Livo de Obadias

O menor livro da Bíblia Hebraica/Antigo Testamento inspirou textos muitas vezes maiores que ele. Sua mensagem é simples: Deus pune a violência e a injustiça. Entretanto, seu conteúdo desperta muita fascinação pelas questões que levanta.

Autoria e Data

A autoria de Obadias é desconhecida. O livro não fornece nenhuma informação sobre o profeta, e sua identidade permanece um mistério.

Pouco se sabe de Obadias (Heb. “Servo do Senhor”). O Talmude é cheio de lendas sobre ele, mas sem valor histórico. Alguns comentadores acreditam que Obadias, semelhantemente ao também desconhecido Malaquias, seja um título e não um nome próprio. É aceito que o profeta vivera no reino do sul, Judá.

É um livro difícil de datar, sendo sua composição estimada entre 853 a 400 a.C. Houve dois momentos em que o reino de Judá foi ameaçado pelos edomitas, contexto no qual se situa o livro.

  • 853-841 a.C.: quando Jerusalém foi invadida pelos filisteus e árabes, no reinado de Jeorão (2 Re 8:20-22; 2 Cr 21:8-20), fazendo Obadias contemporâneo de Eliseu.
  • 605-586 a.C.: durante o cerco e conquista de Jerusalém por Nabucodonosor, o que faria Obadias contemporâneo de Jeremias.

Aparentemente o livro foi escrito depois de uma invasão com sucesso ao reino de Israel-Judá, na qual os edomitas tomaram parte. A profecia de Obadias é, portanto, contra o povo de Edom, que são descendentes de Esaú (Gen. 36:8-9).

Houve conflitos entre os israelitas e edomitas durante o êxodo (Nm 20:14-21) e continuou até a sujeição de Davi (2 Sm 8:14). No reinado de Jeorão, os edomitas se revoltaram (2 Re 8:20-22; 2 Cr 21:8-10) e escolheram um rei para si. A inimizade entre Israel e Edom continuou após o exílio Babilônico e Malaquias profetizou o fim dessa nação (Ml 1:3-4). Mais tarde os Nabateus, um povo árabe, conquistaram Edom e o povo dispersou pelo Negebe, passando a serem conhecidos como idumeus. Por volta de 120 a.C. foram subjugados pelo rei macabeu João Hircano, que obrigou muito deles a circuncidarem e aceitarem a Lei de Moisés.

Canonicidade e Testemunhas Textuais
A canonicidade de Obadias é amplamente aceita tanto por judeus quanto por cristãos, embora sua brevidade tenha levado alguns a questioná-la no passado. O livro está presente em todas as listas canônicas antigas, como o Cânon Muratoriano e o Cânon de Atanásio.

Os manuscritos mais antigos que possuímos incluem fragmentos do Livro de Obadias encontrados em Qumran, datados do século I a.C., e o Códice Vaticano, uma cópia da Septuaginta do século IV d.C. A Vetus Latina, uma antiga tradução latina da Bíblia, também contém uma versão de Obadias.

Tema

Este pequeno livro, o menor do AT, difere dos outros profetas na ausência da mensagem de “arrependa ou seja destruído”, mas indica a inexorável destruição dos inimigos do povo de Deus como consequências de suas prévias ações.

Serve para relembrar que Deus pode tratar os membros da mesma família (Esaú e Jacó) tanto com perdão ou com ira, conforme seus atos. Toda violência e injustiça são pecados e Deus não os deixará impune. A impressão é que a fortaleza e segurança proporcionadas pelas montanhas de Edom deixaram os edomitas autoconfiantes, pois nem mesmo o culto a algum deus é registrado. Há uma escola de pensamento que vê o livro de Obadias como uma alegoria da punição do pecado em geral pelo Messias.

Historicidade
A historicidade de Obadias é amplamente aceita. O livro reflete as tensões e rivalidades entre Israel e Edom, que remontam aos tempos bíblicos. A destruição de Edom, predita no livro, é corroborada por evidências arqueológicas e históricas.

Gênero e Objetivo
Obadias é um oráculo profético que se concentra na justiça divina e na retribuição. O livro usa linguagem poética e imagens vívidas para descrever a condenação de Edom e a vindicação de Israel. Seu objetivo principal é consolar o povo de Israel, assegurando-lhes que Deus não se esqueceu de sua aliança e que Ele punirá seus inimigos.

Teologia
A teologia de Obadias enfatiza a soberania de Deus sobre as nações e Seu compromisso com a justiça. O livro destaca a importância da humildade e da compaixão, contrastando-as com o orgulho e a violência de Edom. Obadias também aponta para a futura restauração de Israel e o estabelecimento do Reino de Deus.

Esboço estrutural
Título (v. 1)
Anúncio do julgamento de Edom (vv. 1-9)
Motivos do julgamento de Edom (vv. 10-14)
O dia do Senhor contra todas as nações (vv. 15-16)
Restauração de Israel (vv. 17-21)

Miqueias

O profeta Miqueias foi um dos primeiros dos profetas literários (aqueles com livros). Integra a coletânea do Livro dos Doze ou dos Profetas Menores. Miqueias está conectado ao livro de Naum, havendo um contínuo com o final de Miqueias 7:18–19 e início de Naum 1:1–3.

Miqueias profetizou nos dias de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá nos anos 759–687 a.C. As possíveis alusões à queda de Samaria, capital do Reino do Norte de Israel, em 722 (1:6), e à campanha de Senaqueribe, o rei assírio, em 701 (1:10-16) permitem situar o profeta no século VIII. Seria, então, quase contemporâneo de Isaías, Oseias e Amós. Seu período conturbado é retratado em 2 Reis 16–19.

