Primitivismo

“O cristianismo histórico primitivo deve ser sempre essencialmente normativo, e se tipos posteriores de religião divergem tanto do tipo primitivo que passam a considerar o que é encontrado no Novo Testamento mais uma vergonha do que uma inspiração a questão é se eles ainda podem ser reconhecidos como cristão.” — James Denney. The Christian Doctrine of Reconciliation, pp. 26-27.

O primitivismo é uma doutrina, atitude e ideal encontrado entre alguns grupos cristãos que veem na Igreja do Novo Testamento um parâmetro para ser seguido. Assim, doutrinas, regras de convívio, práticas de culto, organização de seus crentes, rejeição de “novidades” formam um conjunto de traços valorizados pelas comunidades primitivistas como replicando a primitiva igreja dos apóstolos.

O historiador Grant Wacker nota no primitivismo um anseio por pureza em doutrina, nas origens e no cumprimento de um mandado divino — tudo intocado pelas limitações e corrupções da existência ordinária.

Frequentemente o primitivismo demanda uma teologia da história para explicar sua própria existência. Nessa teologia há três tipos de narrativas. A primeira é a da fundação independente quando alguém ou um grupo honesto e cândido redescobre a eclesiologia dos cristãos primitivos sem intermediários denominacionais ou eruditos pela leitura pura da Bìblia. A segunda narrativa é a da sucessão marginal, pelo qual o grupo reivindica uma “história alternativa” de sucessão de grupos (montanistas, donatistas, paulicianos, valdenses e anabatistas são alguns favoritos), cuja ligação entre si e suas histórias são mal atestadas por serem grupos subalternos e perseguidos. Por fim, há a teologia restauracionista, no qual considera que em alguma fase histórica o cristianismo desviou-se totalmente e extinguiu-se, carecendo uma dispensação ou revelação que restaurassem doutrinas, práticas ou eclesiologia do cristianismo autênticas do Novo Testamento.

Ordens medicantes medievais, o movimento joaquimita, os anabatistas (e a Reforma em geral por sua busca ad fontes de voltar aos princípios do cristianismo), os pietistas radicais (morávios, dunkers, metodistas primitivos), os batistas primitivos, o movimento de restauração (Igrejas de Cristo e Discípulos de Cristo), o movimento dos Irmãos (de Plymouth ou Casa de Oração), muitos grupos pentecostais e cristianismo indígenas esposam alguma forma de primitivismo.

A exclusão social e sua atração por classes populares fazem com que adeptos do primitivismo vivam em tensão com instituições da sociedade dominantes. Assim, muitos grupos rejeitam algumas profissões e educação avançada que os ponha em contato próximo com o mundo secular. Casamentos tendem a ser endogâmicos. O isolamento denominacional leva a não compartilhar o púlpito com ministros não filiados. Nesse ambiente, muitos desenvolvem uma mentalidade exclusivista de ser o melhor e o único representante fiel do cristianismo do Novo Testamento com base em seletos pontos de identidade do grupo.

Muitas críticas há em relação ao primitivismo. A imaginação idealizada sobre os primeiros cristãos leva a desconsiderar os problemas da Igreja primitiva. Faccionalismo, heresias e controvérsias são registrados no Novo Testamento. Adicionalmente, grupos primitivistas fazem uma leitura arbitrária das Escrituras para selecionar quais traços serem critérios de validade e comunhão. A atualização e contextualização de práticas e doutrinas do século I para os tempos atuais também é seletiva. Por fim, a doutrina de Cristo e dos apóstolos preemptoriamente rejeita a comunhão de salvação com Deus com base em associação com um grupo, atitude comum em vários grupos insulares em nome de um primitivismo.

Com suas doutrinas, história e práticas próprias, o primitivismo deve ser reconhecido como uma legítima expressão da cristandade. Sua atitude anti-estabelecimento possibilita o exercício ativo do ministério e missão por segmentos diversos da população. O desejo honesto de moldar-se conforme os parâmetros bíblicos de vida em Igreja é um alerta contra a adição e supressão de elementos do cristianismo para se conformar detrimentalmente às exigências políticas e culturais dominantes nas sociedades locais.

