Três e meio anos

O número simbólico três e meio anos ou suas equivalentes: 42 meses, 1.260 dias e “um tempo, tempos e metade de um tempo” reflete símbolos com conotações de períodos de dificuldades, principalmente em textos apocalípticos e proféticos.

Essa estrutura temporal recorre tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, frequentemente representando períodos de provação, julgamento e intervenção divina.

No livro de Reis, a seca declarada por Elias durou 3,5 anos como julgamento divino contra a idolatria de Israel sob o rei Acabe. Esse período de seca simboliza um tempo de provação e arrependimento, culminando na demonstração do poder de Deus no Monte Carmelo e o subsequente fim da seca. Em Números, durante a jornada de 40 anos no deserto, os israelitas fizeram 42 acampamentos antes de entrar na Terra Prometida. Embora não seja explicitamente um período de 3,5 anos, o número 42 está simbolicamente ligado ao tema mais amplo de provação e transição. Em Daniel 7, o “chifre pequeno” oprime o povo de Deus por “um tempo, tempos e metade de um tempo” (3,5 anos). De modo semelhante, Daniel 12:7 refere-se a um período de tribulação com a mesma duração antes do fim da era.

No Apocalipse, a cidade santa é pisada por 42 meses. As duas testemunhas profetizam por 1.260 dias. A mulher (simbolizando Israel ou a Igreja) é protegida no deserto por “um tempo, tempos e metade de um tempo”. A besta exerce autoridade por 42 meses. Essas estruturas temporais representam períodos de tribulação, perseguição e proteção divina, destacando a tensão entre o domínio temporário do mal e o controle soberano de Deus.

O período de 3,5 anos consistentemente simboliza um tempo de provação, seja para indivíduos, nações ou o mundo. Representa um tempo de dificuldades que refina e prepara o povo de Deus para Seus propósitos finais. Em contextos como a seca de Elias, os 3,5 anos servem como uma forma de julgamento divino contra o pecado. No entanto, esse julgamento é sempre temperado pela misericórdia, pois o período termina com restauração e renovação. A natureza finita de 3,5 anos ressalta que o sofrimento e o mal são temporários e estão sob o controle de Deus. Esse tema é particularmente proeminente na literatura apocalíptica, onde o período de tribulação é limitado pela vitória final de Deus. O número 3,5 é metade de sete, um número que simboliza completeza ou perfeição na Bíblia. Como tal, 3,5 representa incompletude ou uma fase de transição, apontando para o eventual cumprimento do plano de Deus.

Stewart (2021) destaca o paralelo entre a seca de 3,5 anos de Elias e a tribulação de 3,5 anos no Apocalipse, sugerindo que ambos os períodos simbolizam o julgamento divino seguido pela restauração. Os 42 acampamentos em Números 33 são vistos como um precursor simbólico dos 42 meses de tribulação, enfatizando o tema de provação e preparação para as promessas de Deus. Essas conexões demonstram como o motivo de 3,5 anos está entrelaçado na estrutura da teologia bíblica, ligando eventos do Antigo Testamento com visões apocalípticas do Novo Testamento.

O número simbólico 3,5 anos (e suas equivalentes) é um motivo recorrente na Bíblia, representando períodos de provação, julgamento e intervenção divina.

Referência

Stewart, Alexander E. Reading the Book of Revelation: Five Principles for Interpretation. Lexham Press, 2021.

Sete Anos de Tribulação

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação, central para algumas interpretações da escatologia, especialmente dentro do Dispensacionalismo, postula um período futuro de sete anos caracterizado por intenso sofrimento e caos.

Esta crença se baseia em passagens como Daniel 9:24-27, a profecia das “setenta semanas” e os capítulos 6 a 19 do Apocalipse.

CÁCULO

A metodologia dos adeptos dessa doutrina inclui a ressignificação semântica, uma combinação de conveniência de leituras ora simbólicas, ora literais, de leituras isoladas de textos-provas e reconfiguração dos versos em um arcabouço interpretativo externo aos textos bíblicos.

