Profecia

A profecia, enquanto forma de comunicação divina, desempenhou um papel crucial na história de Israel e no desenvolvimento da fé cristã. Este artigo explorará o conceito de profecia na Bíblia, seu contexto histórico e cultural, os diferentes tipos de profecia e sua relevância para a compreensão da mensagem bíblica.

Definição e Tipos de Profecia:

A profecia pode ser definida como uma mensagem divina oral, mediada por um indivíduo, direcionada a uma pessoa ou grupo de pessoas e destinada a provocar uma resposta específica. No Antigo Testamento e no antigo Oriente Próximo, a profecia era uma forma de adivinhação, mas em Israel a crença na autoridade exclusiva de Yahweh limitava a aceitação de outras formas de comunicação divina.

Existem dois tipos principais de profecia: predição, que anuncia eventos futuros, e admoestação, que pode ser acusatória ou exhortatória. As profecias de predição incluem oráculos contra as nações, previsões de desastres e promessas de salvação. As profecias de admoestação podem ser acusações de rebeldia, anúncios de julgamento iminente, exortações ao arrependimento ou mensagens de conforto e esperança.

Alguns profetas, como Jeremias, Oséias e Ezequiel, utilizavam ações simbólicas para comunicar a mensagem divina. Essas ações, como rasgar um manto ou quebrar um jugo, serviam para dramatizar a mensagem e torná-la mais impactante.

Profecia no Antigo Testamento

A profecia no Antigo Testamento geralmente se concentrava no futuro imediato, com predições relevantes para a geração contemporânea ao profeta. No entanto, algumas profecias podem ter tido um “duplo cumprimento”, com implicações para o futuro distante, como a interpretação cristã de Isaías 42:1-4 como uma referência a Jesus. A datação dos textos proféticos e a questão da autoria influenciam a interpretação do alcance temporal das profecias.

A Bíblia não detalha como os profetas recebiam suas mensagens, mas sugere que a música, os sonhos e as visões podem ter desempenhado um papel. Alguns profetas pertenciam a guildas proféticas, enquanto outros eram ligados à corte real ou agiam de forma independente. A figura do profeta era geralmente associada à estrutura de autoridade religiosa, embora alguns profetas, como Amós, se apresentassem como independentes do establishment religioso.

O exílio babilônico marcou um ponto de virada na tradição profética israelita. Os profetas pré-exílicos, como Isaías e Jeremias, se concentravam em preservar as tradições religiosas, promover mudanças sociais e anunciar oráculos contra os inimigos de Israel. Os profetas exílicos e pós-exílicos, como Ezequiel e Ageu, se voltaram para a comunidade exilada, prometendo restauração e reconstrução. A profecia pós-exílica se tornou mais escatológica, com foco na restauração final de Israel e na vinda do reino de Deus.

No período pré-clássico, a profecia se dirigia principalmente aos reis e líderes militares, enquanto no período clássico os profetas se voltaram para o povo como um todo. Os profetas clássicos, como Isaías e Jeremias, buscavam advertir o povo sobre o juízo divino e exortá-lo ao arrependimento.

A profecia em Israel visava provocar uma resposta específica do público, como arrependimento, confiança em Deus ou ação concreta. A validade de um profeta era geralmente determinada pelo cumprimento de suas predições, embora a distinção entre “verdadeiro” e “falso” profeta fosse frequentemente retrospectiva.

Profecia no Novo Testamento:

No Novo Testamento, o termo “profeta” é usado em referência aos profetas do Antigo Testamento, a Jesus e João Batista, aos profetas que lideravam a igreja primitiva e ao fenômeno da profecia experimentado pelos primeiros cristãos. Jesus é apresentado como um profeta semelhante a Moisés, e os profetas da igreja primitiva desempenhavam um papel importante na edificação da comunidade. A profecia no Novo Testamento se assemelha mais à “fala inspirada” do que às predições específicas do Antigo Testamento.

