Hostes

O termo “hostes” (צָבָא, tsava’; στρατιά, stratia; Σαβαώθ, Sabaōth) nas Escrituras Hebraicas e Cristãs se refere a exércitos humanos, em particular o de Israel, e a exércitos angelicais, às vezes também denotando corpos celestes. Com o tempo, o termo passou a ser usado em conjunto com o nome divino, Yahweh, como “Senhor dos Exércitos”.

No Antigo Testamento, a palavra צָבָא (tsava’) possui múltiplas aplicações, referindo-se tanto a exércitos humanos quanto angelicais, e também a corpos celestes, representando o poder criativo e soberano de Deus sobre eles. Em Gênesis 2:1, “hostes” aparece pela primeira vez em conexão com os corpos celestes, referindo-se à totalidade da criação. Quando se refere aos corpos celestes, a palavra é sempre singular, e esses corpos são frequentemente personificados e até mesmo referidos como “estrelas do céu” (Juízes 5:20).

Embora Israel fosse advertido contra a adoração dos corpos celestes, como faziam os pagãos, a prática era comum (Deuteronômio 4:19; 2 Reis 17:16). “Hostes” também é usado para se referir a exércitos em geral e ao povo de Israel, como em Êxodo 6:26 e 12:17, respectivamente. A frase “Senhor dos Exércitos” (יהוה צְבָאוֹת, yhwh tseva’oth) enfatiza o poder de Yahweh sobre Seus exércitos angelicais, vastos e poderosos (Daniel 7:10; Salmos 103:20), que O adoram e servem com lealdade absoluta (Isaías 6:3; Neemias 9:6).

Essa ênfase em Yahweh como “Senhor dos Exércitos” pode ser interpretada como uma forma de combater reivindicações de superioridade de deuses de outras religiões do antigo Oriente Próximo, como Anu na Mesopotâmia e Baal em Ugarit. Além disso, o título pode ter servido para lembrar os israelitas de que não deveriam adorar corpos celestes.

No Novo Testamento, a compreensão das hostes celestiais é semelhante, mas com Cristo como comandante e receptor da adoração dos exércitos celestiais. Em Apocalipse 5:11-12, anjos inumeráveis adoram o “Cordeiro que foi morto”, indicando que os anjos que adoravam Yahweh no Antigo Testamento agora adoram Jesus. Em Apocalipse 12, 19 e 20, João descreve uma guerra celestial entre os anjos e Satanás e suas hostes, culminando na batalha final liderada por Cristo com os “exércitos do céu”.

Outras referências a “hostes” no Novo Testamento incluem a aparição de “uma multidão de hostes celestiais” aos pastores anunciando o nascimento do Messias (Lucas 2:13), a menção de Estevão sobre o povo adorando as “hostes do céu” (Atos 7:42) e a citação de Isaías por Paulo em Romanos 9:29, referindo-se ao “Senhor dos Exércitos” (κύριος σαβαὼθ, kyrios sabaōth).

BIBLIOGRAFIA

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Smith, Gary V. “The Concept of God/the Gods as King in the Ancient Near East and the Bible.” Trinity Journal, Mar. 1982, pp. 18–38.

VEJA TAMBÉM

Principados e potestades

Roland de Pury

Roland de Pury (1907-1979) foi um teólogo protestante suíço, cuja vida e obra enfocavam a fé cristã e a justiça social.

Sua trajetória teológica foi marcada por uma intensa busca por uma compreensão autêntica do Evangelho, livre das amarras das ortodoxias tradicionais e das ideologias seculares.

De Pury defendeu uma teologia da encarnação que enfatizava a presença real de Cristo no mundo e a necessidade de os cristãos se engajarem nas lutas por justiça e libertação. Criticava a separação entre fé e vida, entre o sagrado e o secular, argumentando que o Evangelho deveria permear todas as dimensões da existência humana.

Sua teologia social, inspirada no profetismo bíblico, o levou a se envolver ativamente em questões como a luta contra o racismo, a defesa dos direitos dos trabalhadores e a promoção da paz. Via a Igreja como uma comunidade de serviço ao mundo, chamada a ser sinal e instrumento do Reino de Deus.

