Filactério

Filactério, do grego antigo φυλακτήριον phylakterion, “protetor”, seu correspondente em hebraico é tefilin.

Consiste em duas pequenas caixas de couro preto em forma de cubo contendo textos da Torá escritos em pergaminho. No judaísmo rabínico é envolto no braço direito e na testa do homem enquanto se ora. Os trechos utilizados atualmente são Êxodo 13:1-10; 13:11-16; Deuteronômio 6:4-9 e 11:13-21.

Origina-se de uma interpretação literal de Deuteronômio 6:8; 11:18 e Êxodo 13: 9, 16. A não utilização dos filactérios pelas diversas religiões de matriz israelita (samaritanos, caraítas e falashas não os utilizam) atesta que essa interpretação nunca foi universal.

A utilização de textos apotropaicos é antiga (como nos rolos de Ketef Hinnom e nos manuscritos de Shapira), mas as mais antigas menções e restos materiais remontam do período tardio do Segundo Templo.

A Septuaginta traduz totafot como asaleuton (imóvel), indicando que à época de sua tradução não era conhecido o uso do filactério. O pseudoepígrafo Epístola de Aristeas (séc II a.C.) parece mencionar o filactério como conhecemos. Restos materiais foram encontrados nas cavernas de Murabba’at (datados da revolta de de Bar Kosiba c.135 d.C.) e das cavernas de Qumran (c.70 d.C.).

No Novo Testamento aparece apenas uma vez (Mt 23:5), que registra a acusação de Jesus contra os escribas e fariseus: “Eles fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens; pois eles tornam seus filactérios largos e suas franjas longas. ”

Fideo-simbolismo

O fideo-simbolismo foi um movimento teológico originário dentre evangélicos francófonos do século XIX que insistia na fé – na relação com Deus – e diminuía a importância da doutrina. No fideo-simbolismo conhecimento de Deus é algo além da capacidade das fórmulas e expressões humanas apreenderem.

Meio às querelas teológicas entre evangélicos “ortodoxos” e “liberais”, dois professores da Faculdade de Teologia Protestante de Paris: Eugène Ménégoz, da Igreja Luterana, e Auguste Sabatier, da Igreja Reformada elaboraram o fideo-simbolismo como uma terceira via.

Ménégoz argumentava o fideísmo, de que a salvação era uma questão de fé e não de credo. Desse modo, os credos resultavam da experiência e do pensamento circunscritos a um período histórico, permanecendo sempre abertos a críticas e revisões. Proposições doutrinárias não afetam a essência ou o cerne da fé cristã.

Auguste Sabatier propôs simbolismo crítico influenciado por Kant, conciliando fé, ciência, história, psicologia, um cristianismo ativo e liberdade de pensamento. Argumentava que o conhecimento teológico é de natureza simbólica, pois Deus permanece além de nossas idéias, nossas imagens e nossas proposiçõs. Por essa razão, a mente humana é receptiva a questões espirituais e inexprimíveis. Doutrina e dogmas são relativos à evolução da experiência religiosa básica nutrida pela Bíblia e fundamentada em Cristo.

Os crentes deveriam ser unidos pela fé, na relação do ser humano com Deus. Rejeitava a uma religião fundada em uma autoridade (quer a do clero, quer de dogmas — mesmo considerar o texto bíblico como fonte de autoriadde) em benefício de uma religião intelectualizada resultante na experiência espiritual.

Como movimento, ganhou adesão das classes média e alta protestantes francesas. Sendo um movimento mais intelectual, foi substituído por outras correntes de pensamento ao longo do século XX.

Festivais

As festas bíblicas eram eventos religiosos e sociais de grande importância na vida do antigo Israel. Prescritas na Torá, essas festas celebravam momentos históricos e agrícolas significativos, reforçando a identidade do povo e sua relação com Deus. As principais festas bíblicas eram:

Páscoa (Pessach): Celebrada no 14º dia do mês de Nisan (março-abril), a Páscoa comemorava a libertação dos israelitas da escravidão no Egito. O cordeiro pascal, sacrificado e consumido com pães ázimos e ervas amargas, simbolizava o sangue que marcou as portas dos hebreus, protegendo-os da morte dos primogênitos egípcios. A Páscoa era um momento de gratidão pela libertação e de renovação da aliança entre Deus e seu povo.

Festa dos Pães Ázimos (Matsot): Iniciava-se no dia seguinte à Páscoa e durava sete dias. Durante esse período, os israelitas comiam apenas pães sem fermento, relembrando a pressa com que saíram do Egito, sem tempo para esperar o crescimento da massa. A Festa dos Pães Ázimos simbolizava a purificação e a renúncia aos costumes pagãos.

Festa das Semanas (Shavuot) ou Pentecostes: Celebrada sete semanas após a Páscoa, no 50º dia, a Festa das Semanas marcava o início da colheita do trigo e a entrega da Torá no Monte Sinai. Era um momento de gratidão pela provisão divina e de reafirmação da aliança. No Novo Testamento, o Pentecostes marca a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, inaugurando a era da igreja.

Festa das Trombetas (Rosh Hashaná): Celebrada no primeiro dia do mês de Tishrei (setembro-outubro), a Festa das Trombetas marcava o início do ano civil e era um dia de descanso, adoração e toque de trombetas. Era um momento de reflexão, arrependimento e preparação para o Dia da Expiação.

