Graus de certeza dogmática

Na teologia dogmática católica romana há um gradiente de certeza doutrinal. A prática de avaliar ensinamentos doutrinários dentro da Igreja Católica implica uma hierarquia de verdades teológicas. Essa hierarquia, enraizada na tradição escolástica, avalia cada doutrina, determinando sua proximidade com a regula fidei remota (Escritura e Tradição) ou proxima (ensino eclesiástico). O Concílio Vaticano II afirmou uma hierarquia de verdades, reconhecendo suas diversas conexões com o fundamento da fé cristã.

Graus de Certezas Dogmáticas

  1. De fide: maior grau dogmático. Compreendem duas categorias.
    • De fide divina et catholica definita (ou simplesmente de fide definita): Maior certeza com base em um julgamento solene infalível (Definição) pelo papa ou por um concílio geral.
    • De fide divina et catholica (ou de fide divina): Verdades reveladas por Deus e ensinadas definitivamente pela Igreja.
  2. Fides ecclesiastica: o que a Igreja ensina infalivelmente verdades derivadas da revelação divina, incluindo conclusões teológicas, fatos dogmáticos e verdades filosóficas.
  3. Sententia fidei proxima: afirmação provavelmente revelada e ensinada pela Igreja, embora não de forma definitiva ou infalível.
  4. Doctrina catholica: Verdades ensinadas pelo magistério ordinário da Igreja.
  5. Theologice certa (ou Sententia ad fidem pertinens, Sententia certa): Verdade internamente ligada à revelação, mas não aceita com autoridade divina.
  6. Sententia communis: Verdade unanimemente ensinada por teólogos com pelo menos aprovação implícita da Igreja, permitindo discussão teológica.
  7. Sententia probabilis: Opinião baseada em boas razões, sujeita a discussão livre entre teólogos; subdividida em Sententia probabilior e Sententia bene fundata.
  8. Sententia pia: Opinião piedosa, mas menos certa do ponto de vista doutrinal.
  9. Sententia tolerata: Tolerada pela Igreja, mas não recomendada como opinião doutrinal.

Relevância e Interpretação


A teologia católica reconhece a natureza evolutiva da linguagem e do entendimento humano na interpretação de declarações dogmáticas. Também reconhece que as verdades doutrinais podem ser inicialmente expressas de forma incompleta, mas podem ser posteriormente esclarecidas e expandidas. A Igreja visa afirmar e iluminar o que já está contido na Escritura e na tradição, ao mesmo tempo que aborda questões específicas e corrige erros. A interpretação exige considerar o contexto da linguagem, o desenvolvimento do pensamento e a compreensão em evolução de verdades atemporais.

VEJA TAMBÉM

Adiáfora

Teolegúmena

Sinterese

Sinterese, Sinteresia ou sintérese (συντήρησιν) é um termo teológico para descrever um aspecto da consciência de alguém pelo qual se pode julgar o certo do errado e decidir o que constitui uma boa conduta em oposição à sineidese.

Aparece no Comentário sobre Ezequiel de Jerônimo. A sinterese seria um dos poderes da alma e é descrita como a centelha da consciência (scintilla conscientiae). O conceito de Jerônimo foi debatido por Alberto Magno e Tomás de Aquino com bases aristotélicas. Boaventura a considerou como a inclinação natural da vontade para o bem moral.

VEJA TAMBÉM

Yetzer ha-Ra’

Vestigia Trinitatis

Vestigia Trinitatis ou Vestigia Trinitata é um conceito teológico sobre vestígios da sinais discerníveis da Trindade em toda a criação.

O conceito foi desenvolvido por Agostinho, apesar de origens em Tertuliano. Agostinho costumava usar a mente humana como exemplo. Ao contrário das ilustrações, estes sinais são considerados impressões da Trindade formadas durante o ato da criação. A Vestigia Trinitatis foi uma analogia importante para o desenvolvimento do trinitarianismo psicológico.

O conceito evoluiu ao longo da Idade Média, com Boaventura enfatizando a distinção entre os vestígios e a semelhança e imagem da Trindade. No entanto, a noção teológica enfrentou escrutínio, nomeadamente por parte de Karl Barth. Barth contestou a ideia de duas raízes de conhecimento da Trindade – uma da natureza e outra da revelação – argumentando que somente a revelação é a fonte primária. Barth afirmou que os verdadeiros traços da Trindade são encontrados na auto-revelação de Deus, desafiando a ideia de uma disposição trinitária imanente nas realidades criadas à parte da revelação. Barth enfatizou que a verdadeira compreensão da Trindade surge do ato de Deus de se manifestar de maneira humana, sustentando que a revelação é a única raiz da doutrina da Trindade.

As discussões teológicas em torno de Vestigia Trinitatis investigam a tensão entre a revelação e a ordem criada, destacando o significado da linguagem e os desafios colocados pelas tentativas de derivar a Trindade apenas da natureza. O conceito reflete debates teológicos mais amplos sobre a natureza da auto-revelação de Deus e o papel da revelação na compreensão dos mistérios da Trindade.

