Habitantes das cavernas

Os habitantes das cavernas ou trogloditas (grego: Τρωγλοδύται) são pessoas de diversos grupos étnicos que fizeram de cavernas naturais ou escavadas suas habitações.

Durante o mesolítico, a cultura Natufiana (13 050-7 750 a.C.) adotou uma vida semi-sedentária, abrigando-se em cavernas e acampamentos. Sua economia baseava-se na colheita de grãos selvagens para produzir pão e cerveja e na caça de gazelas. Domesticavam cachorros e demonstravam hierarquização social em seus cemitérios. Essa cultura recebe o nome de seu principal sítio arqueológico, Natuf, onde está a Caverna de Shuqba, a 28 km a noroeste de Jerusalém nas montanhas da Judeia. Na caverna de Ain Sakhri (Belém) foi encontrada uma das mais antigas esculturas representando um casal, os Amantes de Ain Sakhri (9 000 a.C.).

O uso de cavernas para moradias e aldeias continuou depois da emergência de sociedades sedentárias a partir do neolítico.

Como outras regiões com longa história de uso de cavernas e grutas para habitações (Capadócia, os pueblos do Sudoeste americano, os sassi de Matera na Itália, as vilas escavadas da Tunísia, Uplistsikhe), a região sul da Palestina, Jordânia e norte da Arábia foi o lar de povos como os midianitas, thamud, edomitas e nabateus. Os sítios de Madain Saleh e Petra ainda causam admiração dos visitantes por suas grandiosidades.

Apesar de as cavernas de Altamira e Lascaux revelarem a sensibilidades dos habitantes das cavernas, o habitantes das aldeias e cidades edificadas passaram a discriminar esses moradores como rústicos.

O livro de Jó menciona:

1Mas agora se riem de mim os de menos idade do que eu, e cujos pais eu teria desdenhado de pôr com os cães do meu rebanho. 2De que também me serviria a força das suas mãos, força de homens cuja velhice esgotou-lhes o vigor? 3De míngua e fome se debilitaram; e recolhiam-se para os lugares secos, tenebrosos, assolados e desertos. 4Apanhavam malvas junto aos arbustos, e o seu mantimento eram raízes dos zimbros. 5Do meio dos homens eram expulsos (gritava-se contra eles como contra um ladrão), 6para habitarem nos barrancos dos vales e nas cavernas da terra e das rochas. 7Bramavam entre os arbustos e ajuntavam-se debaixo das urtigas. 8Eram filhos de doidos e filhos de gente sem nome e da terra eram expulsos. Jó 30:1-6.

Em vários locais do mundo da Antiguidade são mencionados habitantes das cavernas por geógrafos e historiadores gregos e romanos, incluindo Heródoto, Agatárquides, Diodoro Sículo, Estrabão, Plínio, Josefo, Tácito (século I dC), Cláudio Aeliano, Porfírio.

A vida em cavernas se mantém constante na região até os dias atuais.

No distrito de Masafer Yatta, na parte sul da Cisjordânia, cerca de 1.500 palestinos em uma dezena de aldeias vivem em cavernas.

De acordo com a pesquisa de Ali Qleibo, um antropólogo palestino que estuda essas comunidades, as tribos do sul de Jerusalém aos arredores de Berseba eram todas comunidades de habitantes das cavernas até o século XIX. Ali Qleibo registra a prática de oferendas de alimentos em altares, blocos rústicos de pedra, ainda praticado por essa população, embora não identifiquem tais atos como violação dos preceitos do islam.

BIBLIOGRAFIA

Al Jazeera. The last cave dwellers of Palestine. 2015. https://www.aljazeera.com/gallery/2015/8/8/the-last-cave-dwellers-of-palestine/

Arábia

Na Bíblia, a Arábia se refere às regiões habitadas por povos semitas árabes, normalmente os nômades e moradores de vilas em oásis nos desertos da Arábia.

Os árabes são chamados de “povo do Oriente” (Jz 6:3). Eram sociedades pastoralistas, linhageiras e divididas em clãs e tribos, algumas das quais são mencionadas na Bíblia : amalequitas, buzitas, dedanitas, hagaritas, ismaelitas, cadmonitas, quedaritas, queneus, meunitas, midianitas, naamatitas, sabeus e suitas.

Além das menções de passagens na Bíblia, é provável que os provérbios de Agur e de Lemuel, bem como a história de Jó tenham origem e sejam ambientadas na Arábia.