Dia da Expiação (Yom Kippur): O dia mais solene do calendário judaico, o Dia da Expiação era um dia de jejum, oração e confissão de pecados. O sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos para oferecer sacrifícios pelos pecados do povo, buscando a purificação e a reconciliação com Deus. Era um momento de introspecção e de busca por perdão e renovação espiritual.

Festa dos Tabernáculos (Sucot): Celebrada durante sete dias, a partir do 15º dia de Tishrei, a Festa dos Tabernáculos comemorava a peregrinação dos israelitas pelo deserto após a saída do Egito. Durante essa festa, os israelitas construíam cabanas (sucot) com ramos de árvores, onde viviam temporariamente, relembrando a fragilidade da vida e a dependência de Deus. Era um momento de alegria, gratidão e celebração da provisão divina.

As festas bíblicas, além de seu significado religioso, desempenhavam um papel importante na vida social e cultural de Israel. Eram momentos de reunião familiar, de celebração comunitária e de reafirmação da identidade cultural.

Filologia

Filologia é a disciplina humanística e científica que investiga o desenvolvimento histórico de um texto. Pelo método da filologia, busca-se estabelecer em um texto sua autenticidade, suas transformações e variantes e sua forma canônica.

Nascida das práticas editoriais de manuscritos na Antiguidade, a filologia tornou-se um conjunto de técnicas e princípios sistematizados a partir das práticas de manuseio, cópia e edição na Biblioteca de Alexandria.

A filologia cristã de textos bíblicos remonta da Escola Catequética de Alexandria, da qual destacou-se Orígenes, principalmente com sua edição da Hexapla. As filologias judaica e caraíta devem-se sobretudo ao trabalho dos massoretas.

No Renascimento, a obra de Lourenço Valla deu início a um novo interesse pela disciplina. Com a popularização da imprensa e a demanda por edições de textos da Antiguidade, a disciplina floresceu a partir do século XVI.

A moderna filologia foi desenvolvida por três eruditos alemães: Friedrich Wolf (1759-1824), Immanuel Bekker (1785-1871) e Karl Lachmann (1793-1851). O método genealógico e estemático desenvolvido por esses autores visava reconstituir as formas mais antigas e seus trajetos de transmissão.

Quanto ao objetivo de recuperação dos textos, no século XIX surgiram duas escolas. Uma escola, a de Paul de Lagarde (1827 – 1891), enfocava na reconstituição de um suposto texto original (Urtext), pressupondo que variantes surgiriam durante a transmissão. Em contraste, a escola da crítica das fontes buscava mapear as variantes que convergiriam para um texto arquetípico.

As posições da filologia do século XIX não foram sem questionamentos. Muitos de seus princípios e pressupostos foram criticados por Joseph Bédier (1864 – 1938). Bédier criticava a arbitrariedade e reducionismo do método genealógico. Outras escolas filológicas defendiam simplesmente a anotação crítica do “melhor” manuscrito disponível. No entanto, nunca houve consenso do que seria o “melhor: o mais antigo, o mais completo, o mais autenticado, o mais utilizado…). Outros passaram a defender um método majoritário, um mínimo conteúdo comum dentre várias fontes. Ainda, havia o método conjectural de Richard Bentley (1662 – 1742) que intencionava inferir com suposição e imaginação a melhor forma textual, “corrigindo” inconsistências do textos. Atualmente, há uma prevalência de uma escola eclética, na qual as variantes são consideradas partes integrais de um texto e sua história.

Como método de leitura crítica da Bíblia, a filologia é a disciplina que estuda o vocabulário, a gramática e o estilo; informada por outros escritos bíblicos e outros escritos no línguas iguais ou cognatas.

BIBLIOGRAFIA

Bassetto, Bruno Fregni. Elementos de filologia românica. EdUSP, 2001.

Cerquiglini, Bernard. Éloge de la variante: histoire critique de la philologie. Paris: Seuil, 1989.

Turner, James. Philology: The forgotten origins of the modern humanities. Princeton University Press, 2015.

Filosofia

A filosofia, em grego “o amor à sabedoria”, assume uma diversidade muito ampla de significados e conotações.

No mundo greco-romano, “a filosofia foi dividida em três ciências: física (lidando com o cosmológico e o mundo natural), ética e lógica (incluindo um pouco a dialética e outras atividades de fala).

Embora como disciplina, pensadores mesopotâmicos, egípcios, indianos e chineses tenham desenvolvido uma forma institucionalizada de busca da Sabedoria, os gregos a sistematizaram e transmitiram à civilização ocidental.

A literatura sapiencial no Antigo Testamento, a filosofia de Fílon de Alexandria, o corpus joanino e paulino no Novo Testamento. No entanto, em Cl 2:9, Paulo se refere a algo tão prejudicial ao cristianismo como “filosofia”. Isso está alinhado com a crítica que Paulo faz à sabedoria humana quando comparada com a revelação divina (cf. 1 Co 1:18-25; 2 Co 2:6-16; At 17:16-34).

Durante o período patrístico, a recepção cristã da filosofia era ambígua (Justino Mártir e Clemente de Alexandria viam o pensamento cristão como uma filosofia superior, Tertuliano o desprezava).

Durante a idade média, as igrejas foram responsáveis por preservar a filosofia greco-romana, que se confundiu com a teologia.

O Renascimento e a Reforma marcaram uma separação entre filosofia e teologia.

Atualmente, muitos filósofos discutem as implicações da doutrina cristã com um raciocínio filosófico.