Miqueias interpreta a queda de Samaria e a ameaça assíria em relação às corrupções morais, religiosas e políticas dos líderes de Jerusalém.

Enquanto Amós e Oseias denunciavam o culto idólatra nos lugares altos, santuários provinciais, Miqueias iguala a própria Jerusalém a um lugar alto (1:5) e anunciou sua destruição (3:12), mas esperando restauração gloriosa de Jerusalém em reinado fiel (5:2–5).

Apocalipse

a Visão do que está reservado aos filhos de Deus na nova Criação é retratado no livro chamado de Apocalipse de João.

O livro de Apocalipse (Revelação em grego) foi escrito por um cristão chamado João enquanto estava exilado na Ilha de Patmos, no mar Egeu, devido a uma perseguição contra os cristãos no final do século I d.C.

Com abundantes simbolismos, o Apocalipse contém cartas e visões, renovando uma mensagem de esperança meio à dor e às lágrimas. Oferece um vislumbre do que aguarda os fiéis.

O gênero textual apocalíptico refere-se às visões que arrebatavam seus visionários. Um dos primeiros textos desse gênero é a Visão de Balaão, a inscrição de Deir Alla (KAI 312) encontrada na parede das ruinas de uma habitação na Jordânia e com data estimada do século VIII. No Antigo Testamento boa parte do livro de Daniel são visões apocalípticas.

SAIBA MAIS

Gorman, Michael J. Reading Revelation responsibly: Uncivil worship and witness: Following the Lamb into the new creation. Wipf and Stock Publishers, 2011.

Epístola de Judas

Advertências para persistir na fé diante de enganadores.

A Epístola de Judas, uma carta concisa do Novo Testamento, dirige-se a uma comunidade de judeus crentes em Cristo, instando-os a resistir à influência dos mestres antinomianos (“contra a Lei”) e a defender as implicações morais de sua fé conforme ensinada pelos apóstolos.

Posicionado como o vigésimo sexto livro do Novo Testamento do cãnon ocidental, Judas é classificado como uma “Epístola Geral” ou “Epístola Católica”, indicando seu público-alvo como a comunidade cristã mais ampla, embora alguns estudiosos modernos defendam um público mais específico.

A autoria de Judas gerou debates, com o escritor se apresentando como “servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago”. Enquanto alguns o associam a Judas, irmão de Jesus, outros consideram a possibilidade de autoria pseudônima. A ênfase da carta numa salvação comum é vista como indicativa de uma era pós-apostólica, promovendo uma fé partilhada.

Acredita-se que o contexto histórico de Judas varie entre 50 e 110 dC. A localização geográfica é incerta, embora a Palestina ou a Ásia Menor pareçam provávéis. A carta aborda uma comunidade que enfrenta desafios de mestres que promovem a frouxidão moral e o desrespeito pela Lei Judaica.

A perspectiva teológica de Judas enfatiza o arrependimento e as boas obras para a salvação, omitindo menções explícitas às doutrinas da expiação ou da ressurreição. Notavelmente, sua postura doutrinária alinha-se com a Epístola de Tiago e possui muitos paralelos com 2 Pedro.

O termo “fé” tem uma variedade de significados no Novo Testamento. Em Judas 3, a fé pareece referir-se ao conteúdo doutrinário e à constância (fidelidade) dos crentes, mas não ao ato de acreditar. Já advérbio “de uma vez por todas” (ἅπαξ, hapax) parece indicar que as convicções doutrinárias da igreja primitiva haviam chegado a um consenso via ensino apostólico.

Judas se envolve na interpretação tipológica das Escrituras, justapondo figuras contemporâneas com personagens bíblicos para ilustrar lições morais. Baseia-se em fontes não-canônicas, notadamente o Testamento de Moisés e 1 Enoque, sendo este último citado diretamente nos versículos 14–15.

A estrutura de Judas segue um formato típico de carta greco-romana, composta por endereço, saudação, proêmio, meio do corpo com interpretações de vários textos e uma seção de encerramento com apelos e doxologia.

Referente à canonicidade, a Epístola de Judas integra a antilegômena. No final do século II d.C., Judas foi aceito como escritura no norte da África por Tertuliano e em Alexandria por Clemente e Orígenes. Houve questionamentos acerca de sua autoria por Eusébio. A citação de 1 Enoque por Judas foi um problema para Tertuliano (de Cult. fem. 1.3) e Jerônimo (De Vir. III. 4). Aparece no Cânone Muratoriano (II-IV d.C.), na lista de Atanásio em 367 e.c., e na Bíblia Siríaca de Filoxeno no século VI, mas não em muitas recessões da Peshitta.

Apesar de sua brevidade e relativa negligência pelos exegetas, a Epístola de Judas ganhou atenção por seu uso de escrituras não canônicas, complexidade textual, retórica inflamada e sua contribuição para as primeiras ideias cristãs. Figuras posteriores como Martinho Lutero associaram Judas a controvérsias teológicas específicas e a olharam com desdém.

Nos estudos contemporâneos, a epístola Judas permite vislumbrar o cristianismo judaico primitivo, demonstrando o entrelaçamento de eventos históricos com expectativas escatológicas e o uso de interpretação tipológica para transmitir ensinamentos morais.

BIBLIOGRAFIA

Bauckham, R. Jude and the Relatives of Jesus in the Early Church. London: T&T Clark, 1990, 2004.