Tetélestai

o termo grego τετέλεσται (tetélestai) é a forma perfeita, terceira pessoa do singular, do verbo grego τελέω, derivado do substantivo τέλος, que denota fim, meta ou consumação. No grego koiné, o perfeito indica uma ação concluída cujos efeitos permanecem; assim, a expressão em João 19:30 comunica não apenas que algo terminou, mas que permanece consumado e eficaz. A tradução tradicional “está consumado” ou “foi completado” preserva essa nuance aspectual melhor do que a forma simples “terminou”, pois sugere uma obra concluída com consequências duradouras.

No Evangelho de João, o termo se insere numa rede lexical centrada em τέλος. Em João 13:1, a expressão εἰς τέλος descreve o amor de Jesus “até o fim” ou “plenamente”, antecipando a consumação final. Ao longo do evangelho, a missão confiada pelo Pai é descrita como obra a ser concluída (cf. 4:34; 5:36; 17:4), e a declaração final na cruz indica que essa tarefa foi levada à sua plena realização. O contexto imediato (João 19:28–30) associa a consumação da obra com o cumprimento das Escrituras, sugerindo uma dupla dimensão: a missão de Jesus atinge seu objetivo e as promessas bíblicas chegam ao seu cumprimento.

Na literatura grega antiga e nos papiros, τετέλεσται descreve a conclusão de atividades diversas — construção, trabalho agrícola, manufatura ou tarefas administrativas — sem conotação técnica exclusiva. Embora formas do verbo τελέω possam significar “pagar”, sobretudo em contextos de impostos, essa acepção depende de complementos explícitos (como φόρος, tributo) e não constitui o sentido primário do perfeito isolado.

A ideia popular de que τετέλεσται era um termo técnico comercial significando “pago integralmente” em recibos tem origens traçadas no site bible.org. Tal interpretação moderna baseia-se na interpretação dada a esse termo no dicionário Moulton and Milligan 1915, p. 630. Esses autores teriam consultado papiros egípcios publicados por Grenfell e Hunt no fim do século XIX. Esses documentos, datados dos séculos II–III d.C. e provenientes do Egito romano, trazem a abreviação τετελ em recibos de tarifas alfandegárias. Estudos posteriores demonstraram que a abreviação corresponde provavelmente a τετελώνηται (“taxado” ou “pago como imposto”), não a τετέλεσται. Além do problema lexical, esses textos são geográfica e cronologicamente distantes da Palestina do século I e pertencem a um contexto específico de tributação, não a recibos gerais de dívida. Embora haja alguns documentos do século I que possam sugerir seu uso comercial, o uso mais comum em documentos da época neotestamentária refere-se a tarefas concluídas (construção, trabalho agrícola, escultura, costura), não restrita a pagamento de dívidas. Portanto, a lexicografia padrão e a documentação do período neotestamentário não confirmam o uso técnico de τετέλεσται como quitação comercial. Outro referência, sem base histórica, é que um sacerdote usaria uma forma dessa palavra ao inspecionar um cordeiro sacrificial e declará-lo sem defeito.

A leitura homilética “pago em sua totalidade”, embora teologicamente sugestiva, não possui base filológica sólida para João 19:30. A interpretação aceita na exegese histórica entende a declaração como proclamação da consumação da missão de Jesus e do cumprimento das Escrituras. Nesse sentido, τετέλεσται expressa a convicção joanina de que, na cruz, a obra divina alcançou sua meta definitiva e permanece eficaz para o futuro, permitindo que a comunidade viva à luz dessa consumação.

BIBLIOGRAFIA

BREDENHOF, Wes. Tetelestai — It Is Finished. 10 abr. 2017. Disponível em: https://bredenhof.ca/2017/04/10/tetelestai-it-is-finished/. Acesso em: 25 fev. 2026.

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MOULTON, James Hope; MILLIGAN, George. The Vocabulary of the Greek Testament Illustrated from the Papyri and Other Non-Literary Sources. London: Hodder & Stoughton, 1915.

PARKER, Floyd O. “Is the Subject of Τετέλεσται in John 19,30 ‘It’ or ‘All Things’?” Biblica, vol. 96, no. 2, 2015, pp. 222–44. JSTOR, http://www.jstor.org/stable/43922756.

Tersorium

Tersorium ou xylospongium seria uma vara com uma esponja utilizada para limpeza. Seria a antecessora de escovas de limpeza e vassoras.

Uma menção por Sêneca (Epistulae morales 8. 70.20) associa o tersorium a limpeza do corpo após defecar. Segundo Sêneca, um gladiador germânico cometeu suicídio em um anfiteatro enfiando uma esponja em sua garganta após defecar entre gregos e romanos. Apesar disso, não há explicação explícita de seu uso. É inferido que seria para limpar as nádegas, embora tal interpretação seja disputada (Wiplinger 2012).

