Teologia pública

Teologia pública é uma subdisciplina teológica que investiga as condições, modalidades e legitimidade da contribuição da fé cristã — e da religião em geral — ao debate e à vida pública em sociedades pluralistas e democráticas. Distingue-se da teologia pastoral por seu interlocutor primário (a esfera pública, e não apenas a comunidade eclesial) e da ética social por sua ênfase nas mediações epistemológicas e linguísticas necessárias para que afirmações teológicas possam ser proferidas com inteligibilidade fora dos limites confessionais.

Contexto e emergência

O termo ganhou precisão acadêmica a partir da obra do teólogo norte-americano Martin Marty, que na década de 1970 propôs distinguir entre uma “teologia para a Igreja” e uma “teologia para o público”. Desenvolveu-se em resposta a dois movimentos simultâneos: de um lado, a crescente secularização das esferas públicas ocidentais e a consequente pressão sobre as linguagens religiosas; de outro, a persistência — e em muitos contextos o recrudescimento — da presença religiosa no espaço político e cultural. O debate em torno da obra de John Rawls sobre razão pública (A Theory of Justice, 1971; Political Liberalism, 1993) tornou-se um ponto de referência inevitável, na medida em que a exigência rawlsiana de “razões publicamente acessíveis” colocava em xeque a legitimidade de argumentos explicitamente religiosos no fórum político.

Principais abordagens

A literatura identifica ao menos três modelos principais. O modelo conversacional, associado a David Tracy (The Analogical Imagination, 1981), propõe que a teologia opere como “conversação pública” capaz de interpelar três públicos distintos: a academia, a Igreja e a sociedade. O modelo neopragmatista, representado por Jeffrey Stout (Democracy and Tradition, 2004), defende que a religião pode participar do debate público sem exigências de tradução secular, desde que aceite as regras da troca argumentativa democrática. O modelo de Max Stackhouse articula a teologia pública com a ética global e os direitos humanos, propondo princípios teológicos como fundamento normativo para instituições civis transnacionais. Na América do Sul, Vítor Westhelle, Cláudio Carvalhaes e Rudolf von Sinner desenvolveram abordagens de teologia pública sensíveis às assimetrias de poder, à herança colonial e ao pluralismo religioso latino-americano.

Tensões e críticas

A teologia pública é objeto de críticas tanto de dentro quanto de fora do campo teológico. Stanley Hauerwas e os teólogos da tradição radical-ortodoxa argumentam que a tentativa de tornar a teologia “publicamente aceitável” implica uma capitulação às categorias liberais que esvazia o conteúdo distintivo da fé. Por outro lado, teóricos seculares questionam se afirmações fundadas em revelação podem, de fato, funcionar como premissas válidas em deliberações públicas. A tensão entre particularidade confessional e universalidade pública permanece o problema central não resolvido da disciplina.

Obras de referência

Breitenberg, E. H. “To Tell the Truth: Will the Real Public Theology Please Stand Up?” Theology Today 63 (2006).

Stackhouse, M. Public Theology and Political Economy. Grand Rapids: Eerdmans, 1987.

Stout, J. Democracy and Tradition. Princeton: PUP, 2004.

Tracy, D. The Analogical Imagination. New York: Crossroad, 1981.

Von Sinner, R. Teologia Pública no Brasil. São Leopoldo: Sinodal, 2011.

Missiologia

A Missiologia é uma disciplina acadêmica e ramo da teologia focada no estudo da missão cristã, abrangendo sua história, doutrina e metodologia. Como discipina, aprofunda-se nas preocupações centrais da missão como iniciativa de Deus, o papel da igreja na missão e os métodos e objetivos de compartilhar o Evangelho em contextos culturais diversos.

A Missiologia desempenha um papel vital na compreensão e orientação dos esforços de missão cristã, facilitando a reflexão, o diálogo e o engajamento eficaz com diversos contextos culturais e desafios contemporâneos.

