Atrição

Atrição ou contrição imperfeita é a tristeza e aversão ao pecado motivada pela malícia do pecado ou pelo medo do inferno e dos castigos de Deus.

Alan de Lille (m. 1202) considera a atrição um descontentamento pelo pecado, mas não profundo o suficiente para levar o pecador a um firme propósito de arrempendimento genuino.

Sinterese

Sinterese, Sinteresia ou sintérese (συντήρησιν) é um termo teológico para descrever um aspecto da consciência de alguém pelo qual se pode julgar o certo do errado e decidir o que constitui uma boa conduta em oposição à sineidese.

Aparece no Comentário sobre Ezequiel de Jerônimo. A sinterese seria um dos poderes da alma e é descrita como a centelha da consciência (scintilla conscientiae). O conceito de Jerônimo foi debatido por Alberto Magno e Tomás de Aquino com bases aristotélicas. Boaventura a considerou como a inclinação natural da vontade para o bem moral.

VEJA TAMBÉM

Yetzer ha-Ra’

Valerie Saiving

Valerie Saiving (1921–1992) foi uma teóloga feminista americana, cujo influente ensaio, “The Human Situation: A Feminine View” (1960) foi um marco nos estudos de gêneros.

Publicado como um artigo de 18 páginas no The Journal of Religion, o ensaio de Saiving ofereceu uma crítica da teologia contemporânea por meio de observações psicológicas. Destacou as expectativas contrastantes colocadas em meninas e meninos. Enquanto as meninas são ensinadas que se tornariam mulheres naturalmente, os meninos são socializados para provar constantemente sua masculinidade.

Saiving questionou a interpretação cristã agostiniana do pecado, argumentando que ele refletia principalmente as experiências masculinas e abordava inadequadamente as realidades da maioria das mulheres. Defendeu uma redefinição radical do pecado que reconhecesse a experiência feminina distinta e encorajasse as mulheres a se afirmarem como indivíduos. Questionou o que aconteceria com a teologia se as experiências das mulheres por mulheres – ou por teólogas – fossem discutidas e tivessem um lugar dentro da teologia. Apontou até que ponto os temas teológicos foram até então abordados a partir de uma perspectiva masculina, ‘androcêntrica’, e tomaram forma na teologia dominante.

Apesar de ser respeitado dentro da teologia feminista, o trabalho de Saiving tem sido muitas vezes negligenciado pelos teólogos em posições hegemônicas. O ensaio de Saiving continua a moldar a teologia feminista e a contribuir para discussões sobre soteriologia, hamartiologia e antropologia teológica.

Depois de obter seu bacharelado em teologia e psicologia no Bates College em 1943, Saiving obteve seu doutorado na University of Chicago Divinity School. Ela co-fundou o Departamento de Estudos Religiosos e o programa de Estudos Femininos nas Faculdades Hobart e William Smith.

Pecado mortal

O conceito de pecado “mortal”, “pecado de morte” ou “pecado que leva à morte” é um tanto vago. Contudo, o conceito reflete a crença dos tempos bíblicos que alguma forma o pecado tem consequências mortais.

A origem desse conceito hamartiológico encontra base nas expressões hebraicas que conectam ḥṭʾ (pecado/ofensa) com mwt (morrer/morte). Essa conexão é vista em várias passagens, como Números 18:22, Deuteronômio 21:22 e Ezequiel 3:20. O texto mais antigo que liga o pecado e a morte é provavelmente Amós 9:10 que afirma: “Todos os pecadores do meu povo morrerão à espada”.

O significado original e o contexto de “pecado mortal” são vistos em textos bíblicos como Deuteronômio 21:22 e 22:16, que dizem respeito a procedimentos judiciais civis, e Números 18:22 e 27:3, refletindo a lei sagrada. Outras passagens utilizam o conceito de pecado mortal em um contexto profético. É importante notar que, em um sentido mais amplo, todo pecado pode ser considerado “mortal” porque todas as pessoas morrem como consequência de algum pecado.

