John Mill

John Mill (1645-1707) filólogo e crítico textual do Novo Testamento inglês. Viveu e é contado entre os “Caroline Divines”.

Em 1707 saiu seu Novum testamentum græcum, cum lectionibus variantibus MSS. exemplar, versionum, editionum SS. patrum et scriptorum ecclesiasticorum, et in easdem nolis, publicado em Oxford. Essa edição crítica levou trinta anos e avançou a erudição do Novo Testamento, pela inclusão do aparato com as leituras variantes.

Sua edição reimprimiu o texto de Stephanus de 1550, mas exibiu a evidência de 30.000 variantes textuais de manuscritos gregos, pais da igreja e outras versões antigas. O grande número de variantes foi bastante inquietante para alguns tradicionalistas, mas a defesa de Mill pelo filólogo Richard Bentley garantiu a recepção de seu trabalho e a continuidade da crítica textual como disciplina legítima no protestantismo inglês. Bentley argumentou que Mill não era responsável pelas diferenças entre os vários manuscritos, pois apenas as apontou.

Manuscritos originais

Em filologia ou crítica textual o termo “originais” ou “manuscritos originais” é algo impreciso. No geral, em sentido leigo e genérico, “originais” são edições nos idiomas originais. Já em sentido estrito, quando se diz “originais” os biblistas podem referir-se a:

  • Proto-Texto: tradições orais ou fontes escritas das quais se serviram os escribas que tenham fixado um texto destinado ao seu uso público. Parte dos livros de Reis seria proto-texto para os livros de Crônicas.
  • Urtexto: base textual uniforme da qual todas as cópias descendem. A hipotética cópia-matriz mantida no Segundo Templo de Jerusalém a qual os manuscritos seriam comparados seria um exemplo de Urtexto.
  • Autógrafo: a edição de uma determinada obra, escrita ou ditada pelo autor ou registrada por amanuenses ou escribas, da qual todas as cópias posteriores são descendentes. Vale notar que pode não ser a cópia mais recente da qual os manuscritos descendem, tampouco que se pressupõe que houvesse uma só versão do autógrafo. As várias recensões de Jeremias implicam na circulação de diferentes autógrafos, o que fica claro na passagem da destruição do rolo de Jeremias produzido por Baruque (Jr 36).
  • Arquétipo: é o ancestral direto do qual se derivam um determinado grupo de cópias. Pode ser um Urtexto ou nódulo que ramificou em várias outras cópias e versões, como o caso do Texto Bizantino para o Novo Testamento grego.
  • Vorlage: é o exemplar disponível ao copista ou tradente da qual se produziu uma cópia ou uma tradução. Os Vorlages hebraicos que serviram para traduzir a Septuaginta foi perdido, mas é possível conjecturá-los mediante retroversão. Era comum utilizar mais de um Vorlage para produzir uma só cópia, como os quatro evangelhos serviram de Vorlage para o Diatessaron.
  • Forma canônica: forma relativamente estável do texto qual foi utilizada para o culto e exegese intratextual nos primórdios do cristianismo e judaísmo rabínico, sendo os textos citados pela patrística, Talmude, lecionários e outros. Com o advento da imprensa, a forma canônica passou a ser tida como “o” textus receptus, da qual as divergências das fontes seriam meros detalhes, como no caso das famílias de edições impressas do Texto Massorético a partir de  Bomberg e das famílias das edições do Novo Testamento chamadas de Textus Receptus desde Erasmo de Roterdã.

Uma escola de reconstrução textual, chamada de escola lagardiana, trata o autógrafo, Urtexto e arquétipo como fossem um só texto. De modo inverso, outra escola filológica que segue Paul Kahle, não se baseia nessas premissas, mas na suposição de que um texto circula em várias versões até convergir para sua forma canônica publicada e recebida. Em contraste com essas duas escolas, a filologia contemporânea depois da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto segue a metodologia sumarizada por Bernard Cerquiglini, na qual diferentes partes de um texto pode possuir diversas trajetórias de transmissão e composição, o que torna a questão do que seria um texto original mais complexa e pluriforme.

BIBLIOGRAFIA

Cerquiglini, Bernard. Éloge de la variante: histoire critique de la philologie. Paris: Seuil, 1989.

Debel, Hans. “The Pluriformity of Pluriformity: a Reassessment of the Hermeneutical Framework for the Text-Critical Analysis of the Hebrew Bible.” PhD diss., KU Leuven, 2011.

de Lagarde, Paul. “Introduction”. Anmerkungen zur griechischen Übersetzung der Proverbien; By: von Paul de Lagarde; Creation: Leipzig : Brockhaus, 1863.

Woude, Adam S. van der 1927-2000, J. N. Bremmer, and Florentino 1942- García Martínez. “Pluriformity and Uniformity. Reflections On the Transmission of the Text of the Old Testament.” Sacred History and Sacred Texts in Early Judaism 1992, pp. 151-169.

