Teologia ectipal

A teologia ectipal, um conceito na teologia reformada, refere-se ao conhecimento análogo e derivado de Deus que é estabelecido por Ele para a humanidade.

Diferente do conhecimento “arquetipal” (o conhecimento pleno e inerrante que Deus tem de Si mesmo), o conhecimento ectipal é uma comunicação da verdade divina que é acomodada à nossa compreensão humana, finita e pecaminosa. Essencialmente, é a maneira como Deus se revela a nós, adaptando Sua verdade infinita e complexa às nossas capacidades cognitivas limitadas, por meio de Sua Palavra revelada e de Sua providência.

Essa acomodação não implica que o conhecimento ectipal seja menos verdadeiro ou confiável; pelo contrário, ele é verdadeiro e suficiente para a salvação e para o viver piedoso, pois é o próprio Deus que o comunica. Ele nos permite ter um conhecimento genuíno de Deus, embora não exaustivo. A teologia ectipal reconhece que a linguagem humana, as categorias de pensamento e as experiências são moldadas por nossa finitude, e Deus, em Sua graça, utiliza esses meios para se relacionar conosco.

Em termos práticos, a teologia ectipal se manifesta nas Escrituras. A Bíblia seria a forma principal pela qual Deus revela Seu conhecimento ectipal. Os textos bíblicos usam linguagem humana, metáforas, narrativas e conceitos acessíveis para nos ensinar sobre a natureza de Deus, Seus atributos, Seus propósitos e Seus mandamentos. A revelação natural, por meio da criação, também oferece um conhecimento ectipal de Deus, embora de forma mais geral.

Este conceito serve para ressaltar tanto a transcendência de Deus (Seu conhecimento arquetipal é inatingível para nós em sua totalidade) quanto Sua imanência e graça (Ele escolhe se comunicar conosco de forma compreensível). Ao mesmo tempo, ele estabelece uma humildade epistemológica no estudo da teologia, reconhecendo que nossa compreensão de Deus é sempre parcial e mediada. A teologia ectipal, portanto, orienta o estudo bíblico e teológico a buscar a verdade revelada com reverência, sabendo que estamos lidando com um conhecimento divino que nos foi graciosamente concedido de uma forma que podemos apreender e que é, ao mesmo tempo, fiel à natureza inefável de Deus.

Megillat Antiochus

A Megillat Antiochus (מגילת אנטיוכוס), também conhecida por nomes como Megillat HaHashmonaim, Megillat Hanukkah ou Megillah Yevanit, é um livro apócrifo que narra a história do Hanukkah e as vitórias militares dos macabeus sobre os gregos selêucidas no século II a.C.

Embora compartilhe eventos com os Livros de Macabeus, ela se distingue por sua própria narrativa e elementos lendários. A obra foi originalmente composta na língua aramaica judaico-palestino, provavelmente entre os séculos II e V d.C., com uma tradução hebraica literal surgindo por volta do século VII. Algumas fontes sugerem que sua composição visava promover a observância do Hanukkah na Baixa Mesopotâmia, possivelmente em resposta à ascensão do Caraísmo, que rejeitava as tradições orais rabínicas.

O texto da Megillat Antiochus começa com uma descrição da grandeza de Antíoco e sua campanha contra Jerusalém, incluindo a profanação do Templo e a proibição de práticas judaicas essenciais como o sábado, o Rosh Chodesh e a circuncisão. A narrativa prossegue com os atos heroicos dos macabeus, destacando figuras como João, filho de Matatias, e suas vitórias contra os generais gregos, como Nicanor e Bagris. Ao final, a Megillah relata a purificação do Templo e o milagre do azeite, que, insuficiente para um dia, durou oito, instituindo assim a festa de Hanukkah.

Apesar de sua importância cultural e litúrgica para algumas comunidades judaicas, especialmente as iemenitas e, historicamente, as italianas, que a liam publicamente no Hanukkah de maneira semelhante à leitura do Livro de Ester no Purim, a Megillat Antiochus não é considerada canônica e contém anacronismos e imprecisões históricas. Por exemplo, ela descreve Antioquia como uma cidade costeira, atribui a João, filho de Matatias, o título de Sumo Sacerdote e uma longevidade do reinado de Antíoco que não se alinha com outras fontes históricas. A presença de passagens copiadas do Primeiro Livro dos Macabeus, juntamente com a adição de lendas talmúdicas, sugere uma compilação posterior com propósitos devocionais e edificantes, e não um relato estritamente histórico. No entanto, sua ampla circulação em manuscritos e edições antigas da Bíblia hebraica demonstra seu significado na tradição judaica medieval, mesmo que as comunidades fossem advertidas a não proferir uma bênção antes de sua leitura.

