Conferências de Albury

As Conferências de Albury Park foi uma série de reuniões tidas em Surrey, Inglaterra, entre 1827 e 1830 para aprofundar nas Escrituras, particularmente nos escritos proféticos. Influenciou o premilenismo, o dispensacionalismo, o sionismo cristão e o movimento irvingita.

Lideradas por Henry Drummond, essas conferências tinham como objetivo desvendar os acontecimentos políticos e sociais da época através da interpretação bíblica. Os participantes procuraram avaliar o cumprimento das profecias bíblicas na vida de Cristo e na história da Igreja Cristã, abrindo caminho para a identificação daqueles que aguardam o cumprimento no futuro. O tumultuado cenário político e social da época sugeria a possibilidade de estes acontecimentos serem interpretados como arautos dos ‘últimos tempos’ profetizados.

O início das Conferências de Albury remonta a 1819, quando Henry Drummond adquiriu a Albury House como sua residência privada. Em 1826, ele se juntou a Lewis Way, James Hatley Frere, James Stratton e Thomas White, em Londres, e constituiu a Sociedade para a Investigação da Profecia. Em dezembro de 1826, Drummond transformou sua residência em Albury, Surrey, em um refúgio para a primeira Conferência de Albury, um evento recorrente de 1827 a 1830. Com a presença de um seleto grupo de vinte indivíduos, escolhidos por sua proeminência como pré-milenistas ou por sua abertura para explorar as profecias. A conferência provou ser um encontro significativo dominado por participantes anglicanos.

Muitos participantes tinham afiliações anteriores com a Sociedade Continental, evidenciando a estreita ligação entre as Conferências de Albury e o panorama evangélico mais amplo.

O impacto destas conferências foi palpável à medida que o “consenso de Albury” começou a influenciar as reuniões anuais da Sociedade Continental. Este consenso, conforme articulado por Drummond em 1829, resumia:

  1. Esta dispensação ou era não terminará de forma insensível, mas cataclísmica no julgamento e destruição da igreja da mesma maneira que a dispensação judaica terminou.
  2. Os judeus serão devolvidos à Palestina durante o tempo do julgamento.
  3. O julgamento que está por vir recairá principalmente sobre a cristandade.
  4. Quando o julgamento terminar, o milênio começará.
  5. A segunda vinda de Cristo ocorrerá antes do milénio.
  6. Os 1.260 anos de Daniel 7 e Apocalipse 13 devem ser medidos desde o reinado de Justiniano até a Revolução Francesa. As taças da ira (Apocalipse 16) estão agora sendo derramadas e o segundo advento é iminente.

Ocorria durante vários dias, cuja rotina era a seguinte. Inciavam o dia com uma palestra sobre o tema do dia antes do café da manhã, depois havia tempo para exame das Escrituras até o meio da manhã, discussão em grupo até o meio da tarde e uma tentativa de chegar a uma síntese depois do jantar. As reuniões foram presididos por Hugh McNeile, pároco de Albury Park. Os anais das três primeiras conferências foram publicados em 1828-1829 por Drummond, como Diálogos sobre Profecia em três volumes

Os diversos membros do Círculo de Albury participavam somente por convite e incluíam anglicanos, independentes, presbiterianos, metodistas e morávios, representando profissões variadas. As conferências mantiveram uma participação que variou de 40 a 44 pessoas, predominantemente clérigos, sendo a maioria anglicanos.

Na conferência final de 1830, a atenção estava voltada para os “dons espirituais” que então se pensava estarem sendo manifestados no oeste da Escócia. Então esta conferência inspirou outra no mesmo tópico de profecias, as conferências anuais nas Reuniões Werscourt 1830-1841 na Irlanda foram significativas nas origens dos Irmãos de Plymouth.

Sete Anos de Tribulação

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação, central para algumas interpretações da escatologia, especialmente dentro do Dispensacionalismo, postula um período futuro de sete anos caracterizado por intenso sofrimento e caos.

Esta crença se baseia em passagens como Daniel 9:24-27, a profecia das “setenta semanas” e os capítulos 6 a 19 do Apocalipse.

