Ḥeret Enosh

חֶרֶט אֱנוֹשׁ (Ḥeret Enosh) é uma expressão encontrada no livro de Isaías 8:1, em que Yahweh ordena a Isaías que escreva em uma tábua “com caracteres comuns”. O significado exato do termo em hebraico permanece incerto, o que tem gerado diferentes interpretações entre os estudiosos.

No texto hebraico, a expressão combina “חֶרֶט” (ḥeret), frequentemente traduzido como “estilete” ou “ferramenta de escrita”, e “אֱנוֹשׁ” (enosh), que pode ser entendido como “humano” ou relacionado à humanidade. Essa combinação sugere a possibilidade de que o termo se refira a um tipo de escrita ou instrumento associado ao uso cotidiano ou a um estilo de escrita acessível e compreensível.

Os comentaristas divergem sobre se Ḥeret Enosh se refere a um método de escrita específico, como escrita cursiva ou informal, ou se alude a um tipo de instrumento de escrita utilizado no contexto cultural da época. A expressão também pode implicar a intenção de tornar a mensagem de Isaías clara e compreensível para todos, indicando um registro acessível e amplamente legível. Entretanto, a ausência de evidências diretas sobre o termo em outros textos bíblicos ou fontes contemporâneas dificulta uma definição precisa.

A ambiguidade do termo tem sido tema de estudos filológicos e exegéticos, os quais frequentemente destacam a necessidade de considerar o contexto histórico, linguístico e cultural do Antigo Testamento para tentar elucidar seu significado.

Torre de Hananel

A Torre de Hananel ou Hananeel, em hebraico חננאל, é uma torre dentro dos muros de Jerusalém, mencionada em textos bíblicos.

A Torre Hananel ficava ao lado da Torre de Meá, também conhecida como Torre dos Cem, a leste. Ela se conectava ao “portão das ovelhas”. Situava-se na seção norte da muralha da cidade velha, próximo ao canto nordeste. Este local historicamente exigiu fortificação especial, tornando-o estrategicamente importante para a defesa de Jerusalém.

A torre é mencionada em várias passagens bíblicas, como Neemias 3:1, Neemias 12:39, Zacarias 14:10. Em Jeremias 31:38, o profeta prediz a reconstrução de Jerusalém, afirmando que a cidade será construída para o Senhor desde a Torre de Hananel até a porta da esquina.

Durante a reconstrução dos muros de Jerusalém sob Neemias, a torre desempenhou um papel proeminente. Eliasibe, o sumo sacerdote, junto com seus irmãos, os sacerdotes, construíram a porta das ovelhas e a santificaram, estendendo seu trabalho até a Torre de Hananeel (Neemias 3:1). Posteriormente, uma festa de dedicação foi realizada após a conclusão das muralhas, com festividades que se estenderam desde o portão de Efraim até vários outros marcos, incluindo a Torre de Hananeel (Neemias 12:39).

Com base na descrição de Neemias 3, a Torre de Hananeel ficava a meio caminho entre a porta das ovelhas e a porta dos peixes, marcando o canto nordeste dos muros de Jerusalém. O nome da torre, que significa “Deus é gracioso”, deu origem a diversas interpretações.

A associação da torre com Hananel levanta questões sobre as suas origens e significado histórico. Giovanni Garbini propôs uma teoria sugerindo que Judá foi brevemente governado por um rei amonita chamado Hananel durante meados dos anos 600 aC, que pode ter construído a torre.

BIBLIOGRAFIA

Garbini, Giovanni. “Biblical Philology and North-West Semitic Epigraphy: How Do They Contribute to Israelite History Writing.” In Recenti Tendenze nella Ricostruzione della Storia Antica d’Israele (2005), Actes du colloque international de Rome, 2003, edited by M. Liverani, 121–35. Actes / Collectif. Rome: Accademia nazionale dei Lincei, 2005.

Garbini, Giovanni. Scrivere la storia d’Israele: Vicende e memorie ebraiche. Brescia: Paideia, 2008.

Hananiah ben Hezekiah ben Garon

Hananiah ben Hezekiah ben Garon (século I a.C.) foi um sábio judeu tanaíta que viveu no final do período do Segundo Templo, contemporâneo das casas de Shammai e Hillel.

Embora existam poucos detalhes sobre sua vida pessoal, Hananiah é mencionado em textos rabínicos que destacam sua influência no pensamento legal judaico. Dedicou-se a uma análise comparativa entre as normas apresentadas no livro de Ezequiel e as leis do Pentateuco. A tradição preservada no Talmude (Shabat 13b) narra que Hananiah dedicou grande esforço a essa tarefa, utilizando trezentas medidas de óleo para estudo enquanto procurava harmonizar as leis de Ezequiel com aquelas contidas na Torá.