Recensão

Em filologia e crítica textual recensão refere-se (1) a fase de seleção,
após o exame de todo o material disponível, das mais confiáveis
evidências para prosseguir com a emendatio; (2) ao produto do filólogo, a edição revisada de um texto sob critérios críticos ou ecdóticos; e (3) ao conjunto ou família de manuscritos com características semelhantes.

Hexapla

Edição crítica do Antigo Testamento grego em seis colunas paralelas feita por Orígenes (c. 185-253/254 d.C.). Sua compilação foi iniciada em Alexandria e concluída em Cesareia no século III a.C.

A primeira coluna continha o texto em hebraico, a segunda sua transliteração para o grego, as quatro colunas seguintes as traduções para o grego de Aquila, Símaco, Septuaginta (LXX) e Teodotion.

No texto da LXX, com base no texto hebraico, Orígenes marcava as omissões com um asterisco e as interpolações com um obelo. O sinal de metobelo indicava fim de um perícope.

A obra provavelmente só existiu em um único exemplar de 6.500 páginas (3.000 folhas de pergaminho) em 15 volumes. Teria sido arquivada na Biblioteca Cristã de Cesareia até o século VII. Dessa obra só restaram fragmentos.

Uma versão abreviada também teria sido feita por Orígenas, a Tetrapla. O texto da quinta coluna, a recensão de Orígenes, foi copiado. Sobrevivem dois palimpsestos (Cairo e Milão). Sobreviveu uma tradução siríaca muito literal, a siro-hexapla, feita entre 613 e 617 pelo bispo Paulo de Tella, exceto pelo Pentateuco, com notas marginais com as versões de Aquila, Símaco e Teodotion.

Este trabalho de filologia deu início aos estudos textuais sistemáticos da Bíblia e influenciou recensões posteriores.

Filologia

Filologia é a disciplina humanística e científica que investiga o desenvolvimento histórico de um texto. Pelo método da filologia, busca-se estabelecer em um texto sua autenticidade, suas transformações e variantes e sua forma canônica.

Nascida das práticas editoriais de manuscritos na Antiguidade, a filologia tornou-se um conjunto de técnicas e princípios sistematizados a partir das práticas de manuseio, cópia e edição na Biblioteca de Alexandria.

A filologia cristã de textos bíblicos remonta da Escola Catequética de Alexandria, da qual destacou-se Orígenes, principalmente com sua edição da Hexapla. As filologias judaica e caraíta devem-se sobretudo ao trabalho dos massoretas.

No Renascimento, a obra de Lourenço Valla deu início a um novo interesse pela disciplina. Com a popularização da imprensa e a demanda por edições de textos da Antiguidade, a disciplina floresceu a partir do século XVI.

A moderna filologia foi desenvolvida por três eruditos alemães: Friedrich Wolf (1759-1824), Immanuel Bekker (1785-1871) e Karl Lachmann (1793-1851). O método genealógico e estemático desenvolvido por esses autores visava reconstituir as formas mais antigas e seus trajetos de transmissão.

Quanto ao objetivo de recuperação dos textos, no século XIX surgiram duas escolas. Uma escola, a de Paul de Lagarde (1827 – 1891), enfocava na reconstituição de um suposto texto original (Urtext), pressupondo que variantes surgiriam durante a transmissão. Em contraste, a escola da crítica das fontes buscava mapear as variantes que convergiriam para um texto arquetípico.

As posições da filologia do século XIX não foram sem questionamentos. Muitos de seus princípios e pressupostos foram criticados por Joseph Bédier (1864 – 1938). Bédier criticava a arbitrariedade e reducionismo do método genealógico. Outras escolas filológicas defendiam simplesmente a anotação crítica do “melhor” manuscrito disponível. No entanto, nunca houve consenso do que seria o “melhor: o mais antigo, o mais completo, o mais autenticado, o mais utilizado…). Outros passaram a defender um método majoritário, um mínimo conteúdo comum dentre várias fontes. Ainda, havia o método conjectural de Richard Bentley (1662 – 1742) que intencionava inferir com suposição e imaginação a melhor forma textual, “corrigindo” inconsistências do textos. Atualmente, há uma prevalência de uma escola eclética, na qual as variantes são consideradas partes integrais de um texto e sua história.

Como método de leitura crítica da Bíblia, a filologia é a disciplina que estuda o vocabulário, a gramática e o estilo; informada por outros escritos bíblicos e outros escritos no línguas iguais ou cognatas.

BIBLIOGRAFIA

Bassetto, Bruno Fregni. Elementos de filologia românica. EdUSP, 2001.

Cerquiglini, Bernard. Éloge de la variante: histoire critique de la philologie. Paris: Seuil, 1989.

Turner, James. Philology: The forgotten origins of the modern humanities. Princeton University Press, 2015.