Livro das Odes

O livro das Odes, em latim Cantica, é o nome dado pelo biblista Alfred Rahlfs para a antologia de orações e cânticos que aparecem em alguns manuscritos da Septuaginta entre os séculos V a VII.

Não se confunde com o Odes de Salomão. Trata-se de uma compilação de quatorze canções e orações, a maioria das quais retiradas da Septuaginta e do Novo Testamento.

CONTEÚDO

Cântico de Moisés (Êxodo 15:1-19 UE)
Cântico de Moisés (Deuteronômio 32:1–43)
Oração de Ana, mãe do profeta Samuel (1 Samuel 2:1–10)
Oração do profeta Habacuque (Habacuque 3:2-19)
Oração do profeta Isaías (Isaías 26:9-20)
Oração do profeta Jonas (Jonas 2:3–10)
Oração dos três jovens (Daniel 3:26-56)
Cântico dos três jovens (Dn 3:57-88)
Cântico de Maria (Magnificat) (Lucas 1:46-55)
Oração de Zacarias (Benedictus) (Lucas 1:68-79)
Cântico de Isaías (Isaías 5:1-9)
Oração de Ezequias (Isaías 38:10-20)
Oração de Manassés
Oração de Simeão (Nunc dimittis) (Lucas 2:29–32)
Oração vespertina (Gloria in Excelsis Deo), canção cristã primitiva baseada em Lucas 2:14, Salmo 144:2 e Salmo 118:12.

Texto tipo Ocidental

O tipo de texto ocidental é uma categoria da crítica textual sobre a transmissão e variação do texto do Novo Testamento. O termo “ocidental” é um tanto enganoso porque evidências deste tipo de texto foram descobertas não apenas nas regiões ocidentais do Império Romano, mas também no Oriente cristão, particularmente na Síria.

Fontes e características

Traduções latinas antigas: As traduções latinas antigas do Novo Testamento, muitas vezes chamadas de Vetus Latina, contêm leituras e variações consistentes com o tipo de texto ocidental.

Traduções Vetus Siríacas: Semelhante ao latim antigo, as traduções Vetus Siríacas do Novo Testamento do grego para o siríaco exibem características ocidentais. Isto indica que o tipo de texto ocidental teve influência além das regiões de língua latina.

Escritores Cristãos Primitivos: Citações e referências nas obras de certos escritores cristãos primitivos nos séculos II e III, como Cipriano, Tertuliano e Irineu, contêm elementos do tipo de texto ocidental.

Papiros Gregos do Egito: Fragmentos dos primeiros papiros gregos descobertos no Egito, incluindo 𝔓29, 𝔓38 e 𝔓48, contêm leituras consistentes com o tipo de texto ocidental.

Codex Sinaiticus: Codex Sinaiticus, um dos primeiros manuscritos gregos completos do Novo Testamento, é considerado como exibindo características ocidentais nos primeiros oito capítulos do Evangelho de João.

O tipo de texto ocidental é caracterizado por vários recursos distintivos, incluindo:

Preferência por Paráfrase: Tende a usar expressões parafrásticas e expande o texto, muitas vezes resultando em variantes mais longas de passagens.

Ausência de certos livros: O tipo de texto ocidental não contém as Epístolas Católicas (Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João e Judas) e o Livro do Apocalipse. Essa ausência coincide com a antilegômena e indica que esses livros podem não ter tido uma tradição textual ocidental.

Variantes mais curtas: Em contraste com sua preferência por leituras mais longas, o tipo de texto ocidental também contém variantes mais curtas excepcionais, conhecidas como “não interpolações ocidentais“. Essas omissões incluem a omissão de uma série de oito frases curtas de versículos do Evangelho de Lucas.

Preconceitos redacionais: Nos materiais paulinos, o tipo de texto ocidental exibe preconceitos redacionais distintos que muitas vezes diminuem o status das mulheres nas congregações dirigidas por Paulo.

A qualidade do tipo de texto ocidental é geralmente considerada inferior a outros tipos de texto, apesar de sua antiguidade. Kurt e Barbara Aland categorizam manuscritos do tipo de texto ocidental como Categoria IV em seu sistema de classificação textual, indicando uma confiabilidade menor em comparação com outros tipos de texto.

Opróbrio

Opróbrio significa desonra, vergonha pública, humilhação, infâmia. É um termo que denota a condição de alguém que foi alvo de ações ou palavras que lhe causaram grande vexame e desrespeito perante a sociedade.

Na tradição bíblica, o conceito de opróbrio se encontra nos termos hebraico (חרפה – cherpah) e grego (ὀνείδισμα – oneidismos), que trazem a ideia de vergonha e humilhação pública.