A profecia no Novo Testamento se desenvolveu em um contexto de múltiplas influências: a tradição profética do Antigo Testamento, a profecia greco-romana e a profecia judaica do Segundo Templo. Na Grécia Antiga, o termo “profeta” se referia a um ofício religioso, como o Oráculo de Delfos, a indivíduos que proclamavam oráculos e a porta-vozes oficiais. A profecia greco-romana se diferenciava da profecia bíblica por sua ênfase na adivinhação técnica e na institucionalização em templos e santuários.

O livro de Apocalipse é geralmente classificado como literatura apocalíptica, embora alguns estudiosos o considerem profecia. A falta de pseudonímia, o endereço direto à comunidade e a ênfase na ação divina no presente são características que o aproximam da literatura profética. No entanto, a presença de elementos apocalípticos, como visões, revelações angelicais e linguagem simbólica, justifica sua classificação como apocalipse.

No judaísmo do Segundo Templo, a crença na cessação da profecia após Malaquias era comum, embora houvesse grupos que esperavam o retorno de um profeta escatológico. A profecia nesse período se manifestava em diferentes formas, como o apocalipticismo, o movimento escatológico, a profecia clerical e a profecia sapiencial.

A igreja primitiva valorizava a profecia e reconhecia a autoridade dos profetas, que podiam ser pregadores itinerantes, membros de comunidades locais ou indivíduos inspirados sem posição oficial na igreja. Escritos como as cartas de Inácio de Antioquia, a Didache e o Pastor de Hermas oferecem informações valiosas sobre a prática da profecia na igreja primitiva. O crescimento de falsos profetas e as disputas doutrinárias levaram a uma crescente cautela em relação à profecia, e após a rejeição do montanismo, a profecia cristã se tornou rara.

Nissinen, Martti. Ancient prophecy: Near Eastern, biblical, and Greek perspectives. Oxford University Press, 2017.

Setenta semanas de Daniel

A profecia das 70 semanas de Daniel 9:24-27 é uma debatida. No geral, não são interpretados como semanas literais, mas simbólicas para eras indefinidas ou período de tempos precisos. Existem várias interpretações possíveis:

  1. Visão Preterista: as 70 semanas seriam uma previsão profética já cumprida. As 70 semanas representam 490 anos (70 semanas x 7 dias). Vários eventos históricos do século VI aC ao século I dC são apontado como o cumprimento da profecia, como a reconstrução de Jerusalém, a purificação do Templo sob os Macabeus, a chegada de uma figura do Messias (interpretada de várias maneiras) e a destruição do Segundo Templo em 70 dC.
  2. Visão Futurista: As 70 semanas seriam uma profecia futura que ainda não foi cumprida. As 70 semanas representam literais 490 anos em uma época futura no fim dos tempos. Frequentemente, conectam a profecia com conceitos como o Anticristo, a Grande Tribulação e a Segunda Vinda de Cristo.
  3. Futurismo dispensacionalista: uma das variantes é a leitura dispensacionalista que distingue entre as sessenta e nove semanas (483 anos) e a septuagésima semana (os últimos sete anos, normalmente associado com a Grande Tribulação), com um intervalo entre elas conhecido como a “era da Igreja”.
  4. Visão Idealista: Esta visão interpreta as 70 semanas não como anos, mas como períodos simbólicos que representam a obra contínua de Deus na história. A profecia representa o processo contínuo de salvação, julgamento e restauração.
  5. Visão Preterista Parcial: Esta visão combina aspectos das perspectivas preterista e idealista. Alguns aspectos da profecia já foram cumpridos (por exemplo, a reconstrução de Jerusalém), enquanto outros podem ter aplicações simbólicas ou futuras.

Vaticinium ex eventu

Vaticinium ex eventu é a predição escrita depois de um acontecimento, mas no tom de previsão feita no passado.

Na literatura do Antigo Oriente Médio são encontráveis nos Apocalipses Acadianos, na Profecia de Nefer-rohu, dentre outros.

