Metonímia

A metonímia é uma figura de linguagem na qual uma palavra ou frase é substituída por outra palavra ou frase com a qual está intimamente associada, geralmente para transmitir uma ideia complexa ou evocar uma emoção específica.

Um exemplo de metonímia na Bíblia pode ser encontrado em João 6:27: “Não trabalhem pela comida que estraga, mas pela comida que permanece para a vida eterna.” Neste versículo, a palavra “comida” é uma metonímia para todas as coisas que sustentam a vida humana, incluindo nutrição física e sustento espiritual.

Outro exemplo de metonímia em Lucas 16:29 diz: “Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos.” Neste versículo, “Moisés e os Profetas” são usados ​​como uma metonímia para todo o corpo das escrituras hebraicas, hoje chamadas de Tanakh (Torah, ou seja Lei de Moisés, Neviim ou os Profetas, com a coleção dos Khetuvim, Escritos, ausentes).

A metonímia é uma ferramenta literária poderosa que pode ser usada para evocar emoções fortes e transmitir ideias complexas de forma concisa e memorável.

Morte

A morte, enquanto evento universal e inevitável, tem sido objeto de reflexão e especulação em todas as culturas e épocas. No antigo Oriente Próximo, a morte era geralmente vista como uma transição para outra forma de existência, e não como um fim absoluto.

Morte no Antigo Oriente Próximo:

As culturas do antigo Oriente Próximo, como a Mesopotâmia, o Egito, a Pérsia e Canaã, compartilhavam a crença na continuidade da existência após a morte, embora com variações em seus detalhes e interpretações.

Na Mesopotâmia, a morte era vista como parte intrínseca da natureza humana, um destino inevitável decretado pelos deuses. O reino dos mortos, inicialmente associado às montanhas, passou a ser concebido como um submundo sombrio e lúgubre, onde os mortos levavam uma existência fantasmagórica. A mitologia mesopotâmica também atribuía grande importância à morte, com deuses sendo mortos e ressuscitados em seus mitos.

No Egito, a crença na vida após a morte era central para a cultura e religião. Os egípcios desenvolveram elaboradas práticas funerárias para garantir a passagem do morto para o além-vida, onde se acreditava que eles continuariam a viver e realizar atividades cotidianas. A crença em julgamento após a morte e a possibilidade de punição ou recompensa também eram comuns.

Na Pérsia, a religião zoroastriana apresentava um sistema complexo de julgamento e destino após a morte, com recompensas para os justos e punições para os ímpios. A influência do zoroastrismo na cultura persa e em outras religiões do Oriente Médio é significativa.

Em Canaã, a morte era associada ao deus Mot, e o submundo era concebido como uma cidade localizada nas profundezas da terra. A mitologia cananeia incluía o ciclo de morte e ressurreição de Baal, representando a mudança das estações e a renovação da vida.

Morte no Antigo Testamento:

A compreensão da morte em Israel antigo compartilhava elementos com as culturas vizinhas, mas também apresentava aspectos distintivos. A narrativa de Gênesis 2-3 sugere que a morte entrou no mundo como consequência do pecado de Adão e Eva, embora haja diferentes interpretações sobre a natureza e a extensão dessa consequência.

O Antigo Testamento oferece informações limitadas sobre a existência após a morte, mas a maioria dos textos descreve a morte como uma existência sombria e inativa no Sheol, o reino dos mortos. No entanto, há também referências à esperança na ressurreição e na vida após a morte, especialmente em textos poéticos e proféticos.

As práticas funerárias em Israel eram relativamente simples, sem rituais religiosos elaborados. O enterro era a forma mais comum de lidar com os mortos, e a cremação era rara. A não sepultura era considerada uma desgraça e um sinal de grande desonra.

O termo hebraico “Sheol” (שְׁאוֹל) se refere ao reino dos mortos, um lugar obscuro e silencioso onde os mortos residem em um estado de inatividade. Embora o Sheol seja frequentemente traduzido como “túmulo” ou “cova”, ele representa um conceito mais amplo, equivalente ao Hades na mitologia grega. A descrição do Sheol no Antigo Testamento é geralmente negativa, sem distinção clara entre justos e ímpios.

No período posterior do Antigo Testamento, há evidências de uma crescente diversidade de crenças sobre a morte e a vida após a morte. Textos como Eclesiastes expressam ceticismo sobre a continuidade da existência após a morte, enquanto outros, como Daniel 12, apontam para a esperança na ressurreição.

Período Intertestamentário e o Novo Testamento

O período intertestamentário testemunhou uma crescente influência do pensamento grego sobre as crenças judaicas sobre a morte e a vida após a morte. A ressurreição dos mortos se tornou um tema central na teologia judaica, especialmente entre os fariseus. Os saduceus, por outro lado, negavam a ressurreição e qualquer forma de vida após a morte.