A Missiologia como disciplina

As preocupações centrais da missiologia são as seguintes

  • Missão como iniciativa de Deus: a missiologia busca compreender a missão como originária do desejo de Deus de reconciliar a humanidade consigo mesmo.
  • Participação da Igreja na missão: explorar o papel da Igreja em realizar a missão de Deus (missio Dei).
  • Compartilhar o Evangelho em diferentes contextos: abordar os desafios e oportunidades de comunicar a mensagem cristã através de fronteiras culturais e sociais.

Em razão desses temas acima, a missiologia geralmente se revolve em torno de quatro grandes questões:

  1. Qual é a natureza da missão?
  2. Quem são os agentes da missão?
  3. Quais são os métodos da missão?
  4. Quais são os objetivos da missão?

A Missiologia é uma disciplina interdisciplinar que utiliza o conhecimento da teologia, história, antropologia, sociologia, estudos de comunicação, comunicação intercultural, geografia, serviço social, diaconia e outras mais. Ela abrange diversas expressões de missão, incluindo evangelização, justiça social, diálogo inter-religioso, educação, saúde e engajamento cultural. A Missiologia também oferece uma perspectiva global, analisando tendências históricas e contemporâneas na missão cristã.

Visão Histórica das Missões Cristãs

Durante a Igreja Primitiva e Período Patrístico o Cristianismo se espalhou pelo mundo mediterrâneio, sobretudo nos impérios Romano e Parta principalmente através dos esforços de figuras como o Apóstolo Paulo e Agostinho. O foco estava na conversão e no estabelecimento de comunidades cristãs.

O período medieval viu atividades missionárias entrelaçadas com o monasticismo e a conversão de tribos tidas como bárbaras na Europa, além de propagação gradual e formação de igrejas nativas na África e Ásia. As Cruzadas também desempenharam um papel na disseminação do catolicismo romano através de meios forçados entre populações cristãs não católicas, judeus e muçulmanos.

A expansão europeia durante a Era da Exploração levou ao estabelecimento de impérios coloniais, acompanhados por empreendimentos missionários católicos e protestantes nas Américas, África e Ásia. No entanto, essas missões muitas vezes se envolveram com o colonialismo e enfrentaram críticas. Ações de franciscanos e jesuítas destacaram-se. No século XVII aparecerem missões protestantes nas Índias Orientais e, sobretudo, no século seguinte as missões globais e transculturais dos morávios.

O século XIX testemunhou o surgimento de sociedades missionárias protestantes, focadas em educação, saúde e desenvolvimento social ao lado da evangelização. Surgiram debates sobre métodos missionários e sensibilidade cultural.

O século XX viu movimentos de descolonização e o surgimento de igrejas indígenas, bem como o surgimento de movimentos de evangelização e Pentecostalismo. As respostas missiológicas à globalização e ao secularismo enfatizaram a contextualização e a parceria com igrejas locais.

Teorias e Paradigmas do Trabalho Missionário

Paradigmas Missionários Clássicos:

  1. Paradigma da Salvação: centra-se na conversão individual e a vida eterna.
  2. Paradigma da Civilização: considera a missão como um veículo de levar a cultura e valores, sobretudo ocidentais, para outras sociedades.
  3. Paradigma do Desenvolvimento: concentra-se em melhorar as condições materiais e o desenvolvimento socioeconômico.

Paradigmas Missionários Contemporâneos:

