Sete Anos de Tribulação

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação, central para algumas interpretações da escatologia, especialmente dentro do Dispensacionalismo, postula um período futuro de sete anos caracterizado por intenso sofrimento e caos.

Esta crença se baseia em passagens como Daniel 9:24-27, a profecia das “setenta semanas” e os capítulos 6 a 19 do Apocalipse.

CÁCULO

A metodologia dos adeptos dessa doutrina inclui a ressignificação semântica, uma combinação de conveniência de leituras ora simbólicas, ora literais, de leituras isoladas de textos-provas e reconfiguração dos versos em um arcabouço interpretativo externo aos textos bíblicos.

Partem da premissa que o termo hebraico para “semanas” (shavuim) pode também significar “setes”, levando muitos intérpretes a entender isso como setenta unidades de sete anos, totalizando 490 anos.

Na próxima fase interpretativa, a profecia é dividida em três partes: sete semanas (49 anos), associadas à reconstrução de Jerusalém; sessenta e duas semanas (434 anos), que conduzem à vinda do “Ungido”, interpretado como Jesus; e uma semana (7 anos), vista como um futuro período de tribulação. Daniel 9:27 é central para a doutrina, descrevendo uma figura, frequentemente interpretada como o Anticristo, que faz uma aliança com muitos por “uma semana” (7 anos), mas a quebra na metade, levando à desolação. Isso é interpretado como um futuro período de sete anos, dividido em duas metades de 3,5 anos cada.

Essa interpretação de Daniel é então conectada a várias passagens do Apocalipse que mencionam períodos de tempo que se alinham com a estrutura de sete anos. Apocalipse 11:2-3, por exemplo, menciona 42 meses (3,5 anos) e 1.260 dias (também 3,5 anos, usando um ano profético de 360 dias). Apocalipse 12:6, 14 refere-se a um período de 1.260 dias e “um tempo, tempos e metade de um tempo” (3,5 anos). Apocalipse 13:5 fala da besta tendo autoridade por 42 meses. Essas passagens são interpretadas como descrevendo dois períodos distintos de 3,5 anos cada, totalizando sete anos. A primeira metade é vista como um tempo de relativa paz sob a aliança do Anticristo, enquanto a segunda metade é um tempo de intenso sofrimento e perseguição.

A figura do anticristo como um indivíduo e não um tipo desempenha um papel crucial nessa interpretação. A quebra da aliança em Daniel 9:27 é interpretada como o Anticristo fazendo uma aliança de sete anos com Israel (ou o mundo) e quebrando-a após 3,5 anos, levando à “grande tribulação” (Mateus 24:21). Essa quebra é frequentemente ligada à “abominação da desolação” (Daniel 9:27, Mateus 24:15), vista como um evento futuro em que o Anticristo profana um templo judeu reconstruído.

Dentro da estrutura do Dispensacionalismo, esses números são interpretados literalmente, em vez de simbolicamente. Os dispensacionalistas argumentam que a profecia das “setenta semanas” tem um cumprimento duplo: um cumprimento parcial no passado (por exemplo, a profanação do Templo por Antíoco IV Epifânio em 167 a.C.) e um cumprimento completo no futuro, durante a tribulação de sete anos. O Dispensacionalismo enfatiza um futuro restabelecimento de Israel e um cumprimento literal das profecias do Antigo Testamento, incluindo a tribulação de sete anos.

Finalmente, cálculos matemáticos são empregados para reforçar essa interpretação. Muitos intérpretes usam um “ano profético” de 360 dias para calcular os prazos em Daniel e Apocalipse. Por exemplo, 42 meses multiplicados por 30 dias equivalem a 1.260 dias. 1.260 dias multiplicados por 2 resultam em 2.520 dias, o que equivale a sete anos, usando anos de 360 dias. Os números 3,5, 42 e 1.260 são vistos como simbólicos de um período de provação e teste, derivados da metade de sete.

CRÍTICA

Uma crítica dessa interpretação é ignorar que a profecia das “setenta semanas” em Daniel 9:24-27 tem mais probabilidade de se referir a eventos no período do Segundo Templo, como a profanação por Antíoco IV Epifânio.

Outros textos bíblicos que apresentam uma estrutura escatológica diferente são frequentemente ignorados ou minimizados. Por exemplo, o Discurso do Monte de Jesus (Mateus 24, Marcos 13, Lucas 21), embora frequentemente interpretado para se adequar ao modelo da tribulação de sete anos, possui interpretações alternativas que não sustentam um período de sete anos.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação impõe uma estrutura preestabelecida ao texto bíblico em vez de derivá-la do próprio texto. A ideia de um período de sete anos, por exemplo, não está explicitamente declarada nem em Apocalipse, nem em Daniel. Contudo, com um processo que envolve consideráveis ​​saltos interpretativos, bastando usar de criatividade.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação é tão válida quanto outros cálculos. Por exemplo, considere os 1.260 dias em Apocalipse 11:3 e 12:6 como anos simbólicos, ligados ao reinado de 1.000 anos de Cristo (Apocalipse 20:4-6). Embora 1.260 dias equivalham a 3,5 anos usando um ano profético de 360 dias, se esses 3,5 anos simbolizarem um período maior, multiplicá-los pelo reinado de 1.000 anos resulta em uma tribulação de 3.500 anos – uma era prolongada de provação preparando para o reino milenar, em vez de um breve evento de sete anos.

