Diorthotes

Diorthotes ou em latim corrector era o copista responsável pela última revisão. Por volta do ano 360 d.C. surgiram no Império Romano scriptoria (serviços de copistas) cristãos que empregava diorthotes. Suas anotações no manuscrito geralmente podem ser detectadas hoje pelas diferenças nos estilos de caligrafia ou tonalidades de tinta.

Bíblia Hesiquiana

Hesíquio de Alexandria (?-c.300) foi um exegeta que produziu a Bíblia Hesiquiana, uma recensão da Septuaginta e partes do Novo Testamento (possivelmente, os quatro evangelhos).

Hesíquio teria sido bispo de um lugar no Egito no século III e é confundido com lexicógrafo homônimo.

Esta recensão é mencionada por Jerônimo como obra de Hesíquio com a colaboração de Luciano de Antioquia. Segundo Eusébio (Hist. Ecl.8.13.7), um tal Hesíquio foi martirizado sob Diocleciano com três contemporâneos: Pacômio, Fileas e Teodoro. Os quatro mártires escreveram uma carta datada de 296 d.C. a Melício, bispo cismático de Licópolis, no Alto Egito, repreendendo-o por ordenações irregulares

No século IV as igrejas do Egito e em Alexandria utilizavam a Septuaginta Hesiquiana ao invés da edição de Orígenes. Jerônimo (Praef. in Paral.; Adv. Ruf. 2,27) critica Hesíquio, acusa-o de interpolação em Isaías 58:11 (Comm. em Is. ad. 58, 11) e de falsas adições ao texto bíblico (Praef. em Evang.). O Decretum Gelasianum alude aos “evangelhos que Hesíquio forjou” e chama-os de apócrifos.

Léxico de Hesíquio

O Léxico de Hesíquio de Alexandria (c.380-c450 d.C.) foi um gramático e estudioso greco-egípcio, filólogo e lexicógrafo ativo no século IV dC. Não deve ser confundido com seu homônimo, o exegeta Hesíquio de Alexandria.

Hesíquio escreveu um dicionário enciclopédico da língua grega e seus dialetos. Compilou o maior mais de 51.000 verbetes. Listou palavras, formas e frases peculiares, com uma explicação de seu significado. Às vezes referencia o autor ou a região da Grécia que empregam um termo.

Em sua introdução, Hesíquio credita que sua enciclopédia teve influência de outras. Uma foi a de Diogenianos, que por sua vez baseou-se em uma obra anterior de Pânfilo de Alexandria. Outras foram do gramático Aristarco de Samotrácia, Ápion, Amerias e de outros.

As notas sobre epítetos e frases também elucidam sobre a sociedade antiga e a vida social e religiosa.

Sua obra sobreviveu em um único manuscrito praticamente intacto do século XV assinado Marciano graecus 622 preservado na biblioteca de San Marco, Veneza (Marc. Gr. 622). Foi impressa pela primeira vez por Marcus Musurus (edição Aldina) em Veneza em 1514, reeditado em 1520 e 1521. Desde então, somente no século XIX foi reeditada por Moriz Wilhelm Constantin Schmidt (1858–1868) em 5 volumes. A Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes de Copenhague subsidiou uma edição moderna. Sob a direção de Kurt Latte, teve dois volumes publicados, o primeiro em 1953, e postumamente em 1987. Posteriormente, o filólogo britânico Allan Peter Hansen completou um terceiro volume em 2005.

Crítica das fontes

A crítica das fontes é um método de exegese diacrônico que visa determinar as fontes e secundariamente, a autoria, a autenticidade e o contexto de composição dos textos bíblicos.

Na crítica das fontes os exegetam examinam pistas no texto (mudanças de estilo, vocabulário, repetições e similares) para determinar quais fontes possam ter sido usadas por um autor bíblico. Algumas fontes inter-bíblicas podem ser determinadas em virtude do fato de que a fonte ainda existe, por exemplo, os livros de Crônicas citam ou recontam os relatos dos livros de Samuel e Reis.

