Infalibilidade

O conceito de infalibilidade descreve diversas doutrinas de autoridade, sendo atribuído às Escrituras, à Igreja e ao papado. A infalibilidade da Igreja e do Papa, na tradição católica romana, são tratadas em verbetes próprios. O presente artigo expõe a doutrina da infalibilidade bíblica.

INFALIBILIDADE DAS ESCRITURAS

A infalibilidade bíblica é a doutrina de que as Escrituras ensinam de modo fiel e verdadeiro as matérias de fé e prática. Por essa doutrina, a mensagem bíblica cumpre plenamente seu propósito de comunicar a revelação de Deus em Cristo, de tal modo que seu receptor não falhe em compreender o caminho da salvação.

Os textos bíblicos frequentemente apresentados para sustentar essa doutrina incluem João 10:35; Salmos 119:160; Isaías 55:11; João 17:17; Romanos 1:16 e Hebreus 4:12.

O teólogo sistemático Donald Bloesch (Holy Scripture, 1994) articula a infalibilidade bíblica centrada no modo como as palavras das Escrituras são empregadas pelo Espírito de Deus. A veracidade e confiabilidade das Escrituras fundam-se na revelação histórica e na orientação do Espírito Santo — a infalibilidade é, portanto, derivada da verdade divina, não de uma qualidade intrínseca e autossuficiente do texto. A infalibilidade do texto bíblico é plenamente realizada quando vista em relação ao seu centro divino: a autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. Há uma dualidade: embora a natureza humana seja falível na expressão textual, a mensagem permanece infalível, apontando os crentes para a encarnação perfeita da verdade em Cristo.

Em analogia elucidativa, Bloesch descreve as Escrituras como instrumento ou meio de revelação inspirado — uma lâmpada, mas não a luz em si, capaz de cumprir eficazmente seu propósito de iluminar. A infalibilidade seria, assim, a incapacidade inerente das Escrituras de levar ao engano ou desvio em sua função de guiar os crentes à verdade revelada por Deus.

A autoridade das Escrituras, nessa perspectiva, deriva-se de sua relação com a Palavra viva (Cristo Jesus) — não de sua historicidade ou facticidade, nem de modelos de veracidade fundados em proposições ou correspondência. A verdade das Escrituras é compreendida em relação a Cristo pela obra do Espírito Santo, não por hermenêutica racionalista.

PERSPECTIVAS DIVERSAS E HISTÓRIA DA DOUTRINA

Os Reformadores consideravam a Bíblia a regra infalível para a fé e a prática — a única fonte teológica a conter tudo o necessário para a salvação, cuja verdade somente pode ser percebida mediante a iluminação do Espírito Santo. A infalibilidade era, portanto, da Palavra e do Espírito em conjunto.

A Confissão de Westminster (1646), no Capítulo I, descreve as Escrituras como a “regra infalível de fé e prática” (the infallible rule of faith and practice) — expressão que se tornou formulação clássica do conceito no protestantismo reformado.

O teólogo holandês Herman Bavinck argumentava que a Bíblia apresenta um aspecto falível na medida em que reflete as limitações culturais e históricas de seus escritores; é, contudo, infalível naquilo que pretende ensinar: a vontade e o propósito de Deus. A Bíblia traz simultaneamente a marca da fragilidade humana e a verdade da infalibilidade divina.

G. C. Berkouwer (Holy Scripture, 1975) distingue entre a autoridade ontológica e a autoridade funcional das Escrituras: a inspiração corresponderia à autoridade ontológica, enquanto a infalibilidade corresponderia à autoridade funcional — a capacidade efetiva das Escrituras de cumprir seu propósito na vida da fé.

Bernard Ramm propôs uma distinção entre graphē (Escritura como totalidade inspirada), gramma (letra do texto) e pneuma (Espírito). A graphē incorpora e transmite a verdade infalível porque une a letra e o Espírito: é o conteúdo divino das Escrituras. A infalibilidade não reside na letra como tal, mas na graphē assim entendida.

