Creta

Em grego Κρήτη, uma grande ilha no Mar Mediterrâneo a aproximadamente 160 km a sudeste do Peloponeso, no limite sul do Mar Egeu.

Creta é mencionada no relato da viagem marítima de Paulo a Roma (At 27) e como o local do ministério de Tito (Tt 1:5).

Paulo é registrado citando o poeta cretense Epimênides de Cnossos (c. século VI a.C.) em At:28 e Tt 1:12-13.

Cilindro de Ciro

O Cilidro de Ciro é um decreto comemorando a vitória de Ciro, o rei persa, na conquista da Babilônia. A peça de cerâmica em escrita cuneiforme é datada de 539-538 a.C.

O Cilindro de Ciro é frequentemente relacionado com o decreto de Ciro em Esdras 1. No entanto, a inscrição versa sobre a restituição de objetos de cultos de cidades ao redor da Babilônia, aprendidos por Nabonido. Esta passagem não discorre sobre os judeus ou Jerusalém. Ademais, somente reinado de Cambises, filho de Ciro, que a região de Jerusalém se tornou parte do Império Persa.

O Cilindro de Ciro é um importante documento que identifica a política persa de tentar conquistar as simpatias dos povos sob seu domínio, com ações de tolerância religiosa e auto-governo étnico.

BIBLIOGRAFIA

https://www.livius.org/sources/content/cyrus-cylinder/cyrus-cylinder-translation/

Chaoskampf

Chaoskampf é um motivo literário e um tema mitológico presente em diversas culturas antigas, descrevendo a batalha entre um herói divino e uma entidade caótica, frequentemente representada por um monstro marinho, serpente ou dragão.

Este motivo permeia mitologias do Antigo Oriente Médio, como o Ciclo de Baal ugarítico (Baal contra Yam, o deus do mar), o Enuma Elish babilônico (Marduk contra Tiamat, a deusa do oceano primordial) e também se manifesta em mitologias grega (Zeus contra Tifão), persa, indiana e egípcia. É frequentemente associado, mas não necessariamente, com a Criação e com o Escaton.

Em 1895 Hermann Gunkel, inspirado por materiais fornecidos pelo assiriologista Heinrich Zimmern, argumentava que Chaoskampf do Apocalipse como um evento que não ocorreria apenas no fim do mundo, mas já havia acontecido no início, antes da Criação.

Na Bíblia, há várias referências explícitas (Isaías 27:1; 51:9-11; Habacuque 3:8; Salmo 74:13-15; Salmo 77:16-19; Salmo 89:6-14; e Jó 26:5-13) e outras menos explícitas (Gênesis 1:1-3).

As águas te viram, ó Deus,

as águas te viram, e tremeram;

os abismos também se abalaram. 

Grossas nuvens se desfizeram em água;

os céus retumbaram;

as tuas flechas correram de uma para outra parte. 

A voz do teu trovão repercutiu-se nos ares;

os relâmpagos alumiaram o mundo;

a terra se abalou e tremeu. 

Pelo mar foi teu caminho,

e tuas veredas, pelas grandes águas;

e as tuas pegadas não se conheceram.

Sl 77:16-19

Deus (YHWH, יהוה) não cria a partir de um combate, mas demonstra Seu poder soberano sobre as forças do caos, frequentemente simbolizadas pelas águas primordiais (tehom, תְּהוֹם – Gênesis 1:2), o mar (yam, יָם), e monstros marinhos como Leviatã (לִוְיָתָן – Jó 41:1; Salmo 74:14; Isaías 27:1) e Raabe (רַהַב – Salmo 89:10; Isaías 51:9). O termo tannin (תַּנִּין), traduzido como “monstro marinho” ou “dragão,” também é empregado (Gênesis 1:21; Ezequiel 29:3).

Essas referências bíblicas, muitas vezes poéticas, demonstram o poder de Deus sobre a criação e a ordem cósmica. Ele divide as águas (Gênesis 1:6-7), estabelece limites para o mar (Jó 38:8-11), e derrota os monstros marinhos, símbolos de desordem e oposição. O Salmo 77:16-19 descreve a teofania divina com imagens de controle sobre as águas: “As águas te viram, ó Deus, as águas te viram, e tremeram; os abismos também se abalaram.” A vitória sobre esses seres não é uma luta para criar, mas uma demonstração contínua da manutenção da ordem estabelecida e da proteção de Israel.

No Novo Testamento, a linguagem do Chaoskampf é empregada de maneira simbólica. A serpente (ophis, ὄφις) do Éden (Gênesis 3) é associada ao dragão (drakōn, δράκων) do Apocalipse (Apocalipse 12:9), que representa Satanás, a fonte do caos e do mal. Jesus Cristo, ao acalmar a tempestade (Marcos 4:35-41), demonstra poder sobre o mar, um domínio que evoca o controle divino sobre o caos primordial. Suas curas, exorcismos e, crucialmente, sua morte e ressurreição são interpretados como vitórias sobre as forças do mal e da morte, ecoando o tema do Chaoskampf. O Apocalipse descreve a derrota final do dragão e o estabelecimento do reino de Deus, consumando a vitória divina sobre o caos (Apocalipse 20). A figura do “Filho do Homem” (Daniel 7), título frequentemente usado por Jesus, é central nessa vitória, recebendo domínio eterno sobre os reinos terrestres, representados por bestas que emergem do mar.

BIBLIOGRAFIA

Batto, Bernard F. . Slaying the Dragon, Mythmaking in the Biblical Tradition. Louisville, Kentucky. Westminster/John Knox Press, 1992.

