Marco Antonio de Dominis

Marco Antonio de Dominis (1560-1624), clérigo, cientista e polímata dálmata.

Nascido na ilha de Rab (atual Croácia) em uma família nobre, de Dominis foi educado pelos jesuítas em Loreto e Pádua, onde lecionou matemática, lógica, retórica e filosofia em Pádua e Brescia. Sua trajetória eclesiástica ascendeu rapidamente, tornando-se bispo de Senj em 1596 e, em 1602, arcebispo de Split e primaz da Dalmácia e de toda a Croácia. Contudo, suas tentativas de reformar a Igreja Católica e a crescente interferência da cúria papal em seus direitos metropolitanos, intensificadas pela disputa entre o papado e Veneza, tornaram sua posição insustentável.

De Dominis, um homem de intelecto notável, mas descrito por seus contemporâneos como irascível, pretensioso e avarento, destacou-se por sua obra científica. Em 1611, publicou em Veneza o Tractatus de radiis visus et lucis in vitris, perspectivis et iride, no qual, segundo Isaac Newton, foi o primeiro a desenvolver uma teoria correta do arco-íris, explicando que a luz sofre duas refrações e uma reflexão interna em cada gota de chuva. Além disso, discorreu sobre lentes e telescópios, tendo contato com Galileu e sendo publicado pelo mesmo editor de Sidereus nuncius. Sua obra física foi complementada posteriormente por Euripus seu De fluxu et refluxu maris (Roma, 1624), sobre as marés.

Seu conflito com a Santa Sé culminou em sua partida para a Inglaterra em 1616, onde foi calorosamente recebido pelo Rei Jaime I e pela Igreja Anglicana. Convertido ao anglicanismo, foi nomeado deão de Windsor e mestre do Savoy. Na Inglaterra, de Dominis publicou ataques veementes ao papado, sendo sua obra mais proeminente De Republicâ Ecclesiasticâ contra Primatum Papæ (Vol. I, 1617, Londres; Vol. II, 1620, Londres; Vol. III, 1622, Hanau), na qual defendia que o Papa não tinha jurisdição sobre os bispos, sendo apenas um primus inter pares, e advogava pelos direitos das igrejas nacionais. Ele também publicou, sem autorização, a Istoria del Concilio di Trento de Paolo Sarpi, dedicando-a ao Rei Jaime I.

No entanto, a inconstância marcou sua vida. Com a elevação de seu parente, Alessandro Ludovisi, ao papado como Gregório XV em 1621, de Dominis buscou reconciliação com Roma, retornando em 1622 após renegar suas obras antipapais em Sui Reditus ex Anglia Consilium (Paris, 1623), onde admitiu ter mentido deliberadamente em suas críticas à Igreja Católica. Após a morte de Gregório XV em 1623, perdeu sua proteção e foi preso pela Inquisição sob acusação de heresia. Marco Antonio de Dominis morreu na prisão de Castel Sant’Angelo em setembro de 1624. Postumamente, foi condenado como herege, e seu corpo e escritos foram desenterrados e queimados publicamente no Campo de’ Fiori em Roma, em 21 de dezembro de 1624.

Apesar de sua turbulenta trajetória pessoal e eclesiástica, Marco Antonio de Dominis expressou uma das mais belas e influentes máximas sobre a unidade cristã: “Em coisas necessárias, unidade; em coisas incertas, liberdade; em todas as coisas, caridade.”

Em seu contexto original,

“Omnesque mutuam amplecteremur unitatem in necessariis, in non necessariis libertatem, in omnibus caritatem. Ita sentio, ita opto, ita plane spero, in eo qui est spes nostra et non confundemur.”

“E que todos abracemos mutuamente a unidade nas coisas necessárias; a liberdade nas coisas incertas; a caridade em todas as coisas. Assim sinto, assim desejo, assim claramente espero, n’Aquele que é a nossa esperança e não seremos confundidos.”

Embora por muito tempo atribuída erroneamente a Agostinho de Hipona ou ao teólogo luterano Peter Meiderlin, a autoria a de Dominis foi definitivamente comprovada por Henk Nellen (1999). A frase, em latim “In necessariis unitas, in non necessariis libertas, in omnibus caritas”, ou variações dela, aparece pela primeira vez na obra de Dominis, De Republica Ecclesiastica, publicada em Londres em 1617. Essa citação encapsula um ideal ecumênico, ressoando com a aspiração pela harmonia e tolerância religiosa em um período de intensas divisões. Veio a ser o lema da Igreja Morávia. É citada em documentos católicos, metodistas e ecumênicos.