Outra interpretação possível seriam que os 490 anos de Daniel 9:24-27 representam um ciclo completo de julgamento e restauração, como os 40 anos de peregrinação no deserto (Números 14:34). Dividindo os 490 anos pelos 40 anos de peregrinação, obtemos 12,25 ciclos. Arredondando para baixo, teríamos 12 gerações de tribulação (12 x 40 = 480 anos), com um restante de 10 anos. Essa interpretação, no entanto, resulta em um período de tribulação de 480 anos.

Outro exercício de pensamento. Podemos considerar os 42 meses de Apocalipse 13:5, período em que a besta tem autoridade, e conectá-los aos 40 dias de provação, como a tentação de Jesus em Mateus 4:1-11. Se tomarmos os 42 meses como uma representação simbólica de provação e os conectarmos aos 40 dias, poderíamos argumentar que a tribulação não dura 7 anos, mas sim 40 dias. Essa interpretação, porém, reduz drasticamente a tribulação para um período extremamente curto.

Esses exemplos demonstram como a combinação de diferentes números bíblicos pode levar a interpretações radicalmente diferentes, desde 40 dias até 3.500 anos. Isso evidencia que a doutrina da tribulação de sete anos é só mais uma dentre inúmeras interpretações possíveis, porém implausíveis, bastanto aplicar métodos descontextualizados às Escrituras.

Outra crítica associada é a ideia de um “arrebatamento” como um sumiço repentino dos crentes que precederia a tribulação. Tal interpretação é um desenvolvimento relativamente recente, popularizado no século XX.

A doutrina dos Sete Anos de Tribulação, tal como é entendida hoje, não fazia parte dos ensinamentos dos primeiros cristãos. Agostinho e Orígenes interpretavam textos apocalípticos simbolicamente ou espiritualmente, não como previsões esquemática de um futuro período de sete anos. Ao longo da história da igreja, houve uma diversidade significativa de crenças escatológicas.

Críticos argumentam que o foco na tribulação de sete anos e em outras especulações sobre o fim dos tempos pode desviar a atenção dos ensinamentos centrais do cristianismo, como o amor, a justiça e o Reino de Deus. Essa ênfase em cronogramas especulativos pode levar a uma negligência dos aspectos éticos e práticos da fé.

Em resumo, a doutrina dos Sete Anos de Tribulação é frequentemente criticada como um exemplo de eisegese, pois se baseia na interpretação seletiva de textos bíblicos, recortes e reconfiguração descontextualizadas, impõe uma estrutura moderna a escritos antigos e carece de apoio da tradição cristã primitiva.

BIBLIOGRAFIA

Broadwater, Billy. Exposing the Fallacies of the Pre-Tribulation Rapture: A Biblical Examination of Christ’s Second Coming. WestBow Press, 2o14.

Kilde, J., and B. Forbes. Rapture, revelation, and the end times: Exploring the Left Behind series. Palgrave Macmillan Limited, 2004.

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Apocalipse de Sofonias

O Apocalipse de Sofonias é um texto judaico pseudepigráfico atribuído ao profeta bíblico Sofonias. É mencionado em listas antigas e medievais de Apócrifos do Antigo Testamento. Preservado em manuscritos coptas fragmentários, a evidência existente é insuficiente para determinar se é um trabalho ou várias composições sob o mesmo nome.

O texto retrata Sofonias sendo levado para testemunhar o destino das almas após a morte. Contém imagens apocalípticas e tem semelhanças com o livro canônico de Sofonias e com o Apocalipse de João. A data de sua composição original é estimada entre 100 aC e 175 dC, com provável origem no Egito.

A história do texto inclui dois manuscritos coptas fragmentados. Um foi composto no dialeto saídico e outro manuscrito em akhmímico, descobertos no final do século XIX. A existência do Apocalipse de Sofonias já era conhecida de fontes antigas, mas era considerada perdida até sua redescoberta. Há dúvidas se as citações antigas referem-se aos manuscritos ora encontrados. Por exemplo, Clemente de Alexandria diz que Sofonias foi arrebatado ao quinto céu onde vê anjos, chamados senhores (kurious), que habitam nos templos da salvação cantando hinos a Deus. Tal tradição lembra algumas passagens do Testamento de Levi, 2 Enoque, 3 Baruque e, especialmente, a Ascensão de Isaías, mas não aparece explicitamente nos manuscritos do Apocalipse de Sofonias.

Teologicamente, o texto apresenta a sobrevivência das almas além da morte, distinguindo entre o julgamento pessoal sobre a morte e o julgamento final do Senhor. Enfatiza o equilíbrio entre boas ações e pecados durante a vida como base para o julgamento. Descreve uma cena de punição. A alma é açoitada cem vezes por dia por cada um dos cinco mil anjos. Sofonias desmaia ao ver tal violência, mas é encorajado por seu guia angelical a ser forte.