  1. Igrejas Indígenas e Autossustentáveis: busca estabelecer e fortalecer igrejas locais indígenas. Os clássicos três “autos”, depois acrescido por um quarto “auto” resumem esse paradigma: igrejas com autogoverno, autossuporte e autopropagação e autônomas na reflexão teológica.
  2. Cristianismo global: demograficamente o cristianismo deslocou-se do mundo ocidental e norte global para concentrar-se no mundo majoritário da América Latina, África e Ásia. Assim, fluxos sul-norte e sul-sul são responsáveis pela propagação do evangelho em uma larga escala, mas sem se guiar por ditames euroamericanos.
  3. Missão Integral: ligado ao movimento evangélico de Lausanne, busca uma abordagem holística, abordando dimensões espirituais, sociais e econômicas.
  4. Inculturação e Contextualização: encoraja a adaptação da fé às culturas e contextos locais.
  5. Teologia da Libertação: aborda a injustiça social e capacita comunidades marginalizadas. Tipicamente latinoamericana, sul-africana e sul-coreana, além de missiologias
  6. Igrejas Missionais: movimentos que encorajam igrejas locais a se tornaram epicentros de comunicação do evangelho em contextos urbanos e segmentos onde o cristianismo perdeu relevância política ou cultural, como a academia.
  7. Parceria e Mutualidade: Destaca a colaboração entre missões e igrejas locais, enfatizando aprendizado mútuo e respeito.
  8. Missões de todo lugar a qualquer lugar, de toda pessoa a qualquer pessoa.

A Grande Comissão e a teologia da Missão


A Grande Comissão (Mateus 28:16-20), dada por Jesus a Seus discípulos, serve como pedra angular para a missão cristã. Neste texto, Jesus ordena a Seus seguidores que vão, façam discípulos, batizem e ensinem, indicando a natureza universal e o alcance da missão.

Ao longo de Seu ministério, Jesus personificou a missão de Deus. Ele proclamou o Reino de Deus, abraçou os marginalizados e excluídos, demonstrou o amor de Deus por meio de curas e milagres, e comissionou Seus discípulos para continuarem Sua obra.

O Livro de Atos narra a expansão da igreja primitiva por meio do evangelismo e do empoderamento do Espírito Santo. Por meio de jornadas missionárias, como as de Paulo, os primeiros cristãos enfrentaram desafios culturais e religiosos, enfatizando a importância da comunidade e da comunhão no avanço da missão.

Perspectivas do Antigo Testamento sobre Missão e a Missão de Deus no Mundo:

O Antigo Testamento estabelece o fundamento para o plano redentor de Deus para a humanidade. Isso inclui a aliança com Abraão, com a promessa de bênção para todas as nações, a história do Êxodo simbolizando a libertação da escravidão, e a visão dos profetas de paz e justiça universais.

Israel, como povo escolhido de Deus, tinha uma missão de ser luz para as nações, testemunhando o caráter e os propósitos de Deus. Isso envolvia servir como um modelo de justiça e compaixão, embora muitas vezes não conseguissem cumprir essa missão completamente.

O Antigo Testamento também destaca os desafios e críticas da missão de Israel. Apesar de seu chamado único, Israel frequentemente falhou em cumpri-lo, levando a tensão entre sua missão universal e identidade particular. Essas implicações teológicas continuam a moldar nossa compreensão da missão de Deus hoje.

Reflexões Teológicas sobre Evangelismo, Discipulado e Edificação do Reino

O evangelismo é central para a missão cristã, envolvendo o compartilhamento da mensagem do Evangelho de Jesus Cristo. É um convite à transformação pessoal e à salvação, empregando diversas abordagens e métodos de comunicação fundamentados em motivações teológicas.

O discipulado envolve crescimento e transformação em Cristo, aprendendo e vivendo os ensinamentos de Jesus, e capacitando e fortalecendo outros para o ministério. Trata-se de construir comunidades de fé e amor, nutrindo indivíduos para se tornarem seguidores fiéis de Jesus.

A edificação do Reino reflete o reinado de Deus de justiça, paz e amor, chamando os cristãos a trabalharem pela transformação de indivíduos e da sociedade. Envolve-se com questões e estruturas sociais, guiadas pela esperança escatológica e pela antecipação do cumprimento futuro.

Desafios e Oportunidades nas Missões Contemporâneas

As missões enfrenta uma série de desafios e oportunidades no contexto contemporâneo. Eis alguns deles.

