Proposta Rogers-McKim

Rogers/McKim Proposal ou a Proposta Rogers-McKim é uma doutrina acerca da autoridade bíblica que a Bíblia detém autoridade em questões de fé e conduta, mas pode conter erros em detalhes históricos ou científicos.

Baseando-se na distinção de inspiração da Bíblia por sua função em contraste de sua forma, como proposta pelo teólogo reformado holandêns G.C. Berkouwer, em 1979, os teólogos reformados evangélicos Jack B. Rogers e Donald McKim se uniram para escrever The Authority and Interpretation of the Bible: An Historical Approach. Rogers, professor do Fuller Theological Seminary, e McKim, membro visitante do Westminster College, investigaram como os teólogos ao longo da história perceberam a autoridade das Escrituras.

No século XIX, a doutrina da inerrância surgiu como uma inovação norteamericana liagada a teólogos de Princeton como B.B. Warfiel. Nessa versão, afirmavam que a Bíblia é inteiramente isenta de erros em todas as suas afirmações de fé e ciência, mas somente nos autógrafos originais. Rogers e McKim exploraram as influências filosóficas de Platão em uma recepção idealizada das Escrituras por teólogos como Lutero, contrastando-as com aqueles mais influenciadas por Aristóteles, como Francisco Turretin, que tendiam a basear a sua doutrina na razão em vez da fé e na ontologia em vez da função.

Rogers argumentou que a forma literária das Escrituras não pode ter autoridade devido à sua infinita variabilidade. Salientaram como Agostinho influenciou na formação de como a tradição da igreja entendia as Escrituras, enfatizando os ensinamentos pretendidos pelo Espírito em detrimento da precisão histórica técnica. Em razão disso, Agostinho não via problemas em considerar os seis dias da criação como alegóricos.

Os autores demonstraram como a Escolástica Protestante e Princeton afastaram-seda Doutrina da Inspiração dos Reformadores, substituindo-a por uma visão mecânica da inspiração. Os reformadores, como Calvino, enfatizaram a fé em busca de entendimento ao abordar a Bíblia. Acreditavam na acomodação da Bíblia para revelar a verdade sem exigir precisão absoluta em cada detalhe factual. 

Calvino, assim como Agostinho, aceitou os erros técnicos como parte dos meios de comunicação humana, aumentando o poder de persuasão da mensagem. Ele não esperava que a Bíblia fornecesse informações tecnicamente precisas sobre linguagem, história ou ciência, enfatizando o seu propósito de estabelecer um relacionamento correto com Deus. 

Os calvinistas holandeses, como Kuyper e Bavinck, seguiram o método agostiniano, colocando a fé antes da compreensão. Eles se concentraram em como Deus se relaciona com a humanidade, em vez de provar a existência de Deus através da razão.

Os Princetonianos, entretanto, introduziram uma inerrância focada na forma e não na função. Rogers e McKim defenderam a infalibilidade da função da Bíblia em trazer Cristo e a salvação. Reconheceram a vulnerabilidade da Bíblia como documento histórico e literário, mas enfatizaram a sua verdade infalível, enraizada no Deus eterno.

Meio às controvérsias teológicas e políticas dos anos 1970, os inerrantistas deram resposta. John D. Woodbridge escreveu “Biblical Authority: A Critique of the Rogers/McKim Proposal”. Nesta revisão erudita, Woodbridge desafiou muitas das premissas de Rogers e McKim, como demonstrar que Agostinho também tinha uma consideração mais elevada pela expressão verbal da Palavra. No entanto, esta crítica de Woodbrige não foi suficiente para rejeitar as conclusões da Proposta Rogers/McKim. No geral, Woodbridge criticou Rogers e McKim pontualmente em suas premissas, mas sem desafiar suas conclusões. Apesar de Woodbridge ter acusado Rogers e McKim de serem excessivamente seletivos nas citações, ele próprio apresentou as fontes de maneira seletiva. A publicação da Proposta Rogers/McKim durante a batalha pelas Bíblias e a Declaração de Chicago sobre a Inerrância Bíblica refletiu controvérsias em curso.

Em resumo, a proposta de Rogers/McKim esclareceu os diversos pontos de vista acerca dos pais da igreja, os doutores da igreja medieval e os reformadores em relação às Escrituras. Demonstraram que apenas citar declarações que afirmam a veracidade das Escrituras não equivale a alinhar-se com a inerrância fundamentalista americana moderna. Adicionalmente, os autores demonstraram como a Escolástica Protestante e Princeton afastaram-seda Doutrina da Inspiração dos Reformadores, substituindo-a por uma visão mecânica da inspiração. Os reformadores, como Calvino, enfatizaram a fé em busca de entendimento ao abordar a Bíblia. Acreditavam na acomodação da Bíblia para revelar a verdade sem exigir precisão absoluta em cada detalhe factual. Polêmicas mais tarde levariam à Declaração de Chicago sobre a Inerrância Bíblica.

