Camisards

Os Camisards eram um grupo de protestantes franceses ou huguenotes, que viveram na região acidentada de Cévennes, no sul da França, durante o final do século XVII e início do século XVIII. Desempenharam um papel significativo na história da perseguição e resistência religiosa na França.

Os protestantes franceses tiveram uma presença significativa na região de Cévennes no início do século XVI. Muitas vezes enfrentaram perseguições e restrições às suas práticas religiosas, levando-os a adorar em áreas remotas, como florestas, cavernas e ravinas. O Édito de Nantes de 1598 proporcionou algum alívio aos protestantes, mas não garantiu totalmente a sua liberdade religiosa. A situação agravou-se com a revogação do Édito de Nantes em 1685, que levou à proibição dos cultos protestantes e à destruição dos seus templos.

Em resposta à revogação do Édito de Nantes, os huguenotes que permaneceram em Cévennes levantaram-se em defesa da sua liberdade religiosa. Eles pegaram em armas contra as tropas reais e iniciaram um período de resistência armada de 1702 a 1704. Os combates esporádicos continuaram até 1715.

Os Camisards lutaram contra adversidades significativas, com cerca de 3.000 protestantes enfrentando 30.000 soldados reais. Os seus esforços para resistir à perseguição religiosa e defender as suas crenças tornaram-se um símbolo de resistência religiosa.

A Revolta Camisard

A resistência dos Camisards, muitas vezes referida como Revolta Camisard, foi caracterizada por táticas de guerrilha. Com apoio das suas comunidades locais e no seu conhecimento do terreno montanhoso, emboscavam as tropas reais e interrompiam as comunicações. Os comandantes dos Camisards, escolhidos pelas suas capacidades proféticas, lideraram estes bandos rebeldes e defenderam a destruição da Igreja Católica.

O conflito entre os Camisards e a monarquia francesa foi marcado por episódios de violência, incluindo o incêndio de aldeias nas montanhas e pogroms militares dirigidos à população civil. Apesar da derrota final dos Camisards, a sua resistência garantiu que o protestantismo persistisse na região de Cévennes.

Aspectos Proféticos e Carismáticos

O movimento Camisard foi caracterizado por elementos proféticos e carismáticos. Profetas e profetisas desempenhavam um papel crucial na comunidade, fornecendo orientação espiritual e previsões. Os Camisards acreditavam ter recebido revelações diretas do Espírito Santo, o que os capacitou para resistir à Igreja Católica e à monarquia.

A inspiração profética muitas vezes incluía manifestações emocionais, como falar com grande agitação e soluçar, cair no chão e entregar profecias. Esta tradição profética foi fundamental para fortalecer a determinação dos Camisards e inspirá-los a continuar a sua resistência.

Uma característica distintiva do movimento Camisard foi o envolvimento ativo de mulheres e crianças em papéis de liderança. Mulheres e crianças manifestavam com falar em línguas, profetizar e liderança reuniões. Os Camisards viram isto como um sinal divino de aprovação à sua resistência. Foi relatado que as crianças, em particular, falavam em línguas estrangeiras, o que interpretaram como um sinal de julgamento sobre o rei francês e a Igreja Católica.

BIBLIOGRAFIA

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Escola de Princeton

A Escola de Princeton, princetonianismo ou a teologia de Princeton foi uma vertente teológica reformada e presbiteriana centrada no Seminário Teológico de Princeton, desde a sua fundação em 1812 até a década de 1920. Os princetonianos apresentavam-se como os guardiões da ortodoxia reformada, embora fossem frutos da modernidade do século XIX.

Os teólogos de Princeton, como Archibald Alexander, Charles Hodge e B. B. Warfield, aderiram a uma mistura de confessionalismo calvinista presbiteriano, um evangelicalismo conversionista e uma retórica de erudição. Possuíam um apreço pelo contexto americano, uma combatividade contra pensamentos e movimentos concorrentes, métodos positivistas e pressupostos da filosofia do senso comum escocês.

