Assurnasirpal II

Assurnasirpal II, reinou na Assíria entre 884 859 a.C., filho de Tukulti-Ninurta I e pai de Salmaneser III. Seu reinado marca o renascimento do Império Assírio, com suas campanhas para o oeste e construções palacianas.

Assurnasirpal invadiu Bit-Adini (Bete-Eden), o estado arameu entre o rio Balih e Eufrates, (2 Re 19:12; Ez 27:23; Am 1:5). Realizou uma grande expedição em 877 via Carquemis e o rio Orontes, alcançando o Mediterrâneo e recebeu tributo das cidades fenícias. Isso levou às marchas posteriores para o Egito e para Israel por seus sucessores.

Assurnasirpal edificou templos e um palácio em Kalhu (Calá de Gn 10:11, 12). O palácio era decorado com baixos-relevos e pinturas que descreviam suas guerras e caças.

Durante seu reinado as populações aramaicas levadas para suas construções na Assíria difundiram sua língua, iniciando o processo de tornar o aramaico língua franca.

Assurbanípal

Assurbanípal, rei da Assíria entre c.669-631 a.C. Tradicionalmente identificado como Osnapar na Bíblia (Ed 4:10). Durante seu reinado, o Império Neo-Assírio atingiu seu auge: era o maior império que já existira e sua capital, Nínive, era provavelmente a maior cidade do mundo.

Assurbanípal construiu a primeira biblioteca sistematicamente organizada e coletou mais de 30.000 tabuletas de argila.

Entre os vinte e dois reis vassalos que prestaram votos de fidelidade e pagaram tributos quando da sua sucessão ao pai Esar-Hadom estaria Manassés de Judá (Minsē em acadiano); Ba’al, rei de Tiro; Qaushgabri, rei de Edom; Musuri, rei de Moabe; Sili-Bel, rei de Gaza; Mitinti, rei de Asquelom; Ikausu, rei de Ecrom.

Assurbanípal manteve a guerra contra o faraó núbio-egípcio Tiraca, aquartelado em Tebas. A destruição de Tebas (No-Amun) foi descrita em Naum 3:8-10 e usada como um exemplo do que aconteceria a Nínive em sua hora. O Egito, equiparado uma “cana quebrada” (2 Re 18:21), não seria uma fonte de segurança.

Em minha primeira campanha, marchei contra Magan, Meluha e Tiraca, rei do Egito e da Etiópia, a quem Esar-Hadom, rei da Assíria, o pai que me gerou, havia derrotado e cujas terras ele colocou sob seu domínio. Este mesmo Tiraca esqueceu o poder de Assur, Istar e dos outros grandes deuses, meus senhores, e colocou sua confiança em seu próprio poder. Ele se voltou contra os reis e regentes que meu próprio pai havia nomeado no Egito. Ele entrou e fixou residência em Mênfis, a cidade que meu próprio pai conquistou e incorporou ao território assírio.

Cilindro Rassam de Assurbanípal (alternativamente, crônicas de Assurbanípal, prisma de Assurbanípal), do ano 643 a.C.

As crônicas de Assurbanípal oferecem um paralelo importante para compreender a composição dos registros reais que foram fonte e o corpo dos livros de Reis.

Antigo Oriente Próximo

O Antigo Oriente Próximo (abreviado como AOP), em inglês Ancient Near East (abreviado como ANE), refere-se à região no nordeste da África (Egito, partes da Líbia e Sudão) e sudoeste da Ásia (Turquia, Síria, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre, Iraque, Irã, estados do Golfo, Arábia Saudita e Iêmem).

O recorte temporal varia para o “Antigo”. O termo pode se referir aos períodos desde o surgimento da vida urbana até o final Idade do Ferro II no século VI a.C. ou mesmo até a emergência do Islã.

É uma região geograficamente estratégica como ponte terrestre conveniente. Possui rotas marítimas fáceis, transitáveis no verão ou inverno, tanto nas estações secas quanto nas chuvosas. Em quanto isso, o trânsito ao norte do Mar Cáspio era difícil no inverno. A Eurásia central era muito seca no verão. Os desertos restringiam a circulação em rotas especiais no Irã e no norte da África, tanto a leste como a oeste do vale do Nilo.

O abastecimento de água e o clima eram ideais para a introdução da agricultura. Oásias e vales verdes são margeados por pastos naturais. Várias espécies de grãos cresceram selvagens e havia pântanos e riachos que podiam ser facilmente drenados ou represados para semear trigo selvagem e cevada. A semente só tinha que ser espalhada sobre uma superfície suficientemente úmida para garantir algum tipo de colheita em condições normais.

Foi o berço de várias civilizações, como os sumérios e acadianos na Mesopotâmia, os egípcios, hitititas na Anatólia, persas no Irã, dentre outros.

