Projeto Resgate

O Projeto Resgate na Congregação Cristã no Brasil é um programa de evangelização, discipulado e reconciliação focado na juventude.

Trata-se de um mutirão de visitas, tocadas, serviços de busca de dons e batismo. Grupos itinerantes coordenados realizam esses serviços em localidades requisitadas durante um final de semana.

O Projeto Resgate na CCB foi formalizado no final dos anos 2010 nos arredores da Grande São Paulo, mas iniciativas similares já vinham acontecendo em regiões como Arapongas (PR) desde os anos 1990.

Há uma atmosfera informal e uma busca para abraçar e encorajar os jovens parados, desigrejados ou novos na fé. O uso de violões e hinos avulsos são práticas comuns nesses eventos.

Proposta Rogers-McKim

Rogers/McKim Proposal ou a Proposta Rogers-McKim é uma doutrina acerca da autoridade bíblica que a Bíblia detém autoridade em questões de fé e conduta, mas pode conter erros em detalhes históricos ou científicos.

Baseando-se na distinção de inspiração da Bíblia por sua função em contraste de sua forma, como proposta pelo teólogo reformado holandêns G.C. Berkouwer, em 1979, os teólogos reformados evangélicos Jack B. Rogers e Donald McKim se uniram para escrever The Authority and Interpretation of the Bible: An Historical Approach. Rogers, professor do Fuller Theological Seminary, e McKim, membro visitante do Westminster College, investigaram como os teólogos ao longo da história perceberam a autoridade das Escrituras.

No século XIX, a doutrina da inerrância surgiu como uma inovação norteamericana liagada a teólogos de Princeton como B.B. Warfiel. Nessa versão, afirmavam que a Bíblia é inteiramente isenta de erros em todas as suas afirmações de fé e ciência, mas somente nos autógrafos originais. Rogers e McKim exploraram as influências filosóficas de Platão em uma recepção idealizada das Escrituras por teólogos como Lutero, contrastando-as com aqueles mais influenciadas por Aristóteles, como Francisco Turretin, que tendiam a basear a sua doutrina na razão em vez da fé e na ontologia em vez da função.

Rogers argumentou que a forma literária das Escrituras não pode ter autoridade devido à sua infinita variabilidade. Salientaram como Agostinho influenciou na formação de como a tradição da igreja entendia as Escrituras, enfatizando os ensinamentos pretendidos pelo Espírito em detrimento da precisão histórica técnica. Em razão disso, Agostinho não via problemas em considerar os seis dias da criação como alegóricos.

Os autores demonstraram como a Escolástica Protestante e Princeton afastaram-seda Doutrina da Inspiração dos Reformadores, substituindo-a por uma visão mecânica da inspiração. Os reformadores, como Calvino, enfatizaram a fé em busca de entendimento ao abordar a Bíblia. Acreditavam na acomodação da Bíblia para revelar a verdade sem exigir precisão absoluta em cada detalhe factual. 

Calvino, assim como Agostinho, aceitou os erros técnicos como parte dos meios de comunicação humana, aumentando o poder de persuasão da mensagem. Ele não esperava que a Bíblia fornecesse informações tecnicamente precisas sobre linguagem, história ou ciência, enfatizando o seu propósito de estabelecer um relacionamento correto com Deus. 

Os calvinistas holandeses, como Kuyper e Bavinck, seguiram o método agostiniano, colocando a fé antes da compreensão. Eles se concentraram em como Deus se relaciona com a humanidade, em vez de provar a existência de Deus através da razão.

Os Princetonianos, entretanto, introduziram uma inerrância focada na forma e não na função. Rogers e McKim defenderam a infalibilidade da função da Bíblia em trazer Cristo e a salvação. Reconheceram a vulnerabilidade da Bíblia como documento histórico e literário, mas enfatizaram a sua verdade infalível, enraizada no Deus eterno.

Meio às controvérsias teológicas e políticas dos anos 1970, os inerrantistas deram resposta. John D. Woodbridge escreveu “Biblical Authority: A Critique of the Rogers/McKim Proposal”. Nesta revisão erudita, Woodbridge desafiou muitas das premissas de Rogers e McKim, como demonstrar que Agostinho também tinha uma consideração mais elevada pela expressão verbal da Palavra. No entanto, esta crítica de Woodbrige não foi suficiente para rejeitar as conclusões da Proposta Rogers/McKim. No geral, Woodbridge criticou Rogers e McKim pontualmente em suas premissas, mas sem desafiar suas conclusões. Apesar de Woodbridge ter acusado Rogers e McKim de serem excessivamente seletivos nas citações, ele próprio apresentou as fontes de maneira seletiva. A publicação da Proposta Rogers/McKim durante a batalha pelas Bíblias e a Declaração de Chicago sobre a Inerrância Bíblica refletiu controvérsias em curso.

