Irmãos Morávios

Irmãos Morávios, Igreja Morávia ou Unitas Fratrum (“Unidade dos Irmãos”) é uma comunhão cristã organizada no século XVIII, mas cuja origem remonta do movimento hussita no século XV na Boêmia e na Morávia, atualmente República Tcheca.

Na Alemanha, o título oficial da Igreja é Evangelische Brüder-Unität; na Áustria, Evangelische Brüder-Kirche; em inglês, Moravian Church. Também são chamados de Herrnhuttistas.

História

Um movimento hussita

Jan Hus (c. 1370 –1415) foi um teólogo e filósofo tcheco que rejeitou muitas doutrinas e práticas católicas romanas. Todavia, alguns anos após sua morte, a maioria de seus seguidores se dividiu em duas facções rivais nas Guerras Hussitas. A facção utraquista foi reconhecida pelo papa como a Igreja nacional da Boêmia (1433), enquanto os radicais taboritas foram derrotados na batalha de Lipan (1434).

Alguns hussitas desejavam preservar seus ensinamentos espirituais. Convencidos de que a Igreja Utraquista era moralmente corrupta, fundaram várias comunidades independentes, primeiro em Kremsir e Meseritsch na Morávia, e depois em Wilenow, Diwischau e Chelčick na Boêmia.

Entre os hussitas radicais, Petr Chelčický liderou uma renovação espiritual. Chelčický ensinava o Sermão da Montanha, rechaçou as guerras e juramentos, opôs-se à união da Igreja e do Estado. Seria o dever de todos os verdadeiros cristãos romper com a Igreja nacional e retornar ao ensino simples de Cristo.

Este grupo anhou apoio de João Rockycana, arcebispo eleito de Praga e pároco de Thein (1444). Rockycana obteve permissão do rei Jorge Podiebrad para fundar uma comunidade com esses princípios em Kunwald, na baronia de Senftenberg em 1457. O líder era um leigo, Gregório, apesar de apoiados pelo padre local. Outros hussitas radicais e utraquistas, bem como valdenses e alunos da Universidade de Praga passaram a frequentar o local. Então foi organizada a Jednota Bratrska, a União dos Irmãos — Unitas fratrum em latim. Popularmente eram chamados de Irmãos Boêmios.

No Sínodo de Lhota (1467), a Unitas fratum rompeu totalmente com o papado e elegeram seus próprios ministros. O antigo pároco de Kunwald Michael Bradacius foi consagrado bispo por Estevão, um bispo valdense. A ênfase era na reforma moral, organizacional e litúrgica, não tanto na doutrina. Por isso, a disciplina era rígida.

Reforma e quase destruição

No período anterior à Reforma, seu bispo principal, Lukáš de Praga (c.1460-1528), já 1505 publicou um Catecismo e um Hinário, as primeiras dessas obras publicadas por evangélicos. Lukáš correspondeu e debateu com Lutero. Ambos concordaram em muitos pontos, especialmente sobre a presença espiritual na Santa Ceia, mas discordaram da doutrina da justificação pela fé somente.

Em 1565 João Blahoslaw traduziu o Novo Testamento para o tcheco. Mais tarde, em 1593 veio o Velho Testamento, formando a Bíblia de Kralitz.

Durante a Reforma o crescimento dos Irmãos Boêmios foi rápido. Em 1549, eles estavam firmes na Grande Polônia. Em 1609, quando Rodolfo II concedeu liberdade de culto, já eram a metade dos protestantes na Boêmia e mais da metade dos protestantes na Morávia.

Na Guerra dos Trinta Anos (1618) o protestantismo boêmio foi dizimado. Na batalha da Colina Branca (1620), os protestantes boêmios foram derrotados e os irmãos boêmios foram expulsos de suas terras. O ramo polonês foi absorvido pela Igreja Reformada da Polônia. Os sobreviventes na Boêmia eram chamados de “semente oculta”. Por cem anos, os Irmãos estiveram quase extintos.

O último bispo sobrevivente Jan Amos Comenius (1592–1672) manteve-os unidos. Mesmo perseguido e errante pela Europa, Comenius conseguiu manter o moral elevado. Arrecadou fundos para os crentes secretos, a “semente oculta”, na Morávia. Consagrou como bispo e sucessor seu genro, Peter Jablonsky, que, por sua vez, passou o ofício ao filho Daniel Ernest Jablonsky.

O reavivamento dos irmãos morávios

Um irmão boêmio alemão, Christian David, um carpinteiro que fugiu da Morávia, levou um grupo de refugiados para a Saxônia. David estabeleceu-se perto da propriedade do conde Zinzendorf em Berthelsdorf e, com sua permissão, construiu a vila de Herrnhut (1722–1727).

Em pouco tempo, exilados da Boêmia e da Morávia, bem como pietistas da Alemanha e além, foram atraídos para Herrnhut. A comunidade realizava serviços em um salão de reuniões em Herrnhut e tomava os sacramentos na igreja paroquial luterana na aldeia vizinha de Berthelsdorf.

Um luterano devoto e pietista, Zinzendorf tentou manter os refugiados dentro da igreja estatal. Zinzendorf acreditava na “ecclesiola in ecclesia” de Spener. O objetivo era que “pequenas igrejas dentro da igreja” agissem como um fermento, revitalizando e finalmente unificando as igrejas em uma única comunhão luterana. Em vez de reviver as ordens morávias imediatamente, Zinzendorf impôs aos colonos o luteranismo. Contudo, relutantemente, ele os ajudou a reviver suas próprias tradições.