As origens de Princeton remontam ao Log College (1735) , uma escola durante o Primeiro Grande Despertar liderada por William Tennent, Sr. O College of New Jersey surgiu do Log College em 1746.

O Seminário foi fundado em 1812 com o lema “Piedade do coração e aprendizado sólido”. O corpo docente inicial incluía Archibald Alexander , Samuel Miller e Charles Hodge. Archibald Alexander (1772-1851) era originário da Virgínia. Tinha experiência como presidente do Hampden-Sydney College e pastor antes de se tornar o primeiro professor do Seminário de Princeton. Samuel Miller (1769-1850) ingressou no corpo docente depois de servir como pastor na cidade de Nova York. Charles Hodge (1797-1878) ingressou no corpo docente em 1820, depois de estar entre os primeiros formandos do Seminário de Princeton.

Enraizados na tradição protestante reformada, os teólogos de Princeton viam-se como herdeiros do legado teológico de João Calvino. Antes de publicarem suas próprias teologias, como a Teologia Sistemática de Hodge, empregavam a dogmática de Francis Turretin como obra didática. A sua preferência pelos sistemas teológicos dos séculos XVI e XVII auxiliava no discurso de mantenedores das doutrinas tradicionais. Apesar de abraçarem a investigação científica, os teólogos mantiveram uma postura crítica em questões como o darwinismo, mesmo que seus expoentes, como B. B. Warfield, admitia um teísmo evolucionista.

Charles Hodge, estudou na Europa com Friedrich Schleiermacher e pautou a Escola de Princeton contra o que consideravam o liberalismo teológico e a “alta crítica” (crítica das fontes, no caso). Warfield articulou a doutrina da inspiração plenária verbal das Escrituras, defendendo sua inerrância.

A bibliologia de Princeton foi moldada através de embates polêmicos com exegetas crítico-históricos, pregadores revivalistas, teólogos arminianos-wesleyanos e quakers crentes no continuísmo. Os teólogos de Princeton formularam e propuseram firmemente uma versão de doutrinas para a inspiração verbal e a inerrância da Bíblia, afirmando que todas as referências nas Escrituras estavam isentas de erros em quaisquer matérias, de história a ciência. Pressupondo uma doutrina de inspiração mecânica, equiparavam as Escrituras à revelação divina, argumentando que a verdade poderia ser deduzida ou induzida diretamente da Bíblia. Depois, Warfield refinou seu conceito de inspiração, dando maior nuances para a agência dos autores em concurso do Espírito Santo. As doutrinas, consideradas absolutas, poderiam ser racionalmente destiladas das Escrituras, devido sua clareza e perspicuidade. A linguagem das Escrituras era considerada inequívoca, representando fielmente a realidade. A Revelação, vista como estática, era apreensível pelo senso comum. Os princetonianos viam a Bíblia como a fonte de princípios revelados, com versículos atomizados servindo como proposições a serem reorganizadas para transmitir verdades doutrinárias. Notavelmente, insistiram que nenhuma outra forma de discurso inspirado era necessária para a vida da igreja além das Escrituras canônicas.

A sua abordagem à apologética, exemplificada por Warfield, procurou demonstrar a crenças do calvinismo princetoniano através de argumentos racionais, ao mesmo tempo que reconhecia a necessidade da obra do Espírito Santo.

Os teólogos de Princeton, embora combatessem movimentos como os de Finney, Moody, Holiness e Pentecostal, também valorizavam a experiência religiosa. Viam a teologia e a piedade como correlatas, em equilíbrio entre os elementos intelectuais e afetivos da fé cristã. Apesar disso, foram os fundadores do cessacionismo moderno como doutrina.

