Sui ipsius interpres

A frase latina sui ipsius interpres é uma fórmula doutrinária a qual postula que “as Escrituras interpretam as próprias Escrituras”.

Tal princípio hermenêutico popularizou-se com a Reforma, levando à rejeição de autoridades interpretativas externas às Escrituras. Assim, como a Bíblia interpreta a própria Bíblia, acendeu um foco interpretativo no próprio texto ao invés de formulações doutrinárias, tradição ou magistério da igreja.

O avanço da hermenêutica e da linguística do texto revelou certa limitação desse princípio. O contexto — tudo dentro e fora do texto capaz de elucidar o texto — foi reconhecido como crucial para uma acertada interpretação.

Sursum Corda

O Sursum corda, em latim “Elevai os vossos corações”, é o diálogo de abertura do Prefácio da Oração Eucarística ou Anáfora em várias liturgias cristãs.

O termo e a prática remontam pelo menos ao século III e à Anáfora da Tradição Apostólica. É dirigida pelo celebrante à congregação. A resposta é: ‘Habemus ad Dominum’, tradicionalmente traduzido como ‘Nós os elevamos ao Senhor’

Versões latinas

As versões da Bíblia em latim são traduções feitas para essa língua, sendo importante para o culto e formulação teológica das igrejas ocidentais.

VETUS LATINA OU ÍTALA

A Vetus Latina ou Ítala refere-se às diversas traduções feitas desde o final do século II d.C. até o século IV por vários tradutores anônimos.

Alguns subgrupos são identificáveis. Haveria as versões norte-africanas, como o códex Bobiensis, Códex Palatinus e as citações de Cipriano. Outra vertente seriam do latim europeu, como o Códex Veromensis e o Códex Colbertinus.

As edições impressas da Vetus Latina remontam desde 1750, quando Petrus Sabatier publicou “Bibliorum sacrorum latinae versiones antiquae”. Mais de um século depois, Carlo Vercellone lançou “Variae lectiones Vulgatae latinae editionis Bibliorum” em Roma de 1860 a 1864. Finalmente, o Vetus-Latina-Institut em Beuron, Alemanha, iniciou o trabalho de publicação de edições críticas esde 1945, com die Reste der altlateinischen Bibel, possuindo 10 livros publicados até 2020.

VULGATA

A Vulgata foi uma revisão de partes da Vetus Latina ou traduções originais, obra de Jerônimo finalizada no início do século V.

Jerônimo fez duas traduções para o salmos, embora a versão anterior (versio romana) também continuasse a circular junto da coletânea da Vulgata. No Novo Testamento fez uma versão dos evangelhos e manteve a versão Vetus Latina de Atos, epístolas paulinas e universais e Apocalipse.

O livro de Salmos possui mais versões adaptadas ao uso litúrgico:

  • Psalterio Cyprianico – recensão norte-africana do qual resta fragmentos citados em Cipriano de Cartago, sendo utilizado pelos donatistas. É o possível que a quarta coluna do Saltério do Monte Cassino (Ms. Cas. 557) seja essa versão.
  • Romana – o equivalente à Vetus Latina.
  • Ambrosiana – saltério preservado no rito ambrosiano de Milão.
  • Mozarábe – saltério preservado no rito moçárabe de Toledo.
  • Gallicana – versão de Jerônimo com base na Septuaginta Hexapla. É o saltério da Vulgata Sixto-Clementina.
  • Juxta Hebraicum – versão de Jerônimo com base nos textos hebraicos.
  • Saltérios metrificados – feitos no século XVI como exercício neolatinos e para canto. Às vezes acompanham os livros de Cantares e Lamentações.
  • Piana – feita no século XX, também conhecida como e Bea psalter, Psalterium Vaticanum ou Novum Psalterium, por encomenda de Pio XII.
  • Nova Vulgata – feita no século XX, com base no Texto Massorético.

Apesar de seu caráter semi-oficial, a Vulgata de Jerônimo levou ainda tempo para ganhar aceitação. Até o século XII, essa versão competia com a Vetus Latina.

Com a publicação da Vulgata Sixto-Clementina em 1592 padronizou-se essa versão e diminuiu o interesse por novas traduções. Todavia, ainda seguiram-se outras edições. O dominicano Tomaso Malvenda fez uma nova tradução até Ez 16:16, quando faleceu, sendo publicada postumamente em 1650. Uma nova tradução completa foi feita por Sebastian Schmidt em 1696.

A revisão da Vulgata, promulgada como oficial para a Igreja Católica como Nova Vulgata em 1979, é a mais recente versão latina.