Partem da premissa que o termo hebraico para “semanas” (shavuim) pode também significar “setes”, levando muitos intérpretes a entender isso como setenta unidades de sete anos, totalizando 490 anos.

Na próxima fase interpretativa, a profecia é dividida em três partes: sete semanas (49 anos), associadas à reconstrução de Jerusalém; sessenta e duas semanas (434 anos), que conduzem à vinda do “Ungido”, interpretado como Jesus; e uma semana (7 anos), vista como um futuro período de tribulação. Daniel 9:27 é central para a doutrina, descrevendo uma figura, frequentemente interpretada como o Anticristo, que faz uma aliança com muitos por “uma semana” (7 anos), mas a quebra na metade, levando à desolação. Isso é interpretado como um futuro período de sete anos, dividido em duas metades de 3,5 anos cada.

Essa interpretação de Daniel é então conectada a várias passagens do Apocalipse que mencionam períodos de tempo que se alinham com a estrutura de sete anos. Apocalipse 11:2-3, por exemplo, menciona 42 meses (3,5 anos) e 1.260 dias (também 3,5 anos, usando um ano profético de 360 dias). Apocalipse 12:6, 14 refere-se a um período de 1.260 dias e “um tempo, tempos e metade de um tempo” (3,5 anos). Apocalipse 13:5 fala da besta tendo autoridade por 42 meses. Essas passagens são interpretadas como descrevendo dois períodos distintos de 3,5 anos cada, totalizando sete anos. A primeira metade é vista como um tempo de relativa paz sob a aliança do Anticristo, enquanto a segunda metade é um tempo de intenso sofrimento e perseguição.

A figura do anticristo como um indivíduo e não um tipo desempenha um papel crucial nessa interpretação. A quebra da aliança em Daniel 9:27 é interpretada como o Anticristo fazendo uma aliança de sete anos com Israel (ou o mundo) e quebrando-a após 3,5 anos, levando à “grande tribulação” (Mateus 24:21). Essa quebra é frequentemente ligada à “abominação da desolação” (Daniel 9:27, Mateus 24:15), vista como um evento futuro em que o Anticristo profana um templo judeu reconstruído.

Dentro da estrutura do Dispensacionalismo, esses números são interpretados literalmente, em vez de simbolicamente. Os dispensacionalistas argumentam que a profecia das “setenta semanas” tem um cumprimento duplo: um cumprimento parcial no passado (por exemplo, a profanação do Templo por Antíoco IV Epifânio em 167 a.C.) e um cumprimento completo no futuro, durante a tribulação de sete anos. O Dispensacionalismo enfatiza um futuro restabelecimento de Israel e um cumprimento literal das profecias do Antigo Testamento, incluindo a tribulação de sete anos.

Finalmente, cálculos matemáticos são empregados para reforçar essa interpretação. Muitos intérpretes usam um “ano profético” de 360 dias para calcular os prazos em Daniel e Apocalipse. Por exemplo, 42 meses multiplicados por 30 dias equivalem a 1.260 dias. 1.260 dias multiplicados por 2 resultam em 2.520 dias, o que equivale a sete anos, usando anos de 360 dias. Os números 3,5, 42 e 1.260 são vistos como simbólicos de um período de provação e teste, derivados da metade de sete.

CRÍTICA

Uma crítica dessa interpretação é ignorar que a profecia das “setenta semanas” em Daniel 9:24-27 tem mais probabilidade de se referir a eventos no período do Segundo Templo, como a profanação por Antíoco IV Epifânio.

