Sui ipsius interpres

A frase latina sui ipsius interpres é uma fórmula doutrinária a qual postula que “as Escrituras interpretam as próprias Escrituras”.

Tal princípio hermenêutico popularizou-se com a Reforma, levando à rejeição de autoridades interpretativas externas às Escrituras. Assim, como a Bíblia interpreta a própria Bíblia, acendeu um foco interpretativo no próprio texto ao invés de formulações doutrinárias, tradição ou magistério da igreja.

O avanço da hermenêutica e da linguística do texto revelou certa limitação desse princípio. O contexto — tudo dentro e fora do texto capaz de elucidar o texto — foi reconhecido como crucial para uma acertada interpretação.

Storefront mission

Storefront mission ou storefront church são prédios comerciais que abrigam congregações, tipicamente nos grandes centros urbanos da América do Norte.

Coloquialmente chamadas de simplesmente “a missão”, compreendem qualquer estrutura reaproveitada para atividades religiosas que já foi utilizada para varejo comercial, incluindo lojas, teatros e vários tipos de casas. Apesar dos debates sobre a sua categorização, o termo prevalece nos bairros centrais das cidades dos Estados Unidos e desempenha um papel significativo no cenário cultural e religioso.

Após a Guerra Civil, os espaços do centro da cidade tornaram-se o lar de casas improvisadas de oração e serviços diaconais. Figuras como A.B. Simpson em Nova York e D.L. Moody, em Chicago, foram pioneiros em missões para migrantes, trabalhadores e pobres. Esta estratégia baseada na missão foi fundamental para o terceiro Grande Despertar.

Em Chicago destacaram-se a Pacific Garden Mission, as missões ligadas ao YMCA e ao movimento de Moody, as quais eram adenominacionais.

Michele Nardi e sua esposa Blanche adotaram uma abordagem semelhante. O casal alugavam salas em áreas urbanas lotadas para evangelização e serviços sociais. Foi assim em missões que fundaram nas pequenas itálias em Chicago, Pennsylvânia e Califórnia.

O pentecostalismo encontrou terreno fértil para esse tipo de instalação. A missão da Rua Azusa e outras nascidas de espaços comerciais reaproveitados. A missão de North Avenue e a missão italiana de West Grand Avenue em Chicago são outros exemplos. A missão Hebden em Toronto e o Glad Tidings Tabernacle em Nova York foram outros centros importantes que funcionaram como uma missão em salas comerciais. Estas missões, muitas vezes situadas no coração de bairros urbanos, desempenharam um papel crucial na disseminação do pentecostalismo durante os seus primeiros anos.

O movimento da missões em salas comerciais teve proliferação significativa dessas instituições entre o início dos anos 1900 e meados da década de 1930. Este período coincidiu com a migração em massa de afro-americanos do Sul rural para as áreas urbanas do Norte. Migrantes da Europa e da Ásia também utilizaram tais recrusos. As igrejas montras, neste contexto, podem ser vistas como movimentos de revitalização. Representam esforços deliberados, conscientes e organizados dos migrantes para adaptar as práticas religiosas rurais a um ambiente urbano.

Estas igrejas serviram como pontos de encontro comunitários vitais, ajudando na integração dos migrantes nos seus novos ambientes urbanos.

Apesar do seu papel positivo na construção e integração comunitária, as igrejas comerciais muitas vezes enfrentavam oposição dos residentes do bairro. Preocupações com a desvalorização de propriedades, aumento de multidões, interrupções no trânsito e ruído foram comumente expressas. Esta oposição destacou as tensões entre o desejo de expressão religiosa e os desafios práticos associados à presença destas igrejas em ambientes urbanos.

Bibliografia

  • HARVELL, Valeria G. The Storefront Church & Hip Hop Movements: Homiez from the Hood. The Journal of Pan African Studies, vol.3, no.9, p. 152-188, June-July 2010.
  • HARRISON, Ira E. “The Storefront Church as a Revitalization Movement.” Review of Religious Research, 7(3), p. 160-163, Spring 1966.
  • PARIS, Arthur E. Black Pentecostalism: Southern Religion in an Urban World. Amherst, MA: University of Massachusetts Press, 1982.
  • SERNETT, Milton C. Bound for The Promised Land: African American Religion and The Great Migration. Durham, NC: Duke University Press, 1997.
  • STEWART, Beverly. The History and Function of the Black Storefront Church in the Urban Community. Master’s thesis. Smith College, School for Social Work, 1974.

Sempiternidade

Sempiternidade refere-se à existência em todos os tempos em oposição à eternidade, entendida como existência fora do tempo. Seria uma duração temporal sem começo e sem fim.

Por vezes, o termo indica outro conceito: um estado eterno de existência, tendo um começo, mas sem fim. É usado para falar de anjos e almas em distinção da eternidade de Deus.

BIBLIOGRAFIA

Kneale, Martha. “Eternity and sempiternity.” Proceedings of the Aristotelian Society. Vol. 69. Aristotelian Society, Wiley, 1968.

Tomkinson, J. L. “Divine Sempiternity and Atemporality.” Religious Studies 18, no. 2 (1982): 177–189.

Supererrogação

Supererrogação é o ato de fazer mais do que o exigido pelo dever, obrigação ou necessidade. Também pode significar pagar mais do que o devido.

Historicamente enraizado na teologia católica romana, o conceito enfrentou críticas durante a Reforma, mas recuperou destaque na teoria ética. O debate sobre a supererrogação aborda se as ações além do dever possuem um valor moral distinto e como elas se relacionam com as principais teorias éticas.

Perspectivas Modernas se dividem em três variedades:

Anti-supererrogacionismo: Argumenta que todas as ações moralmente boas são obrigatórias, negando uma classe separada de ações moralmente boas além do dever.

Supererrogacionismo qualificado: reconhece ações além do dever, mas postula seu valor como derivado de deveres hipotéticos ou subjetivos, permitindo omissões desculpáveis.

Supererrogacionismo não qualificado: Afirma que as ações supererrogatórias superam inteiramente os requisitos morais, enfatizando seu valor único.

As três visões respondem ao paradoxo de como o bem moral pode existir além do dever. O anti-supererrogacionismo nega a possibilidade, o supererrogacionismo qualificado introduz condições para a força prescritiva do dever e o supererrogacionismo não qualificado afirma que a lacuna entre o “bom” e o “deve” permite uma categoria distinta de ações supererrogatórias.

O debate contemporâneo, embora desprovido do fervor das disputas religiosas históricas, centra-se na relação entre o “bom” e o “deve”. Embora não estejam envolvidos interesses políticos ou institucionais directos, as discussões aprofundam a natureza e a justificação dos actos supererrogatórios em vários contextos éticos.

A supererrogação desafia as principais teorias éticas, questionando se os utilitaristas podem aceitar ações obrigatórias abaixo do ideal, se os deontologistas podem reconhecer o valor moral das ações além do dever e como os especialistas em ética da virtude podem relacionar ações supererrogatórias a disposições de caráter específicas.