Numerosos textos bíblicos afirmam a conexão entre pecado e morte. Expressões como “cada um morrerá por causa do seu pecado” (Números 27:3; Deuteronômios 24:16; 2 Reis 14:6) ou “por causa da sua transgressão” (Josué 22:20; Ezequiel 4:17 ; 7:13, 16; 18:17, 20; 33:6, 8, 9; Gênesis 19:15) enfatizam a inevitabilidade da morte para o pecador. Diz-se que o pecador “carrega seu pecado”, implicando em assumir a responsabilidade ou a culpa por suas ações (Gn 4:13; Êx 28:43; Lv 5:1, 17; Nm 9:13; Ez 14: 10).

No Novo Testamento, o pecado mortal é mencionado em passagens difíceis. Em 1 João 5:16, é feita uma distinção entre o pecado que não leva à morte e o pecado que leva à morte. Um exemplo que ilustra as consequências de certos pecados que levam à morte é encontrado no relato de Ananias e Safira em Atos 5:1–10.

O Novo Testamento também faz referência a um pecado eterno ou imperdoável conhecido como blasfêmia contra o Espírito Santo. Esse pecado é especificado em passagens dos Evangelhos Sinópticos (Marcos 3:28–29, Mateus 12:31–32, Lucas 12:10), bem como em Hebreus 6:4–6, 10:26–31 e em algumas interpretações de 1 João 5:16.

EXCURSO: Interpretações acerca 1 João 5:16-17

  • Distinção entre gravidade do pecado: Esta visão sugere que existem duas categorias de pecado. Pecados menores, “que não levam à morte”, podem ser perdoados por meio da oração. Contudo, um pecado mais grave, que leva à morte, é imperdoável. A natureza específica do pecado imperdoável não é mencionada por João.
  • Foco no arrependimento: Outra interpretação enfatiza o coração do pecador. Se o pecado leva a um coração endurecido e à rejeição do perdão de Deus, torna-se um pecado “até a morte”. Por outro lado, um pecado cometido por fraqueza, com desejo de arrependimento, não é um pecado que leva à morte.
  • Identificação incerta: Algumas interpretações reconhecem a existência de um pecado imperdoável, mas argumentam que os humanos não podem determinar quais pecados se enquadram nesta categoria. Portanto, devemos orar sempre pelo arrependimento do pecador, deixando o julgamento para Deus.
  • Interpretação simbólica: Uma visão menos comum sugere que “morte” é simbólica, referindo-se à morte espiritual ou separação de Deus. Todos os pecados levam a esta separação, mas através da fé e do arrependimento, a pessoa pode ser restaurada à comunhão com Deus.
  • Alusão a pecados puníveis com pena capital na Lei Mosaica: Embora a Torá descreva vários crimes puníveis com morte, é importante ter em mente os diferentes propósitos. A Lei Mosaica serviu como código legal para os israelitas, descrevendo as ofensas sociais e suas punições. 1 João, parte do Novo Testamento, concentra-se na fé cristã e no perdão. Além disso, a passagem de 1 João parece mais preocupada com o estado interno do pecador (arrependimento versus coração endurecido) do que com ações específicas. A Lei Mosaica, por outro lado, trata das ações externas e da manutenção da ordem dentro da comunidade israelita. Contudo, pode haver uma conexão a ser estabelecida em termos da gravidade do pecado. Algumas interpretações de 1 João usam as ofensas capitais da Lei Mosaica como forma de ilustrar a gravidade do “pecado que leva à morte”. A ideia é que este pecado seja tão grave, ou até mais grave, do que as transgressões puníveis com a morte na Lei Mosaica.

Yetzer ha-Ra’

Yetzer ha-Ra’, em hebraico יֵצֶר הַרַע, é o conceito judaico de inclinação ou impulso para o mal. O conceito é derivado de Gn 6:5, 8:21.

