Ortodoxia

Ortodoxia ou sã doutrina refere-se à adesão às crenças e ensinamentos fundamentais da fé cristã como coerentes com os ensinamentos de Cristo e sobre Cristo ensinados pelos apóstolos, conforme registrado no Novo Testamento.

A Ortodoxia não é apenas um conjunto de dogmas rígidos, mas sim uma tradição dinâmica e em evolução que procura preservar as verdades essenciais da fé enquanto se adapta aos contextos e desafios em mudança do mundo. Está fundamentado nos ensinamentos de Jesus Cristo, dos apóstolos e na história da Igreja, resultante do discernimento contínuo da Igreja através do Espírito Santo.

A ortodoxia está contextualizada e indissociável da ortopraxia (correta prática) e ortopatia (correto sentimento). Difere da heterodoxia (doutrinas divergentes).

Heresia

Heresia, em seu sentido grego original restringia-se à opinião, mas ganhou conotações de doutrinas infundadas ou contrárias à base apostólica encontrada nas Escrituras..

O termo “heresia” deriva da palavra grega “hairesis”, que significa “seita” ou “escola de pensamento”.

Contemporaneamente, seria a adesão insistente a uma crença falsa ou não ortodoxa que contradiga os ensinamentos fundamentais do cristianismo.

A heresia é muitas vezes distinguida do erro, que é um erro não intencional de crença ou compreensão. Embora os erros possam ser perdoados, a heresia é vista como uma rejeição intencional dos ensinamentos comumente aceitos pela Igreja.

Ao longo da história cristã, surgiram várias heresias, desafiando os ensinamentos da igreja sobre temas como a natureza de Deus, a pessoa de Cristo e a ação contínua do Espírito Santo.

Alguns exemplos notáveis de heresias na história cristã incluem:

  • Arianismo: negou a plena divindade de Cristo, alegando que ele seria um ser criado, subordinado e não um Deus encarnado.
  • Gnosticismo: diversos movimentos, grupos e tendência de pensamento que reivindicavam um conhecimento secreto, dualista, separando o reino espiritual do mundo material.
  • Marcionismo: seita e heresia surgida no século II que negava a bondade do Deus criador retratado no Antigo Testamento.

Revelação

Revelação são os atos de autocomunicação de Deus que sejam humanamente compreensíveis. No cristianismo, a revelação é a fonte e norma irredutível, insuperável e suprema da teologia.

A palavra vem do latim revelatio para traduzir a palavra grega apokalypsis ou a remoção de um véu para que algo possa ser visto. A revelação, segundo as Escrituras, ocorre pela consciência moral, na criação, na história, nas manifestações proféticas e carismáticas, na comunhão da Igreja pelo Espírito Santo, por teofanias, pelo próprio conteúdo da Bíblia e na vida terra de Jesus Cristo (o Jesus histórico).

A revelação não corresponde de modo idêntica a qualquer realidade histórica finita, contingente e humana. Em vista disso, qualquer forma de revelação sempre será limitada pelo fato de ser apreendidas pela experiência humana. Por mais que seja algo sempre mediato, a revelação abrange formas manifestacionais e proposicionais, manifestando-se como eventos históricos ou experiências internas.

Na revelação manifestacional, os atos ou aparições divinas transmitem conhecimento, enquanto a revelação proposicional envolve a comunicação de verdades divinas através da linguagem ou cognição.

Os modelos de revelação, adaptado dos propostos por Dulles, oferecem quadros teóricos para a compreensão da revelação, desde feitos históricos até transformações internas.

  • Revelação como História: eventos reveladores do caráter divino como a libertação por Ester, ressurreição de Jesus, a história de salvação, testemunhos pessoais.
  • Revelação como experiência interior: são vários tipos de experiências internas, o conceito de luz interior do Espírito Santo, elementos pré-conceituais e perceptivos.
  • A Revelação como presença dialética: A perspectiva de Karl Barth, com o papel da Bíblia e da Igreja na mediação da revelação plena em Cristo.
  • Revelação como nova consciência: a transformação da subjetividade humana na relação entre revelação e autopercepção

BIBLIOGRAFIA

Harris Jr, Glen E. “Revelation in Christian Theology.” Churchman 120.1 (2006): 11-34.

Mollegen, Albert T. “A christian understanding of revelation.” The Christian Scholar (1956): 19-24.

O’Collins, Gerald, Revelation: Toward a Christian Theology of God’s Self-Revelation. Oxford, 2016.

Schwöbel, Christoph. “The Concept of Revelation in Christianity.” The Concept of Revelation in Judaism, Christianity and Islam 1 (2020): 57.