No Antigo Testamento, em Salmos 22:6, o termo hebraico (חרפה – cherpah) é usado para expressar o opróbrio e a humilhação do salmista perante seus inimigos.

Em Salmos 71:13, a palavra “opróbrio” é traduzida do hebraico como בוּשׁ (bush). Essa palavra hebraica transmite a ideia de vergonha, confusão e decepção, sentimentos experimentados por aqueles que são humilhados e desprezados.

No Novo Testamento, em Hebreus 11:26, o termo grego (ὀνείδισμα – oneidismos) é usado para descrever o opróbrio de Cristo, que foi humilhado e desprezado por sua fé.

Em ambos os Testamentos, o conceito de opróbrio está relacionado à vergonha, à humilhação e ao sofrimento, tanto para quem pratica o ato quanto para quem o recebe.

Ósculo Santo

O Ósculo Santo ou Ósculo da Paz, em grego phílema hagion e phílema agape, é um beijo dado como expressão de amor fraterno e de paz nas igrejas cristãs. Tal prática deriva de várias epístolas do Novo Testamento nas quais os fiéis são instados a se saudarem com um beijo de amor, ou beijo sagrado. Aparece em contexto de saudação epistolar em 1 Pedro 5:14, Romanos 16:16, 1 Coríntios 16:20, 2 Coríntios 13:12; 1 Tessalonicenses 5:26.

A saudação com um beijo é comum em várias sociedades e parece ter sido comum em épocas bíblicas. No Antigo Testamento, Jacó saudou Raquel com um beijo quando a conheceu (Gen 29:11). O ósculo também marcava reunião e reconciliação (Gen 45:15; Êxodos 4:27), bem como despedidas (Rute 1:9, 14) e prestar honra (1 Samuel 10:5). No Novo Testamento, Jesus cobra Simão por uma recepção apropriada, devendo tê-lo saudado com um ósculo (Lucas 7:45; cf. com o ósculo de Judas, Lc 22.48). O Pai do Filho Pródigo recebe-o com um beijo (Lucas 15:20). Os anciãos de Éfeso despediram-se de Paulo beijando-o (Atos 20:37).

Na obra rabínica Gênesis Rabá 70.12 diz “todo beijo é indecente exceto nessas três situações: beijar alguém em cargo superior, beijar quando se reúne, beijar quando se parte”.

Contemporaneamente, faz parte da liturgia e cotidiano de diversos grupos cristãos, sobretudo primitivistas.

Em meados do século II, Justino Mártir registra seu uso no culto (1 Ap 1:65), denotando que a saudação com o ósculo transcendia as barreiras étnicas e sociais entre os primitivos cristãos. Marcava também a solidariedade, especialmente em situação extrema como o martírio (Atos de Perpétua 6:4).

Entre cristãos orientais — coptas, siríacos, assírios, etíopes, eslavos, Mar Thoma — a prática de saudar-se com o ósculo continua virtualmente sem interrupção.

Durante a Idade Média, o ósculo caiu em desuso nos ritos ocidentais, exceto em missas altamente solenes e em algumas ordens monásticas e fraternidades. Nesse espírito de irmandade, o ósculo vem sendo praticado desde a Reforma por anabatistas. O renovado interesse pelo primitivismo entre grupos cristãos a partir do século XVIII, fez o ósculo renascer entre os pietistas, morávios, glassitas, Dunkers, irmãos, Neutäufer e outros.

No avivamento do século XIX, essa prática foi enfatizada por grupos radicais de Santidade, como a Igreja de Deus (Anderson). Do movimento de Santidade, tal prática foi adotada pelos pioneiros pentecostais até por volta de 1920, muitas das vezes em um desafio aberto às leis e normas sociais racistas da época.

“Não cremos na Doutrina Carnal do beijo masculino e feminino e chamando-o de ósculo santo. Isso fere a causa de Cristo e fez com que se falasse mal de nossa boa [Obra]. Cremos nos Santos Irmãos cumprimentando os Irmãos, e as Santas Irmãs cumprimentando as Santas Irmãs com um ósculo”.

Seymour, William. Doctrines and Disciplines of the Azusa Mission, 1915.

Seymour deve ter adotado o ósculo quando frequentou uma congregação da Igreja de Deus (Anderson) em Indianápolis, onde as diferenças raciais eram rejeitadas e o ósculo santo praticado, denotando uma adesão ao cristianismo bíblico primitivista.