A crítica das fontes é importante para compreender a tansmissão do texto bíblico, principalmente na manuscritologia e nas traduções.

Por vezes, esse método é referido como sinônimo de hipótese documentária, problema sinóptico, método histórico-crítico (do qual é um dos métodos que integra essa abordagem) ou Alta Crítica (conceito hoje obsoleto).

A crítica das fontes procura saber de onde veio e como um texto foi transmitido. Sua origem remonta da filologia alexandrina e foi aplicada na Antiguidade Tardia por exegetas como Jerônimo e Teodoro de Mopsuéstia. No Renascimento, Lourenço Valla aplicou esse método ao Novo Testamento e deixou suas anotações que, mais tarde, Erasmo utilizou para sua edição grega do Textus Receptus.

Louis Cappel 

Louis Cappel ou Ludovicus Cappellus (1585 – 1658) foi um pioneiro tratamento puramente filológico e científico do texto da Bíblia e professor da Academia de Saumur.

Nasceu em uma família de huguenotes nobres refugiados em Sedan. Estudou hebraico e viajou pela Alemanha e Holanda antes de tornar-se professor em Saumur, onde foi colega de Amyraut.

Suas obras publicadas são:

“Arcanum Punctationis Revelatum”, publicado anonimamente por Thomas Erpenius, em Leiden, em 1624. Demonstrou conclusivamente que a vocalização do texto hebraico era algo tardio, bem como a escrita quadrada dos manuscritos massoréticos eram posteriores à escrita paleohebraica dos samaritanos.

“Critica Sacra”, impresso em Paris, em 1650. Demonstrou que o texto consonantal massorético teve uma transmissão praticamente sem erros, mas que as edições contemporâneas precisavam serem corrigidas comparando versões e pelo método conjectural. Assim, distinguiu entre os autógrafos e os textos atuais nas línguas originais.

John Mill

John Mill (1645-1707) filólogo e crítico textual do Novo Testamento inglês. Viveu e é contado entre os “Caroline Divines”.

Em 1707 saiu seu Novum testamentum græcum, cum lectionibus variantibus MSS. exemplar, versionum, editionum SS. patrum et scriptorum ecclesiasticorum, et in easdem nolis, publicado em Oxford. Essa edição crítica levou trinta anos e avançou a erudição do Novo Testamento, pela inclusão do aparato com as leituras variantes.

Sua edição reimprimiu o texto de Stephanus de 1550, mas exibiu a evidência de 30.000 variantes textuais de manuscritos gregos, pais da igreja e outras versões antigas. O grande número de variantes foi bastante inquietante para alguns tradicionalistas, mas a defesa de Mill pelo filólogo Richard Bentley garantiu a recepção de seu trabalho e a continuidade da crítica textual como disciplina legítima no protestantismo inglês. Bentley argumentou que Mill não era responsável pelas diferenças entre os vários manuscritos, pois apenas as apontou.

Manuscritos originais

Em filologia ou crítica textual o termo “originais” ou “manuscritos originais” é algo impreciso. No geral, em sentido leigo e genérico, “originais” são edições nos idiomas originais. Já em sentido estrito, quando se diz “originais” os biblistas podem referir-se a:

  • Proto-Texto: tradições orais ou fontes escritas das quais se serviram os escribas que tenham fixado um texto destinado ao seu uso público. Parte dos livros de Reis seria proto-texto para os livros de Crônicas.
  • Urtexto: base textual uniforme da qual todas as cópias descendem. A hipotética cópia-matriz mantida no Segundo Templo de Jerusalém da qual os manuscritos seriam comparados seria um exemplo de Urtexto.
  • Autógrafo: um exemplar de uma determinada obra, escrita ou ditada pelo autor ou registrada por amanuenses ou escribas, da qual todas as cópias posteriores seriam descendentes. Vale notar que pode não ser a cópia mais recente da qual os manuscritos descendem, tampouco que se pressupõe que houvesse uma só versão do autógrafo. As várias recensões de Jeremias implicam na circulação de diferentes autógrafos, o que fica claro na passagem da destruição pelo rei Joaquim do rolo de Jeremias produzido por Baruque (Jr 36).
  • Arquétipo: é o ancestral direto do qual se derivam um determinado grupo de cópias. Pode ser um Urtexto ou texto posterior que atua como nódulo do qual se ramificou em várias outras cópias e versões, como o caso das recensões luciânicas para o Novo Testamento grego.
  • Vorlage: é o exemplar disponível ao copista ou tradente do qual se produziu uma cópia ou uma tradução. Os Vorlages hebraicos que serviram para traduzir a Septuaginta foi perdido, mas é possível conjecturá-los mediante retroversão. Era comum utilizar mais de um Vorlage para produzir uma só cópia, como os quatro evangelhos serviram de Vorlage para o Diatessaron.
  • Forma canônica (ou “vulgata”): forma relativamente estável do texto utilizada para o culto e exegese intratextual nos primórdios do cristianismo e judaísmo rabínico, sendo os textos citados pela patrística, Talmude, lecionários e outros. São exemplos a Vulgata e a Peshitta durante a era manuscrita. Com o advento da imprensa, a forma canônica passou a ser tida como “o” textus receptus, da qual as divergências das fontes seriam meros detalhes, como no caso das famílias de edições impressas do Texto Massorético a partir de  Bomberg e das famílias das edições do Novo Testamento chamadas de Textus Receptus desde Erasmo de Roterdã.
  • Texto reconstruído: é a forma reconstruída pelos filólogos ou críticos textuais. De certa maneira, é um contrônimo, pois não seria o texto originário, mas o produto final.

Uma escola de reconstrução textual, chamada de escola lagardiana, trata o autógrafo, Urtexto e arquétipo como fossem um só texto. De modo inverso, outra escola filológica que segue Paul Kahle, não se baseia nessas premissas, mas na suposição de que um texto circula em várias versões até convergir para sua forma canônica publicada e recebida. Em contraste com essas duas escolas, a filologia contemporânea depois da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto segue a metodologia sumarizada por Bernard Cerquiglini, na qual diferentes partes de um texto pode possuir diversas trajetórias de transmissão e composição, o que torna a questão do que seria um texto original mais complexa e pluriforme.



BIBLIOGRAFIA

Cerquiglini, Bernard. Éloge de la variante: histoire critique de la philologie. Paris: Seuil, 1989.

Debel, Hans. “The Pluriformity of Pluriformity: a Reassessment of the Hermeneutical Framework for the Text-Critical Analysis of the Hebrew Bible.” PhD diss., KU Leuven, 2011.

de Lagarde, Paul. “Introduction”. Anmerkungen zur griechischen Übersetzung der Proverbien. Leipzig : Brockhaus, 1863.

Epp, Eldon Jay. “The multivalence of the term “original text” in New Testament textual criticism.” Harvard Theological Review 92.3 (1999): 245-281.

Woude, Adam S. van der; Bremmer, J. N.; Florentino, García Martínez. “Pluriformity and Uniformity. Reflections On the Transmission of the Text of the Old Testament.” Sacred History and Sacred Texts in Early Judaism, 1992, pp. 151-169.

Recensão

Em filologia e crítica textual recensão refere-se (1) a fase de seleção,
após o exame de todo o material disponível, das mais confiáveis
evidências para prosseguir com a emendatio; (2) ao produto do filólogo, a edição revisada de um texto sob critérios críticos ou ecdóticos; e (3) ao conjunto ou família de manuscritos com características semelhantes.

Hexapla

Edição crítica do Antigo Testamento grego em seis colunas paralelas feita por Orígenes (c. 185-253/254 d.C.). Sua compilação foi iniciada em Alexandria e concluída em Cesareia no século III a.C.

A primeira coluna continha o texto em hebraico, a segunda sua transliteração para o grego, as quatro colunas seguintes as traduções para o grego de Aquila, Símaco, Septuaginta (LXX) e Teodotion.