  1. Ética Missionária e Imperialismo Cultural: separar evangelho de etnocentrismo.
    A ética missionária é fundamental para o respeito às culturas locais, valores e autonomia das comunidades-alvo. Isso contrasta com o imperialismo cultural, que pode impor valores e estruturas dos missionários. Navegar nas diferenças culturais requer sensibilidade, adaptação e inculturação. Examinaremos estudos de caso, como missões coloniais, perspectivas indígenas e diretrizes éticas.
  2. Missões e Justiça:
    As bases bíblicas para a justiça enfatizam o cuidado com os pobres, marginalizados e oprimidos. As missões são vistas como um ministério compreensivo, abordando tanto as necessidades espirituais quanto materiais. No entanto, há inevitáveis conflitos entre uma missão apolítica e a necessidade de envolvimento com estruturas sociais e injustiças. Exemplos incluem educação, cuidados de saúde, advocacia em favor dos vulneráveis e desenvolvimento comunitário.
  3. O Papel da Tecnologia e da Globalização nas Missões:
    A tecnologia oferece oportunidades significativas para a comunicação, colaboração, compartilhamento de recursos e alcance global. No entanto, também apresenta desafios, como a divisão digital, sensibilidade cultural, riscos online e uso ético de dados. Tecnologias emergentes, como mídias sociais, plataformas móveis e narrativas digitais, através de casos de estudo envolvendo ministérios online, evangelismo baseado em tecnologia e parcerias globais.
  4. Perseguição e Martírio:
    O enfrentamento da perseguição religiosa é uma realidade histórica e contemporânea para muitos cristãos. Há exemplos bíblicos e históricos de perseguição, bem como a teologia do martírio, destacando a importância do testemunho cristão em tempos de adversidade. A missiologia também aborda maneiras de apoiar os cristãos perseguidos por meio de ativismo, oração e assistência prática.
  5. Grupos de Pessoas Não Alcançadas e Missões de Fronteira:
    Identificar e alcançar grupos de pessoas não alcançadas apresenta desafios únicos, como barreiras linguísticas, acesso e preocupações com segurança. A missiologia discute abordagens em uma reflexão crítica para alcançar esses grupos, enfatizando a colaboração, respeito cultural e engajamento a longo prazo. Também há considerações éticas, como evitar a interrupção sociocultural, construir confiança e promover a sustentabilidade.
  6. Sustentabilidade e Impacto de Longo Prazo das Iniciativas Missionárias:
    Além de projetos de curto prazo, as missões devem se concentrar na construção de autossuficiência e liderança local. A missiologia busca construir bases comunitárias e parcerias, capacitando igrejas e organizações locais. Isso requer avaliação do impacto a longo prazo, incluindo resultados mensuráveis, transformação social e mudanças duradouras.
  7. Ecumenismo:
    O ecumenismo moderno nasceu das iniciativas missionárias. Ainda hoje os movimentos ecumênicos promovem a unidade e cooperação entre as denominações cristãs, oferecendo oportunidades para projetos conjuntos, diálogo e iniciativas evangelísticas compartilhadas. Enquanto desafios como divisões históricas e diferenças teológicas persistem, o ecumenismo continua a ser uma força positiva nas missões contemporâneas. É um remédio ao proselitismo e ao exclusivismo denominacional.
  8. Fraternidade Intradenominacional:
    Conectar e colaborar dentro de uma única denominação globalmente oferece oportunidades para compartilhar recursos, melhores práticas e experiências. No entanto, as denominações com alcance global enfrentam desafios como diversidade cultural, barreiras de comunicação e estruturas de liderança. Desentendimentos quanto aos papéis das igrejas que enviam e recebem obras missionárias, bem como o desenvolvimento da autonomia exigida normalmente por questões legais nacionais e necessidades culturais são desafios constantes. Exemplos de iniciativas colaborativas incluem missões denominacionais, conferências globais e ministérios compartilhados.

