Aramaico

O aramaico ou o aramaeu não é um só idioma, mas um conjunto de dialetos e línguas semíticas do noroeste (na atual Síria) em diferentes fases históricas que emergiram provavelmente por volta do século XII a.C., com abundância de inscrições distintivamente em aramaico aparecendo a partir do século VIII a.C.

No século VIII vários prisoneiros sírios foram transportados para a Assíria, iniciando a adoção de seus idiomas por seus senhores. O comércio e os imperialismos assírio e babilônio propagaram a língua entre os povos cativos, mas seu uso na administração pública persa disseminou-a desde o sul do Egito até o Afeganistão, com inscrições encontradas até em Sardes (na Anatólia). Depois do exílio babilônico, o aramaico gradativamente substituiu o hebraico como língua corrente dos israelitas (Neemias 13:24).
 
No período helenista dividiram-se os dialetos aramaicos ocidentais e os dialetos orientais, o que persiste até hoje, e não são mutuamente compreensíveis. Por um mais de um milênio foi a língua internacional do Oriente Médio, até ser suplantada pelo árabe.

Atualmente, mais de 1 milhão de pessoas possuem algum domínio do aramaico nas seguintes variantes:

  • O siríaco é falado em várias comunidades no nordeste da Síria, no Iraque, no Irã, na Geórgia, bem como língua litúrgica de várias igrejas cristãs. Sobrevive nas diáspora assírias, siríacas e caldeias especialmente nos Estados Unidos e mesmo no Brasil.
  • O judeu-aramaico serviu para a composição do Talmud e de textos litúrgicos, sendo falado ainda hoje por judeus curdos.
  • O mandaico é uma variante aramaica falada pelos mandeus, seguidores de João Batista nativos do Iraque.
  • O neo-aramaico ocidental é usado em três aldeias próximas a Damasco.

É semelhante mas não inteligível com o hebraico. (2 Reis 18:26; Isaías 36:11). As duas línguas seriam tão compreensíveis como o italiano para um falante do português.

A escrita aramaica, uma adaptação do alfabeto cananeu ou fenício, foi adotada por muitos outros povos, inclusive os judeus, sendo chamado de escrita quadrada ou assurith. A escrita aramaica ainda influenciaria as escritas siríacas, árabe, persa pahlavi, o mongol, as escritas da Índia e do sudeste asiático.

No período do Novo Testamento o aramaico estava tão enraizado na cultura israelita que comumente essa língua era chamada de língua dos hebreus ou de hebraico. Nesse sentido aparece em João 5:2; 19:13, 17, 20; 20:16; Atos 21:40; 22:2; 26:14; Apocalipse 9:1. E mesmo fora da Bíblia, em autores como Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas. 3.10.6 e Guerra dos Judeus 7. 2.1) refere ao hebraico intercambiavelmente como a língua dos judeus.

ARAMAICO E A BÍBLIA

Algumas palavras no Novo Testamento não são possíveis de distinguir se são aramaicas ou do hebraico tardio: Mamon, Bartolomeu, Barrabás, Boanerges, Getsemane, Gólgota.

Há cerca de 280 versículos com trechos escritos em aramaico tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Trechos em aramaico no Antigo Testamento:

  • Na fala de Labão em Gênesis 31:47.
  • Na advertência de Jeremias em Jeremias 10:11.
  • Em porções do livro de Daniel (Daniel 2:4-7:28).
  • Em porções do livro de Esdras (Esdras 4:8-6:18; 7:12-26).

Trechos em aramaico no Novo Testamento

  • Talita cumi “menina, levanta-te!” (Mc 5:41)
  • Efatá “abre-a!.” (Mc 7:34)
  • Aba “Pai ou papai” (Mc 14:36; Gl 4:6; Rm 8:15)
  • Raca “tolo” (Mc 5:22)
  • Raboni “meu mestre” (Jo 20:16)
  • Eli Eli lema sabactani “Deus meu, Deus meu, não me desampare” (Mat 27:46; Mc 15:34)
  • Osanna “Oh, Salva-nos.” (Mc 11:9)
  • Maranata “Vem, Senhor!” (1 Cor 16:22)
  • Tabita: “Gazela” (At 9:36)

O aramaico é a base de várias versões da Bíblia:

  • Targum: traduções livres do Antigo Testamento, produzida quando o hebraico deixava de se compreendido pelos judeus.
  • Diatessaron: uma harmonia dos evangelhos feita por Taciano no século II.
  • Vetus Syra: versão antiguíssima do Novo Testamento.
  • Peshitta: tradução da Bíblia completa iniciada no século II e se tornou a versão padrão para os cristãos do oriente.
  • Lecionários Cristãos Palestianianos: trechos da Bíblia em aramaico ocidental para uso no culto na Idade Média.

