Confessionalismo Luterano

O Confessionalismo Luterano é uma vertente dentro do luteranismo que enfatiza a adesão às doutrinas descritas no Livro da Concórdia. Os luteranos confessionais buscam pregar, ensinar e praticar a fé de acordo com essas doutrinas, sendo a adesão a essas confissões critérios para comunhão eclesiológica.

Os luteranos confessionais surgiram no século XIX como uma resposta a movimentos como o pietismo e o racionalismo. Logo, assumiu uma postura que não seria conservador (por aceitar métodos acadêmicos de vanguarda em seu raciocínio) nem liberal (por entrincheirar-se em um ideal de ortodoxia atribuído ao período da Reforma), constrando-se com o cenário evangelical norteamericano.

Os principais componentes do Confessionalismo Luterano incluem a assinatura de credos como a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo e outros textos do Livro da Concórdia.

Em contextos contemporâneos, igrejas confessionais luteranas existem como denominações e como movimentos internos. Entre as denominações estão a Igreja Luterana-Sínodo de Missouri (LCMS), o Sínodo Evangélico Luterano de Wisconsin (WELS), Sínodo Evangélico Luterano (ELS) e a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Já movimentos internos confessinais existem em outras denominações luteranas, como a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, a Evangelical Lutheran Church in America, as igrejas territoriais alemães e escandinavas.

Geralmente o confessionalismo luterano apregoa que a adesão ao Livro de Concórdia deva ser “quia” (porque) expressa as verdades evangélicas oriundas do trilátero luterano: Escrituras, tradição e razão.

Magnificat

Em latim é o título incipit da oração de louvor de Maria em Luca 1:46-55.

Possui elementos análogos com o Cântico de Ana (1Sm 2:1-10), sendo um belo exemplo da poesia hebraica, estruturada em paralelismos.

Como o Cântico de Ana, é o cântico de celebração pelo nascimento de uma criança que epitomiza o fim da opressão. Salienta a consumação das promessas messiânicas em tom de extrema humildade dos meios pelos quais Deus se manifesta sua graça.

Estoicismo

Em grego Στωικοί. Os estoicos eram uma vertente filosófica influente durante os períodos helenista e romano que enfatizava a harmonia e resignação diante da natureza.

Os estoicos são mencionados em Atos 17:18, junto com os epicureus. Em At 17:28, Paulo cita um poeta estóico, Arato: “Pois nós realmente somos sua geração”.

Zenão (342-270 aC) foi o fundador do estoicismo. Seria originalmente um fenício que por acaso naufragou em Atenas. Por um tempo, conviveu com os ascéticos cínicos e depois passou a ensinar sob um pórtico (stoa). Seu discípulo Cleantes, apesar de respeitável, possuía pouca habilidade filosófica. Depois dele, Crisipo assumiu a direção da escola de 232 a 206 aC. Reorganizada, a escola filosófica funcionaria ainda por quatro séculos. Entre os romanos, Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio foram autores estoicos amplamente difundidos.

A escola estoica enfatizava a linguagem e lógica (Logos) como meios de apreensão racional da natureza (Physis). Em sua ética, argumentavam que o comportamento adequado resultaria da resignação ao destino (fatum).

A filosofia e o currículo da educação estoica eram divididos em três partes: lógica, física e ética.

Rejeitando bases empíricas, pois as percepções humanas são imperfeitas, os estoicos buscam a verdade no exame racional de conceitos pela lógica, preferindo um raciocínio dedutivo. Como a lógica proposicional era intimamente ligada à linguagem, os estoicos empregaram exaustivamente as disciplinas da gramática, retórica e dialética para fundamentar seus raciocínios.

Essa preocupação com a linguagem gerou algumas ramificações. Nessa escola há algumas pressuposições epistemológicas e de filosofia de linguagem que são distintivamente fundamentais no estoicismo, como a de que existe uma distinção clara entre ideias e matéria. A comunicação entre ambos é mediada pela linguagem. Por esse motivo, gramáticos e retóricos estoicos passaram a ser procurados pelo mundo do Mediterrâneo.

Outro pressuposto é que seria pela linguagem proposicional, ao invés dos objetos ou fenômenos em si, que se transmitiria e mediaria o Logos. Assim, criou-se uma confiança em uma epistemologia objetivista de correspondência entre objetos e seus signos, conforme expressos por proposições.