Jack Rogers e Donald McKim (The Authority and Interpretation of the Bible, 1979) descrevem a Bíblia como infalível em sua função ou propósito: ela infalivelmente cumpre seu objetivo de conduzir a Cristo e ao dom da salvação. Como documento histórico e literário, a Bíblia permanece sujeita às contingências da história; a verdade para a qual aponta — o próprio Cristo vivo — é, essa sim, supra-histórica e infalível.

INFALIBILIDADE E INERRÂNCIA

A doutrina da infalibilidade bíblica é frequentemente contrastada com a doutrina da inerrância, embora as fronteiras entre os dois conceitos sejam fluidas e dependam das definições adotadas. Uma acepção de inerrância seria a capacidade da Bíblia de não errar em seus propósitos de comunicar conteúdo de salvação — tornando-a quase sinônima de infalibilidade. Outro sentido de inerrância sustenta que a Bíblia não contém erros de fato, história ou ciência, pois do contrário seria invalidada como veículo de revelação divina. Uma terceira perspectiva — associada a J. I. Packer — define inerrância como ausência de erro naquilo que os autores intencionavam comunicar, e não em proposições isoladas.

Numa distorção semântica chamada falácia do dicionário, alguns inerrantistas norteamericanos tentam argumentar que infalibilidade significaria ser incapaz de falhar, então impossível de se errar. 

Nos debates norte-americanos dos anos 1970 — a chamada “Batalha pela Bíblia” —, defensores evangélicos da infalibilidade passaram a distinguir-se explicitamente dos inerrantistas. George Eldon Ladd rejeitou a inerrância histórica e científica, preferindo falar da infalibilidade da mensagem das Escrituras em sua função salvífica. Donald Bloesch foi defensor consistente da infalibilidade e crítico da inerrância como categoria teológica adequada.

Vale observar que alguns inerrantistas norte-americanos tentaram argumentar que “infalibilidade” significaria, por força de sua etimologia latina (infallibilis), ser “incapaz de errar” — tornando-a equivalente à inerrância. Trata-se de uma falácia etimológica: no sentido teológico estabelecido, infalibilidade significa incapaz de falhar em seu propósito, não necessariamente incapaz de conter quaisquer imprecisões factuais.

Essa controvérsia permaneceu, em larga medida, circunscrita ao protestantismo evangélico norte-americano. Em outros contextos de língua inglesa — britânico e australiano —, a preferência por modelos de autoridade bíblica baseados em infalibilidade, veracidade e fidedignidade predominou. Teólogos como John Stott, F. F. Bruce, N. T. Wright, John Goldingay, Alister McGrath, Leon Morris e Michael Bird preferiram descrever as Escrituras em termos de veracidade e confiabilidade, evitando o vocabulário inerrantista de formulação norte-americana.

BIBLIOGRAFIA

Bavinck, Herman. Reformed Dogmatics. Vol. 1: Prolegomena. Grand Rapids: Baker Academic, 2003. [Original holandês: 1895.

Berkouwer, G. C. Holy Scripture. Grand Rapids: Eerdmans, 1975.

Barth, Karl. Church Dogmatics. I/1–I/2. Edinburgh: T&T Clark, 1936–1938.

Bloesch, Donald G. Essentials of Evangelical Theology, Volume Two: Life, Ministry, and Hope. San Francisco: Harper & Row, 1979.

Bloesch, Donald. Holy Scripture: Revelation, Inspiration and Interpretation. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1994.

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Poirier, John C. The Invention of the Inspired Text: Philological Windows on the Theopneustia of Scripture. Library of New Testament Studies 640. New York: T&T Clark, 2021.

Ramm, Bernard. Special Revelation and the Word of God. Grand Rapids: Eerdmans, 1961.

Rogers, Jack, and Donald K. McKim. The authority and interpretation of the Bible: An historical approach. Wipf and Stock Publishers, 1999.

