Inteira Santificação

A Inteira Santificação, também conhecida como perfeição cristã ou santidade bíblica, é uma doutrina teológica central para o Metodismo e algumas denominações pentecostais. Desenvolvida por John Wesley, enfatiza a possibilidade de o crente, após a justificação, alcançar um estado de amor perfeito a Deus e ao próximo, sendo libertado da escravidão do pecado.

Diferente da justificação, que retifica a relação do crente como justo perante Deus, a Inteira Santificação é uma obra subsequente da conversão, realizada pelo Espírito Santo. Não implica ausência de falhas ou erros, mas sim a purificação das intenções e motivações, capacitando o crente a viver em santidade. Não significa que a pessoa não possa pecar, mas que não terá prazer no pecado.

A doutrina não é consensual entre os cristãos. Críticos questionam sua base bíblica e a possibilidade de sua realização plena nesta vida. Defensores, por outro lado, apontam para passagens bíblicas que falam sobre perfeição e santidade, argumentando que a Inteira Santificação é um processo contínuo de crescimento espiritual, alcançável pela graça divina.

BIBLIOGRAFIA
Fletcher, John. Checks to Antinomianism.

Palmer, Phoebe. The Promise of the Spirit.

Wesley, John. “A Plain Account of Christian Perfection.”

John Wesley

John Wesley (1703-1791) foi um clérigo anglicano e um dos fundadores do movimento metodista. Sua teologia enfatizou a importância da santidade pessoal, justificação pela fé e a busca de uma vida cristã devota e disciplinada.

A doutrina de Wesley sobre a perfeição cristã não demandava a impecabilidade absoluta. Porém, corações completamente cheios de amor por Cristo levaria ao desdém pelo pecado intencional. A santidade e felicidade andavam juntas como benefícios gêmeos da obra de perdão e purificação de Cristo.

Wesley tinha uma forte ênfase na justiça social e acreditava que os cristãos tinham a responsabilidade de cuidar dos pobres e marginalizados. Ele escreveu vários livros, incluindo “Sermons on Multiple Occasions” (1746) e “A Plain Account of Christian Perfection” (1766).

Graça preveniente

A graça preveniente, em latim gratia praeveniens ou gratia praeparans, é um conceito teológico que descreve a ação da graça divina na vida dos indivíduos antes e sem qualquer mérito próprio, capacitando-os a responder ao chamado de Deus e à oferta de salvação. Ela opera removendo os obstáculos espirituais causados pelo pecado e despertando a vontade humana para crer. É considerada uma doutrina central nas teologias Arminiana e Wesleyana, embora suas raízes remontem a Agostinho de Hipona e a outros pais da Igreja.

Panorama Histórico

  • Agostinho de Hipona: Agostinho aponta a necessidade da graça divina para iniciar a fé, argumentando que a vontade humana, corrompida pelo pecado, é incapaz de buscar a Deus por si mesma. (De spiritu et littera 60, De natura et gratia liber unus 31.35).
  • Tomás de Aquino: Seguindo Agostinho, Aquino também afirmou a necessidade da graça para a salvação, distinguindo entre graça operante, que age diretamente em nós, e graça cooperante, que nos auxilia a responder a Deus.
  • Reforma Protestante: A doutrina da graça preveniente foi debatida durante a Reforma. Enquanto Calvino e outros reformadores enfatizaram a depravação total e a graça irresistível, Arminius e seus seguidores defenderam a graça preveniente como uma forma de reconciliar a soberania divina com o livre-arbítrio humano.
  • John Wesley: Wesley desenvolveu a doutrina da graça preveniente de forma mais sistemática, argumentando que ela é universal e capacita todos os seres humanos a responder ao chamado de Deus. Ele a via como um remédio para a depravação total, restaurando a liberdade humana para escolher ou rejeitar a salvação.

Tabela Comparativa:

Tradição TeológicaPerspectiva sobre a Graça Preveniente
Católica RomanaA graça preveniente é essencial para a salvação, preparando a vontade humana para cooperar com a graça divina. É concedida a todos, mas pode ser resistida.
Ortodoxa OrientalHá uma sinergia entre graça divina e livre-arbítrio humano. A graça divina é necessária para iniciar e sustentar a fé. A pessoa regenerada só pode realizar as boas obras de fé se dependente da graça que guia e precede suas ações.
LuteranaA graça preveniente é vista como o Espírito Santo operando através da Palavra e dos sacramentos, despertando a fé no coração humano.
AnabatistaA graça preveniente é universal e capacita todos a responder ao chamado de Deus. Enfatiza-se a liberdade humana e a responsabilidade de responder à graça.
ArminianaA graça preveniente é universal, restaurando o livre-arbítrio e capacitando todos a crer. É resistida, mas necessária para a salvação.
WesleyanaSemelhante à Arminiana, mas com ênfase na graça preveniente como um remédio para a depravação total, restaurando a capacidade humana de amar e obedecer a Deus.
FinneyA graça preveniente capacita a vontade humana a escolher a Deus livremente. Finney rejeitou a ideia de depravação total, argumentando que os seres humanos possuem uma capacidade natural de crer.
KeswickA graça preveniente capacita os crentes a regenerarem e a viverem uma vida vitoriosa sobre o pecado em uma progressiva santificação.
Reformada (em geral)A graça preveniente é vista com ceticismo, sendo comparada à graça comum, que não remove a depravação total, e ao chamado eficaz, que é irresistível.
BarthBarth rejeitou a graça preveniente como um conceito que diminui a soberania divina e a centralidade da graça na salvação.
BerkouwerBerkouwer criticou a graça preveniente por sugerir uma capacidade humana de contribuir para a salvação, mas reconheceu a ação divina na preparação do coração humano para a fé.
KuyperKuyper via a graça preveniente como uma forma de graça comum que opera em todas as áreas da vida, mas não garante a salvação.
BavinckBavinck rejeitou a graça preveniente como um conceito que compromete a soberania divina e a distinção entre graça comum e graça salvadora.