Em resumo, a proposta de Rogers/McKim esclareceu os diversos pontos de vista acerca dos pais da igreja, os doutores da igreja medieval e os reformadores em relação às Escrituras. Demonstraram que apenas citar declarações que afirmam a veracidade das Escrituras não equivale a alinhar-se com a inerrância fundamentalista americana moderna. Adicionalmente, os autores demonstraram como a Escolástica Protestante e Princeton afastaram-seda Doutrina da Inspiração dos Reformadores, substituindo-a por uma visão mecânica da inspiração. Os reformadores, como Calvino, enfatizaram a fé em busca de entendimento ao abordar a Bíblia. Acreditavam na acomodação da Bíblia para revelar a verdade sem exigir precisão absoluta em cada detalhe factual. Polêmicas mais tarde levariam à Declaração de Chicago sobre a Inerrância Bíblica.

A proposta Rogers/McKim pode ser chamada de inerrância funcional, inerrância limitada ou como uma forma de infabilidade bíblica.


BIBLIOGRAFIA

Bloesch, Donald. Holy Scripture: Revelation, Inspiration and Interpretation. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1994.

Rogers, Jack Bartlett., and Donald K. McKim. The Authority and Interpretation of the Bible: An Historical Approach. San Francisco: Harper & Row, 1979.

Apocalipse de Paulo

O Apocalipse de Paulo, também conhecido como Apocalypsis Pauli ou Visio Pauli, é um apocalipse não canônico que remonta ao século IV e faz parte dos apócrifos do Novo Testamento.

A versão grega original do texto está perdida, mas versões fragmentadas em traduções latinas e siríacas permitiram sua reconstrução.

O texto apresenta um relato detalhado de uma visão de Paulo, oferecendo percepções sobre o céu e o inferno. Embora não fosse aceito entre os líderes da Igreja, foi amplamente lido durante a Idade Média, moldando significativamente as crenças cristãs sobre a vida após a morte. A história inclui um elemento notável em que Paulo (ou a Virgem Maria, dependendo do manuscrito) convence Deus a conceder aos que estão no inferno um dia de folga todos os domingos.

O Apocalipse de Paulo apresenta autoria e data complexas, com a identidade do autor permanecendo desconhecida. A narrativa gira em torno de Paulo contando uma visão do céu e do inferno.

O texto é fortemente moralista e retrata o orgulho como a raiz de todo mal. Ele contém descrições do céu e do inferno, e vários anjos caídos e personagens são retratados em ambos os reinos. O texto enfoca questões internas do cristianismo, explorando recompensas e punições para os cristãos com base em suas ações e crenças.

Foi amplamente copiado e traduzido para vários idiomas, incluindo latim, siríaco, amárico, georgiano e outros. Influenciou as obras de autores notáveis como Dante Alighieri e Geoffrey Chaucer. A popularidade do texto entre os monges em particular contribuiu para seu impacto duradouro no pensamento cristão e nas crenças sobre a vida após a morte.

Predestinação

A predestinação é um conceito teológico que investiga a relação entre a presciência de Deus e o destino humano. Explora a ideia de que certos eventos, particularmente aqueles relativos à salvação ou condenação, são predeterminados por um poder divino.

O termo bíblico grego προορίζω (proorizó) geralmente é traduzido como predestinação e aparece em Atos 4:28; Romanos 8:29-30; 1 Coríntios 2:7; e Efésios 1:5, 11.

Tanto em filosofia quanto em teologia, predestinação é distinta tanto do determinismo quanto do fatalismo e está sujeita à livre decisão da vontade moral humana, mas também insiste que a salvação é inteiramente devida ao decreto eterno de Deus.

Na teologia ortodoxa grega e oriental, há uma concepção sinergística de que Deus predestinou para a salvação corporativamente aqueles cuja fé e méritos futuros que de Ele de antemão conheceu.