No pensamento rabínico, Deus fez as inclinações boas (Yetzer Ṭob ou Yetzer Ha-tov) e más (Yetzer ha-Ra’). No entanto, mesmo este último tem alguma bondade, porque a humanidade então ordena o amor de Deus. Ambas as inclinações são inerentes à humanidade e não interagem de forma dissociada. Juntos, eles ajudam a criar a vida humana pelos interesses da ânsia de lucrar, casar, ter filhos, comer e beber. É similar ao conceito de vícios privados, benefícios públicos da fabula abelhas de Bernard de Mandeville.

Segundo os rabinos, o Yetzer ha-Ra’ tem sete nomes diferentes na Bíblia: mal (Gn 8:21); incircunciso (Dt 10:16); impuro (Sl 51:12); inimigo (Pv 25: 21); pedra de tropeço (Is 57:14); pedra (Ez 36:26); e oculto (Jl 3:20). É popularmente identificado com as concupiscências da carne, vingança, avareza, traquinagem infantil, ira, violência, vaidade, idolatria, inveja e outros atos reprováveis.

Mais tarde, na Idade Média, o conceito foi identificado com Satanás e com o anjo da morte (B. B. 16a; comp. Maimônides, “Moreh”, 3. 12, 3. 22).

O Yetzer ha-Ra’ não é de origem humana ou demoníaca, mas tem Deus como o Criador de tudo. O ser humano é responsável por ceder à sua influência. Com as instruções de Deus (Torá), a humanidade é capaz de resistir às más inclinações e fazer o bem. O ser humano nasce com esse impulso maligno até que surge aos treze anos, o Yetzer Ha-tov, uma inclinação contrabalançada para o bem.

De acordo com Rabi Jonathan, o Yetzer, como Satanás, engana o homem neste mundo e testemunha contra ele no mundo vindouro (Suk. 52b). No entanto, distingue-se de Satanás. Em outras ocasiões é apresentado como paralelo ao pecado. (Gen. Rabbah 22; a parábola de 2 Sm 12. 4). Deus finalmente destruirá o Yetzer ha-Ra’, como prometido em Ez 36:26.

O termo “yetzer” aparece tanto em Dt 31:21 e em Is 26:3 para a disposição da mente. No Judaísmo do Segundo Templo, essa inclinação tornou-se mais cristalizada em Siraque 15:14: “Deus criou o homem desde o princípio… e o entregou nas mãos de seu Yetzer.” (Cf. Siraque 6:22; Ed 4:8, Rm 7:7-24)

O conceito de pecado original não existe no judaísmo no sentido de a queda de Adão ter transmitido malícia e culpa à posterioridade humana. Adão e Eva já tinham a inclinação para o mal, mas o pecado de desobediência não foi motivado pela Yetzer ha-ra’. Antes, na escolha deles sopesou as duas Yetzer. Por vezes, as noções de depravação humana irremediável ou de concupiscência no cristianismo são comparáveis com o conceito de Yetzer ha-Ra’.

VER TAMBÉM

BIBLIOGRAFIA

Allen, Wayne. Thinking about Good and Evil. JPS Essential Judaism. Lincoln: Jewish Publication Society, 2021. 

Rosen-Zvi, Ishay. Demonic Desires. Divinations: Rereading Late Ancient Religion. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2011.

Rosen-Zvi, Ishay. “Refuting the Yetzer: The Evil Inclination and the Limits of Rabbinic Discourse.” The Journal of Jewish Thought & Philosophy 17, no. 2 (2009): 117-41.

Sol, Adam. “”Were It Not for the Yetzer Hara”: Eating, Knowledge, and the Physical in Jonathan Rosen’s “Eve’s Apple”.” Shofar (West Lafayette, Ind.) 22, no. 3 (2004): 95-103.

Towers, Susanna. “The Rabbis, Gender, and the Yetzer Hara: The Origins and Development of the Evil Inclination.” Women in Judaism 15, no. 2 (2018): 1.

“Yeẓer ha ra'”  Jewish Encyclopedia.