BIBLIOGRAFIA
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Hughes, Richard Thomas, ed. The American quest for the primitive church. University of Illinois Press, 1988.

Fideo-simbolismo

O fideo-simbolismo foi um movimento teológico originário dentre evangélicos francófonos do século XIX que insistia na fé – na relação com Deus – e diminuía a importância da doutrina. No fideo-simbolismo conhecimento de Deus é algo além da capacidade das fórmulas e expressões humanas apreenderem.

Meio às querelas teológicas entre evangélicos “ortodoxos” e “liberais”, dois professores da Faculdade de Teologia Protestante de Paris: Eugène Ménégoz, da Igreja Luterana, e Auguste Sabatier, da Igreja Reformada elaboraram o fideo-simbolismo como uma terceira via.

Ménégoz argumentava o fideísmo, de que a salvação era uma questão de fé e não de credo. Desse modo, os credos resultavam da experiência e do pensamento circunscritos a um período histórico, permanecendo sempre abertos a críticas e revisões. Proposições doutrinárias não afetam a essência ou o cerne da fé cristã.

Auguste Sabatier propôs simbolismo crítico influenciado por Kant, conciliando fé, ciência, história, psicologia, um cristianismo ativo e liberdade de pensamento. Argumentava que o conhecimento teológico é de natureza simbólica, pois Deus permanece além de nossas idéias, nossas imagens e nossas proposiçõs. Por essa razão, a mente humana é receptiva a questões espirituais e inexprimíveis. Doutrina e dogmas são relativos à evolução da experiência religiosa básica nutrida pela Bíblia e fundamentada em Cristo.

Os crentes deveriam ser unidos pela fé, na relação do ser humano com Deus. Rejeitava a uma religião fundada em uma autoridade (quer a do clero, quer de dogmas — mesmo considerar o texto bíblico como fonte de autoriadde) em benefício de uma religião intelectualizada resultante na experiência espiritual.

Como movimento, ganhou adesão das classes média e alta protestantes francesas. Sendo um movimento mais intelectual, foi substituído por outras correntes de pensamento ao longo do século XX.

Espírito Santo

O Espírito Santo a revelação — ainda que elusiva — da presença de Deus no mundo e entre os seguidores de Deus. Nas Escrituras Hebraicas o Espírito Santo aparece como agente na criação (Gn 1:2; Sl 33:6; Ez 37:1-10); atua como fonte de inspiração e poder entre várias pessoas em Israel; e permanece como presença de Deus entre o povo ( Ez 11:14-21). No Novo Testamento é o Espírito de Deus que reveste de poder a Jesus como o Messias (Mt 3:13-17; Mt 12:28) e capacita a igreja para sua missão (Atos 2).

Na concepção cristã o Espírito Santo é uma Pessoa, no sentido de que possui vontade, inteligência e manifestação distintas. Assim, não se trata uma força ou energia, mas uma Pessoa (em grego hipóstase, não confundir Pessoa com indivíduo ou com o sentido popular dessa palavra em português) da Divindade Triúna,

O judaísmo rabínico identificou o Espírito Santo (hebraico Ruach ha-Kodesh) com a personificação da Glória de Deus (hebraico Shekinah) manifestada em 1 Sm 10:5-6, Is 6:1, Jr 14:21, Ez  8:4, Lc  2:9, Jo 17:22. Igualmente, tradições tardias identificaram a Sabedoria de Deus (em grego Sophia) (Pv  1:20–33; 8:1—9:12; 3:19; cf. Mt 11:19) com o Espírito Santo.