A proposta Rogers/McKim pode ser chamada de inerrância funcional, inerrância limitada ou como uma forma de infabilidade bíblica.


BIBLIOGRAFIA

Bloesch, Donald. Holy Scripture: Revelation, Inspiration and Interpretation. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1994.

Rogers, Jack Bartlett., and Donald K. McKim. The Authority and Interpretation of the Bible: An Historical Approach. San Francisco: Harper & Row, 1979.

Infalibilidade

O conceito de infalibilidade descreve diversas doutrinas de autoridade, sendo tal conceito atribuído às Escrituras, à Igreja e ao papado.

A infalibilidade da Igreja e a infalibilidade do Papa, na tradição católica romana, são tratados em verbetes próprios. Segue aqui uma exposição sobre a doutrina da infalibilidade bíblica.

Infalibilidade das Escrituras

A infalibilidade bíblica é a doutrina de que as Escrituras ensina de modo fiel e verdadeiro as matérias de fé e prática. Pela infalibilidade das Escrituras, há a confiança que sua mensagem cumpra totalmente seu propósito de comunicar a revelação de Deus em Cristo de modo que seu receptor não falhe em compreender a salvação.

Vários são os textos bíblicos apresentados para sustentar a infalibilidade bíblica, como João 10:35; Salmos 119:160; Eclesiastes 12:10; Romanos 1:16; 9:1; 3 João 1:12.

O bibliólogo Donald Bloesch (1994) articula a doutrina da infalibilidade bíblica centrada no modo como as palavras são empregadas pelo Espírito de Deus nas Escrituras. A veracidade e confiabilidade das Escrituras encontram sua fundação na revelação histórica e na orientação do Espírito Santo. Portanto, a infalibilidade é derivada da verdade divina. A infalibilidade do texto bíblico é plenamente realizada quando vista em relação ao seu centro divino, a autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. Apesar da descontinuidade entre a fala humana e a Palavra de Deus (ainda que a natureza humana seja falível na expressão textual); há a mensagem que em si permanece infalível, apontando os crentes para a encarnação perfeita da verdade em Jesus Cristo. Essa dualidade destaca o mistério impenetrável da Bíblia, simultaneamente divino e humano.

Em uma analogia, Bloesch explica que Escritura seria o instrumento ou meio de revelação inspirado. Seria como uma lâmpada, mas não a luz em si, capaz de eficazmente cumprir seu propósito de iluminar (infalibilidade). A infalibilidade bíblica seria incapacidade inerente das Escrituras de levar ao engano ou desvio. Seria a qualidade inabalável de guiar os crentes à verdade revelada por Deus. (Bloesch 1994).

A autoridade das Escrituras deriva-se de sua relação com a Palavra viva (Cristo Jesus). Sua autoridade não se derivaria em virtude de sua historicidade ou facticidade ou modelos de veracidade fundamentados em proposições ou correspondência. A verdade das Escrituras só é compreendida em relação a Cristo pela obra do Espírito Santo, não por qualquer hermenêutica racionalista.

A Bíblia exibe uma infalibilidade funcional em seu papel como regra suprema de fé, conduta e adoração. Essa infalibilidade não é autossuficiente, mas é transmitida pelo poder do Espírito, garantindo que os crentes tenham acesso à verdade infalível. Os Reformadores viam a Bíblia como a regra infalível para a fé e a prática, dependendo da iluminação do Espírito Santo para uma compreensão verdadeira.

A natureza dual da Bíblia revela tanto o esplendor divino quanto a fraqueza humana. Ela utiliza elementos humanamente falíveis devido a limitações culturais e históricas, mas permanece infalível ao transmitir a vontade e o propósito de Deus. A imperfeição das palavras humanas é transcendida pela verdade e poder da infalibilidade divina, afirmando que a Bíblia contém a Palavra perfeita de Deus em palavras humanas imperfeitas.

Perspectivas diversas e história da doutrina da infalibilidade

Diversas perspectivas teológicas contribuíram para o discurso sobre a doutrina da infalibilidade.

Para os reformadores, a Bíblia seria a regra infalível para a fé e prática. Seria a única fonte teológica a conter todas as coisas necessárias para a salvação, mas a sua verdade só poderia ser percebida pela iluminação do Espírito Santo. Em suma, os reformadores consideravam a infalibilidade da Palavra e do Espírito.

A Confissão de Westminster descreve a Escritura como uma “regra infalível para fé e vida” (2.5.9).