Descreve um rito fúnebre quando um falecido deveria ser carregado acompanhado de cítara e canto de salmos e odes.

Desafios no estudo deste texto surgem de seções faltantes e da questão de saber se os fragmentos representam o mesmo texto. Alguns estudiosos argumentam que o texto pode ter influenciado o Apocalipse cristão de Paulo.

Embora o Apocalipse de Sofonias acrescente profundidade ao gênero apocalíptico, suas origens, intertextualidade com a Bíblia canônica e a relação entre seus fragmentos ainda são objetos de investigação acadêmica.

Apresenta paralelos com as escrituras canônicas nas seguintes passagens:

  • Ap Sof 1:5 / Apocalipse 22:5
  • Ap Sof 2:2 / Mateus 24:40
  • Ap Sof 6:11 / Apocalipse 1:13
  • Ap Sof 6:11 / Daniel 10:6

Apocalipse de Sedraque

Apocalipse de Sedraque (Sedrac ou Sedrach) é um antigo texto apócrifo escrito em grego, composto entre os séculos II e V dC.

Sobrevive em um único manuscrito do século XV (Bodleian Cod.Misc.Gr. 56, fols. 92–100).

Em sua transmissão passou por mais edições e assimilou um longo sermão sobre o amor para alcançar sua forma final por volta de 1000 dC. Originalmente de natureza judaica, o texto mais tarde adquiriu um caráter cristão por meio de revisões subsequentes.

A figura titular, Sedraque, é possivelmente o equivalente grego de Sadraque do Livro de Daniel, ou pode ser uma corruptela de Esdras (Esdras em grego). O texto guarda semelhanças com outros textos apócrifos atribuídos a Esdras, como os Apocalipses de Esdras.

Seguindo as convenções da literatura apocalíptica, o texto descreve como Sedraque recebe uma visão do céu, com o próprio Jesus retratado como aquele que o conduz até lá. Embora o texto pareça ter um verniz cristão, provavelmente se origina de uma obra judaica anterior, com Jesus substituído no lugar do nome de um arcanjo.

Um aspecto único do Apocalipse de Sedraqueé seu foco em questões éticas, particularmente o arrependimento e a misericórdia de Deus. Ao contrário de muitos outros textos apocalípticos que expressam amargura, esta obra apresenta Deus como paciente, disposto a ajudar os indivíduos a fazerem escolhas certas e sempre pronto a oferecer oportunidades de arrependimento. Essa ênfase nas preocupações éticas fornece uma perspectiva distinta dentro do gênero e ressalta a importância do arrependimento e da misericórdia divina na narrativa.

John E. Sanders

John E. Sanders (nascido em 1956) é um teólogo americano e professor de estudos religiosos no Hendrix College, proponente do teísmo aberto, uma perspectiva teológica que enfatiza o livre arbítrio humano e a vulnerabilidade de Deus à mudança.

Sanders recebeu seu Th.D. pela Universidade da África do Sul em 1996 e é autor de várias obras influentes sobre o teísmo aberto, incluindo “O Deus que arrisca” e “A abertura de Deus” (em co-autoria com Clark Pinnock e outros). Sua teologia centra-se na ideia de que Deus está ativamente envolvido com a criação, respondendo às ações humanas e experimentando relações genuínas de dar e receber. Sanders também escreveu sobre linguística cognitiva e pluralismo religioso, explorando as maneiras pelas quais a corporificação e a cultura moldam nossa compreensão da verdade, da moralidade e de Deus. Discute também questões de punição eterna, moralidade, justiça e amor de Deus.

Carmine Saginario

Carmine Saginario (1916-2011) foi um educador, ministro e gestor denominacional ítalo-americano, com uma longa carreira na Igreja Cristã da América do Norte (CCNA/IFCA).

Carmine nasceu na cidade de Nova York em 1916. Seus pais, John Saginario e Reparata Iadanza Saginario, estavam ativamente envolvidos no ministério das igrejas evangélicas italianas na Nova York.

Em 1939, Carmine Saginario foi ordenado ancião. Serviu como pastor em várias igrejas, incluindo duas no Brooklyn, Nova York, e uma no Bronx.

Estudou pedagogia e religião, com mestrados nessas áreas. Trabalhou em funções de supervisão no sistema de educação pública de Nova York enquanto desenvolvia seu ministério. Também foi instrutor nas escolas bíblicas e mentor de vários ministros.

De 1975 a 1984, Carmine serviu como Superintendente Geral da Igreja Cristã da América do Norte, orientando seu crescimento e desenvolvimento durante seu mandato.

Era casado com Lucy Bassetta Saginario. Do casamento vieram três filhos Daniel Saginario, Darlene Saginario e Nathaniel Saginario.

Aposentado, viveu na Flórida e depois em Richmond Heights, Ohio. Ainda como superintendente emérito, manteve-se ativo no ministério, participando de convenções na América do Norte e ainda visitando igrejas filiadas na Argentina.