Outros textos bíblicos que apresentam uma estrutura escatológica diferente são frequentemente ignorados ou minimizados. Por exemplo, o Discurso do Monte de Jesus (Mateus 24, Marcos 13, Lucas 21), embora frequentemente interpretado para se adequar ao modelo da tribulação de sete anos, possui interpretações alternativas que não sustentam um período de sete anos.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação impõe uma estrutura preestabelecida ao texto bíblico em vez de derivá-la do próprio texto. A ideia de um período de sete anos, por exemplo, não está explicitamente declarada nem em Apocalipse, nem em Daniel. Contudo, com um processo que envolve consideráveis ​​saltos interpretativos, bastando usar de criatividade.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação é tão válida quanto outros cálculos. Por exemplo, considere os 1.260 dias em Apocalipse 11:3 e 12:6 como anos simbólicos, ligados ao reinado de 1.000 anos de Cristo (Apocalipse 20:4-6). Embora 1.260 dias equivalham a 3,5 anos usando um ano profético de 360 dias, se esses 3,5 anos simbolizarem um período maior, multiplicá-los pelo reinado de 1.000 anos resulta em uma tribulação de 3.500 anos – uma era prolongada de provação preparando para o reino milenar, em vez de um breve evento de sete anos.

Outra interpretação possível seriam que os 490 anos de Daniel 9:24-27 representam um ciclo completo de julgamento e restauração, como os 40 anos de peregrinação no deserto (Números 14:34). Dividindo os 490 anos pelos 40 anos de peregrinação, obtemos 12,25 ciclos. Arredondando para baixo, teríamos 12 gerações de tribulação (12 x 40 = 480 anos), com um restante de 10 anos. Essa interpretação, no entanto, resulta em um período de tribulação de 480 anos.

Outro exercício de pensamento. Podemos considerar os 42 meses de Apocalipse 13:5, período em que a besta tem autoridade, e conectá-los aos 40 dias de provação, como a tentação de Jesus em Mateus 4:1-11. Se tomarmos os 42 meses como uma representação simbólica de provação e os conectarmos aos 40 dias, poderíamos argumentar que a tribulação não dura 7 anos, mas sim 40 dias. Essa interpretação, porém, reduz drasticamente a tribulação para um período extremamente curto.

Esses exemplos demonstram como a combinação de diferentes números bíblicos pode levar a interpretações radicalmente diferentes, desde 40 dias até 3.500 anos. Isso evidencia que a doutrina da tribulação de sete anos é só mais uma dentre inúmeras interpretações possíveis, porém implausíveis, bastanto aplicar métodos descontextualizados às Escrituras.

Outra crítica associada é a ideia de um “arrebatamento” como um sumiço repentino dos crentes que precederia a tribulação. Tal interpretação é um desenvolvimento relativamente recente, popularizado no século XX.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação, tal como é entendida hoje, não fazia parte dos ensinamentos dos primeiros cristãos. Agostinho e Orígenes interpretavam textos apocalípticos simbolicamente ou espiritualmente, não como previsões esquemática de um futuro período de sete anos. Ao longo da história da igreja, houve uma diversidade significativa de crenças escatológicas.

Críticos argumentam que o foco na tribulação de sete anos e em outras especulações sobre o fim dos tempos pode desviar a atenção dos ensinamentos centrais do cristianismo, como o amor, a justiça e o Reino de Deus. Essa ênfase em cronogramas especulativos pode levar a uma negligência dos aspectos éticos e práticos da fé.

Em resumo, a doutrina dos Sete Anos de Tribulação é frequentemente criticada como um exemplo de eisegese, pois se baseia na interpretação seletiva de textos bíblicos, recortes e reconfiguração descontextualizadas, impõe uma estrutura moderna a escritos antigos e carece de apoio da tradição cristã primitiva.

BIBLIOGRAFIA

Broadwater, Billy. Exposing the Fallacies of the Pre-Tribulation Rapture: A Biblical Examination of Christ’s Second Coming. WestBow Press, 2o14.

Kilde, J., and B. Forbes. Rapture, revelation, and the end times: Exploring the Left Behind series. Palgrave Macmillan Limited, 2004.