O Espírito Santo é criador (Gn 1:2; Jó 26:12-13; 33:4; S 104:27-31). Concede poder e inspira (Gn 41:38-39, Êx 28:3; 35:31; Dt 34:9, Jz  14:6, 19; 15:14-15; Is 61:1; Ez  2:1-2; Mq 3:8; Zc 7:12) e revela (1 Co 2:10). É onipresente (Sl 139:7-10). Assim, sendo igual e consubstancial com o Pai e o Filho, o Espírito Santo exerce poder, riquezas, sabedoria, força, honra, glória, e digno de receber ações de graças (cf. com os atributos ao Cordeiro de Deus em Ap 5:12).

Nomes, títulos e ação

Nas Escrituras o Espírito Santo não possui um nome próprio, por essa razão é referido por várias designações. Esses nomes remetem às ações, atributos, manifestações e propósitos do Espírito Santo.

  • Espírito Santo: Sl 51:11; Lc 11:13; Ef 1:13; 4:30. O vento, fôlego ou sopro – em latim Spiritus e em grego Pneumos – dão uma ideia que remete aos ventos que entre os povos do deserto significava a vida ou a morte: traziam a água ou destruíam tudo nas tempestades de areia quente como o vento simum (cf. Is 40:7, Sl 103-15-18, Jr 4:11, Os 6:3). Com um vento abriu o Mar Vermelho (Êx 14:21). Como fôlego, Deus dá o sopro da vida (Gn 2:7, Ez 37:9-10).
  • Os Sete Espíritos de Deus: Em Ap 1:4 o Espírito Santo é referido como os Sete Espírito de Deus, cujas designações aparecem em Is 11:2 “E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, e o Espírito de sabedoria e de inteligência, e o Espírito de conselho e de fortaleza, e o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor”.
  • Paracleto ou Paráclito: traduzido como Consolador (Jo 14:15-26; 15:26; 16:7) ou Advogado (1 Jo 2:1).
  • A inspiração do Todo-Poderoso: Jó 33:4.
  • A virtude do Altíssimo: Lc 1:35.
  • Espírito da glória de Deus: 1 Pe 4:14.
  • Espírito da graça: Zc 12:10; Hb 10:29.
  • Espírito da verdade: Jo 14:17; 15:26.
  • Espírito de adoção: Rm 8:15.
  • Espírito de ardor: Is 4:4.
  • Espírito de Cristo: Rm 8:9; 1 Pe 1:11.
  • Espírito de Deus: Gn 1:2; 1 Co 2:11; Jó 33:4.
  • Espírito de juízo, de justiça: Is 4:4; 28:6.
  • Espírito de profecia: Ap 19:10.
  • Espírito de sabedoria e de revelação: Is 11:2; Ef 1:17.
  • Espírito de santidade: Rm 1:4.
  • Espírito de vida: Rm 8:2; Ap 11:11.
  • Espírito do Filho: Gl 4:6.
  • Espírito do Pai: Mt 10:20.
  • Espírito do Senhor: Is 61:1, Is 11:2; At 5: 9.
  • Espírito Eterno: Hb 9:14.
  • Espírito voluntário: Sl 51:12.
  • O Bom Espírito: Ne 9:20; Sl 143:10.
  • O Espírito: Mt 4:1; Jo 3: 6; 1 Tm 4: 1.

Soteriologia forense

A soteriologia forense é um conjunto de teorias teológicas a respeito da salvação. A soteriologia forense emprega a metáfora de um processo penal de justificação no qual o pecador é declarado inocente.

Por esse modelo, a justificação dos pecadores ocorre pela declaração de perdão de Deus por causa da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Este modelo desenvolveu-se na Idade Média com base na doutrina da graça de Agostinho, mas em rejeição de seu conceito de justificação como “ficar justo”. Ganharia sua primeira formulação sistemática com a teoria de expiação por satisfação de Anselmo da Cantuária.

A consolidação de uma soteriologia distintivamente forense deve-se a Filipe Melâncton. Com base na concepção de Lutero de que a justificação seria externa (iustitia aliena), Melâncton formulou a doutrina justificação imputada para explicar a condição de justo e pecador. Nessa perspectiva, o pecador seria declarado justo na justificação enquanto a santificação seria algo distinto dentro da obra de salvação. O conceito luterano de justiça imputada bem como os sistemas teológicos calvinistas e arminianos, de uma forma ou outra, são construídos sobre essa metáfora forense. A partir de Calvino a soteriologia forense ganhou contornos de uma substituição penal.