O teólogo dogmático reformado Herman Bavinck argumentava que a Bíblia contém um aspecto falível no sentido de que reflete as limitações culturais e históricas de seus escritores. Mas as Escrituras também são infalíveis, pois não engana naquilo que pretende ensinar: a vontade de Deus e propósito para o mundo. Traz a marca da fragilidade humana, também carrega a verdade e o poder da infalibilidade divina.

O teólogo dogmático holandês Berkouwer distingue entre a autoridade ontológica e funcional das Escrituras. Infalibilidade seria a autoridade funcional das Escrituras, enquanto a inspiração a autoridade ontológica.

O teólogo evangelical batista Bernard Ramm fez uma distinção entre graphe (Escritura), gramma (letra) e pneuma (Espírito). A graphe incorpora e transmite a verdade infalível porque une a letra e o Espírito. Seria o conteúdo divino das Escrituras. Infalibilidade das Escrituras não seria o texto, a letra, mas a graphe.

Rogers e McKim falam da Bíblia como infalível em sua função ou propósito. Ele infalivelmente cumpre seu propósito em trazer Cristo e a dádiva de salvação. A Bíblia como histórico e o documento literário seria vulnerável ao erro, pois sujeita-se às contigências da história. A verdade para a qual as Escrituras direciona é infalível, pois esta verdade – sendo o próprio Cristo vivo – é supra-histórica.

A doutrina da infalibilidade bíblica frequentemente é contrastada com outros modelos de autoridade das Escrituras, como a doutrina da inerrância bíblica. Contudo inerrância varia em sentidos. Uma acepção de inerrância seria a capacidade de não errar em seus propósitos de comunicar conteúdo de salvação, ou seja, um quase sinônimo de infalibilidade (Teixeira). Outro sentido de inerrância seria que a Bíblia não conteria erros de fato, nem de história, nem de ciência, do contrário invalidaria sua capacidade de comunicar a revelação divina (Gleiser). Ainda, em outra perspectiva, inerrância seria a Bíblia não errar naquilo que seus autores intencionavam comunicar, não em proposições isoladas (J.I. Packer). Numa distorção semântica chamada falácia do dicionário, alguns inerrantistas norteamericanos tentam argumentar que infalibilidade significaria ser incapaz de falhar, então impossível de se errar. Contudo, no sentido teológico, infalibilidade significa simplesmente incapaz de falhar, isto é, ser capaz de cumprir o seu propósito. Esses problemas levaram a biblistas e bibliologistas de língua inglesa revisitarem as doutrinas de infalibilidade.

Nos Estados Unidos a “batalha pela Bíblia”, principalmente nos anos 1970, levaram os defensores evangélicos da infalibilidade distinguir-se dos inerrantistas. George Eldon Ladd negou a infalibilidade do texto e preferiu falar da infalibilidade da mensagem das Escrituras. Bloesch seria um ardente defensor da infalibilidade e da rejeição da inerrância. Sendo uma questão localizada dentro de algumas vertentes protestantes norteamericana, em outros países de língua inglesa a preferência por modelos de autoridade bíblica baseada na infalibilidade predominaram, tal como entre os britânicos, como John Stott, F. F. Bruce, N. T. Wright, John Goldingay, Alister McGrath, ou australianos como Leon Morris e Mike Bird, preferindo tratar as Escrituras em modelos de veracidade e fidedignidade ao invés de inerrância.

BIBLIOGRAFIA

Bloesch, Donald G. Essentials of Evangelical Theology, Volume Two: Life, Ministry, and Hope. San Francisco: Harper & Row, 1979.

Bloesch, Donald. Holy Scripture: Revelation, Inspiration and Interpretation. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1994.

Geisler, Norman L. ed., Inerrancy. Grand Rapids: Zondervan, 1979.

Goldingay, John. Models for Scripture. Grand Rapids: Eerdmans; Carlisle: Paternoster, 1994.

Orr, James. The Problem of the OT Considered with Reference to Recent Criticism. Charles Scribner’s Sons, N.Y., 1907. https://biblicalstudies.org.uk/pdf/churchman/081-01_022.pdf

Poirier, John C. The Invention of the Inspired Text: Philological Windows on the Theopneustia of Scripture. Library of New Testament Studies 640. New York: T&T Clark, 2021.

Rogers, Jack, and Donald K. McKim. The authority and interpretation of the Bible: An historical approach. Wipf and Stock Publishers, 1999.

Teixeira, Alfredo Borges. Dogmática evangélica. São Paulo: Atena, 1958.

Yong, Amos; Anderson, Jonathan A. Renewing Christian Theology: Systematics for a Global Christianity: Systematics for a Global Christianity. Baylor University Press, 2014.