Anglicanismo

O anglicanismo é um ramo da cristandade que reivindica a continuidade das tradições históricas do cristianismo surgido na Inglaterra e, de lá, para o mundo. Com a separação da Igreja da Inglaterra de outras autoridades (como o papado) durante a Reforma, essa denominação ganhou características próprias, sendo chamada de via média entre o catolicismo e o protestantismo.

As bases doutrinárias são os credos Apostólico e Niceno, os 39 Artigos de Religião, a leitura da Bíblia em vernáculo, a celebração do batismo e da Eucaristia, bem como o tríplice ofício eclesiástico de diácono, presbítero e bispo. O Livro de Oração Comum ou equivalente unifica a espiritualidade e liturgia anglicanas. Mantém uma visão positiva do direito canônico. A Conferência de Lambeth, um encontro decenial das igrejas anglicanas globais, é um marco unificador. Permite uma amplitude de diversidade teológica e litúrgica ao redor do mundo, resultando em diversas vertentes anglicanas — tradicionalistas da Igreja Alta, evangelicals da Igreja Baixa, latitudinários da Igreja Ampla, além de carismáticos, reformados, anglo-católicos e outros.

O monarca inglês mantém o ofício de Defensor da Fé, como líder secular da Igreja da Inglaterra. O Arcebispo da Cantuária mantém uma posição de primeiro entre seus pares, líderes de outras igrejas nacionais da Comunhão Anglicana. Em alguns países são chamados de epicospais ou episcopalianos. No Brasil, estão presentes com a Igreja Episcopal Anglicana. Em Portugal estão organizados na Igreja Católica Evangélica Lusitana.

Há vertentes anglicanas independentes que observam alguns elementos denominacionais anglicanos.

BIBLIOGRAFIA

Afonso, José António, et al. “A Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica (ILCAE)–das encruzilhadas sociojurídicas à afirmação de uma identidade religiosa, por José António Afonso.” Laicidade, Religiões e Educação na Europa do Sul no Século XX (2013): 71.

Calvani, Carlos Eduardo B. “Anglicanismo no Brasil”. Revista USP, São Paulo, n.67, p. 36-47, setembro/novembro 2005.

Chapman, Mark. Anglicanism: A very short introduction. Vol. 149. Oxford University Press, 2006.

Ross, Cathy (org.). Missão que amplia a vida: perspectivas globais da comunhão anglicana. Editora IEAB.

Reforma na Itália

A Reforma protestante começou a circular nos estados italianos a partir da década de 1520 com a entrada de ideias luteranas e de outros movimentos reformistas vindos do norte da Europa. A história da Reforma na Itália constitui processo complexo de fermentação intelectual, tentativas de renovação interna do catolicismo, difusão de movimentos teológicos radicais e repressão sistemática conduzida pela Inquisição. O resultado desse processo foi a dispersão de numerosos intelectuais, teólogos, comerciantes e humanistas italianos por várias regiões da Europa.

O ambiente italiano apresentava condições históricas favoráveis à recepção de ideias reformadoras. Os antigos conflitos entre guelfos e guibelinos haviam enfraquecido a unidade política e religiosa da península. Além disso, movimentos dissidentes medievais, críticas humanistas e iniciativas de reforma moral prepararam terreno para o questionamento da autoridade eclesiástica tradicional.

Entre os antecedentes medievais mais importantes estavam os valdenses. Esse movimento sobrevivera durante séculos nos vales alpinos do noroeste da Itália. Em 1532, durante o Sínodo de Chanforan, os valdenses identificaram-se oficialmente com o protestantismo calvinista. Tornaram-se importante elo geográfico entre a Itália e os centros reformados do norte europeu. Os vales valdenses também serviram de refúgio para perseguidos pela Inquisição.