O aramaico é importante para conhecer melhor o hebraico bíblico e o contexto histórico da Antiguidade. Vários documentos (Visão de Balaão, Documentos de Elefantina, Documento Driver) e escritos parabíblicos (pseudo-epígrafas, Manuscritos de Qumran) foram escritos nessa língua.

No século IX d.C. o gramático Judah ben Quraysh formulou a hipótese que Terá, pai de Abraão, falasse aramaico e fosse a língua ancestral da qual emergiram o árabe e o hebraico. No século XIX houve quem pensasse que a língua dos patriarcas fosse o aramaico com base, entre outros, em Deuteronômio 26:5. No entanto, é hoje desconsiderada. Outra teoria marginal que envolve o aramaico é a hipótese de que parte do Novo Testamento teria sido composto originalmente em aramaico, ou ao menos as falas de Jesus nos evangelhos. Contudo, várias análises linguísticas e evidências externas confirmam que a forma canônica dos livros do Novo Testamento foi escrita em grego koiné.

Em 1845 o biblista rabino Abraham Geiger formulou a hipótese de que o aramaico seria a língua nativa da Palestina do período do 2º Templo e seria a primeira língua de Jesus. As citações em aramaico nos evangelhos não são conclusivas para determinar qual seria a língua materna de Jesus. As amostras da língua no Novo Testamento poderiam ser as ocasiões excepcionais em que Jesus estava falando a língua de seus interlocutores, como nos trechos em aramaico no Antigo Testamento ou exemplos de diglossia. Hoje, evidências históricas, literárias e arqueológicas apontam para um cenário linguístico mais pluralístico, com o grego e o aramaico sendo as línguas primárias da população da Palestina, sem excluir os usos minoritários do latim e do hebraico.

SAIBA MAIS

Becker, Dan. The Risāla of Judah ben Quraysh: a critical edition. Tel​-Aviv University, 1984, p.116-119.

Brock, S. P. “Three Thousand Years of Aramaic Literature,” Aram 1 (1989): 11–23.

Fitzmeyer, Joseph A. Fitzmeyer, “The Phases of the Aramaic Language,” in A Wandering Aramean: Collected Aramaic Essay. SBL Press, 1979.

Geiger, Abraham. Lehr und Lesebuch zur Sprache der Mischnah. Vol. 1. FEC Leuckart, 1845.

Holladay, William L. A Concise Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1972.

Joosten, Jan “The Aramaic Background of the Seventy: Language, Culture and History,” BIOSCS 43 (2010): 53–72.

Kutty, Renaud J. “Aramaic Targums” in Encyclopedia of Hebrew Language and Linguistics, edited by G. Khan; Brill, 2013.

Machiela, Daniel “Aramaic Writings of the Second Temple Period and the Growth of Apocalyptic Thought: Another Survey of the Texts,” Judaïsme ancien/Ancient Judaism 2 (2014): 113–34.

Machiela, Daniel “Situating the Aramaic Texts from Qumran: Reconsidering Their Language and Socio-Historical Settings,” in Apocalyptic Thinking in Early Judaism Engaging with John Collins’ The Apocalyptic Imagination, ed. Cecilia Wassen and Sidnie White Crawford, JSJSup 182, Leiden: Brill, 2018, 90–91.

Rosenthal, Franz. A Grammar of Biblical Aramaic, Volume V Neue Serie. 7th expanded edition. Porta Linguarum Orientalium. Wiesbaden, Germany: Otto Harrassowitz, 2006.

Stadel, Christian“Aramaic Influence on Biblical Hebrew” in Encyclopedia of Hebrew Language and Linguistics, edited by G. Khan; Brill, 2013.

Van Pelt, Miles V. Basics of Biblical Aramaic: Complete Grammar, Lexicon, and Annotated Text. Grand Rapids: Zondervan, 2011.

Vance, Donald R.; Athas, George; Avrahami, Yael (eds.). Biblical Aramaic: A Reader and Handbook. Hendrickson, 2017.

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