Dentre as versões impressas destacam-se

  • Bíblia de Gutenberg (1452/54),
  • Poliglota Compultense (1514),
  • 4ª edição da vulgata de Erasmo (1527),
  • Edição da Vulgata de Wittenberg (1529),
  • Edição Vulgata de Robert Stephanus (1540), edição Vulgata de Leuven (1547), edição Vulgata de Christopher Plantinus (1583). Posteriormente, os médicos da Sorbonne atacaram duramente as tendências luteranas de algumas notas da Bíblia de Estienne. As notas da Bíblia de Estienne são um modelo de exegese literária e crítica clara, concisa.
  • Edição Sixtina da Vulgata (1590),
  • Edição Clementina da Vulgata (1592),
  • Edição Wordsworth-White da Vulgata (1889-1954)
  • Edição de Stuttgart da Vulgata (1994).

OUTRAS VERSÕES LATINAS

O Renascimento e a Reforma deram novos ímpetos para novas traduções latinas. No século XIV Lorenzo Valla anotou vários problemas de tradução e edição na Vulgata. Com base nessas anotações, Erasmo fez uma edição crítica do Novo Testamento acompanhada de uma nova versão latina, a Novum Instrumentum omne. Uma revisão dessa versão Erasmo foi feita pelo anabatista holandês Galterus Deloenus: Testamentum Novum Latinum em 1540. Nessa mesma época saiu a Septuaginta Latina interlinear e o Tergum em latim por Alfonso de Alcalá na Poliglota Complutense.

Pagninus publicou em 1527 uma nova versão, totalmente baseada nos textos hebraicos e gregos, a Veteris et Novi Testamenti nova translatio. Essa edição muito literal seria a primeira com divisão em versos, embora o sistema de Pagninus não tenha predominado.

Bíblia de Zurique, de Leo Jud, contava com uma versão ao texto latino padrão da Vulgata. Os teólogos de Salamanca, com a autorização da Inquisição espanhola, publicaram uma nova edição completamente revisada deles na sua Bíblia latina de 1584.

Novo Testamento grego e latino publicado por Jan Jansson, editor e cartógrafo cristão.

Outras versões latinas apareceram durante a Reforma: Sebastian Münster (Velho Testamento), Theodore Beza (Novo Testamento), Sebastian Castellio (Completa), Immanuel Tremellius (Velho Testamento com os Deuterocanônicos, esses por seu genro Junius).

Sensus fidei

Sensus fidei é um termo latino usado na teologia católica para se referir ao “sentido dos fiéis”.

Sensus fidei descreve a capacidade instintiva de toda a comunidade de crentes para discernir a verdade da doutrina cristã. O sensus fidei surge da orientação do Espírito Santo e da experiência de fé compartilhada pela comunidade. Os católicos acreditam que o sensus fidei é um aspecto essencial da autoridade docente da Igreja e serve como um controle sobre as decisões do magistério. A Igreja Católica acredita que o Espírito Santo orienta o sensus fidei dos fiéis para reconhecer a verdade da doutrina cristã, e não pode errar em matéria de crença. O sensus fidei também pode ser referido como o “consenso dos fiéis”, que enfatiza a natureza coletiva do processo de discernimento.

BIBLIOGRAFIA

Burkhard, John J. Burkhard, “Sensus Fidei: Theological Reflection since Vatican II: 1: 1965-1984,” Heythrop Journal 34 ( 1993).

Kerkhofs, Jan. “Le peuple de Dieu est-il infallible? L’Importance du sensu fidelium dan I’tgiise post-conciliaire,” Freiburger Zeitschrift flier Philosphie und Theologie 35 (1988): 3-19.

Tillard, J. M. R. Tillard, “Sensus Fidelium,”One in Christ 11 (1975): 2-29.

Munus Triplex

Munus Triplex ou os três ofícios de Cristo é um conceito teológico que ensina que Cristo cumpre três ofícios como Salvador: Profeta, Sacerdote e Rei.

Cristo é o Profeta que ensina e revela a verdade de Deus; o Sacerdote que se oferece em sacrifício pela remissão dos pecados; e o Rei que reina sobre toda a criação.

A doutrina tem raízes na Idade Média e tornou-se padrão na Reforma Protestante. Foi abraçado por várias tradições teológicas, incluindo reformada, luterana e anglicana. Foi um conceito estruturante na teologia de Karl Barth.

As referências bíblicas para a doutrina Munus Triplex podem ser encontradas em todo o Antigo e Novo Testamento, como:

  • Profeta: Deuteronômio 18:15; Mateus 13:57; João 6:14; Hebreus 1:1-2.
  • Sacerdote: Salmo 110:4; Hebreus 4:14-16; 9:11-14.
  • Rei: Salmo 2:6; Mateus 28:18; Colossenses 1:15-20.

Em Zacarias 6:12-13 há a expectativa de um rei justo que fundiria seu papel com o sacerdócio do templo.