Cipriano de Cartago

Táscio Cecílio Cipriano ou Cipriano de Cartago (c.200-258), foi um teólogo, bispo e mártir do Norte da África.

Cipriano nasceu em uma família pagã abastada em Cartago, na atual Tunísia. Recebeu uma educação esmerada em retórica, direito e literatura, tornando-se um renomado orador e professor. Durante sua juventude, viveu cercado de luxo e profundamente imerso na cultura pagã da época.

Por volta de 246, aos 45 anos, experimentou uma conversão dramática ao cristianismo, sob a influência do presbítero Ceciliano, que se tornou seu mentor espiritual. Cipriano descreveu sua conversão como uma libertação das trevas e um renascimento espiritual, realizado por meio do batismo, experiência que ele relata em sua obra Ad Donatum. Após sua conversão, abraçou uma vida ascética, vendendo boa parte de suas posses para ajudar os pobres e dedicando-se ao estudo das Escrituras e da teologia cristã.

Rapidamente, Cipriano destacou-se entre os cristãos de Cartago devido à sua inteligência, liderança e dedicação. Apenas dois anos após sua conversão, foi ordenado sacerdote e, em 248 ou 249, eleito bispo de Cartago, uma posição de grande influência na Igreja norte-africana.

A ascensão de Cipriano ao episcopado coincidiu com a perseguição aos cristãos decretada pelo imperador Décio. O edito imperial obrigava todos os cidadãos a sacrificar aos deuses romanos como demonstração de lealdade ao Império, o que gerou grande sofrimento entre os cristãos. Muitos foram presos, torturados ou executados, enquanto outros cederam e renunciaram à fé, obtendo certificados de sacrifício.

Durante essa perseguição, Cipriano fugiu para o exílio, de onde continuou a liderar sua comunidade por meio de cartas pastorais. Este período produziu um rico corpo de correspondências que documentam as dificuldades enfrentadas pela Igreja.

Após o fim da perseguição de Décio, surgiu um intenso debate sobre a reintegração daqueles que haviam apostatado, conhecidos como lapsi. Cipriano defendeu uma posição moderada: embora fosse possível reconciliá-los, isso deveria ocorrer após um período de penitência pública. Ele se opôs tanto aos novacianistas, que exigiam exclusão permanente, quanto aos que defendiam a readmissão imediata. Sua visão, que destacava a autoridade episcopal e a disciplina eclesiástica, prevaleceu no Ocidente.

Outro tema polêmico foi a validade do batismo realizado por hereges e cismáticos. Cipriano sustentava que o batismo só era válido se conferido dentro da Igreja Católica. Em oposição, o bispo de Roma, Estevão, afirmava que a validade do batismo dependia da fórmula trinitária, independentemente do ministro. Este embate evidenciou tensões entre a autoridade dos bispos locais e a primazia romana.

Em sua obra De Ecclesiae Catholicae Unitate, Cipriano enfatizou a unidade da Igreja como corpo indivisível de Cristo, sustentado pelo episcopado. Para ele, a comunhão com o bispo era essencial para a comunhão com a Igreja e com Deus. Sua famosa frase, “Não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como Mãe”, reflete sua visão da Igreja como mediadora indispensável da salvação.

Sob a perseguição do imperador Valeriano, Cipriano foi preso e julgado pelo procônsul Galério Máximo. Recusando-se a renegar sua fé, foi condenado à decapitação. Em 14 de setembro de 258, em Cartago, enfrentou sua execução com serenidade e coragem, tornando-se um exemplo de fidelidade para os cristãos. Sua memória foi imediatamente venerada como mártir e santo.

Cipriano foi um autor prolífico. Entre suas obras, destacam-se:

  • Tratados teológicos: Ad Donatum, sobre sua conversão; De Ecclesiae Catholicae Unitate, sobre a unidade da Igreja; De Lapsis, sobre a reconciliação dos lapsi; e De Dominica Oratione, uma exegese do Pai Nosso.
  • Cartas: Suas 81 cartas oferecem valiosos relatos sobre as perseguições e os desafios pastorais da época.

Teologicamente, Cipriano contribuiu significativamente para a eclesiologia, defendendo a centralidade da Igreja e do episcopado. Enfatizou a autoridade sacramental da Igreja e considerou o martírio a mais alta expressão de fé. Sua visão de unidade eclesial moldou profundamente a tradição cristã e permanece uma referência essencial para a teologia.

Cesareia

Cesareia ou Cesareia Marítima, em grego παράλιος Καισάρεια, era um porto na costa leste do Mediterrâneo e capital romana na Palestina, sede dos governadores romanos. A moderna cidade de mesmo nome situa-se próxima a Haifa.

A localidade aparece em Atos, quando Cristo foi pregado lá por Filipe (Atos 8:40) e Pedro (Atos 10:1-11:18 cf.15:7-9), quando converteu o centurião romano Cornélio. Em suas viagens, Paulo esteve na cidade (Atos 9:30; 18:22;21:8; 27:1-2). Paulo foi levado a Cesareia sob custódia de Jerusalém (Atos 23:23-35) para ser julgado perante Félix, Festo e Agripa II (Atos 24-26).

A cidade inicialmente era uma localidade fenícia. Depois aparece na era helenística como Pyrgos Stratonos ou Turris Stratonis. A cidade romana oi construída por Herodes, o Grande cerca de 25 a 13 a.C. O local teve importância pelo resto da história romana, bizantina, muçulmana e cruzada. Hoje, é uma vila com cerca de 6000 pessoas e um importante sítio arqueológico.

Os registros da igreja cristã na Antiguidade são poucos. No final deste século II teria sediado um concílio em Cesareia. para regulamentar a celebração da Páscoa. Orígenes refugiou-se em Cesareia, onde trabalhou e depositou a Hexapla na biblioteca episcopal. Orígenes e Pânfilo organizaram uma escola teológica em Cesareia de ampla reputação universal. Gregório, o Taumaturgo, e Basílio, o Grande, estudaram lá. sua biblioteca era uma das mais célebres da Antiguidade cristã. Nela, Jerônimo realizou grande parte de seus trabalhos bíblicos. A biblioteca foi provavelmente destruída em 614 pelos persas ou por volta de 637 pelos árabes.

BIBLIOGRAFIA
Grafton, Anthony and Megan Williams. Christianity and the Transformation of the Book: Origen, Eusebius, and the Library of Caesarea. Cambridge, MA: Belknap Press, 2006.