Alguns intérpretes associaram o termo com Marcos 15:36; Lucas 23:36; João 19:28-30 quando deram vinagre a Jesus crucificado. Embora seja uma interpretação possível, não há dados que corroborem tal identificação.

A palavra grega traduzida como “vinagre” na ARC é oxos, vinho ácido ou vinagre. A LXX usa o termo em Números 6:3 e Rute 2:14 como bebida com a qual o povo simples saciava sua sede. Tal perícope seria uma alusão ao Salmo 69:21.

BIBLIOGRAFIA

Gilbert Wiplinger: Der Gebrauch des Xylospongiums – eine neue Theorie zu den hygienischen Verhältnissen in römischen Latrinen. In: SPA . SANITAS PER AQUAM. Tagungsband des Internationalen Frontinus-Symposiums zur Technik – und Kulturgeschichte der antiken Thermen Aachen, 18. – 22. März 2009. Frontinus-Gesellschaft e.V. & Peeters, Leiden 2012

Tumba de Jesus

Túmulo, tumba ou sepultura de Jesus refere-se ao lugar onde Jesus teria sido sepultado.

Não há indicações históricas, literárias ou arqueológicas para a localização atual da sepultura de Jesus. Porém, peregrinos em Jerusalém visitam dois lugares representativos.

Um é Igreja do Santo Sepulcro no Bairro Cristão da Cidade Velha de Jerusalém, onde desde o século IV há uma tradição de que seria local de crucificação e sepultamento de Jesus.

Outro local, o Jardim da Tumba possui uma sepultura escavada na rocha em Jerusalém. O jardim desde 1867 passou a ser visitado como um potencial local do sepultamento de Jesus. Contudo, o relato bíblico indica que era uma sepultura nova pertencente a José de Arimateia, (Mt 27:57 –60, Jo 19:41), o que contradiz as evidências arqueológicas que indicam tal sepultura ser originária do período do 1o Templo.

Aramaico

O aramaico ou o aramaeu não é um só idioma, mas um conjunto de dialetos e línguas semíticas do noroeste da atual Síria em diferentes fases históricas que emergiram provavelmente por volta do século XII a.C., com abundância de inscrições distintivamente em aramaico aparecendo a partir do século VIII a.C.

No século VIII vários prisoneiros arameus ou sírios foram transportados para a Assíria, iniciando a adoção de seus idiomas por seus senhores. O comércio e os imperialismos assírio e babilônico propagaram a língua entre os povos cativos, mas seu uso na administração pública persa disseminou-a desde o sul do Egito até o Afeganistão, com inscrições encontradas até em Sardes (na Anatólia). Depois do exílio babilônico, o aramaico gradativamente substituiu o hebraico como língua corrente dos israelitas (Ne 13:24).
 
No período helenista dividiram-se os dialetos aramaicos ocidentais e os dialetos orientais. Essa divisão persiste até hoje, não sendo mutuamente compreensíveis. Por um mais de um milênio foi a língua internacional do Oriente Médio, até ser suplantada pelo árabe.

Atualmente, mais de 1 milhão de pessoas possuem algum domínio do aramaico nas seguintes variantes:

  • O siríaco é falado em várias comunidades no nordeste da Síria, no Iraque, no Irã, na Geórgia, bem como língua litúrgica de várias igrejas cristãs. Sobrevive nas diáspora assírias, siríacas e caldeias especialmente nos Estados Unidos e mesmo no Brasil.
  • O judeu-aramaico serviu para a composição do Talmud e de textos litúrgicos, sendo falado ainda hoje por judeus curdos.
  • O mandaico é uma variante aramaica falada pelos mandeus, seguidores de João Batista nativos do Iraque.
  • O neo-aramaico ocidental é usado em três aldeias próximas a Damasco.

As línguas aramaicas são semelhantes mas não inteligíveis com o hebraico. (Cf. 2 Re 18:26; Is 36:11). As duas línguas seriam tão compreensíveis como o italiano para um falante do português.

A escrita aramaica, uma adaptação do alfabeto cananeu ou fenício, foi adotada por muitos outros povos, inclusive os judeus, sendo chamado de escrita quadrada ou assurith. A escrita aramaica ainda influenciaria as escritas siríacas, árabe, persa pahlavi, o mongol, as escritas da Índia e do sudeste asiático.