CÁCULO

A metodologia dos adeptos dessa doutrina inclui a ressignificação semântica, uma combinação de conveniência de leituras ora simbólicas, ora literais, de leituras isoladas de textos-provas e reconfiguração dos versos em um arcabouço interpretativo externo aos textos bíblicos.

Partem da premissa que o termo hebraico para “semanas” (shavuim) pode também significar “setes”, levando muitos intérpretes a entender isso como setenta unidades de sete anos, totalizando 490 anos.

Na próxima fase interpretativa, a profecia é dividida em três partes: sete semanas (49 anos), associadas à reconstrução de Jerusalém; sessenta e duas semanas (434 anos), que conduzem à vinda do “Ungido”, interpretado como Jesus; e uma semana (7 anos), vista como um futuro período de tribulação. Daniel 9:27 é central para a doutrina, descrevendo uma figura, frequentemente interpretada como o Anticristo, que faz uma aliança com muitos por “uma semana” (7 anos), mas a quebra na metade, levando à desolação. Isso é interpretado como um futuro período de sete anos, dividido em duas metades de 3,5 anos cada.

Essa interpretação de Daniel é então conectada a várias passagens do Apocalipse que mencionam períodos de tempo que se alinham com a estrutura de sete anos. Apocalipse 11:2-3, por exemplo, menciona 42 meses (3,5 anos) e 1.260 dias (também 3,5 anos, usando um ano profético de 360 dias). Apocalipse 12:6, 14 refere-se a um período de 1.260 dias e “um tempo, tempos e metade de um tempo” (3,5 anos). Apocalipse 13:5 fala da besta tendo autoridade por 42 meses. Essas passagens são interpretadas como descrevendo dois períodos distintos de 3,5 anos cada, totalizando sete anos. A primeira metade é vista como um tempo de relativa paz sob a aliança do Anticristo, enquanto a segunda metade é um tempo de intenso sofrimento e perseguição.

A figura do anticristo como um indivíduo e não um tipo desempenha um papel crucial nessa interpretação. A quebra da aliança em Daniel 9:27 é interpretada como o Anticristo fazendo uma aliança de sete anos com Israel (ou o mundo) e quebrando-a após 3,5 anos, levando à “grande tribulação” (Mateus 24:21). Essa quebra é frequentemente ligada à “abominação da desolação” (Daniel 9:27, Mateus 24:15), vista como um evento futuro em que o Anticristo profana um templo judeu reconstruído.

Dentro da estrutura do Dispensacionalismo, esses números são interpretados literalmente, em vez de simbolicamente. Os dispensacionalistas argumentam que a profecia das “setenta semanas” tem um cumprimento duplo: um cumprimento parcial no passado (por exemplo, a profanação do Templo por Antíoco IV Epifânio em 167 a.C.) e um cumprimento completo no futuro, durante a tribulação de sete anos. O Dispensacionalismo enfatiza um futuro restabelecimento de Israel e um cumprimento literal das profecias do Antigo Testamento, incluindo a tribulação de sete anos.

Finalmente, cálculos matemáticos são empregados para reforçar essa interpretação. Muitos intérpretes usam um “ano profético” de 360 dias para calcular os prazos em Daniel e Apocalipse. Por exemplo, 42 meses multiplicados por 30 dias equivalem a 1.260 dias. 1.260 dias multiplicados por 2 resultam em 2.520 dias, o que equivale a sete anos, usando anos de 360 dias. Os números 3,5, 42 e 1.260 são vistos como simbólicos de um período de provação e teste, derivados da metade de sete.

CRÍTICA

Uma crítica dessa interpretação é ignorar que a profecia das “setenta semanas” em Daniel 9:24-27 tem mais probabilidade de se referir a eventos no período do Segundo Templo, como a profanação por Antíoco IV Epifânio.

