Zofar

Zofar (“jovem pássaro”), o naamatida. Naamá é um local incerto, mas com algumas alusões bíblicas.

Zofar é um dos amigos de Jó e interlocutor de alguns diálogos. (Jó 2:11; 11; 20; 27:13-23). Enquanto Elifaz (Jó 4:1-5:27, 15:1-35, 22:1-30) e Bildade (Jó 8:1-22, 18:1-21, 25:1:5) debateram com Jó três vezes, Zofar fala duas vezes (Jó 11:1-20, 20:1-29). Em comum, seguem a teoria do mundo justo, culpando o sofrimento de Jó pelo resultado de algum pecado.

Enxúndia

Enxúndia; substantivo camada gordurosa em um animal, tecido adiposo. No latim anxugia (de onde vem essa palavra) refere-se à gordura leve, geralmente encontrada ao redor dos rins, distinta de outras formas de gordura como adeptos ou sebo.

Ocorre uma só vez como um arcaísmo na versão Almeida Revista e Corrigida em Jó 15:27 para traduzir פימה (pimah), que por sua vez é uma hapax legômena, mas cognato do árabe fa’ima, engordar ou ser gordo.

Habitantes das cavernas

Os habitantes das cavernas ou trogloditas (grego: Τρωγλοδύται) são pessoas de diversos grupos étnicos que fizeram de cavernas naturais ou escavadas suas habitações.

Durante o mesolítico, a cultura Natufiana (13 050-7 750 a.C.) adotou uma vida semi-sedentária, abrigando-se em cavernas e acampamentos. Sua economia baseava-se na colheita de grãos selvagens para produzir pão e cerveja e na caça de gazelas. Domesticavam cachorros e demonstravam hierarquização social em seus cemitérios. Essa cultura recebe o nome de seu principal sítio arqueológico, Natuf, onde está a Caverna de Shuqba, a 28 km a noroeste de Jerusalém nas montanhas da Judeia. Na caverna de Ain Sakhri (Belém) foi encontrada uma das mais antigas esculturas representando um casal, os Amantes de Ain Sakhri (9 000 a.C.).

O uso de cavernas para moradias e aldeias continuou depois da emergência de sociedades sedentárias a partir do neolítico.

Como outras regiões com longa história de uso de cavernas e grutas para habitações (Capadócia, os pueblos do Sudoeste americano, os sassi de Matera na Itália, as vilas escavadas da Tunísia, Uplistsikhe), a região sul da Palestina, Jordânia e norte da Arábia foi o lar de povos como os midianitas, thamud, edomitas e nabateus. A grandiosidades dos sítios de Madain Saleh e Petra ainda causa admiração dos visitantes.

Apesar de as cavernas de Altamira e Lascaux revelarem a sensibilidades dos habitantes das cavernas, o habitantes das aldeias e cidades edificadas passaram a discriminar esses moradores como rústicos.

O livro de Jó menciona:

1Mas agora se riem de mim os de menos idade do que eu, e cujos pais eu teria desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho. 2De que também me serviria a força das suas mãos, força de homens cuja velhice esgotou-lhes o vigor? 3De míngua e fome se debilitaram; e recolhiam-se para os lugares secos, tenebrosos, assolados e desertos. 4Apanhavam malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento eram raízes dos zimbros. 5Do meio dos homens eram expulsos (gritava-se contra eles como contra um ladrão), 6para habitarem nos barrancos dos vales e nas cavernas da terra e das rochas. 7Bramavam entre os arbustos e ajuntavam-se debaixo das urtigas. 8Eram filhos de doidos e filhos de gente sem nome e da terra eram expulsos. Jó 30:1-6.

Em vários locais do mundo da Antiguidade são mencionados habitantes das cavernas por geógrafos e historiadores gregos e romanos, incluindo Heródoto, Agatárquides, Diodoro Sículo, Estrabão, Plínio, Josefo, Tácito (século I dC), Cláudio Aeliano e Porfírio.

O bispo Filastro de Bréscia (d.397), em seu Liber de haeresis, PL 12;1126 infere a partir de Ezequiel que havia habitantes das cavernas na Judeia que praticavam uma religião idólatra.