Constituição Dogmática Dei Verbum

A Constituição Dogmática Dei Verbum, promulgada pelo Papa Paulo VI em 18 de novembro de 1965, durante o Concílio Vaticano II, expressa a compreensão católica da Revelação Divina e da Sagrada Escritura.

Este documento conciliar, em continuidade com os Concílios de Trento e Vaticano I, visa apresentar a doutrina sobre como Deus se comunica com a humanidade e como essa comunicação é transmitida e compreendida pela Igreja Católica.

A Dei Verbum considera que a Revelação não é meramente um conjunto de verdades abstratas, mas um ato de amor de Deus que se dá a conhecer a si mesmo aos homens, convidando-os à comunhão. Essa “economia da revelação” se manifesta por meio de ações e palavras que estão intrinsecamente ligadas, onde as obras de Deus na história da salvação confirmam a doutrina, e as palavras, por sua vez, elucidam as obras e o mistério nelas contido.

A plenitude e a mediação de toda a Revelação encontram-se em Cristo, o Verbo encarnado. A Constituição aborda a transmissão da Revelação divina, destacando o papel dos apóstolos e seus sucessores como transmissores do Evangelho. Sublinha a íntima conexão e interpenetração entre a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura, ambas emanando da mesma fonte divina, formando um todo e convergindo para o mesmo fim.

Assim, para os católicos, a Igreja alcança a certeza sobre o que foi revelado não apenas pela Escritura, mas também pela Tradição, que devem ser recebidas com igual espírito de piedade e reverência.

O documento dedica capítulos específicos à inspiração divina e à interpretação da Sagrada Escritura, reconhecendo que, embora as palavras de Deus sejam expressas em linguagem humana, o Espírito Santo assiste a Igreja na compreensão e na atualização da Palavra de Deus. A historicidade dos Evangelhos é afirmada sem hesitação, e a Igreja é encorajada a venerar as Escrituras, promovendo seu estudo e difusão para que a Palavra de Deus se espalhe e encha os corações dos fiéis.

A Dei Verbum atribui importância do Antigo Testamento como preparação para a vinda de Cristo. Já o Novo Testamento seria manifestação plena da Palavra de Deus em Jesus Cristo. O documento, que culmina com a exortação à Igreja para que a Sagrada Escritura seja a alma da Teologia, estimula o aprofundamento da Palavra de Deus, inclusive através da tradução da Bíblia para todas as línguas, visando o bem da Igreja e de toda a humanidade.

Moradas

A palavra grega μoναιˊ (monai), traduzida como “moradas” em João 14:2-3, usualmente designa um aposento ou quarto. No entanto, o historiador Pausânias (Descrição da Grécia 10.31.7) empregou o termo para indicar caravançarás ou hospedarias temporárias ao longo de rotas, o que sugere uma ambiguidade semântica. A tradução latina “mansio” manteve o sentido de morada, consolidando na Renascença e Reforma a interpretação de “habitação” ou “lugar de moradia”, embora a fundamentação precisa dessa exegese permaneça incerta, possivelmente derivando de um trocadilho ou paronomásia. É notável o jogo de palavras entre μoναιˊ (monai) e μϵˊνω (menō), “permanecer”, verbo recorrente no Evangelho de João, o que aponta para uma possível interpretação de μoναιˊ como “lugar de permanência”.

A palavra grega μoνα ι ˊ (monai), substantivo feminino derivado de μ ϵ ˊ νω (menō, permanecer), possui um leque de significados em textos clássicos e pós-clássicos, abrangendo “permanência”, “demora” (Eurípides, Aristófanes, Xenofonte), “persistencia” (Aristóteles), “conservação” (gramáticos) e, mais frequentemente, “local de parada”, “aposento” ou “quarto”. Sua ocorrência no Novo Testamento é rara, aparecendo exclusivamente em João 14:2 e 14:23, o que a torna particularmente especial neste Evangelho. A interpretação de um local temporário de pousio seria teologicamente problemática, daí as dificuldades exegéticas para encontrar uma explicação satisfatória. Uma interpretação seria a uma alusão informal às insulae, moradias multifamilares.

A partir das escavações em Pompeia, o conhecimento sobre as insulae — blocos de edifícios multifamiliares de múltiplos andares — expandiu-se. Descobertas arqueológicas em Samaria, Cafarnaum, Meiron, Arbel e Corazim confirmaram a existência de insulae na região, levando à suposição de que Jesus, em João 14:2-3, estaria se referindo a esse tipo de construção.

Marco Antonio de Dominis

Marco Antonio de Dominis (1560-1624), clérigo, cientista e polímata dálmata.