No Novo Testamento, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo são o ponto central da mensagem cristã. A morte de Jesus é vista como um sacrifício expiatório pelos pecados da humanidade, e Sua ressurreição é a garantia da ressurreição de todos os crentes. O Novo Testamento afirma a ressurreição dos mortos e o julgamento final, mas oferece poucas informações sobre o estado intermediário entre a morte e a ressurreição.

Magos

Em Mateus 2 relata que um grupo de homens do oriente — magoi — viajou para prestar adoração ao menino Jesus quando nasceu.

Gentios, apesar de utilizaram as estrelas como referências (Mt 2:28), desconheciam as profecias das Escrituras Hebraicas sobre o local do nascimento do Messias (Mt 2:2-6).

Mais tarde, tradições populares passram a contá-los em três e a atribuir o título de reis, em uma inferência do número de presentes (Mt 2:11) e aos reis que contemplariam a luz de Deus (Is 60:3).

TERMO

“Homens sábios” é uma tradução imprecisa. A origem do termo mago vem do antigo persa magu– (transmitido ao elamita, aramaico e caldeu maguš, grego mágos μάγος, latim magus) para a designação do sacerdotes dos iranianos nos períodos mediano, aquemênida, parta e sassânida. Sua primeira menção está na inscrição de Bisutum de Dario I, o Grande. A partir do século IV a.C., o uso do termo mago tornou-se ambíguo com a conotação desdenhosa para designar conjuradores, feiticeiros e adivinhos. Já durante os períodos parta e sassânida, esse termo foi usado para os sacerdotes zoroastrianos.

De acordo com Heródoto (Histórias 1.101), os magos seriam uma das seis tribos medas e formaram o clã sacerdotal hereditário, com membros influentes na corte como intérpretes e adivinhos de sonhos (1.107). Para os autores gregos e romanos os magos tinham funções rituais conectadas com astrologia e magia, daí o termo mágica e magia. Há também uma confusão das palavras “magos” e “caldeus” na literatura grega, sendo-as atribuídas tanto aos sacerdotes babilônios e quanto aos magos iranianos.

As porções preservadas da Avesta, no entanto, não contêm referências indiscutíveis aos magos, além de empregar o termo āθravan- para os sacerdotes. No entanto, os ensinos de Zoroastro tornaram-se conhecidos dos gregos e romanos principalmente durante o período helenístico como a religião dos magos. No Ocidente fora das fronteiras dos impérios persas havia adeptos na Ásia Menor e no Egito.

RECEPÇÃO DO PERÍCOPE DOS MAGOS DE MATEUS

Várias reinterpretações da passagem dos magos ocorreram nos primeiros séculos do cristianismo na bacia do Mediterrâneo, talvez pelo embaraço de sua associação ou com o concorrente império persa ou com as práticas divinatórias caldeias. Dentre os principais documentos a referirem-se a essa passagem de Mateus estão:

  1. Protevangelho de Tiago: simplifica e reconta a passagem sob o gênero de literatura parabíblica.
  2. Justin Mártir; chama os magos de “árabes” e os associa a uma profecia de Isaías 8:4,
  3. Irineu de Lyon: contrapõe a estrela de Balaão com o discernimento tido pelos magos (Haer. 3.9 , 16; Epid. 58).
  4. Tertuliano: denunciou as práticas de magia e sugeriu que os magos fossem reis (Idol. 9.3).
  5. Orígenes: interpreta os magos de Mateus pela profecia de Balaão (Nm 23).
  6. Hipólito: empregou os magos ‘caldeus’ de Mateus para interpretar Daniel (Dan. 2; Danielem 1.8-9, 2.1-9).
  7. Há uma tradição de que As Profecias de Hystapes, obra perdida dos meados do século IV a.C., supostamente teria profecias messiânicas, as quais os magos esperavam e a viram cumpridas no nascimento de Cristo. Posteriormente, vários autores cristãos citaram tal obra.

SIMÃO MAGO

O praticante de magia entre os samaritanos convertidos que se chamava Simão em Atos 8:9, 11 é tradicionalmente referido como Simão Mago, entretanto, o contexto indica o uso genérico do termo, sem conexão com os magoi persas.

BIBLIOGRAFIA
Alves, Leonardo M. Zoroastrismo: o louvor ao Bem. Ensaios e Notas, 2018.

Dandamayev, M. A. Magi. Encyclopaedia Iranica, 2012.

Magia

A Bíblia, ao mesmo tempo que condena veementemente a magia, também revela um profundo fascínio por suas práticas e seus poderes. Essa ambivalência se manifesta em diversos textos, desde a proibição explícita de práticas divinatórias em Deuteronômio 18:10-11 (cf. 2 Reis 21:6; 2 Crônicas 33:6) até a narrativa de Moisés transformando seu cajado em serpente diante de Faraó (Êxodo 7:8-13).