A vida em cavernas se mantém constante na região até os dias atuais.

No distrito de Masafer Yatta, na parte sul da Cisjordânia, cerca de 1.500 palestinos em uma dezena de aldeias vivem em cavernas.

De acordo com a pesquisa de Ali Qleibo, um antropólogo palestino que estuda essas comunidades, as tribos do sul de Jerusalém aos arredores de Berseba eram todas comunidades de habitantes das cavernas até o século XIX. Ali Qleibo registra a prática de oferendas de alimentos em altares, blocos rústicos de pedra, ainda praticado por essa população, embora não identifiquem tais atos como violação dos preceitos do islam.

BIBLIOGRAFIA

Al Jazeera. The last cave dwellers of Palestine. 2015. https://www.aljazeera.com/gallery/2015/8/8/the-last-cave-dwellers-of-palestine/

Arábia

Na Bíblia, a Arábia — em hebraico עֲרָב, arav; em grego Ἀραβία, Arabia — se refere às regiões habitadas por povos semitas árabes, normalmente os nômades e moradores de vilas em oásis nos desertos da Arábia.

Os árabes são chamados de “povo do Oriente” (Jz 6:3). Eram sociedades pastoralistas, linhageiras e divididas em clãs e tribos, algumas das quais são mencionadas na Bíblia: amalequitas, buzitas, dedanitas, hagaritas, ismaelitas, cadmonitas, quedaritas, queneus, meunitas, midianitas, naamatitas, sabeus e suitas.

No Antigo Testamento, a Arábia é retratada como uma região de reinos e tribos nômades, como os kedaritas, mencionados em Isaías 60:7 e Jeremias 49:28-29, conhecidos por sua habilidade com o arco e flecha (Isaías 21:17) e seu envolvimento no comércio de especiarias e incensos (Ezequiel 27:21).

A influência do reino de Israel se estendia à Arábia, evidenciada pela menção em 1 Reis 10:15 e 2 Crônicas 9:14 de que “reis da Arábia” prestariam tributo a Salomão. Profetas como Isaías (21:13-16) e Jeremias (25:24) proferem oráculos contra a Arábia, prevendo sua destruição. Ezequiel 27:21 retrata a Arábia como parceira comercial de Tiro, evidenciando sua participação nas rotas comerciais da antiguidade.

A Arábia também figura na história de Neemias, que enfrenta oposição de Geshem, o árabe (Neemias 2:19; 6:1-2, 6), durante a reconstrução dos muros de Jerusalém. Geshem, provavelmente um líder tribal ou oficial persa, tenta impedir a obra, acusando os judeus de rebelião. Essa passagem ilustra as tensões entre judeus e seus vizinhos árabes durante o domínio persa.

No Novo Testamento, a única menção explícita à Arábia ocorre em Gálatas 1:17, quando Paulo relata sua ida à Arábia após sua conversão. Em Gálatas 4:25, Paulo menciona o monte Sinai, normalmente associado com a Arábia.

Além das menções de passagens na Bíblia, é provável que os provérbios de Agur e de Lemuel, bem como a história de Jó, tenham origem e sejam ambientadas na Arábia.

Desde a última glaciação a Arábia vem se tornando um dos maiores e mais secos desertos do mundo. Esse processo se intensficou por volta 4000 a.C. levando à migração de povos para áreas mais úmidas no Crescente Fértil, oásis pela península arábica e na região montanhosa do sul, onde são hoje o Iêmem e Omã.

O reino de Dilmun, na região do golfo persa, desenvolveria contemporaneamente à Suméria e à civilização do vale do Indo. No entanto, até cerca de 1000 a.C. quando se disseminou o camelo domesticado, a maior parte desta região não suportava nenhuma população humana significativa. O deserto não permitia nem mesmo manter rotas de comércio.

A partir da Idade do Ferro surgem reinos de Sabá e de Maʿīn no sul e Dedã no norte. Já contemporâneos aos períodos helenista e romano, floresceram os reinos Nabateu e Ghassânida na região norte da península. Na região central destacavam-se cidades entrepostos e centros religiosos como Meca e Medina. A subistência dependia do pastoreio de ovelhas e do comércio incenso, intermediando rotas de caravanas desde as regiões costeiras do Oceano Índico à Crescente Fértil.