Mediante o conceito de Physis (natureza) os estoicos viam o mundo em dualismo (agente e paciente). Visto que a Razão (Logos) penetra todas as coisas, todo evento dependeria de uma lei universal de Destino ou Providência. Portanto, pressupunha que a Physis seria o parâmetro para se buscar harmonia, pois seria inerentemente boa. Essa posição notoriamente gerou o problema do Mal. Consequentemente, a teodiceia estoica nunca foi satisfatória ou uniforme.

Como na lógica proposicional empregada pelos estoicos reside a dicotomia entre verdadeiro ou falso, muitos de seus preceitos éticos acabaram sendo direcionados por dilemas. Por essa razão, o determinismo tornou-se rampante entre os estoicos. Epicteto dizia que a humanidade estava em uma peça de teatro cujos papéis e desfecho seriam já pré-determinados. O próprio universo estaria destinado a uma conflagração no qual a Physis existiria em perfeita harmonia.

Em ética, os estóicos defendiam a responsabilidade na vontade. Por esse motivo, rejeitaram a legitimidade do prazer e enfatizaram a virtude do caráter e uma vida de aceitação das adversidades. Em vez de evitar persistentemente a dor, consideraram que valia a pena correr riscos mesmo que isso causasse desprazeres.

A ética e o determinismo afetavam a escatologia estoica. Apesar da oposição entre alma e corpo, os estoicos esperavam que a alma sobrevivesse à destruição do corpo. Portanto, o mais válido seria aceitar as injustiças e sofrimentos nesta vida e esperar uma restauração da harmonia e da justiça na existência futura.

A verdadeira conquista da virtude é difícil. A physis humana é cruel e tola. Uns poucos passariam por uma conversão repentina e instantânea e compreenderiam aPhysis pela providência do Logos. Infelizmente, poucas pessoas se converteriam. Mesmo assim, isso só aconteceria tarde após uma vida árdua de incompreensão do Destino.

BÍBLIA

Fora as partes já mencionadas em At 17, pouco a Bíblia fala diretamente acerca do estoicismo. Contudo, era uma filosofia pervasiva no mundo do Novo Testamento.

Os fariseus praticamente assimilaram, traduziram e adaptaram o estoicismo para sua doutrina. Sua concepção de Torá passa a ser congruente com Logos e Physis. A valorização da ética, a importância da vontade e da alma, os debates, as questões da retórica e gramática do texto da Lei, a aceitação do sofrimento, são elementos estoicos encontrados entre os fariseus.

Há uma notável familiaridade de Paulo com o estoicismo. Sua formação farisaica, seus termos, lista de vícios e virtudes, elenco de vicissitudes sofrida, argumentos com diatribes parecem substanciar essa associação. As pseudoepígrafas correspondências de Paulo e Sêneca indicam que na Antiguidade muitos viram um paralelismo entre os pensamentos de ambos. Contudo, o exame sistemático tanto dos textos paulinos e do contexto não dão suporte conclusivo à tese de que Paulo teria sido influenciado pelo estoicismo.

Outro trecho supostamente com conotações estoicas é 2 Pedro 3:10-12, paralela à doutrina escatológica estoica da ecpirose, a destruição do mundo natural pelo fogo. Contudo, a concepção estoica de natureza está ausente da Bíblia. Ademais, a intervenção ativa e súbita do poder divino, equiparado ao Dilúvio, contrasta com uma progressão natural da natureza conforme o Destino estoico parecia planejar a conflagração universal.

A recepção do pensamento estoico no cristianismo ocidental não deve ser subestimada. Os escritos de Epicteto, Marco Aurélio e Sêneca foram cuidadosamente e abundantemente copiados ao longo de textos bíblicos durante a Idade Média. A ética de aceitação do sofrimento foi vista como virtude. Zwínglio e Calvino foram estudiosos do estoicismo. Muito da teologia ocidental foi fundada em termos e ideais estoicos. A reinterpretação de Sêneca (e Paulo) por meios do estoicismo renascentista levaram a uma extrapolação interpretativa dos escritos paulinos de modo muitas vezes eisegéticos.

A religiosidade popular ocidental também funda-se em vários aspectos do estoicismo: a crença de que tudo tem um propósito, a existência de um Destino, a busca pela harmonia com a intrinsecamente benévola Natureza. Esses são alguns elementos presentes nas cosmovisões de muitas sociedades influenciadas pelas culturas do Ocidente.