A condenação da magia na Bíblia se concentra principalmente em práticas que buscam conhecimento ou poder fora da vontade de Deus, como adivinhação, astrologia e necromancia. Essas práticas são frequentemente associadas à idolatria e à infidelidade, representando um desvio do caminho da fé e da confiança em Deus. Textos como Miqueias 5:11 e Jeremias 27:9 alertam contra aqueles que se desviam para a magia, enquanto Êxodo 22:17-23 prescreve punições severas para feiticeiros.

No entanto, nas culturas dos povos da Bíblia o poder da magia era reconhecido como real. A Bíblia contém referências a amuletos e práticas apotropaicas, como o hitef hinnom, pequenos rolos de prata contendo inscrições com a bênção sacerdotal (Números 6:24-26), descobertos em Jerusalém e datados do século VII a.C. Esses amuletos, utilizados para proteção contra o mal, revelam a coexistência de crenças mágicas e religiosas na cultura do antigo Israel.

A ambivalência da Bíblia em relação à magia reflete a complexa relação entre o mundo natural e o sobrenatural no antigo Israel. A magia, enquanto expressão do desejo humano de controlar o desconhecido, é ao mesmo tempo condenada como uma afronta à soberania divina e utilizada como ferramenta narrativa para exaltar o poder de Deus.

Matemática e numerais

A matemática na Bíblia revela um sistema numérico complexo, com influências do antigo Oriente Próximo. Os israelitas antigos utilizavam uma combinação de sistemas numéricos de base 10 e 6, com a base 6 exemplificada na estátua de Daniel 3:1. Os números eram geralmente escritos por extenso, embora o uso do alfabeto hebraico para numerais tenha surgido por volta de 140 a.C. em moedas macabeias, evoluindo para um sistema alfabético quase decimal. Este sistema contrastava com os sistemas anteriores derivados dos hieráticos egípcios e dos aramaicos e fenícios.

As operações aritméticas básicas, como adição, subtração e multiplicação, são atestadas em várias passagens, embora o Novo Testamento não mencione explicitamente tais processos. O uso frequente de frações, como metade, um quarto, um quinto e um décimo, demonstra uma compreensão básica da divisão. Números redondos, como cem e mil, eram frequentemente usados de forma figurativa, precedidos pela palavra “cerca de” em algumas instâncias. Os números mais altos registrados incluem um milhão, dez mil vezes dez mil, milhares de milhares e duzentos milhões.

Números como 1, 3, 5, 7, 10, 12 e 40 receberam significados simbólicos. Apenas o número 666 seja explicitamente identificado como simbólico em Apocalipse 13:18. A interpretação simbólica de números na Bíblia muitas vezes segue o sistema proposto por Pitágoras, embora autores como Irineu tenham advertido contra a busca de significados ocultos em números. Por vezes, o número não expressa uma quantidade literal, mas sua conotação simbólica.

ATRIBUIÇÕES SIMBÓLICA

1: Representa unidade e singularidade, muitas vezes associado a Deus como o único.
3: Simboliza totalidade e completude. em contextos cristãos, está fortemente ligado à Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).
5: Pode representar graça e favor.
7: É um número altamente significativo, representando perfeição, completude e totalidade divina. Está presente em diversos eventos importantes, como os sete dias da criação.
10: Simboliza totalidade e lei, como nos Dez Mandamentos.
12: Representa completude divina e ordem, como nas doze tribos de Israel e nos doze apóstolos de Jesus.
40: Frequentemente simboliza um período de provação, teste ou transição, como os quarenta anos de peregrinação de Israel no deserto e os quarenta dias de Jesus no deserto.
70: Representa totalidade e integralidade, como os 70 anciãos de Israel, os setenta tradutores da LXX, o setenta anos de exílio.

O sistema numérico hebraico-aramaico, com seus numerais alfabéticos, começou a aparecer em moedas hasmoneanas por volta de 139 a.C. A gematria, a atribuição de valores numéricos a letras, aparece em obras literárias do século II d.C. As tentativas de encontrar referências a ideias de Aristóbulo e Filo nos números bíblicos também foram feitas.

Números como dois, três, quatro, sete, dez, doze e quarenta são usados tanto simbolicamente quanto como números redondos. O número três, por exemplo, pode ter derivado sua sacralidade da divisão primitiva do universo em três regiões. O número sete, considerado o mais sagrado, aparece em várias passagens relacionadas à criação e ao ritual. O número quarenta é frequentemente usado para representar um período de tempo indefinido.

Grandes números eram frequentemente descritos como incontáveis, refletindo a falta de familiaridade com grandes quantidades. A enumeração ascendente, usando pares de números como “um ou dois” e “três ou quatro”, era usada para indicar números aproximados. A agrupação numérica era usada como auxílio à memória, com temas agrupados de acordo com números específicos, como no Abot V.