A região abrigou povos de culturas e origens diversas. Teorias de que a Arábia seria o berço da cultura semítica ou que reúne todos os árabes a só uma origem étnica hoje são descartadas pela antropologia, arqueologia e estudos genéticos.

A religião árabe variou muito em sua história. O culto do deus ‘il ou ‘ilah (equivalentes ao hebraico El e Eloá) era dominante, mas havia outros deuses em seu panteão. Todavia mais tarde surgiram formas de monoteísmo nativo (hanif), bem como formas de judaísmos e cristianismos, antes do advento do Islã no século VII d.C. Outras divindades incluíam o deus-lua Ilumquh dos sabeus, cuja esposa era a deusa do sol Shamsi, e seu filho era ‘Athtar, a estrela da manhã. Os nabateus possuíam um panteão com Dushara, o deus supremo; Allat, a deusa-mãe; Hadad, o deus da tempestade; Atargatis, a deusa-peixe; e Gad, o deus da sorte. Imagens de suas divindades esculpidas em pedra eram veneradas. Acreditavam que no deserto habitavam vários espíritos ou demônios, os jinn, de onde veio a palavra gênio. Seus rituais religiosos incluíam a circuncisão e peregrinação. Sacrifícios e consulta a oráculos sagrados (como o urim e tumim para os israelitas) eram papéis dos sacerdotes, os kāhin, como no hebraico kōhēn, os quais faziam ofertas de alimentos, animais e incenso em altares de pedra.

Os geógrafos gregos e romanos dividiam a península arábica em três componentes. A Arabia Petrea ficava ao sul da Síria, Sinai e oeste do Jordão, com centro em Petra (a Selá bíblica). A localização da Arabia Deserta (Arabia Eremos em grego) varia: às vezes indicava a região norte do Deserto da Arábia, entre o Eufrates e o Jordão, às vezes era a região central da Pensínula. Já a Arabia Felix (Arabia Eudaimon em grego, uma tradução de El-Iêmen) referia-se à região então verde do sul da Península.

Apesar de as mais antigas inscrições em árabes remontarem do século VIII a.C., somente no período abássida em diante (séc. IX d.C.) os povos da árabia tornaram-se sociedades letradas, ainda com restrições. As escritas mais antigas procedem do sabeu, da qual surgiram o ge’ez da Etiópia, o lihyânico, thamúdico e o safaítico, o nabateu, o cúfico e o árabe clássico — essas últimas derivadas e influenciadas pelo aramaico. As inscrições epigráficas nessas escritas ainda não foram totalmente coletadas e sistematizadas.

Sabeus

Os sabeus (grego antigo Σαβαίοι ou em hebraico סבאים) eram um antigo povo semita do sudoeste da Península Arábica , onde hoje é o Iêmen.

No Antigo Testamento, os sabeus aparecem como negociantes de incenso (Jr 6:20, Isa 60:6, cf. Gn 25:1-6, Joel 4:8). É famosa a visita da Rainha de Sabá a Salomão (1 Reis 10:1-13, 2 Cr 9:1-12). Os sabeus seriam um dos povos que atacaram Jó (Jó 1:15; 6:19).

A civilização de Sabá emergiu na Idade do Ferro. Alguns estudiosos pensam o estado sabeu surgiu por volta de 1200 a.C., enquanto as pesquisas mais recentes apontam para c. 800 a.C. O Império Sabeu durou até 275 d.C., quando foram dominados pelos estados himiaritas, também do Iêmen.

Nos anais dos assírios, os sabeus são mencionados pela primeira vez em 730 aC. Os gregos conheciam os sabeus como comerciantes de incenso e mirra.

A língua comum dos sabeus e himiaritas era o sabaeu, um dialeto do antigo árabe do sul. O antigo árabe do sul foi largamente falado no sudoeste da Península Arábica até o século X, sendo relacionado com as línguas etíopes. É atestado com cerca de 6.000 inscrições. Seus únicos remanescentes contemporâneos são as línguas razihi e faifi faladas no noroeste do Iêmen.