Os pincetonianos, embora cautelosos em relação a avivamentos, engajaram-se ativamente no evangelismo. Archibald Alexander e J. W. Alexander promoveram reuniões de eavivamentos, e a Sociedade Estudantil de Investigação sobre Missões de Princeton contribuiu significativamente para o atividades missionárias. O próprio presbiterianismo no Brasil chegou via missionários e pastores influenciados ou aderentes à teologia de Princeton.

As ideias dos princetonianos foram difundidas por periódicos, incluindo o Biblical Repertory e The Princeton Theological Review (1825-1929). As “Stone Lectures” de Abraham Kuyper em 1898 integraram as agendas do princetonianismo com muitos aspectos do neocalvinismo kuyperiano holandês, especialmente sobre uma interação informada com a cultura ampla.

Marcante para o método de produção teológica dos princetonianos era a polêmica. Constantemente estavam em controvérsia com pensamentos divergentes. No início, atacavam os movimentos da região de fronteira — os presbiterianos cumberland, metodistas, os batistas, o movimento restauracionista Campbell-Stone e o avivalismo de Finney. Direcionavam também suas polêmicas mesmo contra reformados, como a teologia de Mercerburg e a teologia de New Haven, bem como preferiam ignorar posições reformadas que discordavam de suas doutrinas, principalmente a 2a Confissão Helvética e o Catecismo de Heildeberg. Mais tarde, atacariam o evangelho social, os irmãos, o movimento de Moody, os acadêmicos bíblicos, o movimento de santidade, o movimento pentecostal, dentre outros.

Nos anos 1920, o Seminário Teológico de Princeton estava envolvido na controvérsia fundamentalismo-liberalismo. Como consequência, nas décadas seguintes os que se consideravam representantes da ala conservadora acabaram saíndo e formando o Westminter Theological Seminary.

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Averroísmo

O Averroísmo é uma escola de pensamento filosófico que surgiu nos séculos XII e XIII e se baseia nas obras do filósofo andaluz Averróis (Ibn Rushd). Averróis (1126-1198) foi um prolífico comentarista de Aristóteles e seu trabalho desempenhou um papel significativo na transmissão do pensamento aristotélico ao Ocidente latino.

O Averroísmo é caracterizado pela sua ênfase na razão e pela sua crença na unidade do intelecto. Os averroístas argumentam que existe apenas um intelecto que é compartilhado por todos os seres humanos. Isto significa que as almas individuais não têm o seu próprio intelecto, mas antes participam do único intelecto universal.

Os averroístas também acreditam que o mundo é eterno e que não existe imortalidade individual. Em vez disso, argumentam que apenas o intelecto é imortal e que as almas individuais são reabsorvidas no intelecto universal após a morte.

O Averroísmo foi um movimento controverso na sua época e foi condenado tanto pela Igreja Católica como pelas autoridades islâmicas. No entanto, também teve uma influência profunda no pensamento ocidental, e as suas ideias foram posteriormente reavivadas por pensadores renascentistas como Marsilio Ficino e Baruch Spinoza.

A primazia da razão era cental para os averroístas. A razão é o principal meio de aquisição de conhecimento e que deve ser usada para orientar a ação humana.

Os Averroistas argumentam a A unidade do intelecto. Existe apenas um intelecto que é compartilhado por todos os seres humanos.

Os averroístas acreditavam que o mundo é eterno e que não houve começo nem fim para o tempo.

Os Averroistas argumentam que apenas o intelecto é imortal e que as almas individuais são reabsorvidas no intelecto universal após a morte.

A ênfase de Averróis na razão e na filosofia levou ao desenvolvimento da doutrina da “dupla verdade”, sugerindo que existem verdades de fé e verdades de razão, e estas às vezes podem estar em tensão. Este seria um dos princípios fundamentais do Averroísmo. Esta doutrina afirma que existem duas verdades diferentes: uma que é revelada pela fé religiosa e outra que é descoberta pela razão. Averróis argumentou que estas duas verdades não são necessariamente contraditórias, mas que podem por vezes levar a conclusões diferentes.