Day, John. God’s Conflict with the Dragon and the Sea: Echoes of a Canaanite Myth in the Old Testament. No. 35. CUP Archive, 1985.

Forsyth, Neil. The Old Enemy: Satan and the Combat Myth. Princeton: University Press, 1987.

Kloos, Carola. Yahweh’s Combat with the Sea: A Canaanite Tradition in the Religion of Ancient Israel. Brill Archive, 1986.

Scurlock, JoAnn; Beal, Richard H. eds. Creation and Chaos: A Reconsideration of Hermann Gunkel’s Chaoskampf Hypothesis. Penn State Press, 2013.

Wakeman, Mary K. God’s Battle with the Monster: A Study in Biblical Imagery. Brill Archive, 1973.

Watson, Rebecca S. Chaos Uncreated: A Reassessment of the Theme of “chaos” in the Hebrew Bible. Vol. 341. Walter de Gruyter, 2012.

Cânone de Ebed Jesu

Mar Ebed Jesu (Abd Yeshua, ou Abdisho bar Berika) foi o metropolita de Nisibis e Armênia da Igreja do Oriente. Era de origem siríaca. Depois de ser bispo de Sigara (Sinjar) por cinco anos foi feito bispo de Soba ou Nisibis em 1290 d.C.

Erudito, em c. 1298, publicou um cânone bíblico — uma lista de livros válidos para a vida em Igreja.

Com a força de Tua ajuda, ó Senhor, e auxiliado pelas orações de todos os eminentemente justos e da Mãe de grande nome, escrevo um excelente tratado, no qual enumerarei as Divinas Escrituras e todos os escritos eclesiásticos de tempos antigos e modernos. Além disso, registrarei os nomes dos autores dos diferentes livros e os assuntos de que tratam; e, com ajuda de Deus, começo com Moisés.

Moisés escreveu a Lei em cinco livros, a saber: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Depois disso, segue o livro de Josué, filho de Num; Juízes; Samuel; o livro dos Reis; as Crônicas; os Salmos de Davi; os Provérbios de Salomão; Eclesiastes; o Cântico dos Cânticos; a Grande Sabedoria [Sabedoria de Salomão]; a Sabedoria do filho de Siraque; Jó; Isaías; Oseias; Joel; Amós; Obadias; Jonas; Miqueias; Naum; Habacuque; Sofonias; Ageu; Zacarias; Malaquias; Jeremias; Ezequiel; Daniel; Judite; Ester; Susana; Esdras; Daniel o Menor [adições de Daniel?] ; a Epístola de Baruque; as Tradições dos Anciãos [Mishna? ou Pirkei Avot?]; Josefo, o historiador; o livro de Provérbios; a Narrativa dos filhos de Salomona; os Macabeus; um relato do rei Herodes; o livro da destruição da última Jerusalém por Tito; o livro de Asenate a esposa de José, o filho de Jacó, o justo; e o livro de Tobias e Tobit, o israelita.

Tendo enumerado os livros do Antigo Testamento, iremos agora registrar os do Novo Testamento. Primeiro, Mateus escreveu na Palestina, na língua hebraica. Depois dele vem Marcos, que escreveu em latim em Roma. Lucas, em Alexandria, falava e escrevia em grego. João também escreveu seu Evangelho em grego em Éfeso. Os Atos dos Apóstolos foram escritos por Lucas a Teófilo; e as três epístolas de Tiago, Pedro e João foram escritas em todas as línguas e chamadas de católicas. Além dessas, há quatorze epístolas do grande apóstolo Paulo, a saber, a epístola aos Romanos, escrita em Corinto; a Primeira Epístola aos Coríntios, escrita em Éfeso e enviada pelas mãos de Timóteo; a segunda aos Coríntios, escrita de Filipos da Macedônia, o grande, e enviada pelas mãos de Tito; a Epístola aos Gálatas, escrita em Roma e enviada pela mesma pessoa; a Epístola aos Efésios, também escrita em Roma e enviada por Tíquico; a Epístola aos Filipenses, escrita no mesmo lugar e enviada pelas mãos de Epafrodito; a Epístola aos Colossenses, escrita em Roma e enviada por Tíquico, o verdadeiro discípulo; a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, escrita em Atenas e enviada pelas mãos de Timóteo; a Segunda aos Tessalonicenses, escrita em Laodiceia da Pisídia, e enviada também por Timóteo; a Primeira Epístola a Timóteo, também escrita de Laodiceia da Pisídia, e enviada pelas mãos de Lucas; a Segunda a Timóteo, escrita de Roma e enviada pelas mãos de Lucas, o Médico e Evangelista; a Epístola a Tito, escrita em Nicápolis, e enviada pelas mãos de Epafrodito; a Epístola a Filemom, escrita em Roma e enviada por Onésimo, escravo de Filemom; a Epístola aos Hebreus, escrita na Itália e enviada pelas mãos de Timóteo, o filho espiritual. E os [Harmonia dos] Evangelhos, chamados de Diatesseron, compilados por um homem de Alexandria chamado Amonis, que é Taciano.

Vale salientar que o conceito de cânone bíblico nas igrejas orientais é diferente de sua concepção ocidental. Entre cristãos ortodoxos do mundo oriental há livros elencados como dignos para doutrina e liturgia bem como outros livros inspirados, mas reservados à leitura privada. O cânone de Ebed-Jesu deve ser compreendido nesse caráter amplo.

BIBLIOGRAFIA

Abdisho’ bar Brika (Ebed-Jesu). Marganitha. Em Metrical Catalogue of Syriac Writers. G.P. Badger, The Nestorians and their rituals (1852) vol. 2, pp.361-379.