Na esteira calvinista, Francisco Turretin argumentava esse arcabouço soteriológico com os seguintes termos:

A palavra justificação é forense porque as passagens que tratam da justificação não admitem outro sentido senão forense, Jó 9:3. Ps. 143:2, Rom. 3:28 e 4:1-3, Atos 13:39, e em outros lugares, onde um processo judicial é estabelecido, e é feita menção de uma lei acusadora, de pessoas acusadas, que são culpadas, Rom. 3:19, de uma cédula contrária a nós, Col. 2:14, da justiça divina exigindo punição, Rom. 3:24, 26, de um advogado que defende a causa, 1 João 2:1, de satisfação e justiça imputada, Rom. 4 e 5; de um trono de graça diante do qual somos absolvidos, Heb. 4:16, de um Juiz pronunciando sentença, Rom. 3:20, e absolvendo os pecadores, Rom. 4:5.

Turretin

Uma crítica a essa escola soteriologica é atribuir uma inabilidade de Deus exercer livremente sua graça exceto via pagamento dos pecados mediante o sacrifício da cruz. Em outras palavras, pela soteriologia forense a oração dominical pedindo “perdoai as nossas dívidas” estaria errada, pois Deus seria incapaz de perdoar. Portanto, na oração deveria dizer “pagai as nossas dívidas”. Outra crítica é a noção abstrata de justiça e a concepção descontextualizada de justificação. Justiça — nos sentidos bíblicos de dikaiosynē ou tzedekah– implicaria em uma justificação que produza retidão, não se limitando a ser declarado justo. Adicionalmente, nas concepções magistrais de justificação refere-se somente à justiça retributiva, a qual é um dentre vários modelos de justiça, sem contemplar outros modelos desse conceito, como a justiça restaurativa da época do Novo Testamento. Por fim, alguns teólogos consideram a punição de um justo para satisfazer as faltas de alguém injusto um ato sádico que não condiz com o Deus bíblico.

Como todo modelo interpretativo, a soteriologia e justificação forenses são uma construção externa para rearranjar e configurar coerentemente as doutrinas bíblicas. Assim, há pontos fortes e fracos. No entanto, em uma confusão mapa-território, alguns teólogos igualam este modelo explicativo com o próprio evangelho, perfazendo exercícios de eisegese com as Escrituras.

Outros modelos soteriológicos bíblicos mais conhecidos — especialmente fundamentados nas doutrinas sobre expiação e justificação — são a teoria da recapitulação (Irineu e Hicks); a teoria do resgate; a teoria de Christus Victor de Aulén; a teoria da satisfação de Anselmo; a teoria do exemplo moral; teoria da influência moral; teoria do bode expiatório (Girard, Allison); teoria governamental (Grócio); novo aliancismo; nova perspectiva de Paulo; soteriologias terapêuticas (transformativa, restaurativa ou regenerativa); theosis, dentre outras.

BIBLIOGRAFIA

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Green, Joel B.; Baker, Mark D. Recovering the scandal of the Cross: Atonement in New Testament & contemporary contexts. InterVarsity Press, 2000.

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Rashdall, Hastings. The Idea of Atonement in Christian Theology. London: Macmillan, 1925.

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Stott, John R.W. The Cross of Christ. Downers Grove, Ill. : InterVarsity Press, 1986.

Turretin, Francis. Forensic Justification, https://www.ligonier.org/learn/articles/forensic-justification

Calvinismo

Calvinismo é uma designação para diversos sistemas teológicos com alguma conexão com o pensamento do reformador do século XVIII João Calvino.