Essa doutrina da dupla verdade fundamentou a exploração da teologia dos atributos de Deus pela escolástica medieval. Assim, mesmo admitindo que a linguagem e intelecto humano seriam limitados, seria racional discutir sobre a natureza de Deus para informar a fé. Portanto, questões como Deus pode ser simultaneamente eterno e imutável, ou onipotente e onibenevolente, único e triúno seriam passíveis de inquirição teológica.

Alguns Averroístas, como Siger de Brabante, aplicaram esta ideia à teologia cristã, sugerindo que certas verdades filosóficas poderiam estar em desacordo com as doutrinas religiosas.

O Averroísmo promoveu a ideia de autonomia intelectual, afirmando que a razão poderia chegar às verdades independentemente da revelação. Esta noção levantou preocupações entre os teólogos cristãos sobre a potencial subordinação da fé à razão.

A interpretação de Averróis das opiniões de Aristóteles sobre a alma, sugerindo um intelecto único e eterno para todos os humanos, entrou em conflito com as doutrinas cristãs da imortalidade individual.

Alguns pensadores cristãos, como Tomás de Aquino, envolveram-se em debates com os averroístas sobre a natureza da alma e a compatibilidade da filosofia aristotélica com as crenças cristãs.

Apesar das tensões, o Averroísmo teve um impacto significativo na escolástica cristã medieval. Estudiosos cristãos, incluindo Tomás de Aquino, engajaram-se nas ideias averroístas para integrar o pensamento aristotélico na teologia cristã.
Tomás de Aquino, embora crítico de algumas posições averróis, procurou reconciliar certos aspectos da filosofia de Averróis com a doutrina cristã, particularmente no domínio da teologia natural.

A influência do Averroísmo levou a condenações. Em 1277, o bispo de Paris condenou várias proposições averroístas. A condenação papal de 219 proposições em 1277, conhecida como Condenações de Paris, incluía condenações de certas ideias averroístas.

Na Renascença e em períodos posteriores, alguns pensadores cristãos revisitaram as ideias averroístas. No entanto, foram feitos esforços para distinguir entre o Averroísmo como método filosófico e proposições teológicas específicas que podem ser incompatíveis com a doutrina cristã.

A relação entre o Averroísmo e a teologia cristã envolveu uma complexa interação de influência, tensão e tentativas de reconciliação. Embora as ideias averroístas inicialmente suscitassem preocupações e enfrentassem condenações, elas também desempenharam um papel na formação do desenvolvimento da escolástica cristã medieval. Os compromissos posteriores com o Averroísmo refletiram esforços para navegar na relação entre razão e fé no contexto da teologia cristã.

Bond van Vrije Evangelische Gemeente

A Bond van Vrije Evangelische Gemeente, ou a Liga das Congregações Evangélicas Livres (VEG) são um a denominação protestante holandesa na tradição das igrejas livres.

A história do VEG remonta a meados do século XIX, quando congregações independentes surgiram ao lado da Igreja Reformada Holandesa e da Secessão de 1834. Figuras notáveis como Jan de Liefde, Hermanus Willem Witteveen e Hubert Jacobus Budding desempenharam papéis significativos na formação inicial do movimento.

A Liga das Congregações Evangélicas Livres foi instituído em 1879, unindo inicialmente cinco comunidades. Foi influenciada pelo ministério de D. L. Moody, Ira Sankey e pelo movimento de Keswick. Desde seu início adotou uma postura não credal, valorizando o evangelismo.

Sua forma congregacional é baseada na independência, sem um sínodo ou estrutura de autoridade sinodal. Localmente, é governada por um corpo de presbíteros e diáconos. Influenciado pelo movimento Réveil do século XIX e vários reavivamentos evangélicos, o VEG também mostra influências do Movimento Litúrgico em algumas congregações.