O épico Alexandra possui como narradora a personagem homérica Cassandra que profetiza quase mil anos de história dos gregos. Com a técnica vaticinium ex eventu relata desde a queda de Troia até o império de Alexandre, o Grande. No entanto, foi composta por volta de 300 a.C. por Lícofron, um dos bibliotecários de Alexandria.

Várias passagens são disputadas como vaticinium ex eventu, como Lucas 21:20 e Daniel 7-12.

Rib (gênero textual)

O רִיב rib ou rîb é um gênero textual presente em denunciações proféticas que imita os procedimentos de uma corte de justiça.

Os profetas também pronunciaram maldições por violar os pactos na forma de ações judiciais.  O ofício do profeta apresenta características de uma parte reclamante em pactos violados. Nissinen argumenta que a advocacia surgiu como o ofício político-religioso do profeta na Mesopotâmia, Mari e Antigo Israel.

Abundam os exemplos do rib, tal como Oseias 4; Miqueias 6:1-16; as sete cartas do Apocalipse; Isaías 1:2–7; 5:1-7; 43; Amós 3:1—4:13, dentre outros. Muitos livros e trechos bíblicos que estão estruturados como um processo judicial (Jó, Rute, Naum), o que demonstra um polinização cruzada.

BIBLIOGRAFIA

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Kensky, Meira Z. Trying man, trying God: The divine courtroom in early Jewish and Christian literature. Vol. 289. Mohr siebeck, 2010.

Nissinen, Martti, ed. Prophecy in Its Ancient Near Eastern Context: Mesopotamian, Biblical and Arabian Perspectives. SBL Symposium Series 13. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2000.

Óstracas de Láquis

Essas óstras do início do século VI a.C. são breves relatórios da fortificação da cidade de Laquis antes de ser destruída pelo rei babilônico Nabucodonosor.

As Cartas de Láquis, descobertas em 1935, constituem um conjunto de ostraca escritos em hebraico clássico e datados do século VII a.C. Esses documentos fornecem informações sobre os eventos que cercaram a queda do Reino de Judá e a destruição do Templo em Jerusalém. Localizadas em Tell al-Duwayr, a antiga Láquis ou Lachish, as cartas abordam questões administrativas, militares, sociais e religiosas do período.

As cartas foram produzidas em um período de instabilidade em Judá, anterior à invasão babilônica que resultou na destruição de Jerusalém em 586 a.C. Láquis, como uma das últimas fortalezas judaicas, desempenhava uma função estratégica nas comunicações militares. A correspondência inclui mensagens do comandante Hoshaiah, responsável por um posto avançado ao norte de Láquis, enviadas a Ya’osh, governador militar da cidade. Os textos refletem a situação crítica enfrentada à medida que o avanço babilônico se intensificava.

Os ostraca contêm diferentes tipos de textos, como listas de nomes, documentos comerciais e correspondências oficiais. Entre os fragmentos preservados, há uma mensagem que demonstra a preocupação com a paz em um contexto de conflito:

“A meu senhor Ya’osh. Que Yahweh faça meu senhor ouvir as notícias de paz, mesmo agora, mesmo agora. Quem é seu servo senão um cão que meu senhor deve lembrar-se de seu servo?”

As cartas documentam interações entre líderes militares e incluem expressões idiomáticas, como o juramento “ḥyhwh” (“como Yahweh vive”). Referências a profetas sugerem que elementos religiosos estavam presentes nas comunicações administrativas.

As Cartas de Láquis são uma fonte primária para o estudo da história de Judá. Elas oferecem evidências da vida cotidiana no período e corroboram relatos bíblicos, como os encontrados no livro do profeta Jeremias. A menção à cidade de Láquis nas cartas é relevante, dado seu papel como uma das últimas cidades a resistir antes da queda de Jerusalém.

A descoberta dessas cartas contribui para a compreensão da organização política, militar, religiosa e social da época. Também mostram que os escribas de Judá registravam mensagens proféticas como parte de suas atividades administrativas.