No Ocidente, há seis grandes perspectivas sobre predestinação. O tema ganhou proeminência na teologia de Agostinho de Hipona (354-430 dC). Tentando equilibrar e criticar o fatalismo dos maniqueístas e o livre arbítrio dos pelagianos, segundo Agostinho, a presciência de Deus e a graça divina determinam a salvação dos indivíduos. Ele argumentou que a humanidade, devido ao pecado original herdado de Adão e Eva, é incapaz de escolher a salvação por conta própria. Em vez disso, Deus elege certos indivíduos para a salvação, concedendo-lhes a graça, enquanto outros são deixados à sua merecida condenação.

A primeira grande perspectiva é agostiniana, também elaborada pelo segundo Concílio de Orange (529), bem como pelo pensamento de Aquino e Lutero. Essa teoria atribui a salvação dos humanos à graça imerecida de Deus e, portanto, à predestinação, mas credita a reprovação divina ao pecado e à culpa humanos. Tomás de Aquino (1225-1274) detalhou sobre a predestinação ao incorporar a filosofia aristotélica ao pensamento cristão. Argumentou que a predestinação de Deus seria baseada na presciência divina e no livre arbítrio humano. Segundo Tomás de Aquino, o conhecimento de Deus abrange todos os futuros possíveis, incluindo as escolhas feitas pelos indivíduos. Assim, a predestinação não é contrária à liberdade humana, pois o conhecimento de Deus não é causativo, mas antecipatório.

A próxima grande perspectiva ocidental é a de João Calvino (1509-1564), que enfatizou a doutrina da predestinação em seu sistema teológico. Com base nas ideias de Agostinho, as ideias de Calvino levam ao conceito de dupla predestinação, principalmente a partir de Theodore Beza, o Sínodo de Dort e o jansenismo. A implicação da soberania divina é que Deus não apenas escolhe alguns para a salvação, mas também predestina outros para a condenação. Como essa acepção parte do pressuposto de que a humanidade é inerentemente corrupta devido à queda, e a salvação é apenas um resultado da escolha soberana de Deus, não do mérito humano.

Jacó Armínio (1560-1609) criticou a doutrina da predestinação de Calvino e Beza, defendendo uma compreensão mais inclusiva da salvação. Armínio entendia predestinação como presciência, não determinismo. Propôs o conceito de eleição condicional, afirmando que a presciência de Deus é baseada em seu conhecimento da resposta humana à graça divina. Argumentou que a salvação está disponível para todos, e os indivíduos têm a liberdade de aceitar ou rejeitar a oferta da graça de Deus. Foi adotada por Wesley e grande parte do evangelicalismo anglo-americano.

Miguel de Molinos (1628-1696) apresentou uma perspectiva compatibilista sobre a predestinação. O teólogo espanhol defendeu a ideia de contemplação passiva e abandono à vontade de Deus, rejeitando a noção de participação humana ativa na salvação. Molinos acreditava que os indivíduos deveriam se entregar completamente à providência divina, confiando que a vontade de Deus guiaria seu destino. Suas ideias de compatibilismo poderiam ser resumidas assim: Deus predestina todos os eventos, mas dá livre arbítrio para os seres humanos, cujos atos coincidem com o plano divino.

Outra perspectiva, a de Moise Amyraut e Richard Baxter entende a predestinação como uma eleição universal hipotética. Nessa perspectiva Deus predestinou (decretou) salvar todos a humanidade, mas efetuada individualmente sob a condição de que se cresse na obra salvífica de Cristo.

Discussões atuais sobre predestinação exploram um conceito arquetípico sobre o tema. A ideia de predestinação corporativa enfatiza a eleição e o destino de uma entidade coletiva, como a Igreja ou o povo eleito de Israel. Destaca o plano redentor de Deus para a comunidade como um todo, em vez de focar apenas na salvação individual.

BIBLIBOGRAFIA

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Kame, Greg. Predestination: an introduction Reformed Soteriology. Wipf and Stock Publishers, 2021.

O’Neill, Taylor Patrick. Grace, Predestination, and the Permission of Sin : A Thomistic Analysis. The Catholic University OfAmerica Press, 2019.

Tkachenko, Rostislav. “Announcement of the Opinion of Jacob Arminius on Predestination, God’s Providence, Freedom of Choice, God’s Grace, the Divinity of the Son of God and the Justification of Man before God (Fragment 1).” Theological Reflections: Eastern European Journal of Theology, 18, 2, 2020, pp. 185–206.

Pecado mortal

O conceito de pecado “mortal”, “pecado de morte” ou “pecado que leva à morte” é um tanto vago. Contudo, o conceito reflete a crença dos tempos bíblicos que alguma forma o pecado tem consequências mortais.