O VEG tem afiliações com organismos internacionais como a Federação Internacional de Igrejas Evangélicas Livres, a Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas e o Conselho de Igrejas na Holanda. Eles também mantêm conexões com outras denominações protestantes, como os batistas na Holanda. Os VEG valorizam sua independência e enfatizam seus propósitos missionários e evangélicos.

Teologicamente é uma denominação evangelical aberta e não credal (ou seja, ser aderir a confissões de fé como instrumento normativo). Seu motto presente no selo denominacional descreve sua fé comum “ICHTUS: Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.” Por sua vez, é expandido como “Jesus Cristo, o Filho de Deus, como foi prometido no Antigo Testamento e revelado no Novo Testamento, como o Cabeça da Igreja e o Salvador do mundo.”

Celebram a Santa Ceia e o batismo. O batismo é tido como simbólico, podendo ser ministrado a filhos de membros ou para adultos, embora essa última posição prevaleça. Contudo, reconhece como válido os batismos adulto e infantil de outras denominações reformadas e evangélicas holandesas.

Fundamentalismo

Fundamentalismo é a designação dada tanto a vertentes doutrinárias cristãs quanto a fenômentos sociológicos.

1. Fundamentalismo como fenômeno sociológico

O fundamentalismo pode ser definido como um fenômeno sociológico complexo, caracterizado por uma adesão fervorosa a um conjunto de crenças percebidas como verdades absolutas. Sua emergência se dá em resposta a ameaças percebidas à identidade, valores ou tradições de um grupo, frequentemente em contextos de rápidas transformações sociais e culturais da modernidade.

Dentre as características principais do fundamentalismo, destacam-se:

  • Reivindicação de um literalismo escritural: Observa-se uma interpretação intransigente dos textos sagrados, considerados inerrantemente como a autoridade máxima em todas as questões. Contudo, apenas a interpretação autorizada pelo grupo é considerada válida. As frequentes alegações de interpretação literal das escrituras não resistem a um escrutínio hermenêutico rigoroso, visto que algumas partes dos textos são lidas literalmente enquanto outras não, a fim de adequá-los à ideologia do grupo.
  • Rejeição da modernidade: Constata-se uma resistência a valores, ideias e práticas modernas, percebidas como elementos que corroem as crenças e normas sociais tradicionais. Apesar de aderir a um ideal de tradição e passado, trata-se antes de uma criação e resposta da modernidade.
  • Fronteiras Rígidas: Verifica-se a criação de distinções claras entre crentes e não-crentes, o que frequentemente conduz à exclusão social e à intolerância. Isso pode levar a um paradoxal separatismo em relação à sociedade ampla, com formação paralelas de suas próprias instituições (escolas, clínicas) ao mesmo tempo que fomenta o ativismo político para impor suas visões à sociedade ampla não aderente ou com um discurso de ameaça a seus valores.
  • Ativismo Político: Nota-se um engajamento em ações políticas com o objetivo de promover suas crenças e moldar a sociedade de acordo com sua visão ideal de realidade.
  • Liderança Carismática: Observa-se a dependência de líderes carismáticos e tradicionais. Tais líderes podem alegar possuir uma compreensão privilegiada da vontade divina e, por conseguinte, guiam seus seguidores. Outras vertentes valorizam figuras que expressem autoridade tradicionais, apresentando-os como

O fundamentalismo manifesta-se em diversas tradições religiosas, incluindo o Cristianismo, o Islamismo, o Judaísmo e o Hinduísmo. É crucial salientar que nem todos os adeptos dessas religiões são fundamentalistas. O fundamentalismo representa uma resposta específica à modernidade e à secularização, marcada pela rigidez, exclusividade e resistência à mudança.

2. Fundamentalismo cristão

O fundamentalismo cristão é uma vertente encontrada no protestantismo, com equivalentes no catolicismo e ortoxia oriental. Surgiu no final do século XIX e início do século XX, com a publicação da série de livretos chamados Os Fundamentais. Originalmente um movimento angloamericano, propagou-se pelo mundo mediante literatura, missionários, ativismo e cooperação.