Outros textos bíblicos que apresentam uma estrutura escatológica diferente são frequentemente ignorados ou minimizados. Por exemplo, o Discurso do Monte de Jesus (Mateus 24, Marcos 13, Lucas 21), embora frequentemente interpretado para se adequar ao modelo da tribulação de sete anos, possui interpretações alternativas que não sustentam um período de sete anos.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação impõe uma estrutura preestabelecida ao texto bíblico em vez de derivá-la do próprio texto. A ideia de um período de sete anos, por exemplo, não está explicitamente declarada nem em Apocalipse, nem em Daniel. Contudo, com um processo que envolve consideráveis ​​saltos interpretativos, bastando usar de criatividade.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação é tão válida quanto outros cálculos. Por exemplo, considere os 1.260 dias em Apocalipse 11:3 e 12:6 como anos simbólicos, ligados ao reinado de 1.000 anos de Cristo (Apocalipse 20:4-6). Embora 1.260 dias equivalham a 3,5 anos usando um ano profético de 360 dias, se esses 3,5 anos simbolizarem um período maior, multiplicá-los pelo reinado de 1.000 anos resulta em uma tribulação de 3.500 anos – uma era prolongada de provação preparando para o reino milenar, em vez de um breve evento de sete anos.

Outra interpretação possível seriam que os 490 anos de Daniel 9:24-27 representam um ciclo completo de julgamento e restauração, como os 40 anos de peregrinação no deserto (Números 14:34). Dividindo os 490 anos pelos 40 anos de peregrinação, obtemos 12,25 ciclos. Arredondando para baixo, teríamos 12 gerações de tribulação (12 x 40 = 480 anos), com um restante de 10 anos. Essa interpretação, no entanto, resulta em um período de tribulação de 480 anos.

Outro exercício de pensamento. Podemos considerar os 42 meses de Apocalipse 13:5, período em que a besta tem autoridade, e conectá-los aos 40 dias de provação, como a tentação de Jesus em Mateus 4:1-11. Se tomarmos os 42 meses como uma representação simbólica de provação e os conectarmos aos 40 dias, poderíamos argumentar que a tribulação não dura 7 anos, mas sim 40 dias. Essa interpretação, porém, reduz drasticamente a tribulação para um período extremamente curto.

Esses exemplos demonstram como a combinação de diferentes números bíblicos pode levar a interpretações radicalmente diferentes, desde 40 dias até 3.500 anos. Isso evidencia que a doutrina da tribulação de sete anos é só mais uma dentre inúmeras interpretações possíveis, porém implausíveis, bastanto aplicar métodos descontextualizados às Escrituras.

Outra crítica associada é a ideia de um “arrebatamento” como um sumiço repentino dos crentes que precederia a tribulação. Tal interpretação é um desenvolvimento relativamente recente, popularizado no século XX.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação, tal como é entendida hoje, não fazia parte dos ensinamentos dos primeiros cristãos. Agostinho e Orígenes interpretavam textos apocalípticos simbolicamente ou espiritualmente, não como previsões esquemática de um futuro período de sete anos. Ao longo da história da igreja, houve uma diversidade significativa de crenças escatológicas.

Críticos argumentam que o foco na tribulação de sete anos e em outras especulações sobre o fim dos tempos pode desviar a atenção dos ensinamentos centrais do cristianismo, como o amor, a justiça e o Reino de Deus. Essa ênfase em cronogramas especulativos pode levar a uma negligência dos aspectos éticos e práticos da fé.

Em resumo, a doutrina dos Sete Anos de Tribulação é frequentemente criticada como um exemplo de eisegese, pois se baseia na interpretação seletiva de textos bíblicos, recortes e reconfiguração descontextualizadas, impõe uma estrutura moderna a escritos antigos e carece de apoio da tradição cristã primitiva.

BIBLIOGRAFIA

Broadwater, Billy. Exposing the Fallacies of the Pre-Tribulation Rapture: A Biblical Examination of Christ’s Second Coming. WestBow Press, 2o14.

Kilde, J., and B. Forbes. Rapture, revelation, and the end times: Exploring the Left Behind series. Palgrave Macmillan Limited, 2004.

VEJA TAMBÉM

Fechamento da porta da graça

Tribulação

Três e meio anos

Pierre Jurieu

Peter Jurieu (1637-1713) foi um ministro protestante francês, teólogo e escritor apocalíptico do final do século XVII e início do século XVIII.

