Camowen Green e primitivistas anglo-americanos

Entre 1800 e 1830 várias igrejas locais independentes que esposavam um evangelicalismo primitivista surgiram na Irlanda, Grã-Bretanha e Canadá. Camowen Green é uma delas.

Em 1804 um dos irmãos Haldanes visitou a Irlanda. Pregou em Omagh, no Ulster, onde convenceu dois irmãos presbiterianos, John e James Buchanan, aos ideais primitivistas de cristianismo. Desde a morte do pastor presbiteriano em 1799, a igreja deles não tinha contratado um pastor adequado. Então, em 1807 começaram a reunir-se para leituras bíblicas e a procurar parâmetros neotestamentários de fé e ordem para a igreja. Esse grupo formou uma igreja livre em Camowen Green perto de Omagh.

James Buchanan teve contato com John Walker e Thomas Kelly, os quais propunham práticas semelhantes para a vida em igreja. Em 1816 boa parte dos membros emigraram, entre eles James Buchanan. Ele foi nomeado cônsul britânico aos EUA de 1819 a 1843. Buchanan organizou uma igreja semelhante em Nova Iorque, a qual mais tarde se uniria ao movimento das Igrejas de Cristo.

A igreja de Camowen Green desenvolveu uma identidade batista. Depois, na década de 1860, parte deles organizaram uma Assembleia de Irmãos Abertos.

Em 1º de março de 1818, uma assembleia da “igreja do Novo Testamento” em Nova York envivou uma carta circular a igrejas semelhantes em todo o mundo. Dizia que sete anos antes vários cristãos haviam se separado das várias denominações para se reunirem como uma igreja do Novo Testamento. Buscavam comunhão com todos os crentes (evangélicos).

A Igreja, professando a obediência à fé em Jesus Cristo, reunida em Nova York;

Às Igrejas de Cristo espalhados sobre a terra, a quem esta comunicação vir. Graça, misericórdia e paz vos sejam multiplicadas parte de Deus Pai, pelo Espírito Santo e por nosso Senhor Jesus Cristo…

Exigimos a quem recebemos em comunhão que deva crer em seu coração e confessar com a sua boca que Jesus é o Cristo; que ele morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; e que por essa confissão somente, devam ser batizados…

É necessário observar que nossos anciãos trabalhem em seus respectivos trabalhos, para seus sustentos e para não serem pesados à igreja; mas em caso de necessidade, ou se no desempenho do ofício tornar-se necessário, a igreja considera em seu dever e privilégio comunicar liberalmente a eles conforme “digno é o obreiro de seu salário”.

Nas relações de um com outros como cristãos, somos todos irmãos, sem distinção na igreja…As questões e disputas que geralmente ocorrem entre cristãos professantes não têm lugar entre nós…O conhecimento da simples verdade, declarada por nosso Senhor Jesus e seus apóstolos — e a piedade prática derivada desse conhecimento, são as coisas nas quais desejemos prestar atenção.

Não devemos omitir que, em todas nossas medidas e decisões, a unanimidade e não a maioria é considerada a regra bíblica.

William Ovington

Henry Erritt

Jonathan Hatfield

James Saunders

Benjamin Hendrickson

Esta carta teria circulado entre contatos pessoais nas Ilhas Britânicas, Canadá e Estados Unidos. Vinte e uma carta de respostas de congregações independentes nesses países reportaram crenças e práticas semelhantes.

Nas próximas décadas, diversas congregações adenominacionais similares emergiram em diversos países, boa parte integrando-se com outros grupos e movimentos, notoriamente como o Movimento dos Irmãos (de Plymouth) e com as Igrejas de Cristo.

BIBLIOGRAFIA

Anônimo. Letters Concerning their Principles and Order from Assemblies of Believers in 1818-1820. London, 1889.

Robert Haldane

Robert Haldane (1764 –1842) foi um missionário, líder do avivamento continental e britânico, teólogo e fundador de várias organizações evangélicas.

Nascido em Londres em uma familia afluente escocesa, foi educado em Dundee e Edimburgo. Após uma carreira na marinha, Haldane passou a morar e administrar a propriedade familiar em Airthrey, perto de Stirling, por dez anos.

