Gilberto Gorgulho

Gilberto da Silva Gorgulho (1933-2012), conhecido como Frei Gorgulho, foi um biblista brasileiro.

Sua contribuição para o estudo bíblico no Brasil inseri-se no movimento de leitura popular da Bíblia. Gorgulho foi um dos coordenadores, ao lado de Ivo Storniolo e Ana Flora Anderson, da edição em língua portuguesa da renomada Bíblia de Jerusalém, publicada pela Paulus em 2002 e atualizada em 2012. Além dessa obra de referência, Gorgulho foi coautor de outros livros e estudos bíblicos, incluindo trabalhos sobre os Evangelhos de Marcos e João, e o livro A Justiça dos Pobres – Mateus. Também se dedicou à preparação de “círculos bíblicos”, uma iniciativa que visava promover o estudo e a reflexão sobre a Bíblia em comunidades.

Além de sua produção bibliográfica na área da teologia e exegese bíblica, Gilberto da Silva Gorgulho foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e da Academia Goiana de Letras (AGL), além de Conselheiro do Conselho Estadual de Cultura de Goiás e fundador da Academia Itaberina de Letras e Artes (AILA).

Joannes Stobaeus

Joannes Stobaeus (século V – desconhecido), um compilador e antologista bizantino, responsável preservação de muito da sabedoria clássica e cristã por meio de sua monumental obra, o “Anthologion” (Florilegium ou Excerpta ex libris). Este compêndio é uma coleção vasta de extratos de diversos filósofos e poetas gregos, incluindo autores cristãos. Tornou-se uma fonte valiosa para o pensamento da Antiguidade Tardia.

O “Anthologion” foi originalmente compilado para seu filho, Septimius, com o propósito de educá-lo sobre a filosofia e a moral. A obra é dividida em quatro livros, que cobrem temas como ética, política, física e teologia. Cada livro é subdividido em capítulos. Cada capítulo contém uma série de citações de diferentes autores, muitas vezes introduzidas por uma breve contextualização ou comentário de Stobaeus. A amplitude e a diversidade das fontes citadas tornam o “Anthologion” uma fonte importante para o estudo de autores antigos cujas obras originais se perderam. Sem Stobaeus, grande parte do pensamento de figuras como Eurípides, Menandro e os filósofos estoicos e platônicos seria desconhecida. A inclusão de autores cristãos no “Anthologion” é particularmente notável.

Embora Stobaeus fosse um compilador e não um pensador original, a organização e a curadoria de seu “Anthologion” demonstra uma erudição filológica digna de nota.

Teologia ectipal

A teologia ectipal, um conceito na teologia reformada, refere-se ao conhecimento análogo e derivado de Deus que é estabelecido por Ele para a humanidade.

Diferente do conhecimento “arquetipal” (o conhecimento pleno e inerrante que Deus tem de Si mesmo), o conhecimento ectipal é uma comunicação da verdade divina que é acomodada à nossa compreensão humana, finita e pecaminosa. Essencialmente, é a maneira como Deus se revela a nós, adaptando Sua verdade infinita e complexa às nossas capacidades cognitivas limitadas, por meio de Sua Palavra revelada e de Sua providência.

Essa acomodação não implica que o conhecimento ectipal seja menos verdadeiro ou confiável; pelo contrário, ele é verdadeiro e suficiente para a salvação e para o viver piedoso, pois é o próprio Deus que o comunica. Ele nos permite ter um conhecimento genuíno de Deus, embora não exaustivo. A teologia ectipal reconhece que a linguagem humana, as categorias de pensamento e as experiências são moldadas por nossa finitude, e Deus, em Sua graça, utiliza esses meios para se relacionar conosco.

Em termos práticos, a teologia ectipal se manifesta nas Escrituras. A Bíblia seria a forma principal pela qual Deus revela Seu conhecimento ectipal. Os textos bíblicos usam linguagem humana, metáforas, narrativas e conceitos acessíveis para nos ensinar sobre a natureza de Deus, Seus atributos, Seus propósitos e Seus mandamentos. A revelação natural, por meio da criação, também oferece um conhecimento ectipal de Deus, embora de forma mais geral.

Este conceito serve para ressaltar tanto a transcendência de Deus (Seu conhecimento arquetipal é inatingível para nós em sua totalidade) quanto Sua imanência e graça (Ele escolhe se comunicar conosco de forma compreensível). Ao mesmo tempo, ele estabelece uma humildade epistemológica no estudo da teologia, reconhecendo que nossa compreensão de Deus é sempre parcial e mediada. A teologia ectipal, portanto, orienta o estudo bíblico e teológico a buscar a verdade revelada com reverência, sabendo que estamos lidando com um conhecimento divino que nos foi graciosamente concedido de uma forma que podemos apreender e que é, ao mesmo tempo, fiel à natureza inefável de Deus.