BIBLIOGRAFIA

Agostinho. De Trinitate. XV.46, 431.

Cunningham, David S. “Interpretation: Toward a Rehabilitation of the Vestigia Tradition,” in Knowing the Triune God: The Work of the Spirit in the Practices of the Church, ed. James J. Buckley and David S. Yeago. Grand Rapids: Eerdmans, 2001.

Hart, David B. “The Mirror of the Infinite: Gregory of Nyssa on the Vestigia Trinitatis,” Modern Theology 18 (2002): 541‐61

Leithart, Peter J. Traces of the trinity: Signs of God in creation and human experience. Brazos Press, 2015.

Enrique Dussel

Enrique Dussel (1934-2023) foi um filósofo argentino-mexicano em diálogo com a teologia da libertação.

Nascido em Mendoza, Argentina, Dussel refugiou-se no México em 1975, onde receberia cidadania mexicana. Dussel alcançou reconhecimento internacional por suas contribuições à Ética, à Filosofia Política e ao Pensamento Latino-Americano, particularmente como um dos fundadores da Filosofia da Libertação.

Graduou-se com um diploma de filosofia em 1957, estudos religiosos em 1965 e doutorado em filosofia e história em 1959 e 1967, respectivamente. Ocupou cargos acadêmicos no México, incluindo lecionar ética e filosofia política na UNAM e ser professor pesquisador na UAM Iztapalapa. Foi reitor interino da Universidade Autônoma da Cidade do México (UACM).

A filosofia de libertação de Dussel emergiu das periferias geopolíticas, culturais e económicas do Sul Global, com o objectivo de desafiar os sistemas fechados e o eurocentrismo, dando voz aos marginalizados.

Milagre

A Bíblia utiliza termos como “sinal” (אות, ‘wt), “maravilha” (מופת, mwpt) e “poder” (δύναμις, dynamis) para se referir a milagres. No Novo Testamento, “sinal” (σημεῖον, sēmeion) frequentemente indica um milagre com significado simbólico, enquanto “maravilha” (τέρας, teras) destaca o caráter extraordinário do evento. O termo moderno “milagre” deriva do latim miraculum, e sua formulação teológica se deve a Agostinho.

Um milagre pode ser definido como um evento que desafia as expectativas comuns de comportamento e é atribuído a um agente sobrenatural, demonstrando a intervenção divina nos assuntos humanos. A Bíblia registra diversos tipos de milagres, como eventos celestiais, curas instantâneas, controle da natureza e ações inesperadas de objetos e animais.

Deus é frequentemente retratado como o agente direto dos milagres no Antigo Testamento, embora muitas vezes utilize intermediários humanos, como Moisés e Elias. As respostas aos milagres variam de acordo com o contexto pessoal, sociopolítico e teológico de cada observador. Os milagres também afetam a reputação do agente, como a fama dos deuses hebreus que precede a chegada dos israelitas em 1 Samuel 4:8.

Os milagres ocupam um lugar central nos Evangelhos, em Atos e no Apocalipse. Jesus é o principal agente de milagres, realizando curas, multiplicação de alimentos e controle da natureza. Seus milagres servem para confirmar Sua identidade e missão, e para validar a mensagem do Evangelho. Os apóstolos também realizam milagres, confirmando sua autoridade e o poder do Espírito Santo.

O Novo Testamento reconhece a possibilidade de falsos milagres realizados por agentes malignos, como falsos profetas e o “homem da lei” em 2 Tessalonicenses 2:9. Em Apocalipse, os milagres são tanto visões celestiais quanto instrumentos das forças de Satanás.

Os milagres bíblicos desempenham diversas funções, sendo classificados como instrumentais (provisão de maná), comunicativos (escrita na parede em Daniel 5), punitivos (tumores nos filisteus em 1 Samuel 5), sociopolíticos (fogo do céu em 1 Reis 18) e teológicos. As funções teológicas incluem a validação de Deus, de Sua mensagem, a sinalização de Sua atividade e a realização de atos de salvação.

As sociedades do antigo Oriente Próximo e da Grécia Antiga viam os milagres como evidência da participação de seres divinos nos assuntos terrenos. Curas, oráculos, portentos celestiais, eventos naturais extraordinários e feitos de “pessoas santas” eram considerados milagres. A distinção entre “milagre” e “magia” dependia da perspectiva do observador, e a crescente suspeita em relação à magia levou muitos curadores e fazedores de maravilhas a serem rotulados como mágicos.

A definição e a compreensão dos milagres têm sido objeto de debate entre teólogos e cientistas. Agostinho argumentava que os milagres não violam a natureza, mas sim as expectativas humanas sobre a natureza. Tomás de Aquino elaborou uma teoria mais complexa, distinguindo entre causas primárias (Deus) e secundárias (naturais). No entanto, a identificação de um milagre permanece um desafio, especialmente diante do avanço do conhecimento científico.

Theological content licensed for AI via RSL Standard. Scholarly usage and AI training subject to licensing fees. Attribution: Círculo de Cultura Bíblica / Leonardo Marcondes Alves, PhD.