Testimonium Spiritus Sancti Internum

O Testimonium Spiritus Sancti Internum, ou o Testemunho Interno do Espírito Santo, refere-se à crença de que o Espírito Santo oferece uma garantia ou testemunho interno aos crentes sobre a verdade das Escrituras e seu relacionamento com Deus. Esse conceito está associado à obra do Espírito Santo ao afirmar a fé do crente e o entendimento das verdades divinas.

O testemunho interno é compreendido como uma experiência pessoal e subjetiva, em que o Espírito Santo confirma ao indivíduo que ele é, de fato, um filho de Deus. Essa garantia não se baseia em evidências externas ou argumentos racionais, mas é uma obra direta do Espírito no coração do crente.

Esse testemunho funciona como uma forma de autenticação das Escrituras, sugerindo que, embora as Escrituras possuam autoridade objetiva, sua aceitação e entendimento são profundamente influenciados por esse testemunho interno. O Espírito Santo permite que os crentes reconheçam as Escrituras como a verdadeira Palavra de Deus, superando quaisquer dúvidas ou equívocos oriundos da razão humana ou do pecado.

Embora evidências externas (históricas, textuais, etc.) possam apoiar a fé, os defensores dessa doutrina afirmam que a verdadeira crença depende, em última análise, do trabalho interno do Espírito Santo. Essa perspectiva enfatiza que a razão humana, sozinha, não pode levar a uma compreensão adequada das verdades espirituais; ao contrário, é necessário o esclarecimento divino.

Agostinho destacou a necessidade de iluminação divina para a compreensão das Escrituras, postulando que o verdadeiro conhecimento de Deus requer o testemunho interno do Espírito Santo. Essa ideia lançou as bases para teólogos posteriores, incluindo Calvino, que desenvolveram as ideias de Agostinho sobre o papel do Espírito na vida do crente. Sem um polo, os quakers levaram o conceito de testemunho interno como luz interior como permanente guia do Espírito Santo para a humanidade. Já Locke e Schleiermacher criticaram o subjetivismo de tal doutrina para validar argumentos. Há também a crítica circularidade ao afirmar que o Espírito Santo confirma a verdade das Escrituras para o crente, e que as Escrituras são verdadeiras porque o Espírito Santo as confirma. Essa tautologia não funciona compartilha da mesma pressuposição discutida.

Acomodação

Acomodação é um princípio, doutrina hermenêutica e teológica de que Deus acomodou a expressão de suas revelações ao entendimento disponível às audiências.

A doutrina da acomodação foi empregada por Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes. Foi desenvolvida por Agostinho e reutilizada por Calvino, Descartes, Spinoza, Balthasar Bekker, Semler e Hamman. Constitui uma doutrina alternativa às doutrinas de autoridade que pressupõe inerrância verbal ou ontológica quanto a detalhes do texto bíblicos.

A acomodação dirime muitos problemas interpretativos, pois permite conciliar os textos das Escrituras com informações tanto internas quanto externas — linguísticas, históricas, científicas e teológicas. No entanto, a conclusão lógica de que Deus estaria comunicando algo explicitamente mas com o real significado implicitamente diverso gerou controvérsias.

Utilizando-se desse conceito da retórica clássica, Agostinho interpretava as analogias do Criador na natureza como eloquência divina.

A partir de Agostinho surgem duas linhagens acerca da acomodação. Uma seria Deus acomodando-se à limitação humana. Outra vertente enfatizava o incapacidade humana dos autores bíblicos de conterem a revelação inefável.

Nessa primeira linha, Hilário de Poitiers defendia que Deus acomodava-se à fraqueza do intelecto humano. Na Reforma, considerando as limitações da linguagem humana, Matthias Flacius chama o uso de Deus da linguagem humana como meio de revelação um exemplo de acomodação divina. Johannes Andreas Quenstedt explicava as diferenças gramaticais e estilísticas entre os livros da Bíblia como uma acomodação do Espírito Santo à linguagem e estilo de cada autor.

Na segunda postura, Descartes, Spinoza, J. Kepler, Galileu, os racionalistas e os neólogos (especialamente Semler) seriam os próprios autores bíblicos que empregaram a acomodação, como recursos estilísticos como o antropomorfismo ou conforme a ciência disponível em seu tempo. Uma formulação do conceito foi proposta por Christophorus Wittichius (1625-1690) “Em questões da natureza, as Escrituras muitas vezes falam de acordo com as opiniões das pessoas comuns e não de acordo com a verdade exata”. O teólogo holandês Balthasar Bekker empregou a teoria da acomodação para explicar passagens consideradas embaraçosas ou supersticiosas enquanto mantinha uma respeitabilidade racionalizada do cristianismo.