Outro fator decisivo foi o humanismo renascentista. A nova filologia desenvolvida por autores como Lorenzo Valla (1407–1457) e Erasmus (1466–1536) forneceu instrumentos para reexaminar criticamente a Vulgata e as tradições eclesiásticas. Centros intelectuais como Veneza, Lucca e a Universidade de Pádua participaram ativamente da circulação de ideias reformistas. O humanismo italiano favoreceu o retorno às línguas originais da Bíblia, à crítica textual e à leitura histórica das Escrituras.

Movimentos de reforma moral anteriores à Reforma protestante também influenciaram o ambiente religioso italiano. As pregações de Girolamo Savonarola (1452–1498) em Florença atacavam corrupção e decadência moral dentro da Igreja. Embora anterior ao protestantismo, Savonarola antecipou temas que reapareceriam entre os reformadores italianos.

A Reforma italiana desenvolveu estreita relação com o humanismo cristão. Surgiram correntes spirituali, filo-luteranas, anabatistas, não trinitárias e grupos favoráveis às reformas suíça e francesa posteriormente identificadas com o calvinismo. Antes da consolidação de denominações protestantes claramente definidas, muitos italianos buscavam renovação espiritual dentro da própria Igreja Católica. Esse movimento recebeu o nome de evangelismo.

O evangelismo procurava enfatizar piedade interior, fé pessoal, leitura das Escrituras e justificação pela fé. As fronteiras entre ortodoxia, reforma espiritual e heresia permaneciam frequentemente indefinidas. Um dos centros mais importantes desse movimento foi o círculo de Juan de Valdés (1490–1541), refugiado espanhol estabelecido em Nápoles. Valdés tornou-se líder espiritual de um influente grupo de spirituali. Seus ensinamentos enfatizavam fé interior, justificação pela fé e devoção pessoal acima de controvérsias dogmáticas.

O livro O benefício de Cristo crucificado (Beneficio di Cristo) foi publicado anonimamente em Veneza em 1543. O livro sintetizava ideias valdesianas e alcançou enorme popularidade. Aproximadamente quarenta mil exemplares circularam antes da repressão inquisitorial. A obra tornou-se verdadeiro manifesto da Reforma italiana.

A Reforma encontrou apoio parcial entre membros da elite eclesiástica e aristocrática. Cardeais como Gasparo Contarini (1483–1542) e Reginald Pole (1500–1558) demonstraram simpatia por propostas de renovação espiritual e forneceram proteção relativa a círculos reformistas.

A circulação de ideias protestantes ampliou-se por meio do comércio, das universidades e da impressão de livros. Obras de Martin Luther (1483–1546) e Philipp Melanchthon (1497–1560) entravam clandestinamente na Itália sob pseudônimos ou capas falsas. Cidades comercialmente ligadas ao norte europeu, especialmente Veneza e Lucca, tornaram-se centros importantes de difusão do luteranismo.

O calvinismo mostrou-se particularmente atraente para intelectuais italianos. Renée da France (1510–1574), a Duquesa de Ferrara, recebeu Calvino (1509–1564) e patrocinou círculos humanistas simpáticos às ideias reformadas suíças e francesas. Posteriormente, muitos exilados italianos participariam ativamente do desenvolvimento do protestantismo reformado europeu.

A Reforma radical encontrou na Itália terreno especialmente fértil. Surgiram movimentos anabatistas e antitrinitários que ultrapassavam os limites do luteranismo e do calvinismo tradicionais. O anabatismo italiano, desenvolvido nas décadas de 1520 e 1530, frequentemente apresentava caráter mais racionalista que suas formas do norte europeu. Antonio Marangone aparece nos registros de 1533 como um dos primeiros líderes anabatistas em Veneza.

Em 1550 ocorreu o Sínodo secreto de Veneza. Aproximadamente sessenta delegados reuniram-se clandestinamente para discutir questões teológicas. O encontro adotou posições radicais que negavam a divindade de Cristo e o descreviam como profeta humano. A Itália tornou-se um dos principais centros de formulação do antitrinitarianismo moderno.