Frequentemente o termo é utilizado de modo intercambiável com teologia reformada. Entretanto, o termo calvinismo quando empregado sem qualificações tende a se referir (1) à teologia de João Calvino, o que seria em sentido estrito calvinismo; (2) à teologia que reclama o legado de João Calvino conforme formulada pelo Sínodo de Dort ou Calvinismo de Cinco Pontos; (3) ao tipo sociológico proposto por Max Weber para o protestantismo de valores individuais e predestinacionista com base na tradição reformada; (4) ao novo movimento religioso com origem em países de língua inglesa a partir dos anos 1960 que reformula a tradição teológica reformada sob aspectos de subordinacionismo e salvação pelo Senhorio, além de ativa participação sociocultural e política também chamado de Novo Calvinismo.

Construída em uma teologia dos atributos divinos, o calvinismo enfatiza a soberania divina. Suas influências e matrizes são a filosofia estóica, o neoagostinianismo renascentista e a soteriologia forense (principalmente a reelaboração da teoria de satisfação de Anselmo como substituição penal por Calvino). Em seus desdobramentos internos levaram à formação do supra e infralapsarianismo, do amiraldismo, do arminianismo, a “New School Presbyterianism”, o fullerismo batista, Cocceianismo ou aliancismo, Neocalvinismo Kuyperiano e seu desdobramento na teologia reformacional, a teologia de Keswick, a Neo-Ortodoxia Barthiana, dentre outros. Além dessas variantes, diversas tradições nacionais (suíça, alemã, francesa, holandesa, húngara, escocesa, inglesa, galesa, americana, indonésia, coreana e sulafricana são as principais) apresentam ênfases e conceptualizações distintas.

BIBLIOGRAFIA

Allen, Michael; Swain, Scott R. eds. The Oxford Handbook of Reformed Theology. Oxford University Press, 2020.

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Crisp, Oliver D. Deviant Calvinism: Broadening Reformed Theology. Minneapolis: 1517 Media, 2014. Accessed August 11, 2021. doi:10.2307/j.ctt9m0szp.

Kendall, R. T. João Calvino e o Calvinismo Inglês até 1649. Carisma, 2019.

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Holt, Mack P., ed. Adaptations of calvinism in Reformation Europe: essays in honour of Brian G. Armstrong. Routledge, 2016.

Maxwell, Paul. The Trauma of Doctrine: New Calvinism, Religious Abuse, and the Experience of God. Minneapolis, Fortress Academic, 2021.

Olson, Roger E. Against Calvinism: Rescuing God’s Reputation from Radical Reformed Theology. Zondervan Academic, 2011.

Sinnema, Donald; Moser, Christian; Selderhuis, Herman. Acta et Documenta Synodi Nationalis Dordrechtanae. Série em dez volumes. Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2015-.

Vermurlen, Brad. Reformed Resurgence: The New Calvinist Movement and the Battle Over American Evangelicalism. Oxford University Press, 2020.

Paolo Geymonat

Paolo Geymonat (1827 – 1907) foi pastor valdense e professor da Faculdade de Teologia valdense. Como evangelista e teólogo do movimento de risveglio influenciou a formação espiritual de uma geração de evangélicos italianos

.

Estudou na Genebra na École de Théologie de l’Oratoire, ligada ao réveil, o movimento de avivamento entre os suíços. Esteve por um breve período em Württemberg para aperfeiçoar sua educação.

Em 1849, foi enviado a Florença e Roma para apoiar a missão de evangelização iniciada na esteira do movimento do Risorgimento. Em Florença se juntou ao pastor Bartolomeo Malan na obra de evangelização. Descoberto pela polícia durante uma reunião de oração, Geymonat foi preso e expulso do Grão-Ducado da Toscana.

Posteriormente trabalhou em Turim e a partir de 1851 em Gênova e onde teve Bonaventura Mazzarella como colaborador. Nessa época atendeu os novos convertidos da cidadezinha de Favale di Malvaro, maior parte da família de menestreis, os Cereghino.

