Rasgar roupas

O ato de rasgar as roupas na tradição bíblica expressa profunda tristeza ou arrependimento diante de eventos marcantes, como morte ou calamidade.

A prática, conhecida no hebraico como “qeṟi’ath begadim”, aparece em diversas narrativas bíblicas. Rubem, ao descobrir que José estava desaparecido, rasgou suas roupas em sinal de angústia (Gênesis 37:29). Os filhos de Jacó repetiram o gesto ao enfrentar uma grave acusação no Egito (Gênesis 44:13). Em outra ocasião, um mensageiro que trouxe a notícia da derrota de Israel e da morte de Hofni e Finéias para Eli também realizou esse ato (1 Samuel 4:12).

Além de expressar luto, rasgar as roupas era uma forma de demonstrar indignação ou pesar diante de circunstâncias que desafiassem a fé ou a ordem divina. Em Números 14:6, Josué e Calebe rasgaram suas vestes como resposta à rebelião dos israelitas contra Deus. O rei Davi, ao ouvir que seu filho Absalão havia matado seus irmãos, manifestou sua dor com o mesmo gesto (2 Samuel 13:31).

No Novo Testamento, o sumo sacerdote Caifás rasgou suas vestes ao ouvir Jesus declarar sua identidade messiânica, considerando suas palavras como blasfêmia (Mateus 26:65). Esse exemplo revela o uso do ato como uma expressão de protesto diante de declarações ou eventos considerados ultrajantes.

Walter Brueggemann

Walter Brueggemann (1933-2025) foi um biblista e teólogo congregacionalista americano.

Como exegeta, Brueggemann investigou o Antigo Testamento. Escreveu vários comentários acerca de diversos livros do Antigo Testamento. Neles, combinou uma análise pela tradição profética hebraica e mediante a imaginação sociopolítica da Igreja.

Em sua teologia, Brueggeman enxerga na Igreja a missão de fornecer uma contra-narrativa para as forças dominantes do consumismo, militarismo e nacionalismo.

Central para o pensamento de Brueggemann é o conceito de imaginação profética, introduzido em seu livro de 1978, The Prophetic Imagination. Ele argumenta que os profetas bíblicos, como Moisés, Jeremias e Isaías, não eram meros adivinhos, mas vozes alternativas que se levantavam contra sistemas opressores dominantes, sejam eles o Faraó do Egito, a monarquia corrupta de Israel ou os impérios invasores.

A imaginação profética opera em duas frentes principais: primeiro, ela envolve a crítica da consciência dominante, desmascarando as ideologias desumanizadoras que sustentam o poder político e econômico. Segundo, ela canaliza a energia para a realidade alternativa, articulando esperança e novas possibilidades enraizadas na aliança e na justiça de Deus. Brueggemann salienta que a linguagem poética é fundamental para essa tarefa profética, pois as metáforas, lamentações e doxologias dos profetas rompem com o pensamento convencional e abrem espaço para novas visões.

Brueggemann consistentemente sublinha a centralidade da aliança na fé bíblica, seja a aliança abraâmica, mosaica ou davídica. Para ele, a aliança estabelece o fundamento relacional da conexão de Yahweh com Israel, caracterizada por fidelidade e obrigações mútuas.

Essa teologia da aliança não é meramente histórica; ela possui uma ética subversiva intrínseca. Ao priorizar a justiça para os vulneráveis — viúvas, órfãos e imigrantes — a aliança desafia e subverte sistemas exploradores. Consequentemente, a tensão com o império é uma característica recorrente da identidade da aliança de Israel, que frequentemente entra em conflito com potências imperiais como o Egito, a Babilônia e Roma.

Brueggemann aborda as Escrituras não como um texto estático, mas como uma conversa contínua. O biblista reconhece a presença de testemunho e contra-testemunho dentro da Bíblia, onde vozes diversas, por vezes conflitantes, apresentam diferentes facetas de Deus — justo e misterioso, presente e ausente.

Sua abordagem é marcada por uma interpretação pós-crítica, que integra métodos histórico-críticos com leituras literárias e teológicas, valorizando o poder transformador do texto. Para Brueggemann, a Escritura funciona como um roteiro, oferecendo um guia para uma vida fiel e convidando as comunidades a reimaginar suas próprias histórias dentro de sua vasta estrutura.

Brueggemann revitalizou a teologia do lamento, notavelmente em The Message of the Psalms (1984). Argumentava que o luto, expresso nos salmos de lamento, é necessário para perturbar um otimismo falso e superficial, abrindo caminho para uma esperança autêntica. Para ele, a esperança não é uma passividade, mas um ato de resistência contra o desespero, firmemente enraizado nas promessas e nos atos libertadores de Deus, como o Êxodo, o retorno do Exílio e a Ressurreição.

A teologia de Brueggemann não se restringe ao domínio acadêmico; ela se estende a um engajamento com questões sociais contemporâneas. Foi um crítico ferrenho da justiça econômica moderna, denunciando o neoliberalismo e o consumismo e defendendo uma redistribuição mais equitativa dos recursos, como explorado em God, Neighbor, Empire (2016).

Além disso, Brueggemann incorporou a ecoteologia em seu pensamento. Aliava o cuidado com a criação como uma responsabilidade intrínseca à aliança de Deus. Também promovia ativamente a promoção da paz, questionando o militarismo e a violência com base nas tradições proféticas da Bíblia.

A influência de Brueggemann se estende à pregação e ao ministério. Encorajava os pregadores a ver a pregação como subversão, desafiando as suposições culturais dominantes e capacitando as vozes marginalizadas. Sua teologia pastoral enfatiza o papel vital da igreja no cultivo de comunidades alternativas de esperança, onde a fidelidade a Deus se manifesta em práticas de justiça e compaixão.

BIBLIOGRAFIA SELETA
Brueggeman, Walter. The Prophetic Imagination (1978).

Brueggeman, Walter. Theology of the Old Testament (1997)

Brueggeman, Walter. The Message of the Psalms (1984)

Brueggeman, Walter. Sabbath as Resistance (2014).

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