No texto da LXX, com base no texto hebraico, Orígenes marcava as omissões com um asterisco e as interpolações com um obelo. O sinal de metobelo indicava fim de um perícope.

A obra provavelmente só existiu em um único exemplar de 6.500 páginas (3.000 folhas de pergaminho) em 15 volumes. Teria sido arquivada na Biblioteca Cristã de Cesareia até o século VII. Dessa obra só restaram fragmentos.

Uma versão abreviada também teria sido feita por Orígenas, a Tetrapla. O texto da quinta coluna, a recensão de Orígenes, foi copiado. Sobrevivem dois palimpsestos (Cairo e Milão). Sobreviveu uma tradução siríaca muito literal, a siro-hexapla, feita entre 613 e 617 pelo bispo Paulo de Tella, exceto pelo Pentateuco, com notas marginais com as versões de Aquila, Símaco e Teodotion.

Este trabalho de filologia deu início aos estudos textuais sistemáticos da Bíblia e influenciou recensões posteriores.

Filologia

Filologia é a disciplina humanística e científica que investiga o desenvolvimento histórico de um texto. Pelo método da filologia, busca-se estabelecer em um texto sua autenticidade, suas transformações e variantes e sua forma canônica.

Nascida das práticas editoriais de manuscritos na Antiguidade, a filologia tornou-se um conjunto de técnicas e princípios sistematizados a partir das práticas de manuseio, cópia e edição na Biblioteca de Alexandria.

A filologia cristã de textos bíblicos remonta da Escola Catequética de Alexandria, da qual destacou-se Orígenes, principalmente com sua edição da Hexapla. As filologias judaica e caraíta devem-se sobretudo ao trabalho dos massoretas.

No Renascimento, a obra de Lourenço Valla deu início a um novo interesse pela disciplina. Com a popularização da imprensa e a demanda por edições de textos da Antiguidade, a disciplina floresceu a partir do século XVI.

A moderna filologia foi desenvolvida por três eruditos alemães: Friedrich Wolf (1759-1824), Immanuel Bekker (1785-1871) e Karl Lachmann (1793-1851). O método genealógico e estemático desenvolvido por esses autores visava reconstituir as formas mais antigas e seus trajetos de transmissão.

Quanto ao objetivo de recuperação dos textos, no século XIX surgiram duas escolas. Uma escola, a de Paul de Lagarde (1827 – 1891), enfocava na reconstituição de um suposto texto original (Urtext), pressupondo que variantes surgiriam durante a transmissão. Em contraste, a escola da crítica das fontes buscava mapear as variantes que convergiriam para um texto arquetípico.

As posições da filologia do século XIX não foram sem questionamentos. Muitos de seus princípios e pressupostos foram criticados por Joseph Bédier (1864 – 1938). Bédier criticava a arbitrariedade e reducionismo do método genealógico. Outras escolas filológicas defendiam simplesmente a anotação crítica do “melhor” manuscrito disponível. No entanto, nunca houve consenso do que seria o “melhor: o mais antigo, o mais completo, o mais autenticado, o mais utilizado…). Outros passaram a defender um método majoritário, um mínimo conteúdo comum dentre várias fontes. Ainda, havia o método conjectural de Richard Bentley (1662 – 1742) que intencionava inferir com suposição e imaginação a melhor forma textual, “corrigindo” inconsistências do textos. Atualmente, há uma prevalência de uma escola eclética, na qual as variantes são consideradas partes integrais de um texto e sua história.

Como método de leitura crítica da Bíblia, a filologia é a disciplina que estuda o vocabulário, a gramática e o estilo; informada por outros escritos bíblicos e outros escritos no línguas iguais ou cognatas.

BIBLIOGRAFIA

Bassetto, Bruno Fregni. Elementos de filologia românica. EdUSP, 2001.

Cerquiglini, Bernard. Éloge de la variante: histoire critique de la philologie. Paris: Seuil, 1989.

Turner, James. Philology: The forgotten origins of the modern humanities. Princeton University Press, 2015.