Aijalom

Aijalom (em hebraico: אַיָּלוֹן, significando “lugar dos cervos”) era uma cidade cananeia localizada na região montanhosa de Judá, posteriormente atribuída à tribo de Dã durante a divisão da Terra Prometida (Josué 19:42). A cidade é mencionada várias vezes na Bíblia Hebraica, principalmente em conexão com eventos militares.

Aijalom situava-se em uma posição estratégica na Sefelá, a região de colinas entre a planície costeira e as montanhas de Judá. A cidade era fortificada e dominava o vale de Aijalom, um passo importante que ligava a costa ao interior. Essa localização estratégica tornou Aijalom palco de disputas e batalhas ao longo de sua história.

História Bíblica:

  • Conquista de Canaã: Aijalom foi uma das cidades conquistadas por Josué durante a campanha israelita para tomar posse da Terra Prometida (Josué 10:12).
  • Batalha contra os Amorreus: Aijalom é mais conhecida como o local onde Josué ordenou que o sol e a lua parassem no céu para que os israelitas pudessem completar a vitória sobre os amorreus (Josué 10:12-14). Esse evento miraculoso demonstra o poder de Deus em auxiliar Seu povo na conquista da terra.
  • Período dos Juízes: Aijalom foi palco de conflitos entre os israelitas e os filisteus durante o período dos Juízes. A cidade foi capturada pelos filisteus em um determinado momento, mas posteriormente reconquistada pelos israelitas sob a liderança de Sansão (Juízes 14:1-4).

Vale de Aijalom:

O vale de Aijalom era um vale fértil e estrategicamente importante que se estendia ao norte da cidade. Era uma rota natural para exércitos e caravanas que viajavam entre a planície costeira e as montanhas centrais. A batalha contra os amorreus, na qual Josué ordenou que o sol e a lua parassem, ocorreu neste vale.

Aijalom na Arqueologia:

Yalo, um sítio arqueológico localizado a cerca de 21 km a oeste-noroeste de Jerusalém, é identificado como a antiga Aijalom. Escavações no local revelaram vestígios de ocupação que datam da Idade do Bronze e do Ferro, confirmando a importância da cidade na antiguidade.

Alexandre

Alexandre (Ἀλέξανδρος, Alexandros), em grego “auxílio do homem”, é um nome que aparece em várias passagens bíblicas, além de Alexandre, o Grande.

  1. Alexandre, parente de Anás é mencionado em Atos 4:6 como um membro da família sacerdotal e parente de Anás, o sumo sacerdote. Ele estava presente na reunião do Sinédrio que interrogou Pedro e João após a cura do coxo na porta do templo chamada Formosa. A passagem não fornece mais informações sobre sua vida ou ações. É possível que ele tenha sido um dos líderes religiosos que se opuseram aos ensinamentos de Jesus e seus seguidores.

2. Alexandre, filho de Simão Cirineu é mencionado em Marcos 15:21 como um dos filhos de Simão de Cirene. Simão foi obrigado a carregar a cruz de Jesus a caminho da crucificação. O texto não oferece mais detalhes sobre Alexandre ou seu irmão Rufo. É possível que eles tenham se tornado conhecidos na comunidade cristã primitiva, o que explicaria a menção de seus nomes por Marcos.

3. Alexandre de Éfeso era um judeu que viveu em Éfeso no século I d.C. Ele é mencionado em Atos 19:33 como aquele que tentou apaziguar a multidão durante um tumulto provocado por Demetrio, um ourives que se sentia ameaçado pela pregação de Paulo. Alexandre tentou falar em defesa dos cristãos, mas a multidão enfurecida não lhe deu ouvidos. O texto não revela se Alexandre era cristão ou se apenas buscava acalmar os ânimos.

4. Alexandre, o latoeiro é mencionado em 2 Timóteo 4:14 como um opositor de Paulo. O apóstolo afirma que Alexandre lhe causou muitos males e que o Senhor lhe dará o que ele merece. Não há mais informações sobre a natureza da oposição de Alexandre a Paulo ou sobre os “males” que ele causou. É possível que ele tenha sido um líder religioso ou um artesão que se opôs à pregação de Paulo em Éfeso.

5. Alexandre, o falso mestre é mencionado em 1 Timóteo 1:20 como um falso mestre em Éfeso. Paulo o entregou a Satanás, juntamente com Himeneu, para que aprendessem a não blasfemar. Não há mais informações sobre os ensinamentos de Alexandre ou sobre as razões que levaram Paulo a tomá-la atitude. É possível que ele tenha promovido heresias ou se envolvido em práticas imorais.

