Auxêncio de Durostorum

Auxentius ou Auxêncio de Durostorum (fl. final do século IV d.C.) foi um bispo e teólogo gótico, responsável por preservar e transmitir os ensinamentos de Ulfilas, o missionário responsável por introduzir o cristianismo entre os godos. Sua oba De Fide (“Sobre a Fé”) é um breve tratado que resume as crenças teológicas de Ulfilas e oferece uma visão única das controvérsias arianas e da teologia gótica da época.

Provavelmente de origem gótica, Auxêncio foi educado e ordenado dentro da comunidade cristã fundada por Ulfilas. Ocupou o cargo de bispo em Durostorum, uma cidade estratégica na província romana de Moésia Inferior, que hoje corresponde a Silistra, na Bulgária. Alinhado ao Homoeanismo, uma vertente moderada do arianismo, Auxêncio defendia que o Filho era “semelhante” ao Pai em essência, mas não idêntico. Essa posição buscava evitar os extremos tanto do arianismo mais rígido quanto da ortodoxia nicena, em uma tentativa de conciliar diferentes perspectivas teológicas.

O De Fide é a principal fonte disponível para compreender os ensinamentos de Ulfilas, cuja teologia foi moldada pelas intensas disputas doutrinárias do século IV. Auxêncio destaca a crença no subordinacionismo, em que o Pai ocupa uma posição suprema dentro da Trindade, enquanto o Filho e o Espírito Santo lhe são subordinados. Ulfilas rejeitava a fórmula nicena que afirmava que o Filho era da “mesma substância” (homoousios) que o Pai, considerando que isso comprometia a singularidade divina do Pai. Ele também enfatizava a natureza “gerada” do Filho, destacando a diferença ontológica entre ambos, e atribuía maior ênfase ao papel de Cristo como mediador e redentor, sem negar sua divindade.

A obra de Auxêncio é valiosa por preservar os ensinamentos de Ulfilas, já que este não deixou escritos próprios. Ela também oferece uma perspectiva singular sobre o cristianismo praticado entre os godos, que apresentava diferenças significativas em relação às tradições cristãs dominantes. Além disso, o texto ilumina as complexidades e a diversidade interna do movimento ariano, bem como os debates teológicos que marcaram o período. No entanto, é importante notar que o De Fide reflete possíveis vieses de Auxêncio como discípulo de Ulfilas e, sendo um texto curto, contém declarações suscetíveis a múltiplas interpretações.

George Smeaton


George Smeaton
(1814–1889) foi um teólogo e estudioso bíblico escocês, autor de obras sobre a doutrina da expiação e do Espírito Santo. Atuando na Igreja Livre da Escócia, sua obra marcou profundamente o pensamento teológico do século XIX.

Nascido em Greenlaw, Berwickshire, na Escócia, Smeaton foi educado na Universidade de Edimburgo e ordenado na Igreja da Escócia em 1839. Durante o evento conhecido como a Disruption de 1843, ele uniu-se à recém-formada Igreja Livre da Escócia, em prol da independência da igreja em relação à autoridade estatal. Serviu como pastor em Auchterarder antes de ingressar na academia, ocupando posições como professor de teologia no Free Church College de Aberdeen e, mais tarde, como professor de exegese do Novo Testamento no New College, Edimburgo.

Smeaton concentrou-se na doutrina da expiação, particularmente em suas obras The Doctrine of the Atonement as Taught by Christ Himself (1868) e The Doctrine of the Atonement as Taught by the Apostles (1870). Argumentava que a expiação é essencialmente substitutiva, enfatizando que a morte de Cristo foi um sacrifício vicário que satisfez a justiça divina e tornou possível a reconciliação entre Deus e a humanidade. Sua análise sistemática e detalhada dos textos bíblicos tornou essas obras referências fundamentais no estudo da soteriologia.

Além de sua obra sobre a expiação, Smeaton também contribuiu significativamente para a doutrina do Espírito Santo. Em The Doctrine of the Holy Spirit (1882), apresentou uma análise abrangente da pessoa e da obra do Espírito, cobrindo temas como a regeneração, a santificação e a obra do Espírito na vida da igreja. Este livro é considerado um clássico da teologia reformada, altamente valorizado por teólogos como B. B. Warfield.

Sally McFague

Sallie McFague (1933–2019) foi uma teóloga cristã feminista norte-americana, proponente da teologia metafórica, explorando como metáforas moldam nossa compreensão e discurso sobre Deus.

McFague questionou imagens patriarcais de Deus, propondo a metáfora de “Deus como Mãe,” que enfatiza aspectos de nutrição, cuidado e relacionalidade divinas. Ampliando essa abordagem, sugeriu que o mundo pode ser entendido como o corpo de Deus, destacando a interconexão de toda a criação e defendendo uma ética ecológica de cuidado com a Terra. Essa perspectiva buscava responder aos desafios contemporâneos de degradação ambiental, promovendo uma visão de responsabilidade mútua entre humanidade e natureza.