Nascido na ilha de Rab (atual Croácia) em uma família nobre, de Dominis foi educado pelos jesuítas em Loreto e Pádua, onde lecionou matemática, lógica, retórica e filosofia em Pádua e Brescia. Sua trajetória eclesiástica ascendeu rapidamente, tornando-se bispo de Senj em 1596 e, em 1602, arcebispo de Split e primaz da Dalmácia e de toda a Croácia. Contudo, suas tentativas de reformar a Igreja Católica e a crescente interferência da cúria papal em seus direitos metropolitanos, intensificadas pela disputa entre o papado e Veneza, tornaram sua posição insustentável.

De Dominis, um homem de intelecto notável, mas descrito por seus contemporâneos como irascível, pretensioso e avarento, destacou-se por sua obra científica. Em 1611, publicou em Veneza o Tractatus de radiis visus et lucis in vitris, perspectivis et iride, no qual, segundo Isaac Newton, foi o primeiro a desenvolver uma teoria correta do arco-íris, explicando que a luz sofre duas refrações e uma reflexão interna em cada gota de chuva. Além disso, discorreu sobre lentes e telescópios, tendo contato com Galileu e sendo publicado pelo mesmo editor de Sidereus nuncius. Sua obra física foi complementada posteriormente por Euripus seu De fluxu et refluxu maris (Roma, 1624), sobre as marés.

Seu conflito com a Santa Sé culminou em sua partida para a Inglaterra em 1616, onde foi calorosamente recebido pelo Rei Jaime I e pela Igreja Anglicana. Convertido ao anglicanismo, foi nomeado deão de Windsor e mestre do Savoy. Na Inglaterra, de Dominis publicou ataques veementes ao papado, sendo sua obra mais proeminente De Republicâ Ecclesiasticâ contra Primatum Papæ (Vol. I, 1617, Londres; Vol. II, 1620, Londres; Vol. III, 1622, Hanau), na qual defendia que o Papa não tinha jurisdição sobre os bispos, sendo apenas um primus inter pares, e advogava pelos direitos das igrejas nacionais. Ele também publicou, sem autorização, a Istoria del Concilio di Trento de Paolo Sarpi, dedicando-a ao Rei Jaime I.

No entanto, a inconstância marcou sua vida. Com a elevação de seu parente, Alessandro Ludovisi, ao papado como Gregório XV em 1621, de Dominis buscou reconciliação com Roma, retornando em 1622 após renegar suas obras antipapais em Sui Reditus ex Anglia Consilium (Paris, 1623), onde admitiu ter mentido deliberadamente em suas críticas à Igreja Católica. Após a morte de Gregório XV em 1623, perdeu sua proteção e foi preso pela Inquisição sob acusação de heresia. Marco Antonio de Dominis morreu na prisão de Castel Sant’Angelo em setembro de 1624. Postumamente, foi condenado como herege, e seu corpo e escritos foram desenterrados e queimados publicamente no Campo de’ Fiori em Roma, em 21 de dezembro de 1624.

Apesar de sua turbulenta trajetória pessoal e eclesiástica, Marco Antonio de Dominis expressou uma das mais belas e influentes máximas sobre a unidade cristã: “Em coisas necessárias, unidade; em coisas incertas, liberdade; em todas as coisas, caridade.”

Em seu contexto original,

“Omnesque mutuam amplecteremur unitatem in necessariis, in non necessariis libertatem, in omnibus caritatem. Ita sentio, ita opto, ita plane spero, in eo qui est spes nostra et non confundemur.”

“E que todos abracemos mutuamente a unidade nas coisas necessárias; a liberdade nas coisas incertas; a caridade em todas as coisas. Assim sinto, assim desejo, assim claramente espero, n’Aquele que é a nossa esperança e não seremos confundidos.”

Embora por muito tempo atribuída erroneamente a Agostinho de Hipona ou ao teólogo luterano Peter Meiderlin, a autoria a de Dominis foi definitivamente comprovada por Henk Nellen (1999). A frase, em latim “In necessariis unitas, in non necessariis libertas, in omnibus caritas”, ou variações dela, aparece pela primeira vez na obra de Dominis, De Republica Ecclesiastica, publicada em Londres em 1617. Essa citação encapsula um ideal ecumênico, ressoando com a aspiração pela harmonia e tolerância religiosa em um período de intensas divisões. Veio a ser o lema da Igreja Morávia. É citada em documentos católicos, metodistas e ecumênicos.

BIBLIOGRAFIA

de Dominis, Marco Antonio (1617). De republica ecclesiastica, libri X, caput 8.

Nellen, Henk J. M. (1999). “De zinspreuk ‘In necessariis unitas, in non necessariis libertas, in utrisque caritas'”. Nederlands Archief voor Kerkgeschidenis. 79 (1): 99–106. doi:10.1163/002820399X00232.