O socinianismo derivou dos teólogos sieneses Lelio Sozzini (1525–1562) e Fausto Sozzini (1539–1604). O movimento rejeitava o pecado original, questionava a doutrina tradicional da expiação e enfatizava Cristo como exemplo moral para a humanidade. As ideias socinianas exerceram grande influência posterior sobre correntes racionalistas e unitarianas europeias.

Teologicamente, a Reforma italiana contribuiu para diferentes tradições protestantes. Parte de seus autores influenciou o anglicanismo por meio de propostas reformistas de via media. Outros participaram do desenvolvimento do calvinismo e de métodos exegéticos marcados pelo humanismo renascentista. A Bíblia Diodati tornou-se um dos grandes legados literários da diáspora protestante italiana.

A reação católica endureceu progressivamente. Em 1542, o papa Paulo III criou a Inquisição Romana para combater aquilo que era chamado de “pravidade luterana”. A instituição foi organizada sob liderança do cardeal Gian Pietro Carafa, futuro papa Paulo IV. O ano de 1542 tornou-se ponto de inflexão decisivo na história da Reforma italiana.

Nesse mesmo período ocorreram as fugas de Bernardino Ochino (1487–1564), general dos capuchinhos, e de Peter Martyr Vermigli (1499–1562). Esses episódios simbolizaram o fim da relativa tolerância anteriormente desfrutada pelo evangelismo.

A cronologia proposta por Silvana Seidel Menchi divide a Reforma italiana em quatro fases. Entre 1518 e 1542 ocorreu o “chamado teológico às armas”, período marcado pela circulação de ideias reformadoras entre elites discretas que esperavam reformar o catolicismo internamente. Nessa fase convergiam tendências filo-protestantes e espiritualistas, incluindo o círculo de Juan de Valdés em Nápoles.

Entre 1542 e 1555 ocorreu a fase de “difusão espontânea”, quando a dissidência ultrapassou os círculos aristocráticos e alcançou comerciantes e artesãos dos centros urbanos do norte italiano. Entre 1555 e 1571 desenvolveu-se a fase de “repressão”, durante os pontificados de Paulo IV e Pio V. Muitos reformadores italianos emigraram. Diversas famílias de Lucca refugiaram-se principalmente na Suíça. Entre 1571 e 1588 ocorreu a fase de “extinção”. Após a diminuição dos julgamentos por heresia, a Inquisição passou a concentrar-se em acusações de magia e feitiçaria.

Muitos reformadores permaneceram externamente ligados ao catolicismo enquanto mantinham convicções protestantes em segredo. Essa prática recebeu o nome de nicodemismo. O fenômeno tornou-se importante especialmente entre intelectuais que desejavam evitar perseguição inquisitorial.

A repressão produziu vasta diáspora intelectual italiana. Centenas de teólogos, comerciantes, humanistas e membros do clero deixaram a península. As regiões alpinas dos Grisões, na Récia trilíngue, tornaram-se um dos primeiros refúgios dos exilados. Ali, autores como Camillo Renato e Pier Paolo Vergerio (1498–1565) continuaram a difundir ideias reformistas e radicais.

Outros refugiados estabeleceram-se em Genebra, na Polônia e na Transilvânia. Famílias como os Diodati e os Turrettini tornaram-se influentes no protestantismo reformado genebrino. Na Polônia e na Transilvânia, exilados italianos participaram da fundação da Igreja Reformada Menor e da difusão do antitrinitarianismo.

Diversos intelectuais e reformadores relacionam-se à história da Reforma italiana. Entre eles destacam-se Aonio Paleario (1503–1570), Benedetto Fontanini (1490–1556), Celio Secondo Curione (1503–1569), Francesco Turrettini (1623–1687), Giovanni Diodati (1576–1649), Giovanni Valentino Gentile (1520–1566), Girolamo Zanchi (1516–1590), Giulia Gonzaga (1513–1566), Marcantonio Flaminio (1498–1550), Paolo Sarpi (1552–1623) e Vittoria Colonna (1490–1547).