Em 1795, Robert converteu-se logo após seu irmão James. Nesse mesmo ano, Robert, decidido a abandonar suas riquezas para viver para o evangelho, ofereceu ao governo britânico e à Companhia das Índias Orientais a propriedade de Airthrey para financiar uma sociedade missionária. A oferta foi recusada, porém três mais tarde venderia sua propriedade e com esse dinheiro financiou suas ações evangelísticas.

Com seu irmão fundou a “Sociedade para a Propagação do Evangelho Domesticamente”. Ela apoiava a construção de capelas ou “tabernáculos” e pregadores itinerantes. Os missionários viajam através da Escócia, formando congregações avivadas e reanimando paróquias da Igreja da Escócia e outras congregações livres. No entanto, encontrou oposição dos pastores da Igreja da Escócia.

Ao entrar em contato com os glassitas, Haldane deixou a Igreja da Escócia em 1798. Desde então, adotou várias práticas e doutrinas dos glassitas ou sandemanianos, como eram conhecidos: congregações locais independentes, recusa de distinguir entre ministros e membros, pregação e ministério leigo dos anciãos e diáconos, comunhão semanal, recusa de credos e confissões de fé, recusa de uma burocracia denominacional ou envolvimento com o Estado.

Os Haldanes abriram um grande tabernáculo e escola bíblica em Leith Walk, Edinburgh, com capacidade de 3200 pessoas. Contudo, deixariam os glassitas em 1808, quando James Haldane e mais duzentos membros de sua congregação foram imersos no batismo, depois de ler um panfleto de Archibald McLean, um Scotch Baptist.

Entre 1816 e 1819 viajou para Genebra e Montauban para evangelizar. O fruto foi avivamento continental. Para apoiar o avivamento, fundou e dirigiu por um tempo a Sociedade Missionária Continental.

Ao retornar à Escócia, dedicou-se na publicação das Escrituras. Contudo, em 1824, passou por uma controvérsia com Sociedade Bíblica acerca da inclusão dos Apócrifos.

Escreveu um comentário sobre a Epístola aos Romanos; livros sobre a autoridade, inspiração e canonicidade das Escrituras.

O movimento inciado pelos irmãos haldanes foi chamados de haldanitas. Caracterizou-se pelo seu intenso evangelismo, primitivismo eclesiológico, valorização da participação leiga e democrática. Seus sucessores e grupos influenciados incluem os congregacionalistas, batistas, movimento dos irmãos, a Igreja Livre da Escócia, os batistas alemães, os Neutaufer, o movimento das Igrejas de Cristo nos Estados Unidos e outros.

BIBLIOGRAFIA

Daughrity, Dyron B. “Glasite versus Haldanite: Scottish divergence on the question of missions.” Restoration quarterly 53.2 (2011): 65-79.

Haldane, Alexander. The Lives of Robert Haldane of Airthrey, and of His Brother, James Alexander Haldane. Carlisle PE: First Banner of Truth, 1990.

Haldane, Robert, Malan César, and Edward Bickersteth. Revival of Religion on the Continent. London: Printed by Macintosh, 1839.

Ridholls, Joe. “Spark of Grace” : The Story of the Haldane Revival. Geneva: 1967.

Glassitas

Denominação primitivista que existiu entre 1730 e 2000, iniciada por John Glas (1695-1773), ex-ministro da Igreja da Escócia (Presbiteriana), ao rejeitar o controle estatal sobre a Igreja. Para Glas, somente a Bíblia deveria guiar a Igreja.

Oficialmente chamada de Church of Christ (Igreja de Cristo), também é referida como Glassitas, Kail kirk (igreja da “sopa de repolho”), Sandemanianos, Glassite e Glasite.

HISTÓRIA
Em uma época que o estado governava a vida religiosa dos cidadãos, John Glas começou a pregar que ser cristão era um ato de fé individual e não imposição estatal. O grupo influenciado por suas pregações acabou expelido da Igreja da Escócia e formou as primeiras congregações independentes na década de 1730.