A Controvérsia Fundamentalista-Modernista, um cisma marcante no protestantismo americano do início do século XX, eclodiu em meio a debates sobre a interpretação da Bíblia e a adaptação da fé cristã à modernidade. Fundamentalistas, apegados à inerrância bíblica e à ortodoxia doutrinária, defendiam a imutabilidade da fé cristã (Judas 1:3). Modernistas, influenciados pelo Iluminismo e pela ciência moderna, buscavam reinterpretar a fé à luz de novas descobertas.

O conflito se intensificou com a ascensão do que chamavam de “alta crítica”, método que analisava a Bíblia como documento histórico-literário, e com o caso Briggs. A publicação de “The Fundamentals” (1910-1915) e o sermão “Shall the Fundamentalists Win?” (1922) de Harry Emerson Fosdick cristalizaram as facções. O julgamento de Scopes (1925), sobre o ensino da evolução, evidenciou a polarização entre fundamentalistas, liderados por William Jennings Bryan, e modernistas, representados por Clarence Darrow.

Figuras como J. Gresham Machen, defensor da ortodoxia, e Charles Erdman, conciliador, protagonizaram debates teológicos e institucionais. A cisão se concretizou com a fundação do Seminário Teológico de Westminster por Machen e seus seguidores, após a reorganização do Seminário de Princeton em 1929. A controvérsia se estendeu às missões estrangeiras, culminando na criação da Junta Independente para Missões Estrangeiras Presbiterianas e na formação da Igreja Presbiteriana Ortodoxa em 1939. Muitas igrejas locais independentes adotaram a designação “igreja bíblica”, sendo várias delas associadas à Fellowship of Fundamental Bible Churches em 1939.

No geral, o fundamentalismo era cessacionista e amplamente demonizava o pentecostalismo. Contudo, as primeiras gerações pentecostais a buscarem um avanço em educação teológica acabavam por consumir materiais fundamentalistas e adaptá-los à espiritualidade e teologia pentecostais, carregando muito do conteúdo fundamentalista para suas denominações, principalmente entre pentecostais dos Estados Unidos.

Em meados do século XX, uma nova cisão começou a se formar dentro do movimento fundamentalista. Insatisfeitos com o isolamento e o que viam como um anti-intelectualismo crescente, alguns fundamentalistas buscaram uma reaproximação com a cultura e um diálogo mais construtivo com a sociedade. Esse grupo, que passou a se identificar como “evangelical”, mantinha a crença na inerrância bíblica e nas doutrinas fundamentais da fé cristã, mas rejeitava o separatismo e a militância política que caracterizavam os fundamentalistas “clássicos”. Líderes como Billy Graham e Harold Ockenga lideraram esse movimento em direção a uma maior ênfase no evangelismo e na ação social, buscando influenciar a cultura através do diálogo e da persuasão, em vez do confronto. Essa separação resultou na formação de novas instituições e organizações, como a Associação Nacional de Evangélicos (NAE), e marcou o início de uma nova fase no protestantismo americano, com os evangélicos assumindo um papel cada vez mais proeminente na vida religiosa e política dos Estados Unidos.

A partir da década de 1970, uma nova onda de defesa do fundamentalismo ganhou força entre os americanos. Dentro da Sociedade Teológica Evangélica (ETS), a controvérsia sobre a inerrância bíblica se intensificou, culminando na expulsão de membros. A coordenação de vertentes fundamentalistas, como a “ressurgência conservadora” entre os batistas levaram à tomada de posições-chave em estruturas denominacionais. Coincide com a emergência do novo calvinismo. A Declaração de Cambridge consolidou os posicionamentos do neofundamentalismo. Todas essas tendências também estavam conexas com as políticas partidárias norteamericanas, desde a eleição de Jimmy Carter.

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