BIBLIOGRAFIA

Seidel Menchi, Silvana. “Italy.” In The Reformation in National Context. Edited by Robert Scribner, Roy Porter, and Mikuláš Teich, 181–201. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1994. DOI: 10.1017/CBO9780511599569

Overell, M. Anne. Italian Reform and English Reformations, c. 1535–c. 1585. Routledge, 2016.

Overell, M. Anne. Nicodemites: faith and concealment between Italy and Tudor England. Brill, 2018.

Sarah Monod

Alexandrine Elisabeth Sarah Monod (1836 – 1912) foi uma diaconisa, filantropa e feminista evangélica francesa.

Nasceu em Lyon, filha de Hannah Honyman e Adolphe Monod, uma família pastoral huguenote aderente ao réveil. A quarta de sete filhos, Sarah era a mais ativa no ministério desde sua infância.

Depois das mortes dos pais, Sarah juntou-se às Diaconisas de Reuilly em Paris. Com as diaconisas, serviu cuidando dos feridos na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871).

Monod passou a dirigir as Diaconisas de Reuilly. Expandiu a atuação ministerial com programas de reeducação prisional e da campanha pelo abolicionismo — o movimento a favor de liberar a prostituição.

Na época, as regulamentações governamentais penalizavam as mulheres e facilitava abusos, tráfico internacional e facilitava a escravidão das prostitutas. O movimento buscava o direito das mulheres de terem acesso a um respeito moral e a uma família estável. Para garantir esse direito, o movimento abolicionista buscava desenvolver a autonomia das mulheres, assegurando direitos de adquirir habilidades e trabalho. Defendiam também a isonomia jurídica e moral no casamento, o que dificultaria os casos extraconjugais dos homens, então protegidos legalmente pelo monopólio masculino sobre os bens e direitos das esposas.

Considerando que as mulheres não tinham acesso à decisão política, Monod articulou a causa feminina através da rede de evangélicos avivados na Europa Continental e no Império Britânico. Boa parte dessa pauta alcançou sucesso na virada do século XX.

Junto de outras líderes feministas (muitas delas evangélicas, como Julie Siegfried, Isabelle Bogelot e Emilie de Morsier), Monod organizou um congresso internacional de mulheres em Paris, com participantes das Américas e da África.

O Conseil national des femmes françaises foi fundado em 1901, com Monod eleita presidente. Esta organização feminista conseguia reunir e articular mulheres de diversas posições políticas e religiosas, desde socialistas como Louise Saumoneau e Elisabeth Renaud até ativistas do conservadorismo católico como Marie Maugeret. Marcou a transição de uma agenda assistencialista para uma proatividade participatória na esfera pública para abordar os problemas sociais.

Sob sua liderança, o movimento avançou juridicamente nas novas as pautas. Estavam em prioridade dar às mulheres casadas o controle sobre seus salários, regulamentação do trabalho feminino, responsabilização da autoridade parental e políticas de reeducação para menores infratores.

Para garantir educação, oportunidades e ambiente moral, fundou pouco antes de sua morte,com Camille Vernes, o ramo francês da Associação Cristã das Moças, a Union chrétienne des jeunes filles.

Como autora, escreveu biografias (de seu pai e da diaconisa Malvesin), um devocional (oração e culto), além de traduções de literatura feminista cristã.

Devido à sua austeridade e influência, a jornalista Jane Misme dizia que Sarah se vestia como uma Quaker e que era a “papisa do protestantismo”.

Foi homenageada com um logradouro em seu nome em Paris, próximo ao Hospital das Diaconisas de Reuilly.

BIBLIOGRAFIA

Cadier-Rey, Gabrielle. “Autour d’un centenaire Sarah Monod.” Bulletin de la Société de l’Histoire du Protestantisme Français (1903-2015) (2012): 771-792.

Poujol, Geneviève. Un féminisme sous tutelle: les protestantes françaises, 1810-1960. Paris: les Éditions de Paris, 2003.

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