Conflitos entre os luteranos e os morávios logo surgiram, mas a dissensão foi dissipada em um serviço especial de comunhão em 13 de agosto de 1727, quando um avivamento eclodiu. É lembrada essa data quando os habitantes de Herrnhut aprenderam a amar uns aos outros, após uma experiência que atribuíram a uma visitação do Espírito Santo, semelhante à do dia de Pentecostes.

Herrnhut tornou-se a comunidade mãe da igreja dos Irmãos Morávios e de uma rede de células pietistas dentro das igrejas luteranas e reformadas, a chamada “diáspora”. Uma reunião rotativa de oração continuou com intercessões por quase um século.

Os primeiros missionários deixaram Herrnhut para trabalhar entre os escravizados no Caribe em 1732. Em duas décadas, já havia missões na Groenlândia, Suriname, África do Sul, Argélia e entre os indígenas norte-americanos.

Logo estourou a perseguição contra Herrnhut. O conde Zinzendorf enviou um grupo emigrantes para a Geórgia, acompanhados por David Nitschmann, um bispo consagrado por Jablonsky (1735). Em 1749 o parlamento britânico reconheceu os Irmãos como “uma antiga Igreja Episcopal Protestante” e permitiu suas atividades no Reino Unido, onde influenciaria os irmãos Wesley.

Na Alemanha e Escandinávia eles construíram assentamentos nas propriedades de nobres simpatizantes, ergueram casas de irmãos e irmãs para uma vida espiritual como uma ordem monástica. Buscaram renovar as igrejas luteranas e reformadas, influenciando figuras como Schleiermacher, Goethe e o Avivamento Continental.

No Brasil, durante o período regencial houve uma tentativa de trazer missionários morávios para a evangelização indígena. No entanto, não houve presença dos irmãos morávios no Brasil.

Atualmente ossui campos missionários no Oriente Médio, Labrador, na Costa de Mosquitia (Nicarágua), Suriname, Guyana, Caribe, África do Sul e presença em quase todos os países protestantes da Europa. Nos Estados Unidos há comunidades de origem tcheca no Texas e duas províncias cobrindo o resto do país.

Organização

O ministério possui a ordem tríplice de bispos, presbíteros e diáconos. Entretanto, os bispos não têm dioceses territoriais nem estão hierarquicamente acima de outros ministros. Sua principal função é ordenar e atuar como pastor para os pastores.

Cada país ou região constitui uma província, que pode funcionar como uma denominação independente ou como uma sociedade de renovação espiritual dentro das denominações locais. O conselho deliberativo supremo é o Sínodo Geral, composto por delegados eleitos por cada província, alguns membros ex officio e representantes do campo missionário. O Sínodo Geral se reúne, em média, a cada dez anos em Herrnhut, e seus regulamentos são obrigatórios em todas as províncias.

Em assuntos provinciais, cada província é independente, realiza seus próprios sínodos, faz suas próprias normas e elege seu próprio conselho de administração. Há um tribunal permanente de apelação disciplinar.

As atividades missionárias são intensas e, de certa forma, a Igreja dos Irmãos Morávios é uma agência missionária.

Havia aproximadamente um milhão de membros em 2020. Além da Unitas Fratrum, a Igreja Evangélica dos Irmãos Tchecos e a Igreja Hussita da Tchecoslováquia continuam o legado hussita na República Tcheca e na Eslováquia hoje.

Doutrina

Os irmãos Morávios consideram que “as Sagradas Escrituras são a única regra de fé e prática” e interpretam-nas de acordo com os credos dos Apóstolos e Nicenos, mas não possuem um credo distinto próprio. Os morávios aceitam várias confissões protestantes, mas consideram o princípio “Na unidade essencial; no não essencial, liberdade; em tudo, amor”.

O interesse de Zinzendorf de restaurar a Igreja primitiva levou-o a considerar vários traços de primitivismo em eclesiologia e liturgia. Sua teologia centrada na obra sacrificial de Cristo para benefício de toda a humanidade, associada à devoção pelo sangue do Cordeiro, influenciariam movimentos posteriores de renovação protestante.

A Igreja seria o corpo remido por Cristo. As igrejas locais e as organizações denominacionais, mesmo a Unitas Fratrum, seriam meramente associação de crentes, sendo a Igreja uma entidade exclusivamente espiritual.

Zinzendorf enfatizou a obra do Espírito Santo para a convicção da fé, regeneração e santificação. O Espírito Santo também compelia à vida pia, o amor ao evangelho e ao próximo.

Culto

No culto matinal, o serviço consiste em uma litania, lições das escrituras, sermão, canto, oração livre e bênção final. No serviço noturno, uma litania raramente é usada. Até o século XIX era comum o uso de véus (hoje usado em ocasiões especiais), a ágape, o lava-pés e o ósculo santo.

O batismo infantil é praticado. Existem três modalidades de admissão: batismo infantil, batismo de adultos (por aspersão) ou confirmação ou recepção. A invocação do nome de Cristo, junto da Trindade, no batismo é uma marca morávia. A Comunhão é celebrada uma vez por mês.

O canto alegre dos morávios inspirou uma renovação na hinódia protestante. Nos países de língua inglesa essa renovação foi visível pela hinódia metodista.
O uso de versos para a leitura devocional pelos morávios impactou todo a cristandade ocidental. Devocionais como “Pão Diário” ou “caixinhas de promessa” têm origem das práticas morávias.

BIBLIOGRAFIA

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