Van Beeck, Frans Jozef. “Divine revelation: Intervention or self-communication?.” Theological studies 52.2 (1991): 199-226.

Teologia credal

A teologia credal é o ramo da teologia sistemática que discorre sobre métodos e tópicos relacionados à formulação, interpretação e aplicação de credos e confissões de fé nas comunidades religiosas.

Enquanto a teológica dogmática discorre sobre as implicações das doutrinas formuladas pelos credos e confissões, a teologia credal preocupa-se com a elaboração e aplicação das declarações de fé. Entretanto, como se ocupam de proposições doutrinárias, há sobreposição entre as duas subdisciplinas.

Alguns dos principais tópicos abordados pela teologia do credo incluem:

  1. Natureza da declaração de fé: examina os papeis como norma normata e regra da doutrina (regula doctrinæ). Discorre sobre os limites e mutabilidade (ou não) das proposições doutrinárias. Compara as declarações de fé com o uso de textos litúrgicos como hinos, com textos normativos como cânones denominacionais, com as Escrituras na vida da igreja.
  2. Desenvolvimento histórico de credos e confissões: Examina as origens, as modificações e o contexto histórico de vários credos e confissões dentro de diferentes tradições religiosas.
  3. Interpretação da declaração de fé: analisa os significados e implicações teológicas de declarações de fé, incluindo a interpretação de conceitos e princípios doutrinários fundamentais.
  4. Teologia comparada: Compara e contrasta os credos e confissões de diferentes tradições ou denominações religiosas para identificar semelhanças, diferenças e pontos de convergência e divergência.
  5. Metodologia teológica: explora as metodologias empregadas na formulação, interpretação e aplicação de credos e confissões, incluindo abordagens exegéticas, históricas e sistemáticas.
  6. Teologia doutrinária e dogmática: investigar os ensinamentos doutrinários e afirmações dogmáticas contidas nos credos e confissões, e explorar suas implicações teológicas para a crença e a prática.
  7. Eclesiologia: Examina o papel dos credos e confissões na formação da identidade, unidade e limites das comunidades religiosas, incluindo o seu significado para a autoridade e governação eclesial. Também inclui os empregos das declarações de fé para fins apologéticos, respostas a desafios internos ou para questões sociais, bem como a utilização da declaração de fé para o exercício da disciplina.
  8. Hermenêutica: Reflete sobre os princípios e métodos de interpretação aplicados aos textos de credos, incluindo considerações de contexto, linguagem e tradição teológica. A crítica confessional aplica elementos hermenêuticos dos credos e confissões na leitura das Escrituras.
  9. Autoridade confessional: Também a teologia credal ocupa-se da questão hermenêutica e de autoridade do confessionalismo, na distinção entre quia e quatenus se adesão a um credo ou confissão deva ser “quia” (porque) ou “quatenus” (na medida em que) a declaração de fé expressa as verdades evangélicas oriundas das fontes teológicas.
  10. Relevância contemporânea: avalia o significado contínuo e a aplicação de credos e confissões no cenário religioso contemporâneo, incluindo o seu papel na abordagem de desafios teológicos e no envolvimento com questões culturais e sociais. Aqui entram as questões como os credos e confissões servem para a vida da Igreja, se prioriza o discipulado ou se prioriza seu uso como disciplina.
  11. Ecumenismo: explora o potencial de diálogo, reconciliação e cooperação entre diferentes tradições ou denominações religiosas através do estudo e interpretação de credos e confissões.
  12. Teologia prática: Investigar as implicações práticas da teologia de credo para evangelização, adoração, discipulado, cuidado pastoral e missão dentro de comunidades religiosas.

BIBLIOGRAFIA

Fairbairn, Donald; Reeves, Ryan M. The Story of Creeds and Confessions: Tracing the Development of the Christian Faith. Baker Academic, 2019.

Hahn, Georg L. Bibliothek der Symbole und Glaubensregeln der alten Kirche [Breslau: E. Morgenstern, 1897 (Hildesheim: G. Olms, 1962)].

Hahn, Scott. The Creed: Professing the Faith Through the Ages. Emmaus Road Publishing, 2016.

Kelly, John Norman Davidson. Early christian creeds. Routledge, 2014.

McGrath, Alister E. Faith and Creeds: A Guide for Study and Devotion. Vol. 1. Westminster John Knox Press, 2013.

Pelikan, Jaroslav. Credo: Historical and theological guide to creeds and confessions of faith in the Christian tradition. Yale University Press, 2005.

