2020 foi publicado um caco de um jarro encontrado em Khirbet al-Ra‘i com nítidos caracteres proto-cananeus datados do século XI a.C. É chamado de “jarro de Jerubaal” pela possível leitura desse nome (caracteres completos são R-B-‘-L).

‘Izbet Sartah Ostracon

Descobertos em 1976 em um sítio que pode ter sido a Ebenezer bíblica e datados de entre os séculos XIII e XII a.C. São já inscritas em paleo-hebraico ou fenício arcaico e aparentam ser um exercício de alfabetização, com um possível indicação de um abecedário na ordem usual semítica. A semelhança dos caracteres permite inferir uma fase intermediária entre as inscrições proto-alfabéticas e a escrita fenícia padronizada.

Pontas de Flecha de al-Khadr

Cinco pontas de flecha, inscritas com letras do alfabeto fenício arcaico ou cananeu antigo, foram encontradas perto de Belém e publicadas entre 1954 e 1980. Datados de cerca de 1100 –1050 a.C, essas inscrições fornecem testemunho tanto da alfabetização quanto da religião da deusa Leoa na região, pois é recorrente a frase ‘Abd-labi’t (“servo da Leoa”), expressão que também ocorrem em Ugarit.

O uso restrito no espaço e tempo dessas inscrições em pontas de flechas foi interpretado como uma moda local ou um uso ritual (belomancia, cf. Ez 21:21).

Também atesta uma fase transicional entre a escrita proto-sinaítica e o abdjad fenício.

Tel Lachish

No sítio arqueológico de Láquis (Tel Lachish), no sul da Judeia, há alguns artefatos que atestam a transição do proto-alfabeto sinaítico para a escrita fenícia ou cananeia e com características da escrita hierática egípcia.

Um fragmento de um vaso cerâmico recipiente de leite proveniente do Chipre (White Slip II), datado do século XV, foi anunciado em 2021 como uma transição da escrita hierática e o proto-sinaítico ou proto-cananeu.

Nesse sítio foi encontrado o Punhal ou Adaga de Láquis (n.33) em no túmulo 1502 em 1934. No local há uma inscrição do nome de Ramsés III. A adaga de bronze exibe quatro sinais que poderiam ser alfabéticos.

Considerações

As inscrições proto-alfabéticas semíticas atestam a origem da escrita a partir de decodificações populares dos caracteres hieroglíficos e hieráticos egípcios. Essa apropriação leiga provavelmente aconteceu durante o Império Médio Egípcio e propagou-se pelo Levante no final Idade Média do Bronze e no Segundo Período Intermediário egípcio, época dos hicsos no norte do Egito. Somente a partir da Idade do Ferro inicial que essas escritas popularizaram em território cananeu.

As inscrições não atestam o uso de um abecedário, como acontecem com os cuneiformes ugaríticos (século XIV) e, disputadamente, os abecedários semíticos da Idade do Ferro (século XII a.C. para ‘Izebt Sartath e c.1000 a.C. para os abecedários de Abecedário de Zaiyt e Inscrição de Ophel).

A direção da escrita e a orientação dos caracteres não aparecem padronizados nas inscrições proto-alfabéticas. Frequentemente os mesmos caracteres aparecem em direções diferentes dentro de uma única inscrição. Mais tarde, a padronização linear da escrita permitiu aos povos semíticos do Levante a elaborar textos mais longos e complexos. No caso da escrita proto-alfabética a falta de padronização demonstra uma transmissão folk e criativa, indicando a perspicácia de seus inscritores em reproduzir de uma forma adaptada para seu horizonte linguístico a complicada escrita egípcia. Atesta também a inexistência de uma cultura escribal, com suas padronizações e meios formais de transmissão da cultura letrada.

As inscrições proto-alfabéticas demonstram a antiguidade da escrita abjdad e da existência de cultura semi-letrada epigráfica. A continuidade desse modelo de letramento ocorre, por vezes, nos mesmos sítios, com sobreposições de outras escritas (copta, grega, romana, thamúdica, tifinagh). Contudo, não há correlação causal necessária entre desenvolvimento de escrita epigráfica e a emergência de um corpus de literatura escrita. Os exemplos do árabe do norte (thamúdico e safaítico) e do bérbere (tifinagh) atestam uma preferência oral para a transmissão de uma complexa literatura mesmo quando a sociedade já é conhecedora do alfabeto.

BIBLIOGRAFIA

Darnell, John Coleman, F. W. Dobbs-Allsopp, Marilyn Lundberg, P. Kyle McCarter, e Bruce Zuckerman. Two early alphabetic inscriptions from the Wadi el-Hôl: New evidence for the origin of the alphabet from the Western Desert of Egypt. Annual of the American Schools of Oriental Research 59. Boston: American Schools of Oriental Research. 2005

Höflmayer , Felix; Haggai Misgav, Lyndelle Webster, Katharina Streit. Early alphabetic writing in the ancient Near East: the ‘missing link’ from Tel Lachish. Antiquity, published online April 15, 2021; doi: 10.15184/aqy.2020.157

Naʾaman, N.. Egyptian centres and the distribution of the alphabet in the Levant. Tel Aviv 2020, 47: 29–54. https://doi.org/10.1080/03344355.2020.1707449

Rollston, Christopher, et al. “The Jerubba ‘al Inscription from Khirbet al-Ra ‘i: A Proto-Canaanite (Early Alphabetic) Inscription.” Israel Exploration Journal (2020).

Sass, Benjamin The Genesis of the Alphabet and its Development in the Second Millennium BC. Doutorado. Universidade de Tel Aviv, 1988.

Woods, Christopher, and Christopher E. Woods. Visible language: inventions of writing in the ancient Middle East and beyond;[in conjunction with the Exhibition Visible Language: Inventions of Writing in the Ancient Middle East and Beyond]. Oriental Institute of the University of Chicago, 2010.