Desde a última glaciação a Arábia vem se tornando um dos maiores e mais secos desertos do mundo. Esse processo se intensficou por volta 4000 a.C. levando à migração de povos para áreas mais úmidas no Crescente Fértil, oásis pela península arábica e na região montanhosa do sul, onde são hoje o Iêmem e Omã. O reino de Dilmun, na região do golfo persa, desenvolveria contemporaneamente à Suméria e à civilização do vale do Indo. No entanto, até cerca de 1000 a.C. quando se disseminou o camelo domesticado, a maior parte desta região não suportava nenhuma população humana significativa. O deserto não permitia nem mesmo manter rotas de comércio.

A partir da Idade do Ferro surgem reinos de Sabá e de Maʿīn no sul e Dedã no norte. Já contemporâneos aos períodos helenista e romano, floresceram os reinos Nabateu e Ghassânida na região norte da península. Na região central destacavam-se cidades entrepostos e centros religiosos como Meca e Medina. A subistência dependia do pastoreio de ovelhas e do comércio incenso e intermediando rotas de caravanas desde as regiões costeiras do Oceano Índico à Crescente Fértil.

A região abrigou povos de culturas e origens diversas. Teorias de que a Arábia seria o berço da cultura semítica ou que reúne todos os árabes a só uma origem étnica hoje são descartadas pela antropologia, arqueologia e estudos genéticos.

A religião árabe variou muito em sua história. O culto do deus ‘il ou ‘ilah (equivalentes ao hebaico El e Eloá) era dominante, mas havia outros deuses em seu panteão, embora mais tarde surgisse formas de monoteísmo nativo (hanif), bem como formas de judaísmos e cristianismos, antes do advento do Islã no século VII d.C. Outras divindades incluíam o deus-lua Ilumquh dos sabeus, cuja esposa era a deusa do sol Shamsi, e seu filho era ‘Athtar, a estrela da manhã. Os nabateus possuíam um panteão com Dushara, o deus supremo; Allat, a deusa-mãe; Hadad, o deus da tempestade; Atargatis, a deusa-peixe; e Gad, o deus da sorte. Imagens de suas divindades esculpidas em pedra eram veneradas. Acreditavam que no deserto habitavam vários espíritos ou demônios, os jinn, de onde veio a palavra gênio. Seus rituais religiosos incluíam a circuncisão e peregrinação. Sacrifícios e consulta a oráculos sagrados (como o urim e tumim) eram papéis dos sacerdotes, os kāhin, como no hebraico kōhēn, os quais faziam ofertas de alimentos, animais e incenso em altares de pedra.

Os geógrafos gregos e romanos dividiam a península arábica em três componentes. A Arabia Petrea ficava ao sul da Síria, Sinai e oeste do Jordão, com centro em Petra (a Selá bíblica). A localização da Arabia Deserta (Arabia Eremos em grego) varia: às vezes indicava a região norte do Deserto da Arábia, entre o Eufrates e o Jordão, às vezes era a região central da Pensínula. Já a Arabia Felix (Arabia Eudaimon em grego, uma tradução de El-Iêmen) referia-se à região então verde do sul da Península.

Apesar de as mais antigas inscrições em árabes remontarem do século VIII a.C., somente no período abássida em diante (séc. IX d.C.) os povos da árabia tornaram-se socieades letradas, ainda com restrições. As escritas mais antigas procedem do sabeu, da qual surgiram o ge’ez da Etiópia, o lihyânico, thamúdico e o safaítico, o nabateu, o cúfico e o árabe clássico — essas últimas derivadas e influenciadas pelo aramaico. As inscrições epigráficas nessas escritas ainda não foram totalmente coletadas e sistematizadas.

Livro de Jó

O livro de Jó é uma série de discursos e diálogos que exploram as questões do sofrimento imerecido, o problema da teodiceia (por que há o mal no mundo), a natureza e o propósito da vida piedosa. A provação e restauração de Jó, bem como sua paciência, se tornaram proverbiais.

Está classificado na Bíblia Hebraica entre os Escritos (Ketuvim ou Hagiógrafos) e nas Bíblias protestantes como livro poético ou sapiencial, situado entre os livros históricos e proféticos.

COMPOSIÇÃO E CONTEXTO

É uma obra anônima. Uma nota final presente na Septuaginta referencia uma versão siríaca que localiza Uz em Edom e Jó como descendente de Esaú. Essa hipótese edomita tem apoio de materiais pseudepígrafos e do targum de Jó de Qumran. Autores recentes como Pfeiffer e Amzallag defendem essa hipótese. Edom era conhecido por sua sabedoria (Jeremias 49: 7; Obadias 8; 1 Reis 4:30).