Assembleia divina

A concepção de uma Assembleia Divina, Conselho Divino ou Concílio Divino sera um conselho de seres divinos que auxiliam na administração do cosmos sob a autoridade de uma divindade suprema, é um tema recorrente em diversas culturas do antigo Oriente Próximo, incluindo a israelita. Embora a ideia de um conselho divino seja comum a várias culturas, a religião de Israel apresenta características distintivas que merecem atenção.

A Bíblia Hebraica contém diversas referências a uma assembleia de seres divinos sob a autoridade de Yahweh, o Deus de Israel. Textos como Salmos 82:1, 89:5-7 e 29:1 mencionam explicitamente a existência de um conselho divino, utilizando termos como “assembleia de El” (עֲדַת־אֵל), “assembleia dos santos” (בִּקְהַל קְדֹשִׁים) e “filhos de Deus” (בְּנֵי אֵלִים).

A descoberta de textos ugaríticos, provenientes da antiga cidade de Ugarit (Ras Shamra), forneceu evidências importantes para a compreensão da Assembleia Divina na Bíblia Hebraica. A língua ugarítica, uma língua semítica aparentada ao hebraico bíblico, apresenta paralelos linguísticos e conceituais significativos com os textos bíblicos. Os textos ugaríticos descrevem um conselho de deuses liderado por El, o mesmo termo usado na Bíblia Hebraica para se referir a deuses e ao próprio Deus de Israel.

Tanto em Ugarit quanto na Bíblia Hebraica, a morada divina e o local de encontro da Assembleia Divina são frequentemente descritos como uma montanha ou um jardim exuberante. Em Ugarit, o conselho se reunia nas “tendas de El” ou em seu “santuário de tenda”, localizado na “fonte dos dois rios”. Na Bíblia Hebraica, o tabernáculo (מִשְׁכַּן), a Tenda do Encontro (אֹהֶל מוֹעֵד), o Monte Sinai, o Monte Sião e o Jardim do Éden são apresentados como locais de encontro com o divino e possíveis locais da Assembleia Divina.

A estrutura da Assembleia Divina em Ugarit e na Bíblia Hebraica apresenta similaridades e diferenças. Em Ugarit, o conselho era possivelmente composto por quatro níveis hierárquicos, com El e sua esposa Athirat no topo, seguidos pela família real (“filhos de El”), deidades artesãs e mensageiros (mlʾkm). Na Bíblia Hebraica, a estrutura parece ser tripartite, com Yahweh ocupando o lugar supremo, seguido pelos “filhos de Deus” (בְּנֵי אֵלִים) ou “filhos do Altíssimo” (בְּנֵי עֶלְיוֹן) e, possivelmente, pelos anjos (מַלְאָכִים).

Uma diferença crucial entre a Assembleia Divina israelita e a cananeia reside na figura de Yahweh. Enquanto em Ugarit o poder era compartilhado entre El e Baal, seu co-regente, na Bíblia Hebraica Yahweh assume ambos os papéis, fundindo em si as características de El e Baal. Essa fusão teológica coloca Yahweh como a autoridade suprema e única, superior a qualquer outra divindade.

A Bíblia Hebraica apresenta exemplos de deliberação e até mesmo oposição dentro da Assembleia Divina, mas a vontade de Yahweh sempre prevalece. Em 1 Reis 22:19-23, Yahweh permite que os membros do conselho opinem sobre como Ahab deve morrer, mas a decisão final é Sua. O episódio da Torre de Babel (Gênesis 11) e o Salmo 82 demonstram que Yahweh delega autoridade aos membros do conselho, mas os responsabiliza por suas ações e os julga quando agem de forma corrupta.

A presença de uma Assembleia Divina na Bíblia Hebraica não implica politeísmo ou henoteísmo. Yahweh é apresentado como o Deus único e incomparável, o criador de todas as coisas, inclusive dos membros do conselho divino. O termo אֱלֹהִים (elohim), traduzido como “Deus” ou “deuses”, pode se referir a diferentes seres, mas Yahweh é único em Sua essência e poder. As frases que parecem negar a existência de outros deuses devem ser interpretadas como afirmações da incomparabilidade de Yahweh, e não como uma negação literal da existência de outros seres divinos.

O termo “Satanás” (הַשָּׂטָן), que aparece em Jó 1-2, não se refere ao Diabo como o conhecemos no Novo Testamento. Nesse contexto, o Satanás é um membro da Assembleia Divina, responsável por testar a fidelidade dos seres humanos. Sua função é questionar a justiça de Deus e instigar testes de fé, mas ele age sob a autoridade de Yahweh.