Radde-Gallwitz, Andrew. “Private Creeds and their Troubled Authors.” Journal of Early Christian Studies 25.1 (2017): 464-490.

Schaff, Philip. Creeds of Christendom, with a History and Critical notes. Volume I. The History of Creeds. CCEL, 1877.

Wilhite, David E. “The Baptists ‘and the Son’: The Filioque Clause and non-Creedal Theology”. Journal of Ecumenical Studies 44 (2 2009): 285-302.

VEJA TAMBÉM

Crítica confessional

Artigos de Fé

Teologúmena

Credos e confissões de fé

Teologia sistemática: prolegômena

Prolegômena são as partes introdutórias da teologia como disciplina. Discorre seus fundamentos teóricos e metodológicos, bem como diferencia conceitos, fases e sistemas teológicos.

CONCEITOS BÁSICOS

Teologia (grego, theos = Deus; logia = discurso racional): o entendimento
humano sobre as coisas divinas já reveladas.
Teologia é tanto um fenômeno quanto uma disciplina acadêmica. Como um fenômeno, é um conjunto de crenças ou doutrina, toda pessoa possui uma
teologia, mesmo que não esteja consciente dela. Como uma disciplina acadêmica, é um estudo sistemático, com métodos definidos, desse entendimento humano.
Doutrina: instrução sobre algo específico. Distingue-se das práticas (usos e
costumes) humanas condicionadas às circunstâncias culturais, históricas e
denominacionais; as quais devem sempre serem fundadas em uma sã
doutrina para darem frutos em palavras e em obras (1 Jo 3:18).
Sã doutrina ou Ortodoxia: ensinamentos sobre Deus e sobre a conduta
como seus filhos que estejam em harmonia com a doutrina dos apóstolos
(At 2:42), a saber, a mensagem, ensino, vida, obra redentora de Jesus
Cristo. Os apóstolos foram testemunhas do cumprimento das profecias do
Antigo Testamento em Jesus Cristo e da efusão do Espírito Santo,
resultando no veraz e fidedigno registro do Novo Testamento.
Heresia: seu sentido original restringia-se à opinião, mas ganhou
conotações de doutrinas infundadas ou contrárias à base apostólica
encontrada nas Escrituras.
Adiáfora: doutrina que, dada às várias limitações, seja indiferente em
compromenter a fé e conduta cristãs.
Teologúmena: doutrina acessória sem base explícita nas Escrituras, mas útil para expressar coerentemente verdades reveladas.

ARQUITETURA DA TEOLOGIA

  1. Teologia Bíblica: inferência das doutrinas de um autor ou livro
    específicos da Bíblia, sem considerar sistemas dogmáticos ou
    confessionais.
  2. Teologia Filosófica, Sistemática ou Dogmática: a compreensão da
    totalidade do entendimento das coisas divinas, seus fundamentos
    e interrelação doutrinária.
  3. Teológica Histórica: desenvolvimento doutrinário.
  4. Teologia Prática ou Aplicada: ética e moral cristãs, liturgia,
    homilética, diaconia, missiologia, teologia política e pública.

SISTEMAS TEOLÓGICOS
Sistemas teológicos são formas de organizar proposições teológicas dentro de cada tradição teológica. Diferentes comunidades interpretativas, situações, ênfases, questionamentos específicos a cada comunidade, métodos de raciocínio levam à formação de sistemas de elaborar a teologia.

Cada sistema com seu próprio foco, terminologia, metodologia, modos de
produzir seu pensamento, configurações de doutrinas e ênfase em diferentes partes bíblicas.

Os principais sistemas teológicos são:

  • Teologia mística e via apofática
  • Teologia ortodoxa não calcedoniana
  • Teologia ortodoxa oriental
  • Teologias católicas (tomismo, neotomismo, nouvelle theologie)
  • Teologia liberal
  • Teologia do processo
  • Teologia evangelical (teologias wesleyana-holiness, avivalismo, keswickianismo, movimento de Lausanne, missão integral).
  • Teologias pentecostais e carismáticas
  • Teologias anglicanas
  • Teologia Reformada (calvinismo, arminianismo, edwardsianismo, neo-ortodoxia, novo calvinismo)
  • Teologia Luterana (escolástica luterana, pietismo, ne0-luteranismo, luteranismo confessional)
  • Teologias da libertação (latinoamericana, Latix, negra, womanista, mujerísta, dalit, minjung)
  • Teologias contextuais

TÓPICOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS

  • Ontologia da teologia
  • Epistemologia da teologia
  • Métodos teológicos
  • Problema da linguagem teológica