Reforma na Espanha

A ideia de uma Reforma na Espanha anterior a Lutero tem sido objeto de debate na historiografia. Em vez de um movimento unificado comparável ao luteranismo ou ao calvinismo, os estudos apontam para um conjunto de correntes espirituais, tensões sociais e disputas teológicas que, entre os séculos XV e XVI, questionaram práticas e estruturas do cristianismo ibérico tardo-medieval. Esses processos envolveram de modo decisivo os conversos de origem judaica, a reflexão sobre a graça e a fé, e o lugar da Escritura na vida cristã.

Os distúrbios de Toledo em 1449, marcados por estatutos de “limpieza de sangre” e hostilidade contra cristãos-novos, desencadearam respostas teológicas de alto nível. Alonso de Cartagena, bispo de Burgos, no Defensorium unitatis christianae, e Alonso de Oropesa, geral dos jerônimos, no Lumen ad revelationem gentium, defenderam a plena validade da conversão dos judeus e a igualdade espiritual dos fiéis em Cristo. Seus argumentos recorreram de forma sistemática à Escritura e à tradição patrística para afirmar que a salvação se funda na fé em Cristo, não na origem étnica. Ao insistirem na unidade da Igreja como um só corpo formado por crentes de todas as nações, esses autores reagiam tanto ao exclusivismo social quanto a concepções que limitavam a eficácia da graça.

Essa teologia não rompeu com Roma nem propôs uma reforma institucional da Igreja. Contudo, ao deslocar o eixo da identidade cristã para a fé interior e para a autoridade das Escrituras, abriu espaço para leituras mais pessoais e intensas da vida espiritual. Em meios de conversos letrados, difundiu-se a prática do estudo bíblico, a meditação sobre a paixão de Cristo e a ênfase na transformação interior. Ao longo do fim do século XV e início do XVI, essas tendências confluíram com correntes místicas e devocionais que mais tarde seriam agrupadas sob o rótulo de alumbradismo, termo amplo que a documentação inquisitorial aplicou a experiências diversas de interioridade religiosa.

O Édito de Toledo de 1525, dirigido contra alumbrados, dexados e perfectos, mostra que certas formas de espiritualidade centradas na passividade da alma, na ação direta da graça e na relativização de mediações externas eram vistas como ameaça. A repressão não visava um “protestantismo” organizado, mas práticas e discursos que pareciam diminuir o papel das obras, das observâncias e da hierarquia. Muitos acusados pertenciam a redes de conversos, o que revela a interseção entre conflito religioso e tensão social.

Enquanto isso, a Reforma europeia avançava. A partir da década de 1550, surgiram na Espanha focos claramente influenciados pelo protestantismo, em cidades como Sevilha y Valladolid. Nomes como Casiodoro de Reina, Cipriano de Valera, Juan Pérez de Pineda e Antonio del Corro pertencem já a esse segundo momento, ligado à circulação de livros reformados, à tradução da Bíblia para o castelhano e ao exílio. Aqui se pode falar, com mais precisão, de protestantismo espanhol, ainda que minoritário e rapidamente desmantelado pela Inquisição.

A noção de uma Reforma espanhola anterior a Lutero deve, portanto, ser usada com cuidado. Ela não designa uma igreja alternativa nem um programa doutrinal coerente, mas um clima de renovação espiritual, de centralidade bíblica e de crítica moral que atravessou ordens religiosas, círculos eruditos e comunidades de conversos. A Inquisição atuou nesse cenário não apenas como instrumento de uma política religiosa uniforme, mas como arena onde se decidiram os limites da ortodoxia num império marcado pela diversidade de origens e pela vigilância sobre a sinceridade da fé.

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Federico Fliedner

Federico Fliedner Bertheau (1845 – 1901) foi um teólogo, pastor, missionário, filantropo, jornalista, editor, escritor e poeta protestante reformado, de origem alemã e naturalizado espanhol. Polímata e multifuncional, atuou para consolidar o protestantismo espanhil.

Filho do teólogo evangélico Theodor Fliedner, Federico foi pai de Jorge, Catalina e Juan Fliedner Brown, e avô de Elfriede Fliedner Klingender, sua família foi ativa em círculos protestantes avivados na Alemanha e Itália.

Nascido em Kaiserswerth, Düsseldorf, Fliedner foi educado no Gymnasium de Gütersloh. Seus estudos teológicos em Halle (1864-1866) e doutorado em Tubinga (1867) receberam influências dos teólogos August Tholuck e Johann Tobias Beck. Após uma breve experiência como professor rural em Hilden em 1868, serviu como enfermeiro na Guerra Prusso-Austríaca e fez uma viagem à Itália, onde teve contato com os valdenses.