VEJA TAMBÉM

Fechamento da porta da graça

Tribulação

Três e meio anos

Fechamento da porta da graça

A doutrina do fechamento da porta da graça é a crença que em dado momento escatológico a salvação não mais estaria disponível à humanidade, pois a “porta da graça” se fechará.

A origem de tal crença surgiu durante o movimento milerita entre 1844 e 1854, embora não fosse defendida pelo próprio William Miller. Depois que Jesus não voltou em 22 de outubro de 1844, a doutrina propunha que quem não tivesse aceitado a mensagem de William Miller estaria perdido, pois a porta para a misericórdia e a graça havia se fechado. Essa teologia foi aceita por grupos que se designavam “Sabbath and Shut Door Adventists” (Adventistas sabáticos e da porta fechada) e, reinterpretado, passou-se a diversas denominação de cariz adventista. Uma variante ocorre entre o Movimento dos Estudantes da Bíblia (dentre eles, as Testemunhas de Jeová) de que a geração que viu os acontecimentos de 1914 estaria viva quando do retorno de Cristo.

Apesar de não ter bases bíblicas, textos-provas foram usados para justificar tal crença, tais como Mateus 25:10; Apocalipse 3:7-8.

Pierre Jurieu

Peter Jurieu (1637-1713) foi um ministro protestante francês, teólogo e escritor apocalíptico do final do século XVII e início do século XVIII.

Nascido em Mer, na França, Jurieu passou sua infância durante perseguição contra os huguenotes. Iniciou seus estudos na Academia de Saumur, onde se concentrou em teologia e filosofia. Com suas habilidades intelectuais excepcionais, logo ganhou reconhecimento por seu raciocínio aguçado e erudição rigorosa. Depois, seria ordenado ministro.

Os pensamentos de Jurieu acerca da escatologia e da literatura apocalíptica que lhe renderam ampla notoriedade e controvérsia. Sua principal obra é intitulada “L’Accomplissement des prophéties, ou, Les merveilles accomplies” (O cumprimento das profecias, ou, As maravilhas realizadas). publicada em 1686. Nessa obra, Jurieu apresentou sua interpretação de textos bíblicos, concentrando-se nos eventos que acreditava estarem se desenrolando em seu próprio tempo.

As visões apocalípticas de Jurieu centravam-se no iminente retorno de Cristo e no estabelecimento de um reino milenar na terra. Com uma perspectiva historicista, viu eventos contemporâneos, como a ascensão de Luís XIV e a perseguição aos protestantes na França, como sinais do fim dos tempos que se aproximava.

Apesar de sua popularidade, as previsões apocalípticas de Jurieu tiveram críticas de alguns setores, inclusive dentro da tradição reformada. No entanto, seu trabalho teve um impacto nas gerações subsequentes de teólogos e no desenvolvimento do pensamento dispensacionalista.

Além de seus escritos apocalípticos, Jurieu se envolveu em vários debates teológicos e filosóficos, incluindo discussões sobre livre arbítrio, predestinação e a natureza da Igreja. Também escreveu obras sobre ética, filosofia moral e tolerância religiosa.

William Whiston

William Whiston (1667-1752) foi um teólogo, historiador e matemático inglês, tradutor das obras de Josefo.

Em termos de sua teologia, Whiston era um não conformista que rejeitou muitas crenças oficiais anglicanas e defendeu um retorno à simplicidade da igreja cristã primitiva. Rejeitou a doutrina da Trindade e acreditou que Jesus era um ser humano, não divino. Rejeitou a doutrina da condenação eterna e acreditava que todas as pessoas acabariam se reconciliando com Deus.

A escatologia de Whiston era idiossincrática. Com base em suas leituras do livro de Apocalipse, previu que o fim do mundo ocorreria em 1736. A Segunda Vinda de Cristo seria precedida por um período de grande tribulação, durante o qual o Anticristo subiria ao poder. No entanto, quando suas previsões não aconteceram, revisou seus pontos de vista e concluiu que o fim do mundo ainda estava por vir.