A teologia deve ser ancorada na experiência humana e engajar a imaginação, incentivando novos modos de pensar e falar sobre Deus que reflitam preocupações e desafios modernos. Suas ideias tiveram impacto significativo na teologia feminista, oferecendo modelos alternativos para a compreensão de Deus e questionando papéis de gênero tradicionais na religião. Seu trabalho também contribuiu para o desenvolvimento da teologia ecológica, sublinhando a importância do cuidado com a criação.

Entre suas principais obras estão Metaphorical Theology: Models of God in Religious Language (1982), Models of God: Theology for an Ecological, Nuclear Age (1987), The Body of God: An Ecological Theology (1993), Super, Natural Christians: How We Should Love Nature (1997) e A New Climate for Theology: God, the World, and Global Warming (2008).

Sallie McFague abordou temas centrais da teologia cristã com uma perspectiva que buscava conciliar fé, relevância cultural e ética ambiental. Seu trabalho continua a influenciar debates teológicos sobre a relação entre Deus, humanidade e o mundo.

Amônio de Alexandria

Amônio de Alexandria foi um filósofo e exegeta cristão do século III d.C., possível autor de uma harmonia dos Evangelhos e as chamadas “Seções Amônianas” (Ammonian Sections), um sistema que alinha e compara passagens paralelas dos quatro Evangelhos. Este método influenciou significativamente a exegese cristã e serviu como base para os Cânones de Eusébio, uma ferramenta que facilitava a navegação entre os Evangelhos sinóticos.

De acordo com Matthew Crawford, Amônio de Alexandria, mencionado neste contexto, não deve ser confundido com Amônio Sacas, o filósofo neoplatônico alexandrino. Este Amônio pode ter sido um professor de Orígenes, um dos grandes pensadores cristãos da Antiguidade. Crawford sugere que seria um erudito de formação peripatética que eventualmente se converteu ao cristianismo. Supostamente, Amônio produziu uma sinopse dos primeiros Evangelhos, organizando textos de Mateus, Marcos, Lucas e João em colunas paralelas, com o Evangelho de Mateus servindo como referência principal. Este trabalho, embora perdido, teria influenciado tanto a interpretação bíblica de Orígenes quanto os métodos exegéticos posteriores.

BIBLIOGRAFIA

Matthew R. Crawford, “Ammonius of Alexandria, Eusebius of Caesarea, and the Origins of Gospels Scholarship,” New Testament Studies 61.1 (2015): 1-29.

Auguste Sabatier

Auguste Louis Sabatier (1839–1901) foi um teólogo protestante francês cuja obra contribuiu para o desenvolvimento da teologia liberal e da crítica bíblica. Nascido em Vallon, França, em uma família de pequenos comerciantes, foi influenciado pelo movimento de Avivamento Continental.

Sabatier estudou teologia na Faculdade de Teologia de Montauban e participou da fundação de uma associação cristã durante seus anos de ensino secundário. Continuou seus estudos na Alemanha, em Basel, Tübingen e Heidelberg, de 1863 a 1864. Após concluir seus estudos, serviu como pastor em Aubenas de 1864 a 1868 e, posteriormente, tornou-se professor de Dogmática Reformada na Faculdade de Teologia de Estrasburgo.

Em 1873, após a anexação da Alsácia-Lorena pela Alemanha, Sabatier deixou Estrasburgo e contribuiu para a criação da Faculdade Teológica Protestante de Paris em 1877. Atuou como professor nessa instituição e se tornou seu reitor em 1895. Sua abordagem teológica, chamada “simbolismo crítico“, enfatizava o papel das doutrinas religiosas como representações simbólicas de experiências espirituais. Ele defendia que o conhecimento religioso deveria estar enraizado na experiência pessoal e na consciência individual, desafiando as interpretações dogmáticas.

A perspectiva filosófica de Sabatier influenciou contemporâneos como Henri Bergson e William James e engajou liberais protestantes e modernistas católicos nas discussões teológicas. Seus principais trabalhos incluem Outlines of a Philosophy of Religion (1897), The Apostle Paul (1891) e Religions of Authority and the Religion of the Spirit (1904). Essas obras abordam temas como experiência religiosa, contexto histórico e crença pessoal.

O legado de Sabatier na teologia liberal moderna se estendeu pelo século XX, moldando o discurso sobre a relação dinâmica entre religião e espiritualidade individual. Seu conceito de uma “religião do espírito” buscou distinguir o protestantismo das estruturas autoritárias percebidas, ao mesmo tempo em que promovia o respeito mútuo entre as diferentes tradições.