Com a fundação da Escola de Teologia de Torre Pellice foi chamado para lecionar. A transferência da Escola de Teologia para Florença resultou na organização da Igreja Valdense naquela cidade.

Junto com Alessandro Gavazzi, Geymonat buscava a unificação das Igrejas Evangélicas Italianas e foi incumbido de fazer um estudo doutrinal sobre a possibilidade de alcançar esta união.

Depois de sua emeritação em setembro de 1902 faleceria em Florença.

Sua teologia é tipicamente do réveil genebrino. Para Geymonat a fé se expressa como uma experiência íntima de comunhão com Cristo, por meio da qual Deus revelou a verdade. Defendia a doutrina da inspiração plenária da Bíblia e do alcance universal do sacrifício de Jesus Cristo.

Foi professor de Filippo Grilli, ao qual transmitiu sua teologia à Primeira Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago, formada por muitos convertidos ou de seus descendentes do trabalho evangelístico de Geymonat.

BIBLIOGRAFIA

Van Den End, Thomas. Paolo Geymonat e il movimento evangelico in Italia nella seconda metà del secolo XIX. Torino: Claudiana, 1969.

Livros de Geymonat

“Paolo Geymonat” Dizionario dei protestanti in Italia

Ex opere operato

Esta frase latina significa que “da obra realizada em si” pelos sacramentos é eficaz em si mesma e não dependente da virtude do ministro ou destinatário.

A dependência da eficácia sacramental das condições do agente (ex opere operantis) gera alguns problemas teológicos. Assim, não haveria ministros ou destinatários com capacidade de administrar os sacramentos, dada a condição geral de falibilidade humana. Entretanto, atribuir um poder mágico ao sacramento, com eficácia independente da fé, contraria a obra regenerativa interior proporcionada por Cristo mediante o Espírito. Esse raciocínio levaria a condições conflitantes com a fé em Cristo. Por exemplo, uma pessoa acidentalmente batizada ou que participasse da Santa Ceia estaria automaticamente em comunhão divina, mesmo que jamais tenha sequer sabido quem foi Jesus Cristo.

Uma antiga facção cristã no norte da África no século IV, os donatistas, diziam que os atos sacramentais feitos por ministros corruptos eram inválidos. Durante a Reforma a questão reacendeu, com os protestantes enfatizando a fé do destinatário o catolicismo trentino que a eficácia dos sacramentos dependia não dos ministros, mas do ofício de Cristo realizado neles.

O Artigo 26 dos “39 Artigos de Religião Anglicana” resume a via média a respeito:

ARTIGO XXVI – DA INDIGNIDADE DOS MINISTROS, A QUAL NÃO IMPEDE O EFEITO DOS SACRAMENTOS

Ainda que na Igreja visível os maus sempre estejam misturados com os bons, e às vezes os maus tenham a principal autoridade na Administração da Palavra e dos Sacramentos; todavia, como o não fazem em seu próprio nome, mas no de Cristo, e em comissão e por autoridade dele administram, podemos usar do seu Ministério, tanto em ouvir a Palavra de Deus, como em receber os Sacramentos. Nem o efeito da ordenança de Cristo é tirado pela sua iniqüidade, nem a graça dos dons de Deus diminui para as pessoas que com fé e devidamente recebem os Sacramentos que se lhe administram; os quais são eficazes por causa da instituição e promessa de Cristo, apesar de serem administrados por homens maus.

Não obstante, à disciplina da Igreja pertence que se inquira acerca dos Ministros maus, e que sejam estes acusados por quem tenha conhecimento de seus crimes; e sendo, enfim, reconhecidos culpados, sejam depostos mediante justa sentença.

Palavra de Deus

Palavra de Deus, Logos de Deus, Memra de Deus, Verbo de Deus refere-se à presença divina autocomunicada existente com Deus. No Novo Testamento é exclusivamente manifestada como pessoa em Jesus Cristo (Jo 1:1; 1 Jo 1:1-3, 5; Ap 19:13).