Robert Sandeman (1718-1771), genro de Glas, continuou o trabalho na Inglaterra. Depois organizou a igreja nos Estados Unidos, cuja comunidade principal localizava-se em Danbury, Connecticut. Depois de algumas perseguições por causa do pacifismo, alguns glassitas se refugiram no Canadá durante a Guerra de Independência Americana.

Nas décadas entre 1730 e 1830 os glassitas influenciaram vários outros pregadores e movimentos em um avivamento que percorreu a Grã-Bretanha, Irlanda e costa leste da América do Norte. Notoriamente, os irmãos Haldane estiveram associados e adotaram muito das práticas e doutrinas glassitas.

Entre as pessoas notórias de tradição glassita contam o ativista e pensador político William Godwin (1756 – 1836) esposo de Mary Wollstonecraft e pai de Mary Shelley; o químico e bibliotecário Charles Wilson Vincent (1837–1905) e o cientista Michael Faraday (1791 – 1867), que foi diácono e depois ancião glassita.

Supostamente pela rigidez de suas práticas, no final do século XIX a Igreja Glassita entrou em declínio. Sua última congregação nos Estados Unidos fechou em 1890. Em 1989 a última congregação em Edimburgo encerrou os cultos e seu último ancião morreu em 1999. Desde então, a igreja pode ser considerada extinta.

DOUTRINA
A igreja glassita não possuía credos. Considerava a Bíblia como a completa revelação e a perfeita guia para a religião cristã. Devida à sua adesão radical ao sacerdócio universal dos crentes, não possuiu teólogos autorizados ou textos representativos de sua teologia. Contudo, as práticas e os detalhes de sua doutrina podem ser inferidos pelos escritos de seus anciãos, principalmente de Glas e Robert Sandeman (1718 – 1771).

Os glassitas criam na salvação pela fé. A fé consistia em receber a obra redentora de Cristo, mas não uma adesão a uma proposição doutrinário abstrata. Contudo, muitos detratores de Sandeman o acusavam de ensinar que bastava a fé como assentimento para salvação. Apesar disso, presbiterianos e o batista Andrew Fuller, criticavam o movimento por não demandarem nenhuma coisa além da fé para o efeito da graça sobre o indivíduo. Em resposta a essas acusações, Sandeman registrou em seu epitáfio:

“Que a morte nua e crua de Jesus Cristo, sem qualquer pensamento ou ação da parte do homem, é suficiente para apresentar o principal dos pecadores imaculado diante de Deus.”

Para os glassitas o batismo deveria ser livre e consciente para expressar a fé de que fora liberto da corrupção e do pecado. Assim, rejeitavam que o batismo como um ato de inserção nos registros paroquiais, quer anglicano ou presbiteriano, fosse um verdadeiro ato de fé. Contudo, os glassitas batizavam suas crianças.

CULTO
Os cultos consistiam de orações, hinos e pregações realizados em salas de reuniões imaculadas, sem decorações ou imagens. Desafiando as leis escocesas da época, o hinário Hymns and Spiritual Songs foi o primeiro livro de cânticos publicado na Escócia a não conter somente salmos. Qualquer um guiado pelo Espírito Santo podia exortar a congregação ou orar de forma espontânea. Saudavam-se com o ósculo santo.

Os glassitas praticavam o ágape, uma refeição comum, que pelo hábito de servir sopa no ágape levou ao apelido de kail kirk — igreja da sopa de repolho. Ocasionalmente realizavam o lava-pés. A Santa Ceia era realizada com frequência, quando possível, nas tardes de domingo.

Sala de reunião glassita em Edimburgo fechada em 1989.

ORGANIZAÇÃO
O glassitas caracterizavam-se por uma horizontalidade. Crendo na igualdade de seus membros diante de Cristo e na guia do Espírito Santo, rejeitaram qualquer forma de governo exerno à Igreja, quer civil, quer clerical. Um grupo de ministros — anciãos e diáconos — servia em cada congregação, a qual era autônoma em suas decisões, finanças e disciplina.

Os ministros, eleitos sem considerar sua educação ou posição social, eram iguais em autoridade entre si e a igreja não os assalariava. Também recusavam títulos religiosos ou o uso de vestes clericais.