Recepção com a Teologia Reformada:

A teologia reformada tradicionalmente rejeita a doutrina da graça preveniente por considerá-la incompatível com a depravação total e a graça irresistível. No entanto, alguns teólogos reformados, como Karl Barth e G.C. Berkouwer, buscaram reinterpretar a graça preveniente de forma a torná-la compatível com a soberania divina.

Arminianismo

O arminianismo intrega os sistemas teológicos da família reformada que enfocam a justiça de Deus e enfatizam a responsabilidade humana na salvação. Também referido como sinergismo (cooperação).

O arminianismo defende que a predestinação está condicionada à resposta livre do ser humano à graça de Deus. Essa doutrina se alinha a pensadores como Erasmo, Melanchton e os anabatistas.

Dentre seus formuladores estão os teólogos holandeses Jacobus Arminius (1560 – 1609) e Hugo Grotius (1583– 1645), bem como a Igreja Remonstrante. Nos países de língua inglesa, esse sistema foi reconceptualizado por John Wesley.

HISTÓRIA

Armínio argumentou contra a doutrina da predestinação incondicional, pois sentia que ela tornava Deus o autor do pecado. Em sua “Declaração de Sentimentos” de 1608, ele apresentou seus ensinamentos, defendendo que o primeiro decreto de Deus foi enviar Cristo para redimir os pecadores, o segundo foi receber na graça os que se arrependem, o terceiro foi a provisão da graça preveniente para que todos possam se arrepender e crer, e o quarto foi a salvação ou condenação com base no conhecimento prévio da resposta livre de cada pessoa.

Após a morte de Armínio, em 1610, seus seguidores, conhecidos como remonstrantes, publicaram um documento chamado Remonstrance, que delineava cinco pontos doutrinários: predestinação condicional, expiação universal de Cristo, a necessidade da graça, a capacidade de resistir à graça, e a possibilidade da queda da graça. Esse documento gerou uma resposta do partido gomarista, que apropriou-se da identificação “calvinista”, a Contra-Remonstrance, e a disputa se intensificou. Em 1618, foi convocado o Sínodo de Dort, que condenou o arminianismo como heresia. Embora a assembleia fosse majoritariamente calvinista gomarista, a decisão impôs severas perseguições aos remonstrantes na Holanda, embora o movimento tenha sobrevivido e mais tarde florescido.

Fora da Holanda, o arminianismo encontrou solo fértil, especialmente na Inglaterra. O teólogo John Wesley, fundador do metodismo, adotou e popularizou a teologia arminiana, que se tornou a base do movimento metodista. Wesley, como Armínio, enfatizava a depravação total da humanidade e a necessidade da graça preveniente de Deus para a salvação, mas sustentava que a vontade humana, embora caída, era libertada pela graça para poder responder à oferta de salvação. A ênfase na possibilidade de salvação para todos incentivou o grande avivamento e o fervor missionário.

DOUTRINA

De acordo com as distintivas teológicas do arminianismo, derivadas dos Cinco Artigos da Remonstrância de 1610, a salvação ou condenação final de uma pessoa está condicionada pela fé ou incredulidade dada por Deus a essa pessoa.

No ponto de vista arminiano, a doutrina ensina que Adão foi criado inocente, mas não santo. O pecado original resultou dos atos da vontade, dos quais herdamos a contaminação de Adão, mas não sua culpabilidade, nem uma natureza pecadora inerente. Portanto, o ser humano não é totalmente depravado, manifestando fome e sede de justiça e dependência da graça de Deus. Nesse contexto, o ser humano possui a capacidade de desejar fazer o bem, mas depende da obra de graça de Deus em Cristo para realizá-lo.

A expiação divinamente providenciada é suficiente para todas as pessoas, mas é aplicada apenas àqueles que confiam em Cristo, sendo, portanto, limitada aos crentes, não por Deus, mas pela pessoa que confia ou falha em confiar. Ninguém pode salvar a si mesmo, e sem a ajuda do Espírito Santo, ninguém pode responder à vontade de Deus de que todos sejam salvos. A graça de Deus, aplicada pelo Espírito Santo, é a única fonte do bem e da salvação humana, embora essa graça possa ser resistida. A graça de Deus na vida do crente capacita a resistir ao pecado, e Cristo os manterá firmes. Quanto à possibilidade de abandonar Deus, os pensadores arminianos concordam que, assim como Deus não força as pessoas a se relacionarem com Ele, Ele também não força aqueles que mudam de ideia a permanecerem nessa relação.

Os arminianos não acreditam que a fé da pessoa, por si só, a salva. Pelo contrário, a fé habilitada pelo Espírito aceita a salvação de Deus, não sendo uma salvação baseada em obras, nem para a entrada (eleição) nem para a manutenção (perseverança) da vida cristã.