No período do Novo Testamento o aramaico estava tão enraizado na cultura israelita que comumente essa língua era chamada de língua dos hebreus ou de hebraico. Nesse sentido aparece em Jo 5:2; 19:13, 17, 20; 20:16; At 21:40; 22:2; 26:14; Ap 9:1. E mesmo fora da Bíblia, em autores como Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas. 3.10.6 e Guerra dos Judeus 7. 2.1) refere ao aramaico intercambiavelmente como a língua dos judeus.

ARAMAICO E A BÍBLIA

Algumas palavras no Novo Testamento não são possíveis de distinguir se são aramaicas ou do hebraico tardio: Mamon, Bartolomeu, Barrabás, Boanerges, Getsemane, Gólgota.

Há cerca de 280 versículos com trechos escritos em aramaico tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Trechos em aramaico no Antigo Testamento:

  • Na fala de Labão (Gn 31:47).
  • Na advertência de Jeremias (Jr 10:11).
  • Em porções do livro de Daniel (Dn 2:4-7:28).
  • Em porções do livro de Esdras (Ed 4:8-6:18; 7:12-26).

Trechos em aramaico no Novo Testamento

  • Talita cumi “menina, levanta-te!” (Mc 5:41)
  • Efatá “abre-a!.” (Mc 7:34)
  • Aba “Pai ou papai” (Mc 14:36; Gl 4:6; Rm 8:15)
  • Raca “tolo” (Mc 5:22)
  • Raboni “meu mestre” (Jo 20:16)
  • Eli Eli lema sabactani “Deus meu, Deus meu, não me desampare” (Mt 27:46; Mc 15:34)
  • Osanna “Oh, Salva-nos.” (Mc 11:9)
  • Maranata “Vem, Senhor!” (1 Co 16:22)
  • Tabita: “Gazela” (At 9:36)

O aramaico é a base de várias versões da Bíblia:

  • Targum: traduções do Antigo Testamento, produzidas quando o hebraico deixava de ser compreendido pelos judeus.
  • Diatessaron: uma harmonia dos evangelhos feita por Taciano no século II.
  • Vetus Syra: versão antiguíssima do Novo Testamento. Consiste nas Versão reconstruída dos Atos (Conybeare), Versão reconstruída das epístolas paulinas (Molitor), Versão do Siríaca do Sinai, Versão de Curton.
  • Peshitta: tradução da Bíblia completa iniciada no século II e se tornou a versão padrão para os cristãos do oriente.
  • Syro-Hexapla: uma versão feita em Alexandria no século VII com base na Hexapla de Orígenes.
  • Siríaca Filoxeniana é uma recensão encomendada por Filoxeno de Mabbug e completada em 508 por seu corepíscopo Policarpo.
  • Siríaca Harcleana uma recensão por Tomás de Harqel concluída em 616 dC em Enaton no Egito.
  • Lecionários Cristãos Palestianianos: trechos da Bíblia em aramaico ocidental para uso no culto na Idade Média.

O aramaico é importante para conhecer melhor o hebraico bíblico e o contexto histórico da Antiguidade. Vários documentos (Visão de Balaão, Documentos de Elefantina, Documento Driver) e escritos parabíblicos (pseudo-epígrafas, Manuscritos de Qumran) foram escritos nessa língua.

No século IX d.C. o gramático Judah ben Quraysh formulou a hipótese de que Terá, pai de Abraão, falasse aramaico e fosse a língua ancestral da qual emergiram o árabe e o hebraico. No século XIX houve quem pensasse que a língua dos patriarcas fosse o aramaico com base, entre outros, em Dt 26:5. No entanto, tais teorias são hoje desconsideradas. Outra teoria marginal que envolve o aramaico é a hipótese de que grande parte do Novo Testamento ou as falas de Jesus terian sido compostos originalmente em aramaico. Contudo, várias análises linguísticas e evidências externas confirmam que a forma canônica dos livros do Novo Testamento foi escrita em grego koiné.

Em 1845 o biblista rabino Abraham Geiger formulou a hipótese de que o aramaico seria a língua nativa da Palestina do período do 2º Templo e seria a primeira língua de Jesus. Todavia, as citações em aramaico nos evangelhos não são conclusivas para determinar qual seria a língua materna de Jesus. As amostras da língua no Novo Testamento poderiam ser as ocasiões excepcionais em que Jesus estava falando a língua de seus interlocutores, como nos trechos em aramaico no Antigo Testamento ou exemplos de diglossia. Hoje, evidências históricas, literárias e arqueológicas apontam para um cenário linguístico mais pluralístico, com o grego e o aramaico sendo as línguas primárias da população da Palestina, sem excluir os usos minoritários do latim e do hebraico.

SAIBA MAIS

Becker, Dan. The Risāla of Judah ben Quraysh: a critical edition. Tel​-Aviv University, 1984, p.116-119.

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