VEJA TAMBÉM

Crescente Fértil

Levante

Mesopotâmia

Acomodação

Acomodação é um princípio, doutrina hermenêutica e teológica de que Deus acomodou a expressão de suas revelações ao entendimento disponível às audiências.

A doutrina da acomodação foi empregada por Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes. Foi desenvolvida por Agostinho e reutilizada por Calvino, Descartes, Spinoza, Balthasar Bekker, Semler e Hamman. Constitui uma doutrina alternativa às doutrinas de autoridade que pressupõe inerrância verbal ou ontológica quanto a detalhes do texto bíblicos.

A acomodação dirime muitos problemas interpretativos, pois permite conciliar os textos das Escrituras com informações tanto internas quanto externas — linguísticas, históricas, científicas e teológicas. No entanto, a conclusão lógica de que Deus estaria comunicando algo explicitamente mas com o real significado implicitamente diverso gerou controvérsias.

Utilizando-se desse conceito da retórica clássica, Agostinho interpretava as analogias do Criador na natureza como eloquência divina.

A partir de Agostinho surgem duas linhagens acerca da acomodação. Uma seria Deus acomodando-se à limitação humana. Outra vertente enfatizava o incapacidade humana dos autores bíblicos de conterem a revelação inefável.

Nessa primeira linha, Hilário de Poitiers defendia que Deus acomodava-se à fraqueza do intelecto humano. Na Reforma, considerando as limitações da linguagem humana, Matthias Flacius chama o uso de Deus da linguagem humana como meio de revelação um exemplo de acomodação divina. Johannes Andreas Quenstedt explicava as diferenças gramaticais e estilísticas entre os livros da Bíblia como uma acomodação do Espírito Santo à linguagem e estilo de cada autor.

Na segunda postura, Descartes, Spinoza, J. Kepler, Galileu, os racionalistas e os neólogos (especialamente Semler) seriam os próprios autores bíblicos que empregaram a acomodação, como recursos estilísticos como o antropomorfismo ou conforme a ciência disponível em seu tempo. Uma formulação do conceito foi proposta por Christophorus Wittichius (1625-1690) “Em questões da natureza, as Escrituras muitas vezes falam de acordo com as opiniões das pessoas comuns e não de acordo com a verdade exata”. O teólogo holandês Balthasar Bekker empregou a teoria da acomodação para explicar passagens consideradas embaraçosas ou supersticiosas enquanto mantinha uma respeitabilidade racionalizada do cristianismo.

Nem todos os teólogos da escolástica protestante aceitavam a teoria da acomodação. O teólogo pietista e teórico da hermenêutica Johann Jakob Rambach (1693- 1735) em seu Hypothesis de Scriptura sacra ad erroneos vulgi conceptus adcomodata (1729) fez contudentes críticas à teoria da acomodação. A ideia de Deus intencionalmente dizer algo, mas comunicar outra coisa para simplificar parecia a Rambach uma condescendência e uma blasfêmia. Embora adepto da doutrina dos “dois livros” — natureza e Escrituras como revelações divinas que não se contradiziam — Rambach defendia uma abordagem fenomenológica. Os registros bíblicos seriam conforme os autores e audiências perceberam a revelação divina. Desse modo, o sentido das Escrituras seria simples, sem haver um significado mais elevado por trás das palavras do texto. A obra de Rambach antecedeu o conceito de perspicuidade bíblica conforme adotado posteriormente pelos fundadores do método histórico-gramatical.

A controvérsia sobre a acomodação atingiu o pico no final do século XVIII. Uma síntese entre as duas teorias de acomodação e a abordagem de Rambach aparece formulado por Johann Georg Hamman (1730 – 1788). Influenciado por Kant, Hamman partiu da teologia da encarnação para interpretar a da Bíblia como uma indulgência da parte de Deus, na “acomodação” como sinônimo de “condescendência”.

Com o advento das revoluções científicas a partir do século XIX, a acomodação ganhou adicional aceitação. Análogo à kenosis, a teologia luterana do século XIX empregou a acomodação para manter a fé diante de críticas. No século XX, o tópico da acomodação aparece no debate sobre a desmitologização de Bultmann. Contemporaneamente, é um princípio empregado em argumentos apologéticos.

BIBLIOGRAFIA

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Buisman, Jan Wim.”Bekkers Wraak Balthasar Bekker (1634-1698), de accommodatietheorie en Nederlandse protestantse theologen, 1750-1800″ In: De Achttiende Eeuw. Jaargang, 1998.

Lee, Hoon J. The Biblical Accommodation Debate in Germany: Interpretation and the Enlightenment. Springer, 2017.

Tinker, Michael. “John Calvin’s Concept of Divine Accommodation: A Hermeneutical Corrective.” Churchman 118.4 (2004): 325-358.