Teixeira, Alfredo Borges. Dogmática evangélica. São Paulo: Atena, 1958.

Yong, Amos; Anderson, Jonathan A. Renewing Christian Theology: Systematics for a Global Christianity: Systematics for a Global Christianity. Baylor University Press, 2014.

Macabeus

Macabeu, “martelo”, era o apelido dado à família dos Hasmoneus. A designação serve ao conjunto de livros com esse título e à família de líderes desse período (167-64 a.C.).

Durante o período helenista (332-64 a.C.), a Judeia esteve alternada vezes sob o controle dos selêucidas da Síria e ptolomeus do Egito — estados sucessores de Alexandre, o Grande. No final do século II, o rei selêucida Antíoco IV Epifânio, impôs uma política de culto oficial contrária ao monoteísmo israelita, como parte de uma política de homogeneização sociocultural chamada de “helenismo”.

A família dos Macabeus liderou a resistência militar, política e religiosa na Judeia. Na década de 180 d.C. a região estava controlada pelos selêucidas e o rei Antíoco IV. No entanto, para consolidar sua autoridade impôs uma política de aliança religiosa que implicava na adesão aos cultos tidos como idólatras. A revolta teve início quando de oficiais vieram cumprir os decretos de Antíoco na aldeia de Modein. Lá, um sacerdote idoso chamado Matatias vivia com seus cinco filhos: João “Gadi”, Simão “Thassi”, Judas “Macabeu”, Eleazar “Avaran” e Jônatas “Afo”. Matatias reagiu espotaneamente. Matatias, recusou a fazer o sacrifício requerido, matou o oficial selêucida e fugiu para as montanhas com seus cinco filhos. Acompanhados dos ‘piedosos’ (hassidim), iniciaram uma guerra de guerrilha que resultou na independência de um estado judeu liderado pela família dos macabeus. Seu ato deu início de uma revolta que se tornaria uma guerra. Eventualmente, a independência foi conquistada. A Judeia foi governada pela dinastia Hasmoneana, descendentes de Simão, o único filho de Matatias a sobreviver à guerra.

Mais tarde, com a chegada do poder romano na região e dada as disputas internas na própria família dos macabeus e o oportunismo político dos herodianos, a dinastia sucumbiu.

LIVROS DOS MACABEUS

Os livros que levam seus nomes e os registros de Flávio Josefo constituem as principais fontes sobre eles. Os livros dos Macabeus são importantes para a reconstrução histórica e da mentalidade desse período. Não integram o cânone judeu ou protestante, mas alguns deles são aceitos como deuterocanônicos em diversas denominações católica e ortodoxas orientais. Registram o início da Festa das Luzes (1 Macabeus 4:36–4:59; 2 Macabeus 1:18–1:36) ou da Dedicação (João 10:22-25), quando o Templo foi reconsagrado depois de ter sido profanado e feito “abominação da desolação”.

1 Macabeus: relata a revolta dos macabeus desde a ascensão de Antíoco IV Epifânio ao trono selêucida (Síria) em 175 aC até a morte de Simão, um dos líderes da resistência judaica e, em seguida, sumo sacerdote e etnarca, em 132 a.C.

2 Macabeus: outra versão da revolta dos Macabeus, escrita de uma perspectiva da profanação ao Templo e seu culto, culpando os judeus que abraçaram o helenismo como responsáveis.

3 Macabeus: apesar do nome, narra a perseguição aos judeus na época anterior aos macabeus quando o faraó  Ptolomeu IV Filopator (221–203 a.C.) decidiu perseguir os judeus em todo o território sob controle do Egito.

4 Macabeus: registra uma oração memorial dos mártires mencionados em 2 Macabeus 6-7. Defende as motivações religiosas e as quatro virtudes cardeais – prudência, temperança, coragem e justiça – sobre as emoções. A família de Eleazar e os sete irmãos com sua mãe são primeiros exemplos.

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