Apócrifo de Gênesis

Literatura parabíblica que expande o livro de Gênesis. Sobrevive em fragmentos dos manuscritos aramaicos descobertos no Mar Morto (1QapGen ou 1Q20).

Datado de entre 250 aC e 50 dC, o Apócrifo de Gênesis reconta as narrativas de Enoque, Noé e Abraão ao estilo de midrash.

O Apócrifo de Gênesis tenta retratar os patriarcas com um tom moralmente melhor e dar uma interpretação teológica de suas vidas.

O livro é uma fonte importante para o aramaico palestiniano médio e é um dos mais antigos testemunhos que cita o livro de Gênesis.

BIBLIOGRAFIA

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Línguas bíblicas

A maior parte da Bíblia foi escrita em hebraico, alguns trechos em aramaico e o Novo Testamento em grego koiné. As duas primeiras línguas descendem do Proto-Semítico, um conjunto de dialetos que teria sido falado entre 3750 e 2800 a.C., constituindo um ramo do Proto-Afro-Asiático, outro proto-língua que foi falada entre 16.000 e 10.000 a.C., provavelmente no noroeste da África. Por sua vez, o grego descende do Proto-Indo-europeu, o qual foi falado por pastoralistas que viviam próximo ao Mar Negro entre 4500 e 3500 a.C. Outras línguas indo-europeias com relevância bíblica são o hitita (provavelmente os mesmos heteus bíblicos) e o persa.

Inscrição de Tel Dan

A inscrição Tel Dan, composta em aramaico antigo em uma estela de basalto, contém uma celebração de vitória do rei da Síria.

Foi descoberta entre 1993 e 1994 durante escavações em Tel Dan (Tell el-Qadi), próximo ao Monte Hermom, ao norte do moderno Israel e a sudoeste de Damasco. Este sítio arqueológico teria sido a antiga cidade de Dã ou Laís.

A inscrição de Tel Dan, estimada ser ou do final do século IX ou do século VIII a.C., contém uma das possíveis primeiras menções à “Casa de Davi“.

Arã, arameus

Nome de vários personagens bíblicos e de um povo vizinho dos israelitas.

1. Arã aparece como filho de Sem e neto de Noé (Gn 10:22-23; 1Cr 1:17).

2. O neto de Naor, irmão de Abraão (Gn 22:21) também recebe esse nome.

3. Um descendente de Asser (1Cr 7:34).

4. Um grupo de estados na Síria que competiu com Israel pelo controle da região. Em Dt 26:5 é dito que “nosso pai era um arameu nômade” talvez em alusão a Abraão ou Jacó. Saul (1Sm 14:47), Davi (2Sm 8: 5-12) e Salomão (1Re 11: 23-25) tiveram confronto com os arameus. Jeroboão II de Israel derrotou Arã e o último conflito foi no reinado de Acaz, rei de Israel.

A mais antiga referência a Arã remonta do período Amarna em um texto Amenhotep III do século XIV a.C. Nos textos assírios os arameus aparecem em conexão com os ahlamû (nômades).

Identificados pela fórumla Bīt-PN e pelas inscrições em aramaico, os arameus sucumbiram aos assírios e babilônios. Contudo, nos meados do século 8 alguns dos arameus levados cativos para a Mesopotoâmia introduziram a língua e sua escrita, tornando-as língua-franca.

BIBLIOGRAFIA

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Bīt-PN

Aramaico para “Casa de [Nome pessoal]” é a fórmula para o nome dinástico e eponômio de vários pequenos estados semítico do Levante, ocorrendo principalmente na Idade do Ferro.

Aparecem tanto em inscrições neo-assírias (Bītu-PN) quanto em esparsas fontes arqueológicas desses próprios estados. O nome geográfico “Bīt-PN” aparecente tanto explicitamente quanto implicitamente pela menção como um progenitor. Alguns exemplos incluem Bīt-Abdadāni, Bīt-Adini e Bīt-Agūsi. Os assírios referiam esses governantes como descendentes dos fundadores como “filho de PN”.

A origem dessa fórmula, porém, é antiga. Em sumério a fórmula DUMU-PN indica membro de um povo ou descendente de um ancestral eponômio.

Relevante aos estudos bíblicos aparecem essa fórmula como “Beth-David” nas inscrições de Tel Dan e Mesa, bem como “Beth-Eden” em Amós 1:5.

BIBLIOGRAFIA

Younger Jr, K. Lawson. A political history of the arameans: from their origins to the end of their polities. Vol. 13. sbl Press, 2016.