Este conceito, proverbialmente difícil de se traduzir, tradicionalmente aparece como Verbo ou Palavra nas Bíblias de língua portuguesa.

DEFINIÇÕES SEMÂNTICAS E TEOLÓGICAS

O termo teológico Palavra aparece de três formas na Bíblia:

  • A raíz d-b-r, especialmente davar, דָּבָר, H1821, em seu significado originário transmite as ideias de algo pensado (noético), dinâmico e seu produto (coisas). No sentido particular como d-b-r pertinente a Deus refere-se a seu modo de existência que cria e mantém o universo, bem como comunica a vontade divina. No Antigo Testamento a Palavra de Deus é criativa (Gn 1; Is 55:10-11) e dotada de comando (Am 3:1).
  • Logos λόγος, G3364. Em seu sentido genérico significa discurso ou a razão em exercício (raciocínio). Porém, ganha uma conotação especial no conceito de logos como razão ou ordem subjacente conforme conceberam-na os filósofos gregos, servindo a calhar para traduzir o conceito de d-v-r de Deus. Complica mais seu conteúdo semântico por ser próximo de léxis, enunciados, do qual logos com plural logoi é quase sinônimo. A logia (plural de logos) de Deus como atos da razão subjacente na Criação foi particularmente empregada por autores israelitas do segundo Templo, tanto em literatura parabíblicas como Filo de Alexandria, como um modo de existência distinto do próprio Deus. E um termo semanticamente próximo é o logion (G3051) é uma declaração divina ou um oráculo, cujo plural é logia. Nesse último sentido, aparece em At 7:38; Rm 3:2; Hb 5:12; 1 Pe 4:11.
  • Rhema, ῥῆμα, G4839, expressão verbal, assunto. No que se refere à rhema divina indica à autoridade do que é dito por Deus (Rm 10:17).

Na expectativa messiânica do período do Segundo Templo esperava-se pela manifestação do D-B-R/Memra/Logos. A Septuaginta traduz davar como logos e rhema quase de modo intercambiável e com sentido virtualmente sinônimos esses termos aparecem no Novo Testamento. Nesse sentido aparecem nas versões aramaicas da Bíblia Hebraica, Targum, que utilizam o termo Memra, a Palavra personificada.

O Cristianismo reconheceu essa manifestação em Jesus Cristo (Jo 1:1; 1 Jo 1:1-3, 5; Ap 19:13). O Logos joanino é fortemente paralelo ao conceito de Sabedoria no judaísmo de expressão helenística. Nele, a Sabedoria e a Palavra já estavam associadas (Sabedoria de Salomão 9:1-2).

O evangelho de João afirma que o Logos estava plena e unicamente identificado com Jesus Cristo. Comparando com autores da época, o Logos para Filo, por exemplo, seria um modo divino, porém subordinado a Deus, mas pervasivo a todo pensamento racional. Em contraste, no evangelho de João a encarnação do Logos trouxe vida aos seres humanos, aos quais, de outra forma, ela não estaria disponível (Jo 1:1-18).

Há conotações no Novo Testamento no qual a “Palavra” frequentemente significa a mensagem cristã (2 Co 2:17; cf. 1 Co 1:18).

Durante a Reforma, consagrou-se a fórmula de a Palavra de Deus ter uma tripla manifestação: a Palavra de Deus encarnada em Jesus Cristo, a Palavra de Deus escrita testificada nas Escrituras e a Palavra de Deus proclamada na pregação do Evangelho.

TEXTOS BÍBLICOS RELEVANTES

  • Gênesis 15:1-6
  • 1 Samuel 3:1,7,19-21
  • Salmo 18:30
  • Salmo 33:4-6
  • Jeremias 1:4-10
  • João 1:1-3
  • Atos 6:7; 12:24; 13:49; 19:20
  • 1 Tessalonicenses 2:8-13
  • Hebreus 4:12; 13:7
  • 1 João 1:1-3, 5
  • Apocalipse 19:13

SAIBA MAIS

Boyarin, Daniel. “The Gospel of the Memra: Jewish Binitarianism and the Prologue to John.” Harvard Theological Review 94.3 (2001): 243-284.