Nascido em Mer, na França, Jurieu passou sua infância durante perseguição contra os huguenotes. Iniciou seus estudos na Academia de Saumur, onde se concentrou em teologia e filosofia. Com suas habilidades intelectuais excepcionais, logo ganhou reconhecimento por seu raciocínio aguçado e erudição rigorosa. Depois, seria ordenado ministro.

Os pensamentos de Jurieu acerca da escatologia e da literatura apocalíptica que lhe renderam ampla notoriedade e controvérsia. Sua principal obra é intitulada “L’Accomplissement des prophéties, ou, Les merveilles accomplies” (O cumprimento das profecias, ou, As maravilhas realizadas). publicada em 1686. Nessa obra, Jurieu apresentou sua interpretação de textos bíblicos, concentrando-se nos eventos que acreditava estarem se desenrolando em seu próprio tempo.

As visões apocalípticas de Jurieu centravam-se no iminente retorno de Cristo e no estabelecimento de um reino milenar na terra. Com uma perspectiva historicista, viu eventos contemporâneos, como a ascensão de Luís XIV e a perseguição aos protestantes na França, como sinais do fim dos tempos que se aproximava.

Apesar de sua popularidade, as previsões apocalípticas de Jurieu tiveram críticas de alguns setores, inclusive dentro da tradição reformada. No entanto, seu trabalho teve um impacto nas gerações subsequentes de teólogos e no desenvolvimento do pensamento dispensacionalista.

Além de seus escritos apocalípticos, Jurieu se envolveu em vários debates teológicos e filosóficos, incluindo discussões sobre livre arbítrio, predestinação e a natureza da Igreja. Também escreveu obras sobre ética, filosofia moral e tolerância religiosa.

C. I. Scofield

Cyrus Ingerson Scofield (1843-1921) foi um teólogo, pastor e autor americano mais conhecido por seu trabalho sobre teologia dispensacional e pela edição da Bíblia de Referência Scofield.

Nascido no Condado de Lenawee, Michigan, Scofield teve um início de vida tumultuado, marcado por lutas pessoais e problemas com a lei. Foi veterano da Guerra Civil, atuou como jurista e político.

Apesar de seu começo difícil, a vida de Scofield mudou quando passou por uma conversão religiosa no início da idade adulta. Buscou estudos teológicos e acabou se tornando um ministro congregacionalista, servindo congregações em vários locais. Foi influenciado pelo ministério de D. L. Moody. O empenho de Scofield pela interpretação e ensino bíblico o levou a desenvolver uma abordagem dispensacionalista para entender as Escrituras.

A contribuição mais notável de Scofield foi a publicação da Scofield Reference Bible em 1909 pela Oxford University Press. Esta Bíblia de estudo incluía anotações, referências cruzadas e notas explicativas ao lado do texto bíblico, fornecendo aos leitores um guia abrangente para entender a Bíblia de uma perspectiva dispensacionalista. Sendo uma das primeiras bíblias de estudos modernas, a Bíblia de Referência Scofield tornou-se imensamente popular e influente, moldando a compreensão da profecia bíblica e escatologia entre muitos cristãos.

Além de seu trabalho na Bíblia de Referência, Scofield esteve envolvido em várias atividades teológicas e evangélicas. Revisou sua bíblia anotada em 1917 e, sendo um sucesso de vendas, teve um rendimento pelo resto da vida. Serviu como pastor, conduziu conferências bíblicas e contribuiu com artigos para publicações cristãs. Os ensinamentos e escritos de Scofield desempenharam um papel significativo na disseminação da teologia dispensacional, especialmente nos círculos evangélicos e fundamentalistas.

TEOLOGIA

Scofield defendia a teoria da lacuna na criação, isto é, que o período de criação de seis anos, conforme descrito em Gênesis 1, envolveu seis dias literais de 24 horas, mas houve um intervalo de tempo entre os dias que duram muito tempo.

Também expunha um sionismo cristão e uma teologia de aliança dual, na qual Israel continuaria tendo uma aliança com Deus até a dispensação do Reino.