Situar o tempo e cena da narrativa, bem como o local e época de sua composição ou textualização são tarefas conjecturais, dado a ausência de informações. As alusões na parte poética ao ferro como um material cotidiano (Jó 19:24; 20:24; 28:2; 40:18; 41:27) situa a narrativa na Idade do Ferro (1200–550 a.C.). Tal período é congruente com as alusões aos sabeus (Jó 1:15) que emergiram como povo entre 1200-800 a.C. e existiram como estado até 275 d.C. Embora a terra de Uz seja desconhecida, vários costumes (sacrifícios patriarcais, Jó 1: 5; agropastoralismo de oásis; as filhas receberem herança junto com os filhos, Jó 42:15) bem como ausência de menções aos israelitas, ambienta Jó em uma região fora do antigo Israel. Fora do livro, Jó é mencionado em Ezequiel 14: 14–20 e Tiago 5:11.

A linguagem do livro é complexa e cheia de singularidades. Esse caráter excepcional de estilo e linguagem, com muitos termos desconhecidos levaram às hipóteses de serem aramaísmos, uma suposta tradução de outra língua, arcaísmos ou uma variante dialetal, sobretudo edomita. O prólogo e epílogo são em prosa, com uma linguagem equiparada à de outros livros da Hagiógrafa (Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Eclesiastes) do período persa, com uma notória ausência de aramaísmos. No epílogo há menção de uma unidade monetária, a quesitá (Jó 42:11), a qual aparece apenas em Gênesis 33:19 e Josué 24:32. Já na parte em poesia abundam linguagem peculiares e hapax legomena, especialmente nas falas de Deus. Foi sugerido que a obra teria sido escrita originalmente em um dialeto edomeu, árabe ou uma variante arcaica do hebraico e depois traduzida para o hebraico em sua forma canônica.

Outra tradição situa Jó no período patriarcal e atribui autoria a Moisés. Essa hipótese aparece de forma contraditória no Talmud (Bava Batra 14b-15a), com poucos biblistas contemporâneos (como Christensen ou Sarna) considerando plausível sua antiguidade anterior à Idade do Ferro.

I. Prólogo (em prosa): a calamidade de Jó (Jó 1-2)

II. Poema (Jó 3-42:6)

a. Solilóquio de abertura de Jó (Jó 3)

b. Diálogos com amigos (Jó 4-27)

1. Primeiro ciclo de diálogos (Jó 4-14)

2. Segundo ciclo de diálogos (Jó15-21)

3. Terceiro ciclo de diálogos (Jó 22-27)

c. Monólogos (Jó 28-37)

1. Meditação sobre a inacessibilidade da sabedoria (Jó 28)

2. O solilóquio final de Jó e alegações finais (Jó 29-31)

3.  O discurso de Eliú (Jó 32-37)

d. Diálogos com Deus (Jó 38: 1-42: 6)

1. A primeira resposta de Deus no redemoinho (Jó 38: 1-40: 2)

2. A primeira resposta de Jó (Jó 40: 3-5)

3. A segunda resposta de Deus (Jó 40: 6-41: 34)

4. A segunda resposta de Jó (Jó 42: 1-6)

III. Epílogo (em prosa): restauração de Jó (Jó 42: 7-17)

SAIBA MAIS

Amzallag, Nissim. Esau in Jerusalem: The Rise of a Seirite Religious Elite in
Zion in the Persian Period.
Cahiers de la Revue Biblique 85. Pendé, J.
Gabalda et Cie, 2015.

Bloom, Harold. The Book of Job. Chelsea House Publishers, 1988.

Christensen, Duane L. “Job and the age of the patriarchs in Old Testament narrative.” Perspectives in religious studies 13.3 (1986): 225-228.

Foster, Frank H. “Is the Book of Job a Translation from an Arabic Original?” The American Journal of Semitic Languages and Literatures, 49 (1932) 21–45.1932. p.651.

Hurvitz, Avi “The Date of the Prose-Tale of Job Linguistically Reconsidered,” HTR 67 (1974): 17–34.

Peiffer, Robert “Edomite Wisdom,” ZAW 44 (1926): 13-25.

Pfeiffer, Robert. Introduction to the Old Testament. New York: Harper & Brothers, 1941, p. 670.

Sarna, Nahum M. Understanding Genesis. Vol. 1. Heritage of Biblical Israel, 1966, p. 84.

Tur Sinai, Naphtali H. The Book of Job: A New Commentary. Jerusalem: Kiryath Sepher, 1967.


COMO REFERENCIAR

ALVES, Leonardo Marcondes (ed.). Livro de Jó. Círculo de Cultura Bíblica, 2021. Disponível em:  https://circulodeculturabiblica.org/2021/07/04/livro-de-jo/ Acesso em: 04 jul. 2021.