Abba

Transliteração grega (ἀββα) do aramaico אַבָּא (‘abba’), literalmente “meu pai”, mas entendido simplesmente como “pai”.

Ocorre três vezes no Novo Testamento todas as vezes transliterada e seguida de seu equivalente grego (Mc 14:36; Rm 8:15; Gl 4:6).

Transmite uma conotação de intimidade, afeto e confiança familar.

Uma interpretação folk errônea é que significaria uma forma carinhosa, algo como “papai”. Contudo, o termo também é reverente, empregado além do círculo familiar por discípulos de um mestre de alta estima.

Peshitta

A peshitta, peshita ou peshitto é conjunto de versões aramaicas da Bíblia na variante siríaca, conjunto de falares do norte da Síria e da Mesopotâmia. Peshitta significa “comum” ou “simples” denotando ser uma versão sem comentários ou aparatos para uso popular (semelhante ao termo vulgata aplicada para a versão latina), sendo empregado pela primeira vez pelo escritor jacobita Moisés bar Kefa (c.813-903/913),

A língua siríaca é um conjunto de variantes do aramaico oriental. Originalmente,o judeus no norte da Síria traduziram sua Bíblia para o siríaco no século II d.C. com base em uma versão hebraica hoje perdida, mas possivelmente da família da qual emergeria o Texto Massorético. Depois, cristãos de língua siríaca adotaram a Peshitta e adicionaram uma versão siríaca do Novo Testamento.

Ainda no século II d.C. Taciano editou uma harmonia dos quatro Evangelhos gregos canônicos em siríaco, o Diatessaron. Embora a harmonização de Taciano fosse muito popular no Oriente até o século V d.C., Irineu e outros líderes preferiam manter todos os quatro evangelhos canônicos separados.

Por algum tempo vários eruditos bíblicos atribuíram a autoria ou revisão da Peshitta a Rabbula, bispo de Edessa entre 411 e 435. Contudo, as variantes e a adoção da Peshitta por grupos que depois seriam as igrejas Jacobita e do Oriente demonstram a antiguidade da versão.

A Peshitta foi adotada como versão-padrão por várias denominações orientais, como a Igreja Ortodoxa Grega de Antioquia, várias comunidades uniatas católicas, a Igreja Siríaca Ortodoxa (Jacobita) e a Igreja do Oriente.

Aramaico

O aramaico ou o aramaeu não é um só idioma, mas um conjunto de dialetos e línguas semíticas do noroeste (na atual Síria) em diferentes fases históricas que emergiram provavelmente por volta do século XII a.C., com abundância de inscrições distintivamente em aramaico aparecendo a partir do século VIII a.C.

No século VIII vários prisoneiros sírios foram transportados para a Assíria, iniciando a adoção de seus idiomas por seus senhores. O comércio e os imperialismos assírio e babilônio propagaram a língua entre os povos cativos, mas seu uso na administração pública persa disseminou-a desde o sul do Egito até o Afeganistão, com inscrições encontradas até em Sardes (na Anatólia). Depois do exílio babilônico, o aramaico gradativamente substituiu o hebraico como língua corrente dos israelitas (Neemias 13:24).
 
No período helenista dividiram-se os dialetos aramaicos ocidentais e os dialetos orientais, o que persiste até hoje, e não são mutuamente compreensíveis. Por um mais de um milênio foi a língua internacional do Oriente Médio, até ser suplantada pelo árabe.

Atualmente, mais de 1 milhão de pessoas possuem algum domínio do aramaico nas seguintes variantes:

  • O siríaco é falado em várias comunidades no nordeste da Síria, no Iraque, no Irã, na Geórgia, bem como língua litúrgica de várias igrejas cristãs. Sobrevive nas diáspora assírias, siríacas e caldeias especialmente nos Estados Unidos e mesmo no Brasil.
  • O judeu-aramaico serviu para a composição do Talmud e de textos litúrgicos, sendo falado ainda hoje por judeus curdos.
  • O mandaico é uma variante aramaica falada pelos mandeus, seguidores de João Batista nativos do Iraque.
  • O neo-aramaico ocidental é usado em três aldeias próximas a Damasco.

É semelhante mas não inteligível com o hebraico. (2 Reis 18:26; Isaías 36:11). As duas línguas seriam tão compreensíveis como o italiano para um falante do português.