BIBLIOGRAFIA

Bosch, David J. Transforming Mission: Paradigm Shifts in Theology of Mission (1991).
Jenkins, Philip. The Next Christendom: The Coming of Global Christianity (2002)
Newbigin, Lesslie. The Gospel in a Pluralist Society (1989).
Sanneh, Lamin. The Changing Face of Christianity: Africa, the West, and the World (2009).
Tennent, Timothy C. Theology in the Context of World Christianity: How the Global Church Is Influencing the Way We Think about and Discuss Theology (2007).
Walls, Andrew F. The Missionary Movement in Christian History: Studies in the Transmission of Faith (1996).

Linn Tonstad

Linn Marie Tonstad (nascida em 1978) é uma teóloga americana e professora associada de Teologia, Religião e Sexualidade na Yale Divinity School.

A teologia construtiva de Tonstad situa-se na interseção entre teologia sistemática, teoria queer e feminista, filosofia da religião e método teológico. É autora de “God and Difference: The Trinity, Sexuality, and the Transformation of Finitude” e “Queer Theology: Beyond Apologetics”.

Método de Correlação

O método de correlação, desenvolvido pelo teólogo Paul Tillich, é uma metodologia de produzir análises e raciocínios teológicos. Em suma, esse método busca explicar os conteúdos da fé cristã explorando a interdependência entre perguntas existenciais e respostas teológicas.

A abordagem de Tillich foi fundamentada na necessidade de um método teológico que permanecesse fiel à essência da mensagem cristã enquanto dialogava com expressões contemporâneas e questionamentos existenciais. Esse método, frequentemente considerado uma marca da teologia sistemática de Tillich, visava estabelecer uma ponte entre a fé cristã atemporal e as preocupações sempre presentes da humanidade.

As pressuposições de Tillich o levaram a propor o método de correlação, que determinou toda a estrutura e forma de sua abordagem teológica. A importância dessa abordagem reside em sua rejeição consciente de três alternativas inadequadas, conforme percebidas por Tillich.

A primeira alternativa, denominada “supranaturalista” ou “sobrenaturalista” seria sinônimo de uma teologia do alto e é comumente seguida por muitos teólogos protestantes. Segundo Tillich, essa abordagem é inadequada porque negligencia as perguntas e preocupações prementes dos seres humanos, a “situação” em que se encontram. A perspectiva supranaturalista espera que a Palavra de Deus crie a possibilidade de compreender e aceitar sua verdade sem considerar suficientemente o contexto existencial dos destinatários.

Para Tillich, a inadequação dessa abordagem reside em seu desrespeito pelas perguntas que os seres humanos realmente fazem. Enfatiza que “o homem não pode receber respostas para perguntas que ele nunca fez”. Essa rejeição da postura supranaturalista desafia tanto o fundamentalismo quanto a neo-ortodoxia de Barth. O argumento de Tillich sustenta que as perguntas certas, cruciais para compreender e aceitar a mensagem cristã, estão inherentemente presentes na experiência humana.

O teólogo também rejeita métodos humanistas ou naturalistas, fundados na confiança da razão. Ademais, rejeita os métodos dualistas ou dialéticos, como o tomismo.

Tillich ilustra o método de correlação usando o exemplo de “Deus”. Deus, neste contexto, representa a resposta à questão implícita na finitude humana. Dentro da teologia sistemática, Deus é retratado como o poder infinito do ser resistindo à ameaça do não-ser, correlacionando-se com os desafios existenciais inerentes à existência humana.

A teologia sistemática, seguindo este método, analisa a natureza da razão humana sob condições existenciais, revelando uma busca pela revelação. A revelação divina é então interpretada como a resposta às questões levantadas pela razão. Este padrão continua por toda a teologia, onde cada resposta deriva sua forma da pergunta e seu conteúdo da revelação. O método de correlação de Tillich permanece, portanto, uma contribuição profunda e duradoura para a teologia, unindo a mensagem cristã atemporal às preocupações existenciais contemporâneas da humanidade.