Hananiah esteve envolvido nas discussões sobre a canonização do livro de Ezequiel, um tema que gerou debate sna época. Sua abordagem meticulosa e sua interação com outros sábios da tradição tanaíta ilustram sua posição como uma figura chave no desenvolvimento das práticas legais e interpretativas que moldariam o judaísmo rabínico.

Hugo de Santo Caro

Hugo de Santo Caro (c. 1200–1263), também conhecido como Hugo de Saint-Cher, foi um frade dominicano, teólogo e cardeal francês, nascido em Saint-Cher, um subúrbio de Vienne, na França.

Hugo iniciou sua formação em um mosteiro local antes de ingressar na Universidade de Paris, onde estudou filosofia, teologia e jurisprudência. Por volta de 1225, entrou para a Ordem dos Pregadores, destacando-se rapidamente devido às suas capacidades intelectuais e de liderança.

Seu trabalho acadêmico foi fundamental para o avanço dos estudos bíblicos medievais. Ele supervisionou a compilação do primeiro Correctorium, uma coleção de variantes textuais da Bíblia Latina, com o objetivo de corrigir discrepâncias nos textos bíblicos. Essa iniciativa foi considerada crucial para os estudos bíblicos da época. Hugo também foi o responsável por iniciar a primeira concordância da Bíblia Latina, conhecida como Concordantiae Sancti Jacobi, que facilitou a localização de passagens na Vulgata. Além disso, produziu diversos comentários bíblicos, ou Postillae, que foram amplamente utilizados e publicados nos séculos XV e XVI. Durante sua carreira, Hugo também supervisionou uma revisão significativa da Vulgata, o que gerou tanto elogios quanto críticas de contemporâneos, como Roger Bacon.

Em 1244, foi nomeado cardeal presbítero pelo Papa Inocêncio IV, tornando-se o primeiro cardeal da Ordem Dominicana. Exerceu diversas funções eclesiásticas, incluindo missões como legado papal em Constantinopla e na Alemanha para eleições imperiais. Participou do Primeiro Concílio de Lyon, em 1245, contribuindo para decisões, como o estabelecimento da Festa de Corpus Christi. Em 1247, foi encarregado de revisar a Regra Carmelita, adaptando-a às condições da vida europeia. Faleceu em Orvieto, Itália.

Hugo de Santo Caro desempenhou um papel central no avanço do estudo bíblico e no fortalecimento da presença e influência da Ordem Dominicana nas esferas acadêmica e eclesiástica da Idade Média.

Helvídio

Helvídio ou Helvidius foi um escritor e teólogo cristão ativo no final do século IV, que se opôs à doutrina da virgindade perpétua de Maria. Debateu também sobre casamento e celibato.

Pouco se sabe sobre sua vida, incluindo se era leigo ou sacerdote. Ele é associado à cidade de Roma e acredita-se que tenha sido influenciado por discussões teológicas anteriores, especialmente aquelas relacionadas à natureza de Maria e sua relação com Jesus. Suas ideias e escritos são conhecidos principalmente por meio das críticas feitas por seus contemporâneos, particularmente por Jerônimo.

Helvídio argumentou contra a crença de que Maria permaneceu virgem durante toda a vida. Ele interpretava referências no Novo Testamento a “irmãos” e “irmãs” de Jesus como evidências de que Maria teve outros filhos após o nascimento de Jesus. Essa posição desafiava as visões que enfatizavam a virgindade perpétua de Maria como um aspecto significativo de sua santidade. Adicionalmente, Helvídio defendia a honra e a dignidade do casamento, afirmando que ele possuía valor igual ao da virgindade. Criticava a crescente glorificação do celibato que ganhava destaque no pensamento cristão da época, posicionando o casamento como um estado legítimo e digno.

As ideias de Helvídio receberam uma resposta contundente de Jerônimo, que escreveu A Virgindade Perpétua da Bem-Aventurada Maria em contestação. Jerônimo argumentou que as interpretações de Helvídio eram equivocadas, sustentando que os “irmãos” mencionados nas Escrituras eram, na verdade, meio-irmãos ou primos, e não irmãos biológicos.

Helvídio é, por vezes, considerado uma figura proto-protestante devido à ênfase que deu à interpretação das Escrituras em detrimento das tradições sobre Maria. Seus argumentos contribuíram para as discussões contínuas sobre o casamento, o celibato e o papel das mulheres no cristianismo primitivo.