Megillat Antiochus

A Megillat Antiochus (מגילת אנטיוכוס), também conhecida por nomes como Megillat HaHashmonaim, Megillat Hanukkah ou Megillah Yevanit, é um livro apócrifo que narra a história do Hanukkah e as vitórias militares dos macabeus sobre os gregos selêucidas no século II a.C.

Embora compartilhe eventos com os Livros de Macabeus, ela se distingue por sua própria narrativa e elementos lendários. A obra foi originalmente composta na língua aramaica judaico-palestino, provavelmente entre os séculos II e V d.C., com uma tradução hebraica literal surgindo por volta do século VII. Algumas fontes sugerem que sua composição visava promover a observância do Hanukkah na Baixa Mesopotâmia, possivelmente em resposta à ascensão do Caraísmo, que rejeitava as tradições orais rabínicas.

O texto da Megillat Antiochus começa com uma descrição da grandeza de Antíoco e sua campanha contra Jerusalém, incluindo a profanação do Templo e a proibição de práticas judaicas essenciais como o sábado, o Rosh Chodesh e a circuncisão. A narrativa prossegue com os atos heroicos dos macabeus, destacando figuras como João, filho de Matatias, e suas vitórias contra os generais gregos, como Nicanor e Bagris. Ao final, a Megillah relata a purificação do Templo e o milagre do azeite, que, insuficiente para um dia, durou oito, instituindo assim a festa de Hanukkah.

Apesar de sua importância cultural e litúrgica para algumas comunidades judaicas, especialmente as iemenitas e, historicamente, as italianas, que a liam publicamente no Hanukkah de maneira semelhante à leitura do Livro de Ester no Purim, a Megillat Antiochus não é considerada canônica e contém anacronismos e imprecisões históricas. Por exemplo, ela descreve Antioquia como uma cidade costeira, atribui a João, filho de Matatias, o título de Sumo Sacerdote e uma longevidade do reinado de Antíoco que não se alinha com outras fontes históricas. A presença de passagens copiadas do Primeiro Livro dos Macabeus, juntamente com a adição de lendas talmúdicas, sugere uma compilação posterior com propósitos devocionais e edificantes, e não um relato estritamente histórico. No entanto, sua ampla circulação em manuscritos e edições antigas da Bíblia hebraica demonstra seu significado na tradição judaica medieval, mesmo que as comunidades fossem advertidas a não proferir uma bênção antes de sua leitura.

Constituição Dogmática Dei Verbum

A Constituição Dogmática Dei Verbum, promulgada pelo Papa Paulo VI em 18 de novembro de 1965, durante o Concílio Vaticano II, expressa a compreensão católica da Revelação Divina e da Sagrada Escritura.

Este documento conciliar, em continuidade com os Concílios de Trento e Vaticano I, visa apresentar a doutrina sobre como Deus se comunica com a humanidade e como essa comunicação é transmitida e compreendida pela Igreja Católica.

A Dei Verbum considera que a Revelação não é meramente um conjunto de verdades abstratas, mas um ato de amor de Deus que se dá a conhecer a si mesmo aos homens, convidando-os à comunhão. Essa “economia da revelação” se manifesta por meio de ações e palavras que estão intrinsecamente ligadas, onde as obras de Deus na história da salvação confirmam a doutrina, e as palavras, por sua vez, elucidam as obras e o mistério nelas contido.

A plenitude e a mediação de toda a Revelação encontram-se em Cristo, o Verbo encarnado. A Constituição aborda a transmissão da Revelação divina, destacando o papel dos apóstolos e seus sucessores como transmissores do Evangelho. Sublinha a íntima conexão e interpenetração entre a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura, ambas emanando da mesma fonte divina, formando um todo e convergindo para o mesmo fim.

Assim, para os católicos, a Igreja alcança a certeza sobre o que foi revelado não apenas pela Escritura, mas também pela Tradição, que devem ser recebidas com igual espírito de piedade e reverência.

O documento dedica capítulos específicos à inspiração divina e à interpretação da Sagrada Escritura, reconhecendo que, embora as palavras de Deus sejam expressas em linguagem humana, o Espírito Santo assiste a Igreja na compreensão e na atualização da Palavra de Deus. A historicidade dos Evangelhos é afirmada sem hesitação, e a Igreja é encorajada a venerar as Escrituras, promovendo seu estudo e difusão para que a Palavra de Deus se espalhe e encha os corações dos fiéis.

A Dei Verbum atribui importância do Antigo Testamento como preparação para a vinda de Cristo. Já o Novo Testamento seria manifestação plena da Palavra de Deus em Jesus Cristo. O documento, que culmina com a exortação à Igreja para que a Sagrada Escritura seja a alma da Teologia, estimula o aprofundamento da Palavra de Deus, inclusive através da tradução da Bíblia para todas as línguas, visando o bem da Igreja e de toda a humanidade.