Nem todos os teólogos da escolástica protestante aceitavam a teoria da acomodação. O teólogo pietista e teórico da hermenêutica Johann Jakob Rambach (1693- 1735) em seu Hypothesis de Scriptura sacra ad erroneos vulgi conceptus adcomodata (1729) fez contudentes críticas à teoria da acomodação. A ideia de Deus intencionalmente dizer algo, mas comunicar outra coisa para simplificar parecia a Rambach uma condescendência e uma blasfêmia. Embora adepto da doutrina dos “dois livros” — natureza e Escrituras como revelações divinas que não se contradiziam — Rambach defendia uma abordagem fenomenológica. Os registros bíblicos seriam conforme os autores e audiências perceberam a revelação divina. Desse modo, o sentido das Escrituras seria simples, sem haver um significado mais elevado por trás das palavras do texto. A obra de Rambach antecedeu o conceito de perspicuidade bíblica conforme adotado posteriormente pelos fundadores do método histórico-gramatical.

A controvérsia sobre a acomodação atingiu o pico no final do século XVIII. Uma síntese entre as duas teorias de acomodação e a abordagem de Rambach aparece formulado por Johann Georg Hamman (1730 – 1788). Influenciado por Kant, Hamman partiu da teologia da encarnação para interpretar a da Bíblia como uma indulgência da parte de Deus, na “acomodação” como sinônimo de “condescendência”.

Com o advento das revoluções científicas a partir do século XIX, a acomodação ganhou adicional aceitação. Análogo à kenosis, a teologia luterana do século XIX empregou a acomodação para manter a fé diante de críticas. No século XX, o tópico da acomodação aparece no debate sobre a desmitologização de Bultmann. Contemporaneamente, é um princípio empregado em argumentos apologéticos.

BIBLIOGRAFIA

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Lee, Hoon J. The Biblical Accommodation Debate in Germany: Interpretation and the Enlightenment. Springer, 2017.

Tinker, Michael. “John Calvin’s Concept of Divine Accommodation: A Hermeneutical Corrective.” Churchman 118.4 (2004): 325-358.

Relevo do pedestal de Berlim

O Relevo do Pedestal de Berlim (ÄM 21687) é parte da base de um pedestal de granito de uma estátua egípcia antiga, atualmente preservado no Museu Egípcio de Berlim. O artefato contém uma inscrição descrevendo vitórias militares do Egito, cuja datação é incerta devido à ausência de contexto arqueológico ou proveniência. A inscrição foi adquirida em 1913 pelo egiptólogo Ludwig Borchardt (1863–1938) de um comerciante de antiguidades chamado M. Nachman, juntamente com outro relevo de pedestal de granito de tamanho similar.

O arqueólogo alemão Manfred Görg propôs que a inscrição pode conter uma das referências mais antigas conhecidas a Israel, possivelmente datada de cerca de 1400 a.C., durante os reinados de Amenófis II ou III. Caso essa interpretação seja correta, a menção a Israel no pedestal seria anterior à inscrição na Estela de Merneptá em aproximadamente dois séculos. Segundo essa leitura, a palavra “Israel” apareceria em sequência após “Ascalom” e “Canaã”. No entanto, a origem do pedestal permanece desconhecida, o que torna sua datação e contexto histórico difíceis de determinar.

A interpretação proposta por Görg e outros estudiosos sobre a possível menção a Israel tem sido rejeitada pelo mundo acadêmico. A análise de R. K. Ritner questiona a leitura dos hieróglifos como uma referência a Israel, enquanto Wolfgang Zwickel e Pieter van der Veen discutem as implicações arqueológicas e históricas dessa hipótese em seus respectivos estudos.

Mito

O termo mito, em grego mythos, refere-se ao modo narrativo de comunicação. Mito constrata com Logos, o modo racional-argumentativo de comunicação. Por vezes a palavra é utilizada para uma narrativa sobre deuses e, nesse sentido empregado por H. Gunkel, talvez apenas Gn 6:1-4 e Jó 1 se enquadrem como mito. Também mito indica a história que acompanha algum ritual. Pode
também designam um modo de pensar, a qualidade mitopoética do pensamento humano, bem como um modo narrativo. Nesse sentido, não quer dizer que seja menos verdade, antes é uma forma complexa de retratar a realidade — principalmente conceitos desconhecidos, distantes no tempo ou difícil de compreensão.

Também é importante diferenciar mito de mitologia e de lenda. Mitologia combina logos e mythos para explicar algo, sobretudo etiologias. Lendas são formas narrativas de personagens supostamente históricos, enquanto a mitologia envolve personagens sobrenaturais ou meramente imaginários.

Há outra conotação no Novo Testamento, utilizando o termo “mythos” para estórias falsas, especulativas, fabulosas e tolas a serem rejeitadas como enganosas e perigosas. (1Tm 1: 4; 4: 7; 2Tm 4: 4; Tito 1:14;2 Pe 1:16). Não há certeza se essas passagens compreendem tradições narrativas (agadá) ou especulações doutrinárias.