SAIBA MAIS

Alves, Leonardo. “Estoicismo: uma vida alinhada” Ensaios e Notas, 2022.

Tuomas Rasimus, Troels Engberg-Pedersen, Ismo Dunderberg (eds.). Stoicism in Early Christianity. Baker Academic, 2010.

Amoraita

Os amoraítas ou amoraim foram um grupo de estudiosos judeus que viveram e na antiga Palestina e Babilônia durante 200 d.C. a 500 d.C. Suas discussões e comentários do Mishná resultaram no Talmude, uma coleção de leis e tradições judaicas que continua sendo um texto central do judaísmo até hoje. Seus debates e discussões sobre a lei e prática judaica, e seus ensinamentos continuam a moldar o judaísmo normativo desde então.

Amom, Amonitas

Os amonitas (os “filhos de Amom”) são, na narrativa bíblica, um povo próximo, porém competidor dos israelitas. Este povo viveu a leste do rio Jordão, na área da Jordânia (Juízes 11:13) do final do Segundo Milênio até por volta de 500 a.C.

Os amonitas em Gn 19:30-38 aparecem como descendentes de um filho de Ló, sobrinho de Abraão, Ben-ami. Os conflitos entre Amom e Israel incluem Jefté contra uma coalizão de amonitas e filisteus (Jz 10:6-11:40). Os amonitas foram derrotados por Saul em Jabes-Gileade (1Sm 11) e depois por Davi em Rabá (2Sm 11:14-21).

Localizado em rotas de caravanas, a pequena, mas densa região do leste do Jordão teve um crescimento populacional durante a Idade do Ferro.

Documentos neo-assírios mencionam Amom. Um documento da época de Tiglate-Pileser menciona o tributo de um rei amonita. Os anais de Senaqueribe e Assurbanipal listam os reis de Amom. Em suas campanhas militares, o rei assírio Senaqueribe (c. 704-681 a.C.) dominou Buduili (Bod’el?) de Amom, Kammushu-nadbi (Chemosh-nadab) de Moabe e Ayarammu de Edom. O mesmo rei Buduili é mencionado em várias outros documentos.

A emergência de estados aramaeus, neo-assírio e neo-babilônico no final da Idade do Ferro coincide com o fim dos amonitas como povo e sociedades distintas (Josefo, Antiquidades Judaicas 10.180–182). A região foi progressivamente ocupada por povos árabes. Nos períodos helenísticos e romano, Amã foi renomeada Filadelfia por Ptolomeu II e era parte de Decápolis.

A língua amonita é pouco atestada por materiais epigráficos. Contudo, as inscrições são suficiente para estabelecer sua relação como parte do dialeto contínuo cananeu, os quais também incluem o hebraico e o moabita. Os registros epigráficos incluem a inscrição da cidadela de Amã (início do século VIII aC); uma grande coleção de selos, um jarro com inscrições de Tel Siran (século VI aC); a inscrição do Teatro de Amã (século VI aC). Arqueologicamente, os amonitas legaram uma tradição de esculturas com técnicas bem avançada quando comparadas com seus vizinhos da civilização sírio-cananeia.

A religião dos amonitas era centrada no culto a Milcom, conforme a Bíblia e onomástica teofórica. A raiz mlk indica rei ou governante e o sufixo possessivo –m parece indicar que o nome seria “seu rei”.

No geral, o retrado dos amonitas é negativo na Bíblia (Deuteronômio 23:3; Juízes 3:12-13; Juízes 11:4; 1 Samuel 11-12; 2 Samuel 10; 2 Reis 24:2; Ezequiel 25:2-9; Sofonias 2:8-9).

BIBLIOGRAFIA

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Dornemann, Rudolph H. The Archaeology of the Transjordan in the Bronze and Iron Ages. Milwaukee, WI: Milwaukee Public Museum, 1983.

Glueck, Nelson. The Other Side of the Jordan. 2d ed. Cambridge, MA: American Schools of Oriental Research, 1970.

Hübner, Ulrich. Die Ammoniter: Untersuchungen zur Geschichte, Kultur und Religion eines transjordanischen Volkes im 1 Jahrtausend v. Chr. Wiesbaden, Germany: Harrassowitz, 1992.

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