1 Pedro

A imitação a Cristo, meio a sofrimento e perseguição, rumo à glória final.

A epístola de 1 Pedro é apresentado como uma carta atribuída a Simão Pedro, discípulo de Jesus, dirigida às congregações cristãs em várias províncias do Império Romano na Ásia Menor. O título de 1 Pedro aparece durante o processo de canonização para distingui-la de 2 Pedro. A carta ganhou reconhecimento como um escrito cristão no século II, apesar de constar na antilegômena.

A autoria de 1 Pedro tem sido objeto de debate. Com base no próprio texto, há o argumento de que Pedro seja o autor, enquanto outros argumentam que é uma obra pseudônima escrita em nome de Pedro ou por uma vertente petrina. Os argumentos a favor do pseudônimo incluem a descrição do autor de si mesmo como um ancião em vez de especificamente como Pedro, a ausência de menção de experiências pessoais com Jesus, o grego peculiar (cheio de hapax legômena), a dependência na Septuaginta e o conhecimento das cartas paulinas.

A visão majoritária acredita que a carta tenha sido composta perto do final do primeiro século em Roma, considerando-a como “Babilônia” simbolicamente. Aborda a situação dos cristãos sofredores na Ásia Menor e enfatiza sua nova identidade como o povo escolhido de Deus. O autor baseia-se nas formas das cartas paulinas e incorpora tradições hínicas e litúrgicas. A carta encoraja a perseverança fiel diante da perseguição e destaca o sofrimento de Jesus como um exemplo a seguir.

No geral, 1 Pedro reflete o cuidado pastoral para com as comunidades cristãs que enfrentam adversidades e apresenta uma perspectiva positiva sobre sua condição de forasteiros no mundo, vendo seu sofrimento como um dom da graça de Deus.

Epístola aos Hebreus

Uma extenso sermão em formato de epístola, o Livro de Hebreus discorre sobre ter esperança em Jesus Cristo, o qual seria a substância da Lei.

Argumenta sobre a superioridade de Cristo em relação à antiga aliança, encorajando a perseverança na fé. Endereçada a cristãos de origem judaica que enfrentavam perseguição e a tentação de voltar ao judaísmo, a carta apresenta Hebreus ensina que o sacerdócio, sacrifício e a morte de Cristo foi um evento, realizado em um determinado ponto no tempo, e é válido e eficaz para sempre. Portanto, em Cristo houve o cumprimento definitivo das promessas de Deus.

Contexto e Destinatários:

A Epístola aos Hebreus foi escrita provavelmente entre 60 e 95 d.C., em um contexto de crescente hostilidade contra os cristãos no Império Romano. Seus destinatários, cristãos judeus, enfrentavam a pressão de retornar ao judaísmo não cristão, atraídos pela familiaridade de seus rituais e tradições, e desencorajados pela perseguição. A carta busca fortalecer sua fé, demonstrando a superioridade de Cristo e a natureza definitiva da nova aliança.

A questão se a Epístola aos Hebreus foi escrita antes ou depois da destruição do templo de Jerusalém no ano 70 d.C. permanece aberta no debate acadêmico. Há argumentos para ambas as posições.

Argumentos para a Epístola aos Hebreus ter sido escrita antes da destruição do templo incluem:

  1. O templo é referido no tempo presente, sugerindo que ainda estava de pé quando a carta foi escrita (Hebreus 9:6-9).
  2. O uso do tempo presente pelo autor ao descrever o sistema sacrificial sugere que ele ainda estava sendo praticado (Hebreus 10:1-3).
  3. A ausência de qualquer menção à destruição do templo ou à Guerra Judaico-Romana, que levou à destruição do templo em 70 EC.

Argumentos para a Epístola aos Hebreus sendo escrita após a destruição do templo incluem:

  1. O uso do pretérito pelo autor ao se referir ao sistema sacrificial, sugerindo que não estava mais em prática (Hebreus 9:9-10).
  2. A ênfase do autor em Cristo como o sumo sacerdote e sua rejeição ao sacerdócio levítico, que teria sido interrompido pela destruição do templo.
  3. A ausência de qualquer menção à existência contínua do templo, apesar de sua importância no culto judaico.