Prata

A prata (כֶּסֶף, kesef, em hebraico; ἀργύριον, argýrion, ou ἄργυρος, árgyros, em grego) é um metal precioso frequentemente mencionado na Bíblia, desde o Gênesis até o Apocalipse, com diversos significados e usos.

No Antigo Testamento, kesef é usado tanto para se referir ao metal em si quanto como termo genérico para dinheiro. Abraão, por exemplo, é descrito como rico em gado, prata (kesef) e ouro (Gênesis 13:2). A prata era usada como meio de troca (Gênesis 23:16), para a fabricação de utensílios e ornamentos (Êxodo 25:3; Provérbios 25:11), e como tributo (2 Reis 18:14). O valor da prata era inferior ao do ouro, mas ainda assim considerável. A lei mosaica estabelecia regulamentos sobre o uso da prata em transações e ofertas religiosas (Levítico 27; Números 7).

No Novo Testamento, argýrion e árgyros também são usados para designar prata e dinheiro. Judas Iscariotes traiu Jesus por trinta moedas de prata (ἀργύρια, argýria; Mateus 26:15). Em Atos 3:6, Pedro declara não ter prata (argýrion) nem ouro, mas oferece cura em nome de Jesus. A prata é frequentemente usada metaforicamente na Bíblia. A palavra de Deus é comparada à prata refinada (Salmo 12:6; Provérbios 10:20). Em Atos 17:29, Paulo argumenta que a divindade não pode ser representada por ouro, prata (árgyros) ou pedra.

Peste

Peste traduzido do hebraico dever (דֶּבֶר), e do grego loimós (λοιμός), refere-se a epidemias de doenças contagiosas com alta mortalidade, frequentemente interpretadas como castigo divino.

A Septuaginta, em muitos casos, utiliza θάνατος (thánatos, “morte”) para dever, indicando a severidade dessas pragas. As narrativas bíblicas apresentam as pestes como manifestações da ira de Deus, como nas dez pragas do Egito (Êxodo 7-12), onde dever é explicitamente mencionado, e na punição subsequente ao censo realizado por Davi (2 Samuel 24).

Embora a etiologia específica dessas doenças permaneça incerta em muitos casos, descrições como a de 2 Samuel 24:15, mencionando a ação de um anjo exterminador, sugerem uma compreensão sobrenatural da causa. No contexto profético, as pestes são anunciadas como parte dos juízos divinos contra a idolatria e a injustiça (Jeremias 21:6, Ezequiel 14:19), enquanto no Novo Testamento, em Apocalipse, as pestes integram o cenário escatológico dos últimos tempos. A compreensão bíblica da peste, portanto, transcende a mera descrição de enfermidades, ligando-se ao conceito de retribuição divina e à necessidade de arrependimento.

Parácleto

Parácleto (παράκλητος, paraklētos; מֵלִיץ, melitz [equivalente funcional, não tradução direta]) é um termo grego encontrado exclusivamente nos escritos joaninos (Evangelho de João e 1 João) no Novo Testamento. A palavra é tradicionalmente traduzida como “Consolador”, “Advogado”, “Ajudador” ou “Intercessor”. O paraklētos é descrito como o Espírito Santo, enviado por Deus Pai e por Jesus Cristo para guiar, ensinar, consolar e defender os discípulos após a partida de Jesus (João 14:16, 26; 15:26; 16:7).

A função do Parácleto é multifacetada. Ele atua como um mestre, recordando aos discípulos os ensinamentos de Jesus (João 14:26); como uma testemunha de Cristo (João 15:26); como um acusador do mundo em relação ao pecado, à justiça e ao juízo (João 16:8-11); e como um guia para a verdade completa (João 16:13). Em 1 João 2:1, o próprio Jesus é chamado de paraklētos, atuando como advogado dos crentes perante o Pai.

Embora não haja um equivalente hebraico exato para paraklētos no Antigo Testamento, o conceito de um intercessor ou mediador celestial encontra paralelos em figuras como o anjo do Senhor e em conceitos como o Espírito de Deus. O termo melitz (מֵלִיץ), que significa “intérprete” ou “mediador”, como em Jó 16:20 e 33:23, pode ser considerado um equivalente funcional em alguns contextos. A compreensão do Parácleto como o Espírito Santo é fundamental para a teologia joanina e para a pneumatologia cristã.