Foi uma das principais obras para difundir o dispensacionalismo. O esquema das dispensações para Scofield é a seguinte:
(1) Inocência (da Criação à Queda);
(2) Consciência (da Queda ao Dilúvio);
(3) Governo Humano (do Dilúvio a Abraão);
(4) Promessa (de Abraão à Lei no Sinai);
(5) Lei (do Sinai à cruz e ressurreição de Cristo);
(6) Igreja (da cruz ao Arrebatamento da igreja);
(7) Reino (definido como o “Milênio” após o retorno de Cristo)

BIBLIOGRAFIA

Canfield, Joseph M. The incredible Scofield and his book. Joseph M. Canfield, 1984.

Lutzweiler, David. The Praise of Folly: The Enigmatic Life & Theology of C. I. Scofield. Draper, Virginia, Apologetics Group, 2009.

Mangum, R. Todd, and Mark S. Sweetnam. The Scofield Bible: Its History and Impact on the Evangelical Church. InterVarsity Press, 2009.

Trumbull, Charles G. The life story of CI Scofield. Wipf and Stock Publishers, 2007.

Vier, William Albert Be. A biographical sketch of CI Scofield. Diss. Southern Methodist University, 1960.

Dispensacionalismo MacArthuriano

O Leaky Dispensationalism (Dispensacionalismo Vazado), por vezes chamado de Dispensacionalismo MacArthuriano é um termo descritivo utilizado para caracterizar a posição teológica do pastor e polecista John F. MacArthur (1939-2025) e de associados ao Master’s Seminary em relação à escatologia e à estrutura das dispensações bíblicas.

John F. MacArthur Jr. foi pastor, autor e radialista adepto do novo calvinismo americano. Foi líder da Grace Community Church, na Califórnia, e fundador do The Master’s Seminary (TMS). Outros autores conexos incluem Michael J. Vlach, Richard L. Mayhue, Nathan Busenitz e Robert L. Thomas.

Uma das características centrais de sua abordagem é aplicar uma soteriologia (doutrina da salvação) uniforme e soberana de Deus em todas as dispensações, o que o distingue de interpretações esquemáticas.

Essa disposição em ver continuidade em áreas específicas é o que levou o termo “vazado” a ser aplicado. Sua ênfase na soberania absoluta de Deus e no senhorio de Cristo na salvação (a posição conhecida como “Salvação pelo Senhorio”) cria uma estrutura soteriológica unificada que “vaza” através das diversas dispensações da economia de Deus, mitigando algumas das separações mais estritas encontradas no Dispensacionalismo Clássico ou Revisado.

MacArthur possui várias ênfases e interpretações que o distinguem de muitos outros teólogos dispensacionalistas, tornando sua posição única.

Uma delas era a separação entre salvação e entrada no Reino (galardão). Esta é a característica mais significativa e, frequentemente, a mais controversa de MacArthur, estando intrinsecamente ligada à sua teologia da Salvação pelo Senhorio.

MacArthur estabelece uma distinção nítida entre o dom gratuito da vida eterna (justificação pela fé somente) e a recompensa de entrar e reinar no Reino Milenar. A salvação do inferno é alcançada somente pela fé em Cristo. No entanto, o status, a autoridade e a experiência do crente durante o vindouro Milênio são determinados pela fidelidade e obediência nesta vida.

Ele se apoia em passagens sobre o Tribunal de Cristo para crentes (2 Coríntios 5:10), em advertências sobre ser “envergonhado na sua vinda” (1 João 2:28) e em parábolas como a dos Talentos (Mateus 25:14-30), que interpreta literalmente como critérios para a co-regência. Um crente verdadeiramente salvo que vive em pecado persistente e sem arrependimento será “salvo, todavia, como que pelo fogo” (1 Coríntios 3:15). Embora entre no céu (o estado eterno), sofrerá perda de recompensas e terá negado um lugar de co-regência com Cristo no Milênio, permanecendo como súdito, não como governante, experimentando vergonha e perda.

Esse ponto de vista é criticado por introduzir uma forma de “salvação por obras” (mesmo que restrita a recompensas) e por criar um sistema de duas classes na vida após a morte, o que, para os críticos, parece minar a alegria e a plenitude da salvação.