Quando a pregadora Alma White esteve na Missão de Azusa ficou chocada quando viu brancos e negros saudando-se com ósculo. Glenn A. Cook, então ministro de uma congregação da Aliança Cristã e Missionária em Indianápolis, recebeu Seymour com um ósculo. A congregação racialmente integrada de Garfield Haywood causava espanto pelo ósculo trocado sem considerar as barreiras raciais. O ósculo serviu para reconhecer a irmandade global dos batizados no Espírito Santo, tal como o missionário pentecostal na África do Sul John G. Lake defendeu o pregador negro Elias Letwaba de racistas brancos, saudando-o com ósculo santo diante de toda a congregação. Gesto similar nos Estados Unidos ocorria quando o secretário e ancião da Igreja de Deus em Cristo, o teuto-americano William Holt saudava o pregador negro Charles H. Mason.

Entre pentecostais a prática diminuiu a partir da década de 1920 em diante, sendo praticada por denominações pentecostais italianas, Igrejas de Deus com os Sinais Seguindo, pentecostais eslavos, dentre outras.

BIBLIOGRAFIA

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Klassen W. “The Sacred Kiss in the New Testament: An Example of Social Boundary Lines”, NTS 39 (1993) 122–135, pp. 130–132.

Martin, Larry. The Life and Ministry of William J. Seymour and a History of the Azusa Street Revival. Joplin, MO: Christian Life Books, 1999.

Penn, M.P. Kissing Christians: Ritual and Community in the Late Ancient Church. Divinations: Rereading Late Ancient Religion), Philadelphia, PA, University of Pennsylvania Press, 2005, p. 19.

Perella, J. The Kiss Sacred and Profane. An Interpretative History of Kiss Symbolism and Related Religio-Erotic Themes. Berkeley: U. of Ca., 1969.

Oráculos de Histapes

O Oráculo de Histaspes é uma coleção de profecias atribuídas a Vištâspa (Vishtaspa, Hystapes), uma figura das escrituras e tradições zoroastrianas. A ele é atribuída uma obra apocalíptica.

Segundo o Avesta, o livro sagrado do zoroastrismo, Histaspes, rei de uma região identificada com Chorasmia e Aria, ofereceu refúgio a Zoroastro quando o profeta foi perseguido por seus adversários. Depois que Zoroastro demonstrou a superioridade de seus ensinamentos em um debate, Histaspes converteu-se à nova religião.

Os Oráculos de Histaspes ganharam popularidade no Império Romano durante os primeiros séculos dC. Acredita-se que o livro tenha sido escrito por um mago (sacerdote zoroastriano) que utilizou textos avésticos e elementos do folclore persa ou então seria uma propaganda do reino frígio (na Anatólia). Teria sido composto por volta de 140-90 a.C.. Contém profecias relacionadas ao fim do mundo e crenças apocalípticas com influências iranianas e helenísticas.

Notavelmente, os Oráculos de Histaspes foram mencionados por vários autores antigos, como Justino Mártir, Clemente de Alexandria, Lactâncio, Lydos, e Aristokritos, que forneceram resumos das profecias. Contudo, o livro permanece perdido.

Os oráculos diziam que quando as tribulações dos fins dos tempos estiverem no auge, os justos se separarão dos ímpios e fugirão para uma montanha. O rei maligno que domina o mundo ficará furioso ao saber disso e cercará a montanha com um grande exército. Os fiéis implorarão a ajuda de Deus. Eles serão ouvidos e Deus lhes enviará um salvador do céu que com seus seguidores resgatará os justos e destruirá os ímpios.

A existência da obra reflete o impacto das ideias apocalípticas persas no mundo greco-romano e seu significado em vários contextos religiosos, incluindo tradições cristãs, judaicas e zoroastrianas.

BIBLIOGRAFIA

DOBRORUKA, Vicente. “Mithridates and the Oracle of Hystaspes: Some Dating Issues.” Journal of the Royal Asiatic Society 30, no. 2 (2020): 179–94. doi:10.1017/S1356186319000464.

Eddy Samuel K. The King is Dead. Studies in the Near Eastern Resistance to Hellenism 334-31 b.c. Lincoln, 1961.

Flusser, David. “Hystaspes and John of Patmos” in: Judaism and the Origins of Christianity. Jerusalem, 1988.

Hinnells, John R. “A study of the oracle of Hystaspes” in: Sharpe, Eric J. and Hinnells, John R.. (eds.). Man and his Salvation: Studies in Memory of S.G.F.Brandon, Manchester, 1973, pp.125–148.

Windisch, Hans. Die Orakel des Hystaspes. Amsterdam: Koninklijke Akademie van Wetenschappen te Amsterdam, 1929.