A escrita aramaica, uma adaptação do alfabeto cananeu ou fenício, foi adotada por muitos outros povos, inclusive os judeus, sendo chamado de escrita quadrada ou assurith. A escrita aramaica ainda influenciaria as escritas siríacas, árabe, persa pahlavi, o mongol, as escritas da Índia e do sudeste asiático.

No período do Novo Testamento o aramaico estava tão enraizado na cultura israelita que comumente essa língua era chamada de língua dos hebreus ou de hebraico. Nesse sentido aparece em João 5:2; 19:13, 17, 20; 20:16; Atos 21:40; 22:2; 26:14; Apocalipse 9:1. E mesmo fora da Bíblia, em autores como Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas. 3.10.6 e Guerra dos Judeus 7. 2.1) refere ao hebraico intercambiavelmente como a língua dos judeus.

ARAMAICO E A BÍBLIA

Algumas palavras no Novo Testamento não são possíveis de distinguir se são aramaicas ou do hebraico tardio: Mamon, Bartolomeu, Barrabás, Boanerges, Getsemane, Gólgota.

Há cerca de 280 versículos com trechos escritos em aramaico tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Trechos em aramaico no Antigo Testamento:

  • Na fala de Labão em Gênesis 31:47.
  • Na advertência de Jeremias em Jeremias 10:11.
  • Em porções do livro de Daniel (Daniel 2:4-7:28).
  • Em porções do livro de Esdras (Esdras 4:8-6:18; 7:12-26).

Trechos em aramaico no Novo Testamento

  • Talita cumi “menina, levanta-te!” (Mc 5:41)
  • Efatá “abre-a!.” (Mc 7:34)
  • Aba “Pai ou papai” (Mc 14:36; Gl 4:6; Rm 8:15)
  • Raca “tolo” (Mc 5:22)
  • Raboni “meu mestre” (Jo 20:16)
  • Eli Eli lema sabactani “Deus meu, Deus meu, não me desampare” (Mat 27:46; Mc 15:34)
  • Osanna “Oh, Salva-nos.” (Mc 11:9)
  • Maranata “Vem, Senhor!” (1 Cor 16:22)
  • Tabita: “Gazela” (At 9:36)

O aramaico é a base de várias versões da Bíblia:

  • Targum: traduções livres do Antigo Testamento, produzida quando o hebraico deixava de se compreendido pelos judeus.
  • Diatessaron: uma harmonia dos evangelhos feita por Taciano no século II.
  • Vetus Syra: versão antiguíssima do Novo Testamento.
  • Peshitta: tradução da Bíblia completa iniciada no século II e se tornou a versão padrão para os cristãos do oriente.
  • Lecionários Cristãos Palestianianos: trechos da Bíblia em aramaico ocidental para uso no culto na Idade Média.

O aramaico é importante para conhecer melhor o hebraico bíblico e o contexto histórico da Antiguidade. Vários documentos (Visão de Balaão, Documentos de Elefantina, Documento Driver) e escritos parabíblicos (pseudo-epígrafas, Manuscritos de Qumran) foram escritos nessa língua.

No século IX d.C. o gramático Judah ben Quraysh formulou a hipótese que Terá, pai de Abraão, falasse aramaico e fosse a língua ancestral da qual emergiram o árabe e o hebraico. No século XIX houve quem pensasse que a língua dos patriarcas fosse o aramaico com base, entre outros, em Deuteronômio 26:5. No entanto, é hoje desconsiderada. Outra teoria marginal que envolve o aramaico é a hipótese de que parte do Novo Testamento teria sido composto originalmente em aramaico, ou ao menos as falas de Jesus nos evangelhos. Contudo, várias análises linguísticas e evidências externas confirmam que a forma canônica dos livros do Novo Testamento foi escrita em grego koiné.

Em 1845 o biblista rabino Abraham Geiger formulou a hipótese de que o aramaico seria a língua nativa da Palestina do período do 2º Templo e seria a primeira língua de Jesus. As citações em aramaico nos evangelhos não são conclusivas para determinar qual seria a língua materna de Jesus. As amostras da língua no Novo Testamento poderiam ser as ocasiões excepcionais em que Jesus estava falando a língua de seus interlocutores, como nos trechos em aramaico no Antigo Testamento ou exemplos de diglossia. Hoje, evidências históricas, literárias e arqueológicas apontam para um cenário linguístico mais pluralístico, com o grego e o aramaico sendo as línguas primárias da população da Palestina, sem excluir os usos minoritários do latim e do hebraico.

SAIBA MAIS

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