O cessacionismo de John F. MacArthur insere-se como a consequência lógica da completude das Escrituras e de um entendimento da economia de Deus. Para MacArthur, os “dons de sinal” (profecia, línguas, curas) tiveram um propósito dispensacional e limitado: autenticar a nova revelação apostólica e confirmar a mensagem dos apóstolos, assim como os milagres validaram Moisés ou Elias em fases cruciais e singulares da história redentora.

No dispensacionalismo macarthuriano há a visão de que a Era da Igreja seria uma dispensação não dominada por sinais, definida pela suficiência das Escrituras e pela pregação expositiva, em contraste direto com a teologia carismática.

Coerente com seu futurismo, MacArthur antecipava que milagres potentes e enganosos retornarão apenas na próxima grande dispensação, a Tribulação, onde terão o papel de autenticar o Anticristo (2 Tessalonicenses 2:9). Assim, defendia que tais sinais não pertencem à era atual, mas a períodos específicos de nova (ou falsa) revelação.

MacArthur identificou um papel escatológico específico para o Islã, ausente na maioria dos sistemas dispensacionalistas clássicos.

Via o Islã e seu objetivo de um califado global como um veículo primário para a religião dos últimos dias do Anticristo. Argumenta que o sistema religioso do Anticristo refletirá ou cooptará a estrutura monoteísta, militante e baseada na lei do Islã, que rejeita a divindade de Cristo. MacArthur conectava o “rei do Sul” em Daniel 11:40 a uma coalizão de nações islâmicas. Mais amplamente, ele via o Islã como um sistema potente e pronto, que se encaixa na descrição de uma religião apóstata que adora um “deus das fortalezas” (Daniel 11:38) e exige lealdade total.

Embora muitos intérpretes de profecia façam conexões semelhantes, MacArthur tem sido mais sistemático e enfático ao apresentar o Islã como o provável precursor e modelo para a falsa religião final.

Diferente de muitos comentaristas populares, MacArthur evitava a identificar figuras contemporâneas específicas como o Anticristo ou a afirmar que eventos atuais (como pandemias, crises econômicas ou tecnologias emergentes) são o cumprimento direto e final de uma profecia específica. Por exemplo, ele não identifica o COVID-19 ou o chip como a “marca da besta”.

Sua abordagem é um “historicismo de princípios”. Identifica tipos e padrões que estão se desenvolvendo de acordo com a profecia — nisso compartilhava com as teorias de conspiração do globalismo, como a crença de um suposto globalismo que articular a forja de movimento global em direção a um governo mundial, uma sociedade sem dinheiro e uma religião universal. No entanto, ele evita a identificação absoluta, preferindo focar na preparação do palco global para os eventos finais, em vez de declará-los como o cumprimento final.

Em suma, o dispensacionalismo macarthuriano mantém a bipartição Israel-Igreja, mas dissolve as fronteiras soteriológicas entre as eras. O resultado é um híbrido formalmente dispensacional (duas vias para o reino) enquanto seja materialmente aliancista (salvação uniforme).

BIBLIOGRAFIA

Busenitz, Nathan. The Men and the Message of Prophecy: A Study of the Minor Prophets. The Master’s Seminary Press, 2020.

MacArthur, John F. The Gospel According to Jesus: What Is Authentic Faith? Revised and Expanded Anniversary Edition, Zondervan, 1994.

MacArthur, John F.. The Second Coming: Signs of Christ’s Return and the End of the Age. Crossway, 2006.

MacArthur, John F.. Why One Way? Defending an Exclusive Claim in an Inclusive World. W Publishing Group, 2002.

Mayhue, Richard L. What Would Jesus Say About Your Church? Christian Focus Publications, 2014.

Mathison, Keith A. Dispensationalism: Rightly Dividing the People of God? P&R Publishing, 1995.

Poythress, Vern S. Understanding Dispensationalists. 2nd ed., P&R Publishing, 1994.

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Vlach, Michael J. The Church as a Replacement of Israel: An Analysis of Supersessionism. Peter Lang Publishing, 2009.

Venema, Cornelis P. The Promise of the Future. Banner of Truth Trust, 2000, pp. 354-358.

Vlach, Michael J. . He Will Reign Forever: A Biblical Theology of the Kingdom of God. Lampion Press, 2017.