Em março de 1869, com a promulgação da liberdade de culto na Espanha, Fliedner viajou para o país. No ano seguinte, foi ordenado pastor e enviado como missionário pela Igreja Evangélica da Alemanha, estabelecendo-se em Madrid em 9 de novembro de 1870. Ali, tornou-se capelão da legação alemã. Dedicou-se ao aprendizado do espanhol, completou o bacharelado na Espanha e estudou medicina na Universidad Central. Sua atuação religiosa começou na Igreja de Jesus, na rua Calatrava, Madrid, onde sucedeu Francisco de Paula Ruet como pastor em 1878. Em 1880, adquiriu e reconstruiu uma casa em ruínas em El Escorial, onde Filipe II havia se hospedado, transformando-a em um hospício para órfãos e uma escola, a “Casa de Paz”.

Sua dedicação à causa protestante o levou a viajar por diversas províncias, fundando escolas em cada congregação para elevar o nível cultural dos protestantes reformados espanhóis. Fliedner foi fundamental na formação da Igreja Cristã Espanhola (1872), precursora das atuais Igreja Evangélica Espanhola (IEE) e Igreja Espanhola Reformada Episcopal (IERE).

Em 1873, fundou a Librería Nacional y Extranjera, uma editora com amplo catálogo de obras literárias, livros didáticos e periódicos, incluindo El Amigo de la Infancia (1874-1939), lido por Miguel de Unamuno, e a Revista Cristiana (1880-1919), um influente periódico científico e religioso que alcançou 888 edições.

Sua prolífica produção literária incluiu biografias de John Howard, Elizabeth Fry, David Livingstone e Lutero (1878), além de seus próprios pais, Theodor Fliedner de Kaiserswerth (1883) e Carolina Fliedner de Kaiserswerth (1883). Sua autobiografia, publicada postumamente em alemão (Aus Meinem Leben, 1901-1903) e posteriormente traduzida para o espanhol na Revista Cristiana, detalha sua vida e obra. Fliedner também iniciou a tradução para o espanhol do Novo Testamento, com notas do francês Ed. Faivre, trabalho que seria completado por um de seus netos a partir da Epístola aos Hebreus.

Casado com a escocesa Juana Brown, Fliedner teve uma família numerosa. Juntos, eles desenvolveram uma escola preparatória de bacharelado. Os bons resultados dessa iniciativa os motivaram a criar um centro privado de ensino secundário, o Colegio El Porvenir de Madrid, inaugurado em 31 de outubro de 1897, no Dia da Reforma. Anexada ao colégio, foi criada a Librería Calatrava, especializada em literatura protestante.

Fliedner também foi autor de um hinário protestante reformado em espanhol para a escola dominical.

Adopcianismo

Adopcianismo ou adocionismo espanhol foi uma controvérsia cristológica nos séculos VIII-IX na Península Ibérica.

No século VIII na Espanha, aparentemente de modo independente da antiga heresia adocionista, o arcebispo de Toledo Elipando e o bispo Félix de Urgel levantaram a questão da dupla natureza Deus-Homem. Argumentavam que somente por sua natureza divina de Cristo o verdadeiro Deus, mas em sua natureza humana seria adotado por Deus. A essa natureza humana faltava atributos divinos, especialmente a onisciência, similar aos ensinamentos dos agnoitas.

Em 792, Félix foi intimado para um sínodo em Regensburg, renunciou ao seu ensino, etiquetado como heresia nestoriana. Confirmou a sua renúncia em Roma perante o papa Adriano. Mas voltando a Urgel, Félix voltou aos seus antigos pontos de vista. A controvérsia seguiu até que Félix abdicou ao seu bispando, vivendo em Lyon até sua morte em 818. A posição foi condenada por um sínodo de Frankfurt em 794.

Além da questão cristológica, havia tensões sobre o status das igrejas espanholas desde a conversão do rei ariano Recaredo ao catolicismo em 589. Havia resistência do clero espanhol em submeter-se à autoridade carolíngia e papal.

BIBLIOGRAFIA

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Sefarade

O nome Sefarade (סְפָרַ֑ד) aparece com localização incerta no Livro de Obadias (1:20), referindo-se aos exilados israelitas nesse local.

Desde o início da Idade Média, os targums identificam a Espanha como Sefarad, tal como em hebraico moderno e pelos judeus ibéricos referem-se a si próprios como sefarditas. Outras teorias, baseada em inscrições persas e nos Anais de Sargão II, localizam dois lugares chamados Sparda: um na Média e o outro em Sardis, a antiga capital da Lídia, na Ásia Menor. Há também a hipótese de que Sefarade esteja situado na Líbia.

A Peshitta glosa Sefarade como Espanha. E o Targum Jonathan em Obadias 20 “Espamia”. As consoantes para “Sardis” e “Sefarad” são semelhantes.

BIBLIOGRAFIA

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