COMPORTAMENTO E VALORES
Os glassitas viviam por um código de conduta muito rígido. Abstinham-se da carne sufocada e do sangue, rejeitavam jogos de azar e diversões públicas, condenavam a avareza. Vestiam-se de forma casta e modesta. Não aceitavam comunhão ou se casar com membros de outras denominações. Recusavam a participar de guerras.

A comunhão da igreja era muito importante. Isso refletia nas refeições comunais, nas regras comunitárias de identidade e conduta, no atendimento aos necessitados.

Davam grande importância ao atendimento dos necessitados. Os diáconos administravam a coleta semanal para os pobres.

DEMOGRAFIA
A igreja glassita sempre foi pequena. Talvez nunca houvesse mais de quarenta congregações na Escócia, Inglaterra e nordeste dos Estados Unidos. Em 1799 sua maior congregação era o Tabernáculo de Glasgow, com cerca de 300 membros. Os cultos eram frequentados por muitos, mas poucos se tornavam membros.

LEGADO
O legado glassita hoje subsiste na influência outros movimentos religiosos.

Seu primitivismo foi transmitido às Igrejas de Cristo (movimento da restauração Campbell-Stone) nos Estados Unidos; e os Scotch Baptists, os Inghamite, os Walkerites e, notavelmente, o movimento dos Haldanes no Reino Unido. Indiretamente influenciaram o primitivismo entre vários grupos metodistas, os avivados galeses, os irmãos de Plymouth e mesmo algumas correntes pentecostais.

Sua insistência em separação entre Igreja e Estado iria influenciar a própria formulação desse doutrina nos Estados Unidos. A célebre carta de Thomas Jefferson aos batistas de Danbury, na qual aparece expressa essa posição, foi destinada a um público de uma cidade que velava pela liberdade religiosa das minorias diante da Igreja estatal puritana congregacional de Connecticut.

A hinódia evangélica anglo-saxã e, consequentemente, mundial é herança teólógica dos glassitas.

O avivamento continental e nas Ilhas Britânicas conduzido pelos irmãos Haldane foi outro legado. Sua simplificação doutrinária centrada na graça possibilitou a formação de congregações locais e denominações cujos critérios de membresia fossem somente a conversão pessoal, sem requistos burocráticos de um presbitério. Indiretamente, essa missiologia influenciou o ministério de Robert R. Kalley na Ilha da Madeira e no Brasil. A fundação e as atividades da Sociedade Bíblica foram também frutos de pessoas influenciadas pelos glassitas. Robert Haldane foi atuante na política editorial e nas edições e distribuição das Escrituras, além de ser o mentor de James “Diego” Thompson, pioneiro da distribuição da Bíblia na América Latina.

BIBLIOGRAFIA

Cantor, Geoffrey. Michael Faraday: Sandemanian and scientist: a study of science and religion in the nineteenth century. Springer, 2016.

Glas, John. Christian Songs : To Which Is Prefixed, the Evidence and Import of Christ’s Resurrection, Versified, for the Help of the Memory (version The 10th ed.). London : Printed for T. Boosey, 1796.

Glas, John. The Works of Mr John Glas : In Four Volumes. Edinburgh: Printed for Alexander Donaldson. Sold at London, by J. Richardson and E. Dilly, 1761.

Pike, Samuel. A Plain and Full Account of the Christian Practices Observed by the Church in St. Martin’s-Le-Grand, London, and Other Churches (Commonly Called Sandemanian) in Fellowship with Them. : In a Letter to a Friend. : [Three Lines from the Acts]. Eighteenth Century Collections Online. Boston: Printed by Z. Fowle, in Back-Street, for A. Butler, in Corn-Hill, 1766.

Smith, John Howard. The Perfect Rule of the Christian Religion; A History of Sandemanianism In the Eighteenth Century. Albany: SUNY Press, 2009.

Townsend, Shippie. An Inquiry Whether the Scriptures Enjoin the Kiss of Charity, As the Duty of the Disciples of Christ, in Their Church-Fellowship in All Ages. Eighteenth Century Collections Online. Boston, New-England.: Printed by Kneeland and Adams, for Nicholas Bowes, opposite the Old Brick Meeting-House, in Corn-Hill, 1768.