A origem desse conceito hamartiológico encontra base nas expressões hebraicas que conectam ḥṭʾ (pecado/ofensa) com mwt (morrer/morte). Essa conexão é vista em várias passagens, como Números 18:22, Deuteronômio 21:22 e Ezequiel 3:20. O texto mais antigo que liga o pecado e a morte é provavelmente Amós 9:10 que afirma: “Todos os pecadores do meu povo morrerão à espada”.

O significado original e o contexto de “pecado mortal” são vistos em textos bíblicos como Deuteronômio 21:22 e 22:16, que dizem respeito a procedimentos judiciais civis, e Números 18:22 e 27:3, refletindo a lei sagrada. Outras passagens utilizam o conceito de pecado mortal em um contexto profético. É importante notar que, em um sentido mais amplo, todo pecado pode ser considerado “mortal” porque todas as pessoas morrem como consequência de algum pecado.

Numerosos textos bíblicos afirmam a conexão entre pecado e morte. Expressões como “cada um morrerá por causa do seu pecado” (Números 27:3; Deuteronômios 24:16; 2 Reis 14:6) ou “por causa da sua transgressão” (Josué 22:20; Ezequiel 4:17 ; 7:13, 16; 18:17, 20; 33:6, 8, 9; Gênesis 19:15) enfatizam a inevitabilidade da morte para o pecador. Diz-se que o pecador “carrega seu pecado”, implicando em assumir a responsabilidade ou a culpa por suas ações (Gn 4:13; Êx 28:43; Lv 5:1, 17; Nm 9:13; Ez 14: 10).

No Novo Testamento, o pecado mortal é mencionado em passagens difíceis. Em 1 João 5:16, é feita uma distinção entre o pecado que não leva à morte e o pecado que leva à morte. Um exemplo que ilustra as consequências de certos pecados que levam à morte é encontrado no relato de Ananias e Safira em Atos 5:1–10.

O Novo Testamento também faz referência a um pecado eterno ou imperdoável conhecido como blasfêmia contra o Espírito Santo. Esse pecado é especificado em passagens dos Evangelhos Sinópticos (Marcos 3:28–29, Mateus 12:31–32, Lucas 12:10), bem como em Hebreus 6:4–6, 10:26–31 e em algumas interpretações de 1 João 5:16.

EXCURSO: Interpretações acerca 1 João 5:16-17

  • Distinção entre gravidade do pecado: Esta visão sugere que existem duas categorias de pecado. Pecados menores, “que não levam à morte”, podem ser perdoados por meio da oração. Contudo, um pecado mais grave, que leva à morte, é imperdoável. A natureza específica do pecado imperdoável não é mencionada por João.
  • Foco no arrependimento: Outra interpretação enfatiza o coração do pecador. Se o pecado leva a um coração endurecido e à rejeição do perdão de Deus, torna-se um pecado “até a morte”. Por outro lado, um pecado cometido por fraqueza, com desejo de arrependimento, não é um pecado que leva à morte.
  • Identificação incerta: Algumas interpretações reconhecem a existência de um pecado imperdoável, mas argumentam que os humanos não podem determinar quais pecados se enquadram nesta categoria. Portanto, devemos orar sempre pelo arrependimento do pecador, deixando o julgamento para Deus.
  • Interpretação simbólica: Uma visão menos comum sugere que “morte” é simbólica, referindo-se à morte espiritual ou separação de Deus. Todos os pecados levam a esta separação, mas através da fé e do arrependimento, a pessoa pode ser restaurada à comunhão com Deus.
  • Alusão a pecados puníveis com pena capital na Lei Mosaica: Embora a Torá descreva vários crimes puníveis com morte, é importante ter em mente os diferentes propósitos. A Lei Mosaica serviu como código legal para os israelitas, descrevendo as ofensas sociais e suas punições. 1 João, parte do Novo Testamento, concentra-se na fé cristã e no perdão. Além disso, a passagem de 1 João parece mais preocupada com o estado interno do pecador (arrependimento versus coração endurecido) do que com ações específicas. A Lei Mosaica, por outro lado, trata das ações externas e da manutenção da ordem dentro da comunidade israelita. Contudo, pode haver uma conexão a ser estabelecida em termos da gravidade do pecado. Algumas interpretações de 1 João usam as ofensas capitais da Lei Mosaica como forma de ilustrar a gravidade do “pecado que leva à morte”. A ideia é que este pecado seja tão grave, ou até mais grave, do que as transgressões puníveis com a morte na Lei Mosaica.