BIBLIOGRAFIA

de Dominis, Marco Antonio (1617). De republica ecclesiastica, libri X, caput 8.

Nellen, Henk J. M. (1999). “De zinspreuk ‘In necessariis unitas, in non necessariis libertas, in utrisque caritas'”. Nederlands Archief voor Kerkgeschidenis. 79 (1): 99–106. doi:10.1163/002820399X00232.

Howard Thurman

Howard Thurman (1899-1981) foi um teólogo, educador e ativista dos direitos civis americano,

A obra Thurman foi permeada por uma interpretação da Bíblia centrada na experiência dos marginalizados. Thurman, formado em teologia, utilizou a Bíblia como fonte de esperança e resistência, especialmente para a comunidade afro-americana. Seus livros, como “Jesus and the Disinherited” (1949), discorrem sobre os ensinamentos de Jesus para aqueles que sofrem opressão, conectando a fé cristã com a luta pela justiça social.

A teologia de Thurman enfatiza a dignidade intrínseca de cada ser humano e a necessidade de uma espiritualidade que impulsione a ação social. Seus escritos têm sido objeto de estudo em diversas áreas, incluindo teologia, ética e estudos afro-americanos.

A influência de Thurman transcende o contexto acadêmico, impactando líderes do movimento dos direitos civis, como Martin Luther King Jr., que o considerava um mentor. A sua abordagem bíblica, que destaca a relevância da mensagem de Jesus para os oprimidos, continua a inspirar debates sobre fé, justiça e transformação social.

Catherine Mowry LaCugna

Catherine Mowry LaCugna (1952-1997) foi uma teóloga católica americana.

A contribuição acadêmica de LaCugna se concentrou na teologia trinitária, com uma abordagem feminista e contextualizada. LaCugna obteve seu doutorado em Teologia pela Universidade de Notre Dame em 1979, onde estudou com Zachary Hayes. Lecionou no departamento de teologia da Universidade de Notre Dame de 1981 até 1997.

O trabalho de LaCugna sobre a doutrina da Trindade é central em sua produção. Ela criticou abordagens que considerava abstratas e especulativas, argumentando que se distanciavam da experiência da salvação. Defendeu um retorno à “Trindade econômica”, a revelação de Deus como Pai, Filho e Espírito Santo na história da salvação. Seu pensamento teológico se centrava na ideia de que a teologia deve ser feita “para nós” (pro nobis), a serviço da vida cristã e da transformação do mundo. A doutrina da Trindade, portanto, é vista como uma descrição de como Deus se relaciona com a humanidade e convida à participação na vida divina.

LaCugna é uma das pioneiras da teologia feminista. Argumentou que a teologia dominante foi moldada por perspectivas patriarcais, e que era preciso desenvolver novas abordagens que levassem em conta as experiências das mulheres. Enfatizou a importância da contextualização da teologia, a necessidade de considerar os contextos culturais e sociais nos quais a teologia é feita. Para LaCugna, teologia e espiritualidade estão ligadas. Ela defendeu uma espiritualidade trinitária, um convite à comunhão com Deus e com o próximo.

Sua obra mais conhecida é “God for Us: The Trinity and Christian Life” (1991). Neste livro, LaCugna apresenta sua reinterpretação da doutrina da Trindade, enfatizando seu caráter relacional e sua relevância para a vida cristã. “Freeing Theology: The Essentials of Theology in Feminist Perspective” (1993) é uma coleção de ensaios de teólogas feministas, na qual LaCugna contribuiu com um ensaio sobre a Trindade. Também publicou em periódicos acadêmicos, incluindo Theological Studies e Modern Theology. Alguns de seus ensaios e palestras foram publicados postumamente.

W. M. A. Schniedewind

William M. A. Schniedewind (n. 1962) é um biblista e especialista em línguas semíticas e na composição bíblica.

Nascido em 1962, na cidade de Nova York, Schniedewind recebeu o cargo de Professor de Estudos Bíblicos e Línguas Semíticas do Noroeste e a Cátedra Kershaw de Estudos Antigos do Mediterrâneo Oriental na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA).

Schniedewind obteve seu B.A. em Religião pela George Fox University em Newberg, Oregon, um M.A. em Geografia Histórica do Antigo Israel pelo Jerusalem University College, e um M.A. e Ph.D. em Estudos do Oriente Próximo e Judaicos pela Brandeis University.

