Amiraldismo

O amiraldismo é uma variante teológica do sistema reformado com o enfoque de que Jesus Cristo sofreu a morte pela culpa de toda a humanidade. O amiraldismo é também conhecido como Escola de Saumur, universalismo hipotético, pós-redencionismo, semi-agostinianismo, e — equivocadamente — de calvinismo moderado ou calvinismo dos quatro pontos.

HISTÓRIA

Opondo-se à doutrina monergista da predestinação  do Sínodo de Dort (1618–1619), o teólogo escocês John Cameron (c. 1579 – 1625) formou dentro da Academia huguenote de Saumur, na França, um sistema teológico baseado em uma vocação universal. Por essa doutrina, a graça era entendida como disponível a toda a humanidade

Apesar da posição do Sínodo de Dort ter-se apropriado da designação “calvinista”, teólogos históricos do calvinismo já defendiam a doutrina da expiação universal, como por exemplo Heinrich Bullinger, Wolfgang Musculus, Zacharias Ursinus e Girolamo Zanchi.

O advogado tornado teólogo, Moïse Amyraut (1596 – 1664) foi influenciado diretamente por John Cameron. Amyraut estava de passagem por Saumur quando sua eloquência impressionou os membros da Academia e o convenceram a ficar e estudar teologia.

Com base nos escritos de Calvino sem a mediação de Beza, Amyraut articulou em seu “Brief Traitté de la prédestination et de ses principales dépendances” (1634) a doutrina dessa escola. Para Amyraut, Deus disponibiliza os benefícios da obra redentora de Cristo a todos indistintamente. Assim, Deus deseja que todos os homens se salvem, tão somente que creiam — razão que essa doutrina é chamada de universalismo hipotético.

Seu sucessor foi o não menos controverso Claude Pajon (1626—1685), cuja tentativa de remediar a ausência virtual do Espírito Santo na soteriologia reformada gerou outras controvérsias.

A tese de Amyraut implicava em uma tolerância religiosa rara em seu tempo. Como a graça somente atua em quem exercita a fé e a fé é dom de Deus, homem algum poderia impor suas visões religiosas a outrem. Influenciado pela doutrina de tolerância de Amyraut, seu aluno William Penn fundou a colônia da Pensilvânia, um dos bastiões da tolerância política e religiosa na América do Norte.

Popularizada entre reformados latinos, logo o amiraldismo encontrou oposição entre os reformados suíços e renanos, principalmente pelo trabalho de  Francesco Turrettini (1623-1687). Apesar de nunca oficialmente condenado, o amiraldismo entrou em declínio após as oposições feitas pelo Consenso Helvético de 1675. Raramente sem examinar em seus próprios termos e escritos, seus detratores passaram a ver o amiraldismo como um meio-termo entre o calvinismo dordtiano e o arminianismo.

No avivamento suíço do Réveil e seu lado italiano (risveglio), houve uma reinterpretação das confissões reformadas com teores amiraldistas, embora não o referenciassem explicitamente. Na prática, a expiação passou a ser vista como universal. Um dos proponentes dessa doutrina, Paolo Geymonat, influenciou os crentes que imigraram para Chicago.

Marginalizado, o amiraldismo encontrou expoentes entre congregacionalistas anglo-saxões, como Richard Baxter a quem a morte de Cristo foi um ato de redenção universal, penal e vicária, mas não substitutiva, pela qual introduziu-se uma nova lei e uma anistia para todos aqueles que se arrepender. O arrependimento e a fé, sendo obediência a essa lei, age como justificação pessoal do crente.

Como consequência, a doutrina de Baxter se tornou o moderatismo neonomista entre os escoceses e de vários pensadores puritanos. Mais tarde, via Baxter, elementos do amiraldismo influenciariam os movimentos reformados avivados e evangelísticos, dentre eles Andrew Fuller, New School Presbyterians e, notoriamente, os irmãos Haldane e o réveil entre os reformados continentais do século XIX, estimulando o evangelismo e a diaconia. O conceito de graça comum do Kuyperianismo é oriundo do amiraldismo. Em métodos evangelísticos e em seus sermões Charles Spurgeon foi substancialmente amiraldista, embora mantivesse sua adesão intelectual ao calvinismo (modificado) de Dordt. Entretanto, as modificações doutrinárias e a falta de crédito a seus escritos levaram a muitos a esposarem alguma forma de sua doutrina, mas sem se referir ao seu principal formulador.

Hoje,  nos Estados Unidos o amiraldismo não é muito conhecido, mas é popular entre o movimento das igrejas bíblicas, o movimento das igrejas de Cristo, Evangelical Free Church of America, entre batistas independentes e sulistas. Norman Geisler e Oliver Crisp são alguns dos poucos teólogos recentes de alcance público que adotam algum aspecto desse sistema doutrinário.

Contudo, em geral raramente são creditados às contribuições de Amyraut ou da Escola de Saumur por autores dessas vertentes teológicas.

A diversificação dos intérpretes reformados que concordavam com uma expiação ampla faz do amiraldismo um sistema teológico bem heterogêneo, ao qual o modelo dos cinco pontos calvinistas ou remonstrantes (conhecido pelo acrônimo TULIP) não faz jus para representá-lo.

DOUTRINA

O amiraldismo faz parte da tradição agostiniana e da soteriologia forense da escolástica tardia. Situa-se na tradição reformada em uma aproximação com o igualmente sistema agostiniano luterano.

O amiraldismo entende que há uma eterna preordenação e presciência de Deus, por meio da qual todas as coisas acontecem: o bem com eficiência, o mal com permissividade. A dupla predestinação difere do calvinismo dordtiano pela doutrina da dupla eleição. Assim, Deus preordenou uma salvação universal através do sacrifício universal de Cristo oferecido a todos igualmente, com a condição da fé que reconhecesse essa obra de graça universal. Da parte da vontade e do desejo de Deus, a graça é universal, mas no que diz respeito à condição é particular, ou apenas para aqueles que não a rejeitam, o que a tornaria ineficaz.

A pré-ordenação do resgate universal precede a eleição particular. Com base na benevolência de Deus para com suas criaturas; há uma graça objetiva oferecida a todos e a graça subjetiva que floresce entre os eleitos. Distingue entre habilidade natural e habilidade moral, ou o poder da fé e a disposição para ter fé. Em consequência da depravação inerente o ser humano possui a habilidade natural, mas não a habilidade moral. Portanto, é necessário um ato de Deus para iluminar a mente, envolvendo assim a vontade para a ação.

Como Ulrico Zwingli, a graça de Deus alcança além dos limites da Igreja visível, visto que Deus por sua providência geral opera sobre os todos (Ml 1: 11,14). Assim, sem conhecer formalmente o Jesus registrado no Novo Testamento, o sacrifício de Cristo é capaz de produzir uma fé sem conhecimento entre pessoas que nunca ouviram sobre o Jesus Cristo bíblico. Desse modo são substancialmente cristãos sem possuir o nome porque depositaram a fé naquilo que Deus demanda como verdade e moral conforme ensinou Jesus Cristo (Rm 1:20; 2:14-15; 1 Co 2:11).

Em suma, enquanto o calvinismo de Dort enfatizava a soberania de Deus e o arminianismo a justiça de Deus, o amiraldismo enfatizava a misericórdia de Deus.

VEJA TAMBÉM

Agostinianismo

Arminianismo

Calvinismo

Sistema Reformado

Soteriologia forense

2 comentários em “Amiraldismo”

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