Bullinger, Heinrich. “Artigo 1”. Segunda Confissão Helvética (1566).

Bury, Robert Gregg. The Fourth Gospel and the Logos-Doctrine. Cambridge, W. Heffer & Sons, 1940.

Currie, Thomas Christian. The Only Sacrament Left to Us: The Threefold Word of God in the Theology and Ecclesiology of Karl Barth. ISD LLC, 2016.

Em termos gerais, é um estado psicológico e relação com algo. Em sentido bíblico corresponde à fidelidade, confiança, comunhão relacional, convicção e depósito de crença.

No Antigo Testamento vários termos, normalmente não traduzidos, referem-se à fé. O mais comum deles é o ‘emunah,  אמונה, cujos sentidos originários eram do campo semântico de firmeza e estabilidade, do qual emerge o sentido de confiança e constância. Um de seus derivados é a palavra “Amém”. O emprego desse termo é diverso e tem conotações ativas. São geralmente traduzidas na Septuaginta por pisteoo, acreditar, e pistos, fiel.

Dois substantivos derivados são ‘emeth אֱמֶת, e ‘emunah אֱמוּנָה. Possuem um sentido passivo de fidelidade mais que algum sentido ativo de acreditar ou crer. Existem várias outras palavras que estão intimamente associadas à ideia de fé e fidelidade no Antigo Testamento, particularmente aquelas que denotam esperança. Outra raíz, h-s-d, denota a relação de Deus e o homem e do homem e o homem sob a aliança.

Os tradutores da Septuaginta preferiram o termo alētheia para ‘emeth e ‘emūnāh, o que quase sempre aparecem no Novo Testamento como verdade, realidade e autenticidade. Autores tardios do período do Segundo Templo refinaram o conceito, empregando também o termo grego antigo pístis (πίστις) com conotações distintas (Lindsay, 1993).

É bem notório que pístis aparece nesses textos de forma polissêmica. De uma lado do campo semântico pístis versa sobre o estado de espírito ou uma emoção de confiança a algo ou alguém. De outro lado do campo semântico, pístis é sobre o relacionamento e práxis feitos com segurança, lealdade, aliança e comunhão. (Morgan, 2015; Bates, 2017; Diggle, 2021).

Nas traduções latinas, consequentemente para o mundo ocidental, ‘emunah e pístis ganharam a conotação de fides, termo que já era utilizado para se referir à Pístis filosófica grega. A teologia latina, sobretudo a escolástica e mesmo a protestante transformou a semântica de fides para limitar-se à atividade cognitiva. Conforme formulado por Melâncton, a fides passou a compreender três coisas: notitia (entendimento), assensus, (reconhecimento) e fiducia (confiança). Entretanto, desde o século XVIII, tanto pelos avanços da epistemologia quanto pela ciências linguísticas e filológicas, os sentidos grego e hebraico de fé conforme a Bíblia foram redescobertos no mundo ocidental.

SAIBA MAIS

Bates, Matthew W. Salvation by Allegiance Alone: Rethinking Faith, Works, and the Gospel of Jesus the King. Baker Academic, 2017.

Diggle, James. The Cambridge Greek Lexicon. Cambridge University Press, 2021.

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Morgan, Teresa. Roman faith and Christian faith: Pistis and fides in the early Roman Empire and early Churches. OUP Oxford, 2015

Quiliasmo

Doutrina que haverá um reino divino na Terra por um milênio, conforme interpretação de Apocalipse 20:1-6.
As teorias escatológicas que consideram a existência literal do reino milenar são o pré-milenarismo (crença que Cristo reinará por mil anos antes do juízo final), pós-milenarismo (crença que a segunda vinda de Cristo e o juízo final serão precedidos por um reino de mil anos). Já o amilenarismo é o nome dado às teorias que consideram que o reino de Cristo será nos céus ou algo simbólico.