Os profetas bíblicos frequentemente se apresentam como mensageiros da Assembleia Divina, comissionados por Yahweh para transmitir Sua palavra ao povo. Profetas como Isaías, Ezequiel e Jeremias descrevem experiências de serem levados à presença de Yahweh e receberem mensagens do conselho divino. A Assembleia Divina também é retratada como um exército celestial que participa da guerra escatológica e serve como testemunha dos decretos e ações de Yahweh.

A estrutura binária da Assembleia Divina na Bíblia Hebraica, com Yahweh ocupando o lugar de El e de Baal, tem implicações para a cristologia do Novo Testamento. Jesus é apresentado como o “segundo Yahweh”, o co-regente que compartilha a glória e o poder do Pai. Ele é descrito como o “unigênito” (μονογενής) Filho de Deus, o que significa que Ele é único em Sua relação com o Pai, mas não nega a existência de outros “filhos de Deus” na Bíblia Hebraica. Em João 10:34, Jesus cita o Salmo 82 para defender Sua divindade, afirmando que Ele é um dos “filhos de Deus” (אֱלֹהִים) mencionados no Salmo.

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The Anchor Bible Dictionary

The Anchor Bible Dictionary, normalmente indicado pela abreviação ABD, é uma obra de referência abrangente e autoritativa voltada para estudos bíblicos, publicada em 1992 pela Doubleday, em Nova York.

Editada sob a supervisão de David Noel Freedman, esta coleção de seis volumes, contendo aproximadamente 7.000 páginas, reúne mais de 6.000 verbetes elaborados por um corpo de cerca de 800 acadêmicos internacionais especializados em diversas áreas do conhecimento relacionadas à Bíblia.

A obra aborda uma ampla gama de tópicos relacionados aos contextos do Antigo e do Novo Testamento, incluindo arqueologia, história, geografia, linguística, teologia e análise literária. Cada verbete oferece informações detalhadas e é acompanhado de referências cruzadas e bibliografias, permitindo aprofundamento adicional. Além disso, o dicionário incorpora elementos visuais, como fotografias, desenhos e mapas, que auxiliam na compreensão dos temas tratados.

O Anchor Bible Dictionary cobre aspectos variados dos estudos bíblicos, incluindo descobertas arqueológicas relevantes para o mundo bíblico, os contextos históricos e culturais dos textos, análises dos diferentes gêneros literários presentes na Bíblia e interpretações teológicas de temas centrais. Essa abordagem interdisciplinar reflete a contribuição de especialistas renomados, conferindo à obra um caráter autoritativo e confiável.

Desde sua publicação, o Anchor Bible Dictionary tornou-se uma referência padrão em bibliotecas e instituições acadêmicas ao redor do mundo, influenciando gerações de estudiosos e servindo como recurso valioso para pesquisa e ensino. A obra também foi relançada posteriormente pela Yale University Press sob o título de Anchor Yale Bible Dictionary, estando atualmente disponível em formato digital, com funcionalidades aprimoradas de pesquisa e acesso cruzado.

BIBLIOGRAFIA

The Anchor Bible Dictionary (6 vols.; New York: Doubleday, 1992)

Antanaclase

Antanaclase é uma figura de linguagem que consiste na repetição de uma palavra ou expressão dentro de uma mesma frase ou verso, mas com significados diferentes em cada uso. Este recurso retórico explora a ambiguidade linguística para criar um efeito estilístico, frequentemente carregado de engenhosidade ou humor. No contexto bíblico, a antanaclase é utilizada de forma significativa para destacar contrastes espirituais ou éticos, além de sublinhar a profundidade teológica de certos ensinamentos.

Em Mateus 8:22, Jesus declara: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem seus mortos.” Aqui, a palavra “mortos” é empregada em dois sentidos distintos. O primeiro refere-se aos mortos espiritualmente, enquanto o segundo alude aos mortos fisicamente. Esta antanaclase sublinha a urgência do discipulado e enfatiza a primazia das questões espirituais sobre as obrigações mundanas. De maneira semelhante, em João 3:30, João Batista afirma: “É necessário que Ele cresça, e que eu diminua.” As palavras “cresça” e “diminua” são usadas para contrastar o aumento da influência de Cristo com a redução da relevância de João. Esta construção verbal não apenas reforça a humildade de João, mas também realça o propósito de sua missão: apontar para Cristo, aceitando sua própria diminuição em prol da glorificação de Jesus.

Em 1 Coríntios 15:42, Paulo escreve sobre a ressurreição: “O corpo que é semeado é perecível, mas ressuscita imperecível.” A palavra “semeado” é empregada metaforicamente para descrever tanto o sepultamento do corpo físico quanto o surgimento de um corpo transformado na ressurreição.