Autor:

A autoria da carta é incerta, provavelmente tenha sido escrita no final do século I, possivelmente por um cristão judeu helenístico. Uma tradição atribui-a ao apóstolo Paulo. No entanto, o estilo e o vocabulário diferem de outras cartas paulinas, sugerindo um autor diferente, possivelmente alguém próximo a Paulo, como Apolo ou Barnabé. O autor era bem versado tanto nas Escrituras judaicas quanto na filosofia helenística, e sua mensagem foi dirigida a uma comunidade de cristãos judeus que enfrentavam perseguição e que possivelmente sentiam tentados a voltar ao judaísmo.

A familiaridade do autor com o templo, a teologia do Pentateuco, o Livro de Jeremias e as práticas sacrificiais é demonstrada ao longo da carta, pois ele se baseia extensivamente nessas fontes para apoiar seus argumentos.

Estrutura e Temas:

O autor argumenta que Cristo é o sumo sacerdote perfeito, cuja morte sacrificial na cruz cumpriu e superou os sacrifícios da antiga aliança, e que ele abriu um caminho novo e melhor para chegar a Deus.

A carta apresenta uma estrutura complexa, entrelaçando exortações e argumentos teológicos. Seus principais temas incluem:

  • Superioridade de Cristo: Jesus é apresentado como superior aos anjos, a Moisés e aos sumos sacerdotes da antiga aliança. Ele é o mediador da nova aliança, oferecendo um sacrifício perfeito e definitivo pelos pecados.
  • Nova Aliança: A nova aliança em Cristo é superior à antiga, pois oferece acesso direto a Deus, perdão dos pecados e uma esperança eterna.
  • Fé e Perseverança: A carta enfatiza a importância da fé em Cristo e da perseverança em meio às dificuldades. Os exemplos de heróis da fé do Antigo Testamento servem como modelo para os cristãos enfrentarem as provações com coragem e confiança.
  • Advertências: O autor também inclui advertências contra a apostasia e a negligência da fé, exortando os leitores a permanecerem firmes em sua esperança em Cristo.

Interpretações:

A Epístola aos Hebreus tem sido interpretada de diversas maneiras ao longo da história da igreja. Algumas perspectivas incluem:

  • Tipologia: A carta utiliza extensamente a tipologia, interpretando eventos e personagens do Antigo Testamento como prefigurações de Cristo e da nova aliança.
  • Cristologia: Hebreus apresenta uma cristologia elevada, enfatizando a divindade e a humanidade de Cristo, sua obra redentora e seu papel como sumo sacerdote.
  • Soteriologia: A carta destaca a salvação oferecida por Cristo, que é completa e definitiva, contrastando com os sacrifícios repetitivos da antiga aliança.
  • Escatologia: Hebreus também aborda a esperança futura da segunda vinda de Cristo e da consumação do reino de Deus.

Implicações Práticas:

A mensagem de Hebreus continua relevante para os cristãos hoje. A carta nos convida a:

  • Fixar nossos olhos em Jesus: Confiar em Cristo como nosso sumo sacerdote e mediador, encontrando nele força e esperança em meio às dificuldades.
  • Perseverar na fé: Resistir à tentação de abandonar a fé, mesmo diante de perseguição ou sofrimento.
  • Viver em comunidade: Apoiar e encorajar uns aos outros na jornada da fé, buscando a santidade e a maturidade espiritual.

O livro de Hebreus usa extensivamente imagens sacrificiais para explicar a obra de Cristo. O autor traça paralelos entre o sistema sacrificial do Antigo Testamento e a morte sacrificial de Jesus, destacando Jesus como o sacrifício final e perfeito pelos pecados, bem como o sacerdote perfeito.

O autor de Hebreus emprega tipologia, vendo figuras e eventos do Antigo Testamento como prefigurações de Cristo e sua obra. O foco está no sumo sacerdócio de Cristo, e o autor enfatiza o papel de Jesus como mediador entre Deus e a humanidade. Embora isso enfatize a morte sacrificial de Jesus, não se refere a nenhuma forma de pagamento substitutivo pelos pecados. Ao contrário, o livro defende a superioridade e o propósito de cumprimento do sacrifício de Cristo, demonstrando seu papel messiânico.

Epístola a Filémon

Um apelo a um senhor convertido para tratar com bondade seu escravo crente.

A Epístola de Filemom é uma pequena carta do Novo Testamento, escrita por Paulo a um cristão chamado Filemom (também grafado em português Filemon). A carta é única porque trata de uma situação específica, em vez de abordar uma questão teológica ou doutrinária mais ampla. A situação envolve um escravo chamado Onésimo que fugiu da casa de Filemom e acabou em Roma, onde conheceu Paulo e se tornou cristão.