Portanto, o método de correlação serve como uma ponte entre as verdades eternas do cristianismo e a realidade vivida pelos indivíduos. A ênfase de Tillich em se envolver com perguntas existenciais reflete um compromisso com uma teologia que não está desconectada das preocupações da humanidade. Ao rejeitar alternativas inadequadas, buscou desenvolver um método que ressoasse com a profundidade da experiência humana, mantendo-se fiel aos princípios fundamentais da fé cristã.

Imagens de Deus

As imagens preconcebidas de Deus influenciam na hermenêutica bíblica, como outras categorias e pressupostos que o leitor traz para a leitura.

No âmbito da hermenêutica, deve-se levar em conta a influência de ideias preconcebidas na leitura das Escrituras sagradas. Uma delas é a concepção de Deus. O psicólogo e teólogo Karl Frielingsdorf propôs uma tipologia de imagens de Deus. Aqui utilizamos essa tipologia para retratar as diferentes concepções que os indivíduos portam para lerem as Escrituras.

Frielingsdorf afirma que a compreensão que uma pessoa tem de Deus começa nos anos de formação. São moldadas pela socialização religiosa, experiências familiares e influências culturais. Essas primeiras imagens de Deus, sejam provedoras e protetoras ou punitivas e julgadoras, tornam-se os “Grundfolien” ou modelos fundamentais que influenciam pensamentos, emoções e ações subsequentes (Frielingsdorf 1993).

O leitor avaliará todas as representações de Deus na Bíblia de acordo com o que ele ou ela imagina. Então, este exercício eisegético afetaria mais tarde a sua percepção da realidade, da vida espiritual e da teologia.

Os quatro tipos de imagens de Deus propostas por Frielingsdorf são:

  1. O Deus da lacunas e a hermenêutica dualista: Indivíduos que percebem Deus como um substituto para necessidades não satisfeitas podem abordar a Bíblia com uma predisposição para interpretações dualistas, dividindo o texto num reino de bondade divina e num mundo humano repleto de mal. Isto pode levar a uma leitura seletiva, enfatizando passagens que reforçam um Deus benevolente e negligenciando aquelas que desafiam este imaginário reconfortante. Buscam ver milagres todos os dias ao invés de cada dia como um milagre. Possuem dificulades de verem Deus no cotidiano, no ordinário, no profano, mas somente no sobrenatural, no miraculoso, no extraordinário.
  2. O Deus Juiz Punitivo e a hermenêutica do medo: Os leitores com essa imagem de um Deus punitivo podem interpretar as narrativas bíblicas através das lentes do medo. Cada evento bíblico pode ser visto como consequência da retribuição divina, dificultando uma compreensão matizada do contexto cultural e histórico da Bíblia. São incapazes de enxergar um Deus gracioso e misericordioso. Por considerar Deus como incapaz de perdoar, vivem com medo do castigo divino, moldando suas orientações morais e éticas.
  3. O Deus Contabilista e a hermenêutica legalista: Aqueles que têm uma imagem de Deus como um contador exigente tendem a abordar a Bíblia com uma mentalidade legalista, percebendo os mandamentos e as leis como um registro meticuloso dos atos humanos. Isto pode levar a uma interpretação intransigente dos textos bíblicos. Esse leitor terá foco na adesão às regras, em vez de na compreensão dos princípios espirituais subjacentes.
  4. O Deus gestor por desempenho e Teologia Baseada nas Obras: Indivíduos que veem Deus como uma divindade que valoriza o desempenho e o sucesso podem interpretar a Bíblia através de lentes teológicas baseadas nas obras. Isto pode levar a uma ênfase na realização pessoal e na justiça a qual se sentem receptores. Gera uma concepção meritocrática da relação com Deus. Assim, é fácil negligenciar os temas centrais da graça, da misericórdia e do poder transformador da fé nas narrativas bíblicas.

BIBLIOGRAFIA

Frielingsdorf, Karl. Dämonische Gottesbilder. Mainz: Mattias Grünewald, 1993.

VEJA TAMBÉM

Teologia dos atributos

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