A pesquisa de Schniedewind se concentra na história e literatura do antigo Israel, com ênfase particular na história textual da Bíblia Hebraica. Schniedewind é autor de vários livros e artigos influentes, incluindo How the Bible Became a Book (2004), que explora o desenvolvimento da Bíblia Hebraica como um artefato físico e literário, e The Finger of the Scribe: The Beginnings of Scribal Education and How It Shaped the Hebrew Bible (2019), que examina o papel dos escribas na formação da Bíblia Hebraica.

Schniedewind participou de escavações em Tel Dan e Tel Afeq, em Israel. Ele também é diretor do Qumran Visualization Project, que cria modelos de realidade virtual da antiga Qumran.

Schniedewind é um membro ativo da Sociedade de Literatura Bíblica e da Associação Americana de Escolas Orientais de Pesquisa. Ele atuou como editor de rede para a seção Pergaminhos do Mar Morto e Judaísmo do Segundo Templo da Religious Studies Review e faz parte dos conselhos editoriais do Bulletin of the American Schools of Oriental Research, do Journal of Biblical Literature e de Tel Aviv.

“Como a Bíblia se tornou um livro: a textualização do antigo Israel”, de William Schniedewind, é um livro que traça o desenvolvimento da Bíblia hebraica (Antigo Testamento), desde suas tradições orais até sua forma escrita. O livro discute como a Bíblia foi criada ao longo de séculos de escrita, edição e compilação, com vários autores, editores e redatores acrescentando suas próprias contribuições ao texto.

Schniedewind considera os fatores sociais, políticos e religiosos na escrita e organização da Bíblia. Discute o papel dos escribas, a evoluação do alfabeto e as instituições do estado dos antigos hebreus. Analisa as controvérsias e conflitos que surgiram sobre a interpretação e transmissão do texto bíblico, como o o papel do sacerdócio e a tensão entre diferentes tradições religiosas.

African Apostolic Church (Masowe)

Johane Masowe Chishanu Church, também chamada de the Vapostoli a Johane Masowe (Gospel of God Church), Apostolic Sabbath Church of God, Vahosanna.

Johane Masowe (1889–1973) foi um líder espiritual que fundou a Igreja Apostólica Johane Masowe Chishanu na década de 1920. Nascido como Masedza Gadzema em uma área rural do Zimbábue, cresceu em condições de pobreza. Segundo relatos, teve uma visão de um anjo que o incumbiu de pregar arrependimento e santidade. Iniciou suas pregações nas ruas de Harare, atraindo multidões com suas mensagens espirituais e despertando grande interesse entre os habitantes locais.

Durante seus ensinamentos, rejeitou a forma ocidental do cristianismo, enfatizando a espiritualidade africana. Suas práticas incluíam jejum, oração e a imposição de mãos para a cura de enfermos. Na década de 1930, foi associado brevemente à Apostolic Faith Mission na África do Sul, mas acabou desenvolvendo uma abordagem distinta, baseada em revelações. Uma de suas orientações mais marcantes foi a rejeição inicial de rituais religiosos e textos, incluindo a Bíblia, defendendo o abandono de bens materiais e invenções associadas aos colonizadores brancos.

Em 1947, seus seguidores estabeleceram-se em Port Elizabeth, na África do Sul, especificamente na favela de Korsten, onde adotaram um modelo comunitário de vida, compartilhando bens e desenvolvendo atividades como a confecção de cestos para sustento. Em 1961, devido a tensões políticas e religiosas, 1.880 membros de sua comunidade foram deportados para o Zimbábue. Posteriormente, sua influência se espalhou por outros países, incluindo Zâmbia, Quênia, Tanzânia, Moçambique e Congo.

Ao longo de sua trajetória, as mudanças nas práticas religiosas de Johane provocaram divisões dentro do movimento. Quando voltou a adotar a Bíblia e declarou o sábado como dia santo, em vez da sexta-feira, parte de seus seguidores interpretou essa mudança como um desvio do caminho espiritual original. Esse grupo rompeu com Johane e formou uma nova ramificação, que continua a rejeitar a Bíblia e outros elementos materiais, enfatizando a orientação direta do Espírito Santo. Suas práticas incluem reuniões em espaços abertos, a rejeição da eucaristia, uma estrutura eclesiástica horizontal, a não arrecadação de dinheiro durante os cultos e a ausência de registros escritos de cânticos ou profecias.

Johane Masowe faleceu na Zâmbia em 1973, mas seu legado perdura em diversas comunidades religiosas que seguem os princípios de suas revelações e visão espiritual.