Paulo escreve a Filemom para pedir que perdoe Onésimo e o aceite de volta como irmão em Cristo, em vez de puni-lo como a lei permitia. O argumento de Paulo é baseado no fato de que tanto Filemom quanto Onésimo são agora cristãos e, portanto, parte da mesma família em Cristo.

Apesar de curta, falta contexto para situá-la. Os pontos de vista concorrentes sobre o contexto da carta incluem:

A visão majoritária vê Filemon como um cristão rico que tinha uma família que incluía escravos e pessoas livres. Onésimo foi um de seus escravos que fugiu e foi parar em Roma, onde conheceu Paulo e se tornou cristão. Paulo escreveu a carta para persuadir Filemom a perdoar Onésimo e aceitá-lo de volta como irmão em Cristo. Seu principal proponente patrístico foi Crisóstomos e chamada de teoria fugitivus.

Uma visão minoritária argumenta que a situação descrita na carta não é uma relação escravo-mestre, mas sim uma relação patrão-cliente. Filemom era um patrono que dera apoio econômico e proteção a Onésimo, e Onésimo traiu esse relacionamento ao fugir. De acordo com essa visão, Paulo não estava defendendo a abolição da escravidão, mas sim a preservação da relação patrono-cliente entre Filemom e Onésimo. É chamada teoria da mediação.

Próxima a essa visão, outra perspectiva, proposta por Peter Lampe (1985), apresenta Onésimo não como um fugitivo tentando escapar da escravidão para sempre, mas como alguém que caiu em desgraça com seu mestre e buscava a ajuda de terceiros para facilitar a reconciliação. Isso é muitas vezes referido como a teoria do amicus domini (amigo do mestre).

Independentemente da interpretação, a carta de Filemom continua sendo um texto importante para a compreensão dos pontos de vista da comunidade cristã primitiva sobre o perdão, a reconciliação e a relação entre escravos e senhores.

BIBLIOGRAFIA

Alencar, Gedeon Freire. Filemom: Esta Carta Deveria Ter Sido Escrita? Recriar, 2022.

Fitzmyer, J. A. The Letter to Philemon: A New Translation with Introduction and Commentary. New Haven: Yale University Press, 2000.

Harrill, J. Albert. Slaves in the New Testament: Literary, Social, and Moral Dimensions. Minneapolis: Fortress, 2006.

Young, Stephen E. Our Brother Beloved: Purpose and Community in Paul’s Letter to Philemon. Baylor University Press, 2021.

2 Timóteo

Nessa epístola pastoral paulina há uma instrução e encorajamento no dever ministerial para guardar o evangelho glorioso, mesmo meio a adversidade.

Acredita-se que 2 Timóteo tenha sido escrito no final de sua vida, durante uma possível segunda prisão em Roma. Na carta, Paulo fala de seu trabalho chegando ao fim e espera uma coroa de vitória. Ele contrasta sua fidelidade com o abandono infiel dos membros de suas igrejas, mas elogiando a lealdade de Timóteo e Onesíforo. A epístola enfatiza o evangelho da morte e ressurreição de Jesus e o sofrimento e prisão de Paulo e seus seguidores por causa disso.

A carta é escrita em forma de testamento ou despedida, semelhante ao Testamento dos Doze Patriarcas. Na carta, Paulo ressalta um modelo de liderança fiel mesmo diante da perseguição, e adverte contra os falsos mestres dentro da igreja. Paulo exorta Timóteo a selecionar sucessores dignos para levar adiante a tradição e ensinar e corrigir com fidelidade.

Endereçada a Timóteo, o qual é designado como dirigente da igreja em Éfeso. Paulo enfatiza a tradição de fé multigeracional de seu convertido e associa essa linhagem com sua própria tradição de fé ancestral. Timóteo foi comissionado por Paulo através da imposição de mãos, indicando o depósito da tradição. A ênfase da epístola no relacionamento especial entre Paulo e Timóteo reflete seu uso como modelo de liderança fiel e os deveres e responsabilidades instados ao público nas outras duas epístolas pastorais.

A epístola faz parte da Antilegômena paulina, sendo vários aspectos de sua autoria ainda debatidos.